UFRGS e a Covid-19

Artigo: Finitude e Sentido de Vida

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Sumário
Aquarela de Laura Castilhos

Por Paulo Kroeff – psicólogo, professor aposentado do Instituto de Psicologia da UFRGS.

A experiência atual que estamos vivenciando tem semelhanças com a vivida nos campos de concentração nazistas, com o isolamento social compulsório, sendo a ameaça a mesma: a morte, o aniquilamento pessoal. As diferenças, contudo, são muitas: agora, o isolamento proposto é motivado pelo desejo de preservação da vida das pessoas, que devem se isolar para não transmitir a ameaça viral, frequentemente mortal. 

Na experiência alemã da primeira metade do século XX, a reclusão era somente de um grupo minoritário, considerado descartável e inferior ao grupo maior. Este, por sua vez, seria racialmente superior e fixou objetivos que deveriam ser preservados da raça considerada inferior ou de grupos com ideias vistas como negativas, contrárias ou perigosas. O atual desafio, no entanto, nos iguala como seres humanos, independentemente de eventuais características ou culturas que nos diferenciem.

O confinamento obrigatório de hoje, imposto legalmente em muitos casos, é também um dever ético, motivado pela solidariedade e pela preocupação com todos os outros seres humanos – sem distinções de raça, credo, religião ou ideologia – para preservar vidas. 

Como nos campos de concentração, acabamos novamente confrontados pela nossa existência “nua e crua” e somos desafiados a dar nossas respostas. Agora, não se preocupar com o outro pode ser tão danoso quanto não cuidar de si mesmo.

Viktor Frankl, criador da Logoterapia, uma escola psicoterápica centrada no sentido da vida, sendo também uma proposta para lidar com outros problemas que afligem o ser humano, propugnava por um movimento que chamava de monantropismo: “o saber em torno da unidade da humanidade, uma unidade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor da pele, quer as da cor dos partidos”. 

O desafio do novo coronavírus torna evidente o que ressaltava Frankl. Esse vírus exige um esforço conjunto de toda a humanidade unida, pois ficou demonstrado o quão vulneráveis somos, já que todos podemos ser transmissores, todos podemos ser vítimas. Fica mais uma vez assinalado que a solidariedade é essencial ao ser humano. 

Será o esforço comum e continuado que nos levará ao retorno possível da normalidade. Que essa experiência dolorosa seja estímulo para que a união necessária não termine quando a doença estiver vencida, mas que seja a catalisadora de um esforço por um novo ser humano, que melhore as condições de vida para todos e compartilhe melhor os recursos de que já dispomos.

A humanidade como um todo está sendo questionada pela situação. As respostas que vínhamos dando aos problemas humanos, olhando o estado em que vivem milhões de pessoas, nos envergonham como raça humana e dificultam o combate ao inimigo comum. Temáticas desafiadoras, como propriedade privada, divisão de recursos, importância e qualidade da vida humana e da vida em geral, direitos humanos, educação, cultura, ciência, aspirações do ser humano e espiritualidade, para citar somente algumas, não têm sido muito bem equacionadas. Temos formulado muitas e grandiosas perguntas. Nossa ingente tarefa: dar respostas que valham a pena. 

Se o estado de coisas da humanidade não está satisfatório, talvez aos jovens, aos estudantes em geral, aos universitários em particular, que em breve estarão assumindo postos de vanguarda e de liderança no nosso mundo futuro, talvez a esses o questionamento seja maior e mais desafiador. Eles, com seus desejos de mudança e visões alternativas de mundo, talvez possam trazer contribuições importantes para novas e melhores soluções.

As mudanças não ocorrem de um momento para outro. Precisam ser pensadas, planejadas, executadas. Por isso, o questionamento que for feito agora, para pensar um mundo melhor, é tão importante. A crise que estamos vivendo não representa somente um perigo; pode ser também uma catalisadora de mudanças que se queiram fazer. Não será com passionalidade e ideologia que vamos solucionar esses problemas. A ciência, a educação, as evidências científicas e a solidariedade é que devem nos guiar.

O objetivo principal propugnado para este momento de nossa história é sobreviver. Mas a pergunta seguinte é mais significativa e impactante: sobreviver para quê?

Esse questionamento é o mais significativo de nossas vidas. Pergunta por nossos valores, pelos sentidos de nossas existências – temáticas seguidamente inquestionadas ou amortecidas pelo ritmo alucinante em que muitas vezes vivemos, devido, em parte, à comunicação impessoal constantemente renovada e não refletida proporcionada pela virtualidade de nossas mídias. Essa realidade não nos dá tempo para a reflexão crítica e o aprofundamento íntimo dos temas abordados. Como dizia Sócrates, uma vida não questionada e irrefletida não merece ser vivida.

O novo coronavírus se nos apresenta como o inimigo comum a ser vencido. Mas o distanciamento social que temos vivido para vencê-lo talvez também acentue a angustiante questão que virá após a vitória: viveremos para quê? Temos que dizer sim à vida, mas essa afirmação terá que vir acompanhada do “para quê” dizer esse sim à vida.

Devemos aproveitar o tempo que nos está sendo dado pelo confinamento social para refletir e burilar as respostas a essa questão. Temos de aproveitar esta oportunidade para nos transformarmos em seres humanos melhores e que busquem respostas mais adequadas que resultem em ações mais eficazes e justas para os temas dolorosos que a humanidade tem de resolver para ser digna dessa denominação.