Caricaturas de pessoas sem rosto conectadas por um um balão de fala com texto ilegível
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A ideologia como sistema modelizante?

Arthur Walber Viana

Para tentar responder essa pergunta, precisamos explicar, de início, o que entendemos por ideologia. Nossa compreensão parte de Michael Freeden, que propõe uma espécie de abordagem espacial e morfológica da ideologia. Isso porque Freeden considera que o conteúdo ideacional de uma ideologia se reflete na relação entre os diversos conceitos que ela abriga, que vão se definir mutuamente. Assim, podemos verificar empiricamente o sentido que um determinado conceito carrega a partir da observação dos conceitos e ideias adjacentes. O significado é dado não pelo termo de modo isolado, mas pela sua relação com a “vizinhança”.


E nisso percebemos uma aproximação com o pensamento sistêmico da Semiótica da Cultura. Partindo para uma segunda parte da tentativa de resposta, entendemos a modelização como o processo de estruturalização (que dá estrutura) de textos em um dado sistema cultural; metalinguagem que formata as condições de tradução e de semiotização naquele sistema. Isso quer dizer que a realidade é constituída por – e a partir das – modelizações próprias do sistema em que se está inserido.


Nossa proposta, portanto, é entender ideologia como um sistema modelizante – porque ela configura a maneira como o mundo adquire realidade para um determinado grupo. Mais ainda, configura como o mundo pode adquirir realidade. Metalinguagem. Estrutura que dá estrutura. Sistema que modeliza. Propomos pensar as ideologias como agentes modelizadoras dos textos em um sistema específico; condicionantes para a configuração de um sistema de signos. Nesses termos, então, a ideologia funcionaria como um mapa para a leitura e para a escritura do mundo político e social. Leitura e escritura: não um mapa que represente qualquer realidade objetiva externa e independente, mas sim um que impõe uma interpretação/condição sobre como se lê a realidade e que orienta a ação de indivíduos e grupos sociais em meio à complexidade do mundo.


Essa discussão está presente em um artigo apresentado no último Intercom (2021), com o título de Sentidos em disputa: justiça e eficiência no debate sobre reformas políticas. A autoria é minha em parceria com a doutoranda em Ciência Política da USP Mariana Chaise. No artigo, formatamos a discussão teórica a partir de um objeto empírico, a disputa política em torno de uma proposta de reforma de Estado (PEC 32/2020, que versa sobre uma Reforma Administrativa).

O que buscamos demonstrar no artigo é que os grupos favoráveis e contrários à Reforma Administrativa semiotizam os conceitos de “justiça” e de “eficiência” de acordo com modelizações próprias dos sistemas em que estão inseridos e, nisso, constituem textos divergentes. O que ocorre na disputa pelos sentidos dos conceitos – no lugar de uma síntese redutora formadora de consensos – é uma proliferação de textos: não tem uma só justiça, senão a justiça inscrita em um sistema e a justiça inscrita em outro. As diferenças se resguardam e, para compreendê-las, deve se fazer uma reflexão sobre as modelizações que conformam essas diferenças e sobre as semânticas centrais e periféricas de cada sistema sígnico (separados, no artigo, por grupos políticos-ideológicos conflitantes).

Como citar este artigo

VIANA, Arthur Walber. A ideologia como sistema modelizante. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/a-ideologia-como-sistema-modelizante/. Acesso em: 13 abr. 2022.

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