Crédito: Foto do autor, 2024.
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Círculo de castidade

Por Tiago Segabinazzi:

Trabalhadores do mundo, pensemos: se, de qualquer forma, 1º de maio é um feriado, faz alguma diferença chamar essa data de Dia do Trabalho ou de Dia dos Trabalhadores? Basta termos folga para não nos importarmos se a homenagem é dirigida a quem se esforça ou àquilo que nos obriga a nos esforçarmos?

Nessa pequena variação de letras há um pouco de luta de classes, um pouco de semiótica e mais um tanto da própria questão existencial de se trabalhar. Na escolha do termo se encontra o sentido intencionado: se o dia não remeter ao sujeito (o trabalhador), mas ao objeto abstrato (o trabalho), o humano é apagado em favor de uma entidade despersonalizada.

O trabalho torna-se, assim, um mito moderno, como apontaria Roland Barthes, que transforma uma relação histórica de exploração em um valor naturalizado, inquestionável. A inversão é semiótica e histórica.

Há exatamente um século o Brasil reconheceu essa data como o Dia do Trabalhador. Extraoficialmente e anteriormente, porém, já se tratava de um marco da memória coletiva do proletariado. Em 1º de maio de 1886, quando ocorreu uma greve geral nos Estados Unidos que exigia o limite de oito horas diárias para a jornada de trabalho, houve confronto com a polícia e morte de sindicalistas que protestaram. As manifestações se espalharam pelo país e nos anos seguintes operários da Europa usaram esta data para homenagear os trabalhadores e organizar protestos e greves. Após a abolição oficial da escravatura, imigrantes europeus vieram ao Brasil e trouxeram consigo ideias anarquistas, socialistas e comunistas que colaboraram com a agitação da classe trabalhadora e culminaram na primeira greve geral em 1917. Como o governo sofria com os embates com os movimentos sociais, em 26 de setembro de 1924 Artur Bernardes decretou a data do ano seguinte como feriado nacional “consagrado à confraternidade universal das classes operárias e à comemoração dos mártires do trabalho”.

Exatamente, mártir: “pessoa que passa por tormentos e flagelos para defender as suas crenças, opiniões, causas, entre outras”; “sujeito sacrificado”; “indivíduo que pena ou sofre imensamente”. Nunca houve dúvidas sobre o quanto trabalhar significa sofrer. Decretar um dia especial àqueles que sofriam foi uma tentativa de acalmar os ânimos sem acabar com a relação de abuso.

O termo “mártir” funciona da seguinte forma: ao mesmo tempo em que reconhece o sofrimento, o glorifica; converte a dor em virtude. De acordo com Charles Sanders Peirce, o efeito de um signo é um interpretante: a ideia que se forma na mente do intérprete. Ainda que esse efeito seja em algum grau indeterminado, é possível pensarmos que tal interpretante oscile entre a compaixão e a resignação, reforçando, assim, a noção de que o sacrifício é tão inevitável quanto desejável. Como é possível afirmar isso?

A partir dos indícios que vemos em nossa cultura: com exceção da arte, há poucos exemplos de celebração da preguiça, mas não faltam exaltações ao trabalho.


“Labour vs Leisure” – pavilhão romeno da Bienal de Veneza (2024)

Crédito: Foto do autor (2024)


A organização das regras de exploração se deu em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho por Getúlio Vargas. Entretanto, o dia deixava de ser dos trabalhadores que sofrem para ser chamado de Dia do Trabalho. Segurança, férias, máximo de jornada e salário-mínimo foram adotados no dia 1º de maio daquele ano. Normalmente era a data em que era anunciado o aumento do salário-mínimo, que, por mais modesto e injusto, é sempre algo a ser comemorado.

Assim, ao invés de ter passeatas e manifestação de trabalhadores, 1º de maio passou a ter comemorações e desfiles oficiais festejando o trabalho. O dia da consciência de classe se transformou no dia da exploração consentida. A mudança semântica, como diria Umberto Eco, reflete um código ideológico: ao substituir o sujeito pelo sistema, o Estado reconfigurou o imaginário coletivo, fazendo com que o signo “trabalho” evocasse não mais resistência, mas submissão ritualística.

Aos poucos, mas também num canetaço, uma data em que companheiros se reuniam para celebrar sua classe e organizar suas lutas deu lugar a um tapa nas costas, uma janta com os patrões, um presente para retirar no RH da empresa. O trabalho deixa de ser obra do trabalhador para o trabalhador ser demanda do trabalho. Não é curioso que há quem pense que o trabalhador deve agradecer pelo emprego que recebe?

É também sob a lógica sígnica, portanto, que a relação entre patrão e empregado é distorcida: o emprego é representado como um favor, não como um direito, invertendo a hierarquia real de dependência econômica.

Quando celebrado como valor superior e indiscutível, o trabalho se torna um mito em torno do qual gira o imaginário da sociedade moderna ocidental: é preciso sofrer. Em locais em que mártires praticam a autoimolação para trabalhar o corpo, este mito é atualizado em frases prontas como “no pain, no gain”. No mundo corporativo, sentido semelhante está no jargão “é só no dicionário que o sucesso vem antes do trabalho”. Mas o mantra mais comum é o antiquíssimo “o trabalho enobrece o homem”.

A imagem que essa frase tenta criar é de que o trabalho e suas dificuldades formam o (bom) caráter de uma pessoa, como se o suor tirasse as impurezas de seu corpo, tornando-o, assim, nobre. Mas nobre é sinônimo tanto de bom quanto de membro da nobreza: o trabalho não só torna o ser humano nobre (bom) como torna o homem um nobre (um burguês).

Ali está também o mito do trabalho como condição para a mobilidade social: trabalhando, ou seja, se esforçando, tudo seria possível. Nesta lógica, quem é explorado o é porque quer. A individuação da culpa tem como lei moral subir na vida para se tornar também um explorador. Vencer é isso.

O mito do trabalho permite valorizar quem escolhe sofrer e julgar quem não fizer o mesmo: “Se eu tive que sofrer, quem é você para ousar fazer diferente? Como ousa negá-lo?”. O trabalho, assim, de atividade emancipadora acaba desviado para ideias antigas de ressentimento, baseadas no esforço e no sofrimento; continua sendo mais uma forma de abnegação, até a chegada do paraíso, a aposentadoria.

A luta pelo sentido – entre o Dia do Trabalho e o Dia dos Trabalhadores – é também uma luta pelo poder. Só quando o signo “trabalhador” recuperar sua agência histórica romperemos o círculo de castidade que aprisiona nossa obra à servidão.

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