UFRGS e a Covid-19

Pesquisa relaciona estilo de vida e saúde mental durante a quarentena

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Sumário

Foto: Thiago Neves – CC.BY.NC.ND.2.0

Estudo internacional conta com participação de pesquisadores da UFRGS e coleta dados por formulário on-line

O cenário de isolamento social em que vivemos em virtude da Covid-19 é inédito e leva a ciência a buscar entender o impacto que tem na vida, na saúde e no comportamento da população. A pesquisa Hábitos saudáveis e estilo de vida durante a pandemia do Covid-19: uma websurvey para a população brasileira investiga a relação entre saúde mental e estilo de vida em período de quarentena. O estudo ainda está na fase de coleta de dados, realizada por meio de um formulário disponível neste link até 20 de maio. Durante o preenchimento, o participante tem acesso a dicas de hábitos saudáveis para quarentena, formuladas a partir de protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Fiocruz, que desenvolve o projeto, junto com pesquisadores da UFRGS, da Universidade de Valencia, na Espanha, e da McMaster University, no Canadá. As recomendações abordam alimentação, exercícios e outros fatores que interferem na saúde mental.

A realização deste tipo de pesquisa em meio à pandemia, com medidas de distanciamento social vigentes ainda em vários locais, apresenta desafios e oportunidades. O professor da Faculdade de Medicina da UFRGS Flávio Kapczinski, um dos coordenadores do trabalho, explica que as condições impostas pela pandemia foram um obstáculo a ser vencido, mas também acabaram trazendo ganhos para o estudo. “O ideal para esse tipo de pesquisa de estilo de vida é que haja uma entrevista presencial, o que não é possível em função do isolamento social. Mas o preenchimento de formulário on-line nos leva a receber as informações muito mais rápido e facilita o alcance: em cerca de duas semanas, por volta de 18 mil pessoas responderam o questionário no Brasil e três mil na Espanha, um número muito expressivo”.

O professor aponta que enquanto o país europeu já atingiu o pico de contaminação, no Brasil a tendência é de que os números continuem subindo. O Rio Grande do Sul, no entanto, parece já ter conseguido o efeito de achatamento da curva, resultado das políticas de isolamento adotadas. A posse de dados de países em outro momento da pandemia também pode ser uma vantagem para o Brasil, segundo a pesquisadora Raquel de Boni, da Fiocruz, que também faz parte da coordenação do estudo. “A comparação entre países que já passaram por uma parte deste processo, como a Espanha, traz vários ganhos científicos, podemos comparar diferentes estratégias e respostas”, aponta a professora. Segundo ela, a análise preliminar dos dados indica que houve maior mudança de hábitos no Brasil. “É importante que tenhamos dados confiáveis para subsidiar a criação de políticas no enfrentamento ao vírus. Mas é também importante entendermos que os países têm sistemas de saúde diferentes, apesar de algumas similaridades. Canadá e Espanha têm uma rede de saúde mental mais fortalecida que a nossa, por exemplo”, comenta Raquel.

Aproximação com a sociedade

O estudo é um dos contemplados pelo edital emergencial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e acontecerá em mais de uma etapa. A primeira, que está em curso, vai até 20 de maio, e um dos passos seguintes é o desenvolvimento de um aplicativo, que vai fazer uso da Inteligência Artificial para, a partir das respostas do usuário, dar dicas para manter uma rotina saudável. “O principal produto da pesquisa será o desenvolvimento de um aplicativo para lidar com a atual pandemia ou com outras que possam ocorrer”, adianta o pesquisador, informando que o aplicativo, que deve ser finalizado ao longo deste ano, “terá ainda a função de identificar possíveis notícias falsas, a partir de indícios que são normalmente usados para disseminar essas informações mentirosas”.

Outro legado importante do trabalho, segundo Kapczinski, é aproximação entre a ciência e a população. “Queremos desmistificar a imagem do cientista que faz coisas distantes da população, com trabalhos que demoram a se transformar em algo para a sociedade”, diz.

A pesquisadora Raquel de Boni aposta que o cenário pode também resgatar a valorização da ciência como um todo perante a população. Para ela, “a pandemia pôs a ciência em posição de destaque na sociedade. Somos responsáveis por pesquisas e desenvolvimento de soluções e temos o dever de divulgar nossos dados e os de nossos colegas”. O professor Flávio Kapczinski corrobora a opinião e acrescenta que a universidade, em especial a pública, também pode voltar a ser reconhecida: “A sociedade brasileira está em transição. Vivíamos uma época de anti-intelectualismo, de ataque às universidades. E hoje temos duas epidemias: uma de Covid e uma de desinformação. Nossa resposta é ir ao encontro das pessoas e buscar guiar o comportamento por dados”. Kapczinski comenta ainda que “o hospital referência no combate à Covid-19 em Porto Alegre, por exemplo, é o Hospital de Clínicas. A universidade que fez o estudo mais importante sobre a doença no país até agora foi a UFPEL” (Universidade Federal de Pelotas).

Texto: Émerson Trindade

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