Blog

Todo mundo num ritmo só: o passinho ingressa no mainstream

O “passinho do menor da favela”, “passinho foda” ou simplesmente passinho, como se tornou conhecido Brasil afora, é um fenômeno cultural surgido nas comunidades periféricas da cidade do Rio de Janeiro a partir da década de 2000. Dispondo do funk carioca como trilha sonora, ele consiste num novo tipo de dança, que oferece uma ruptura estética em relação ao que era previamente executado pelos fãs do gênero. No lugar das coreografias coletivas e sensuais, entram o virtuosismo individual e um hibridismo lúdico. O traço mais marcante deste novo sistema cultural é a alta permeabilidade de suas fronteiras, através da qual a incorporação de passos e elementos de outras vertentes da dança por parte dos praticantes torna-se característica primordial. O depoimento do dançarino João Pedro para o documentário “A Batalha do Passinho” (2013) ilustra a diversidade de elementos utilizados por ele: “Break, frevo, free step, chão, caidinha, pulo, passada… e o molejo do samba também ajuda” :

https://www.youtube.com/watch?v=UQ1viIz3IRc

Criado pelos jovens das favelas e subúrbios do Rio, o passinho insere-se no grupo de manifestações culturais identificadas como periféricas. Esta parcela da população é alvo costumeiro de uma “intensa associação à violência urbana, processo constante de estigmatização e demonização.” (HERSCHMANN, 2005, p. 281) O preconceito com a juventude pobre por parte de diversas camadas da população revelam o que Raquel Rolnik chamada de “cidade […] demarcada por cercas, fronteiras imaginárias, que definem o lugar de cada coisa e de cada um dos moradores” (ROLNIK, 1988, p. 41).

1

2

O passinho, uma dança exuberante, “[…] voltada plenamente à realização da potência de um corpo, à alegria produzida por essa relação de um corpo consigo mesmo, com sua virtualidade desmedida” (BOSCO, Revista de Dança, 2012), ajuda na desconstrução de tais preconceitos quando torna-se pauta dos veículos relacionados à mídia hegemônica. Principalmente na figura do grupo Dream Team do Passinho, esta dança vem ganhando espaço no mainstream midiático, um “santuario de las divindades <<culturales>> que organizan el mundo […]” (LÓTMAN, 1996, p. 14), onde de fato se dão os macroprocessos de significação relacionados à maioria dos fenômenos socioculturais entre os quais existimos. Ao legitimar manifestações como o passinho, a mídia de massas negocia a forma como a sociedade enxerga estes fenômenos, pois “Nesse campo, na configuração do social, é a cultura das mídias corporativas que ocupa posição privilegiada na comunicação de sentidos e códigos culturais.” (SILVA, 2011, p. 22)

TEXTO
Ramiro Simch da Silva

Referências

Batalha do Passinho, A. Direção: Emílio Domingos. Produção: Emílio Domingos e Julia Mariano. Rio de Janeiro: Osmose Filmes, 2013. 73 minutos, DVD.

BOSCO, Francisco. A gaia ciência do menor da favela. Revista de Dança, 2012. Disponível em <http://www.revistadedanca.com.br/criticas.php?id=11>.

HERSCHMANN, Micael. O funk e o hip hop invadem a cena. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.

LOTMAN, Iuri M. Acerca de la semiosfera In: La Semiosfera I: Semiótica de la cultura y del texto. Valencia: Ediciones Cátedra, 1996.

ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo: Brasiliense, 1988.

SILVA, Danielle Miranda da. Erudito som de batidão: Movimentos culturais de periferia e suas práticas para a reelaboração de territórios comunicacionais. Monografia de graduação. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2010.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *