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A equivocidade semiofágica de Deus e o Diabo na terra do sol

Por Rico Machado:

Assisti, talvez pela terceira vez, Deus e o diabo na terra do sol (1964). Havia mais de dez anos entre a última vez que vi o filme de Glauber Rocha e, agora, na minha nova incursão sobre a obra. A combinação que fiz com minha orientanda de IC, Mavi Simplício, era que assistíssemos (ela também já tinha assistido anteiormente) o filme com uma certa atenção flutuante, nos termos de Kastrup (2009) e fizéssemos um mapa de nossas impressões, para que, depois, compartilhássemos nossos olhares. Com esse objetivo me ocupei da tarefa. O que pretendo abordar de maneira muito breve neste texto é um dos aspectos do filme que me chamaram atenção: a equivocidade de Deus e o Diabo, arquétipos centrais do filme.

Sertão Mar (2019), de Ismail Xavier, e o ensaio Eztetyka da fome (1981), de Glauber Rocha, são textos incontornáveis para qualquer discussão sobre o tema, portanto este é meu ponto de partida. Tomando o Cinema Novo, nos termos de Glauber, não como resultado de uma mistificação, mas “da crise geral da arte brasileira” (1981, p. 24), é preciso pensar nossa condição no mundo a partir de um olhar que negue uma certa autoindulgência como face disfarçada do paternalismo e de uma falsa compreensão sobre nosso lugar no planeta.

Frente a isso Glauber postula: “”Nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida” (1981, p. 30). Para sair do impasse, o cineasta propõe: “Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência.” (1981, p. 31). Ismail Xavier sublinha a natureza semântica do título do ensaio glauberiano para demarcar a potência criativa deste tipo de cinema. “A preposição ‘da’, ao contrário da preposição ‘sobre’, marca a diferença: a fome não se define como tema, objeto do qual se fala. Ela se instala na própria forma do dizer, na própria textura das obras” (2019, p. 17).



O deus é o diabo, o diabo é Deus

A crítica que Glauber faz em seu ensaio ao paternalismo, categoria sociológica do patriarcado, tem no filme o casamento com a crítica ao messianismo. Este é o ponto central deste texto. Porque tanto Sebastião, o beato, quanto Corisco, o cangaceiro, encarnam ambos arquétipos transcendentais – deus e o diabo. Antônio das mortes, certo sentido, também, mas a ele cabe um outro papel, tanto mais imanente (seria necessária aqui uma longa digressão sobre a encarnação deus e o diabo em suas versões imanente e transcendente, mas me furto sugerindo a leitura do livro de Ismail). A relação proposta no filme é lógica e coerente com a história social tanto do messianismo, quanto do cangaço no Brasil.

Glauber se coloca em uma posição, digamos assim, radicalmente antropofágica em relação à tomada da violência como uma válvula de escape redentora. Portanto, quando faz da violência cinematográfica a tradução estética da fome como nossa manifestação cultural genuína, não propõe com isso uma sublimação. Quero com isso dizer que a violência em Deus e o diabo na terra do sol não é redentora. Tal aspecto, da sublimação, só seria crível se o conectássemos à perspectiva trazida em Semiofagias canibais (2021), na qual “Talvez pudéssemos pensar algo como uma ‘sublimação canibal’ que cotejasse semelhanças e diferenças entre a vingança no sentido ameríndio e ocidental, de tal modo que a primeira opera, por meio da ritualidade antropofágica que a conforma, isto é, como um gesto de sublimação da diferença; ao passo que a segunda opera como destruição da diferença, configurando-se a partir da dinâmica do recalque” (Machado, p. 89).

Retomo Ismail Xavier. “A recapitulação de messianismo e cangaço tem em comum com a memória coletiva esse movimento de recuperar o passado e seus heróis, para impedir seu desgaste e sua morte pelo tempo, para ressaltar sua dignidade. Mas, enquanto o cordel tende a projetar os seus heróis na eternidade, como figuras exemplares que escapam à decadência do mundo, Deus e o diabo projeta esses mesmos heróis numa temporalidade marcada pelo movimento incontido, pelas necessidades históricas que decretam a morte de uns e outros como essencial para o progresso dos homens e para a realização do princípio da justiça” (2019, p. 159).

A libertação de Manuel, personagem central do filme, não ocorre por uma redenção metafísica, nem pela via divina, tampouco pela via diabólica. Ele é liberado pela misericórdia imanente de Antônio das Mortes, que não o mata no massacre de Monte Santo, tampouco quando o encontra no bando de Corisco. A ritualística de Deus e o diabo na terra do sol é mais antropofágica que mítica, na medida em que não propõe um retorno ao princípio dos eventos que desencadearam as desventuras de Manuel e Rosa, mas sempre em direção a uma reinvenção, como se o futuro só pudesse ser feito (e no filme é precisamente assim) a partir do presente.



Da identidade à equivocidade

É nesse ponto que a equivocidade, como aspecto semiofágico do filme de Glauber, converte-se em uma chave de leitura interessante para pensarmos as constantes transformações identitárias de Manuel ao longo do filme, passando de vaqueiro, depois seguidor fanático religioso, depois cangaceiro e, por fim, liberto de si mesmo. “A equivocidade, entendida como a qualidade semiótica da equivocação, não é somente um modo de comunicar pelas diferenças, mas também o elo que une diferentes perspectivas” (Machado, 2025, p. 118).

Deus e o diabo na terra do sol é um filme radical. Encarna-se, e com isso quero dizer toma corpo, na fome e na violência, traços culturais indeléveis da sociedade brasileira. Mas não toma isso de maneira romântica. Glauber não recalca sua condição social na falsa sublimação de um engajamento romântico com o progressismo de seu tempo (algo comum ontem e hoje). Em seus filmes, não transfere a violência para o campo do simbólico (o gesto próprio da sublimação), embora incontornavelmente a traduza em linguagem cinematográfica, mas a radicaliza em sua nudez imanente. Faz disso seu gesto antropofágico ou melhor dizendo: semiofágico.

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