UFRGS e a Covid-19

Áreas verdes e o convívio social seguro durante a pandemia

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Em artigo publicado no Jornal da Universidade, o professor Demétrio Luis Guadagnin, do Departamento de Ecologia, diz que espaços públicos oferecem lazer e sociabilidade e, assim, auxiliam no distanciamento

Foto: Flávio Dutra/JU.

O Brasil está há meses convivendo com a pandemia de covid-19 sem perspectivas de regressão no médio prazo. Isso tende a amplificar respostas psicológicas inadequadas, seja de sofrimento desproporcional e evitação excessiva, seja de minimização da importância da pandemia e desrespeito a medidas protetivas. A expectativa de que a pandemia seguiria um ciclo de ascensão, pico e queda em um período de semanas só é válida quando medidas consistentes e abrangentes de distanciamento físico, higiene e rastreamento e isolamento de casos são adotadas, o que não ocorreu no Brasil. À medida que o tempo passa se ampliam as dificuldades econômicas e sociais para adotar essa estratégia.

A opção pela solução a partir da vacinação é ainda bastante incerta, pois os desafios de desenvolvimento, produção e distribuição de uma vacina eficaz são enormes. É bastante provável que uma imunização em massa não esteja disponível antes do segundo semestre de 2021.

Um cenário alternativo e mais realista para o Brasil é a condição de conviver com a pandemia ainda ao longo do próximo ano. E essa situação predispõe mais pessoas a reações psicológicas de super-resposta associadas a sofrimento desproporcional e evitação excessiva ou de sub-resposta associada ao desrespeito a medidas protetivas, além da busca por falsas medidas protetivas que expõem a população a outros riscos à saúde. Esses comportamentos realimentam as dificuldades econômicas e sociais de superar a pandemia.

As áreas verdes oferecem uma oportunidade única de tamponar os efeitos psicológicos negativos da pandemia. O convívio social em áreas externas, principalmente nesses espaços, é benéfico e pode ser seguro se mantidas as regras de distanciamento e proteção individual, já que sabemos que os principais riscos comunitários estão associados a aglomerações e ambientes construídos.

O ar livre dispersa a carga viral e expõe as partículas à desestabilização pela radiação UV, vento, umidade e outros fatores. A maioria dos casos conhecidos de infecção acontecem pela convivência em ambientes familiares ou de trabalho.

Ao mesmo tempo, está bem estabelecido que atividades regulares ao ar livre proporcionam bem-estar psicossocial e inúmeros benefícios físicos e mentais, incluindo a prevenção de problemas cardiovasculares, obesidade, diabetes, estresse e depressão. A quarentena, por outro lado, predispõe a esse mesmo conjunto de problemas de saúde. As condições de exercício, convívio, distanciamento físico e lazer dentro de casa são muitas vezes limitadas ou desestimulantes. É provável que o prolongado afastamento de diferentes atividades gere uma demanda reprimida também de atividades ao ar livre.

Podemos ampliar os efeitos positivos da convivência segura em áreas verdes com medidas simples. Em primeiro lugar, é fundamental reconhecer que o convívio ao ar livre pode ser seguro.

Além disso, é importante permitir o acesso amplo a todas as áreas verdes e atividades ao ar livre, incluindo praças, clubes, parques, áreas condominiais externas, pátios, campings, praias, etc., de forma a distribuir a demanda, diversificar oportunidades e atender a diferentes expectativas e públicos.

É necessário também preparar cada categoria de área verde para receber o público com a infraestrutura necessária para estimular o distanciamento físico e os usos mais seguros e garantir a higiene.

É fundamental, ainda, uma campanha consistente de comunicação social que recomende quais atividades são as mais seguras e quais cuidados devem ser tomados, fazendo frente à desinformação.

Precisamos, finalmente, ampliar e qualificar os espaços verdes públicos como elementos centrais da urbanidade, da sociabilidade e da saúde, especialmente em áreas carentes.

Sempre é tempo de minimizar os danos causados pela pandemia e promover a sustentabilidade. Mais do que nunca, é tempo de reconhecer o valor insubstituível das áreas verdes e do contato com a natureza. Os benefícios diretos à saúde são apenas uma pequena parte do que nos proporcionam os serviços ecossistêmicos desses espaços ao ar livre. Hábitos e ambientes saudáveis podem ser o nosso ganho duradouro com esta experiência e a base da resiliência que precisamos.

Demétrio Luis Guadagnin é professor do Departamento de Ecologia da UFRGS.

Confira essa e outras reportagens do JU acessando https://www.ufrgs.br/jornal/.

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