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CORPOS SEM ROSTO

          Parece-nos consensual que o uso de vídeo (por meio de webcams) em ambientes online de chat garante um maior efeito de presença para a interação à distância, o que a torna mais próxima de uma situação comunicacional face a face. Pois, nesse tipo de relação intersubjetiva, é possível que os sujeitos se reconheçam mutuamente, interajam em tempo real e interpretem as significações produzidas nos movimentos corporais do outro (nas expressões faciais, principalmente), tal como se estivessem realmente próximos, compartilhando um mesmo espaço físico.

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           Contudo, outro tipo de imagem, que se afasta da situação descrita acima, é bastante recorrente nos mais variados ambientes de videochat. Resulta de uma interação em que os sujeitos optam por ocultar o rosto. Para isso, eles utilizam dois procedimentos: o uso de máscaras ou o enquadramento abaixo da linha do pescoço. É gerado, assim, o que podemos chamar de “situação comunicacional de faces ocultas”, na qual os sujeitos interagem mutuamente, mas não podem se reconhecer. São imagens ainda centradas na figura do corpo humano, mas um corpo que não revela o seu rosto.

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                 Esse tipo de situação é bastante comum em sites de chat randômico, como Omegle.com e Chatroulette.com, nos quais os pares de conversação são formados de forma aleatória, ou seja, os sujeitos que interagem são necessariamente estranhos entre si. Sabe-se que o anonimato é uma característica comum aos mais diferentes tipos de relacionamentos online. E a dissolução identitária de um sujeito-na-imagem está vinculada à não revelação do rosto, que contém traços corporais fundamentais de identificação. Mas os corpos sem rosto também são recorrentes em servidores que permitem aos usuários a escolha do parceiro de conversa. Nesses casos, a ocultação está muitas vezes associada à nudez, à interação do sexo virtual. Nota-se, nesse tipo de imagem, que a preservação da identidade não é necessariamente decorrente da relação com um estranho, mas também de uma desconfiança da privacidade do próprio ambiente: quem mais pode estar olhando?

               Essa imagem expressa, assim, a dimensão fiduciária das interações na internet: sujeitos que não confiam suas identidades aos outros, nem aos ambientes que frequentam. A constelação de corpos sem rosto é um sintoma das relações sociais contemporâneas e da crise da privacidade.

Texto

Alex Damasceno.

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