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Corpos Utópicos

Desde o dia último 15 de setembro até fevereiro de 2016 está em exposição em Estocolmo no museu “Liljevalchs Konsthall” a mostra denominada “Utopian Bodies: Fashion Looks Forward”. Nela são apresentadas criações de estilistas e marcas como Alexander McQueen, Rick Owens, Viktor & Rolf, Hussein Chalayan, Walter van Beirendonck, Comme des Garçons, Dries Van Noten, Maison Martin Margiela, Prada, e Raf Simons.

Nas peças de vestuário expostas fica clara a explanação superior dos conceitos de criação na moda. Já não se trata de falarmos de moda enquanto o vestir-se cotidiano: por mais que algumas peças sejam acopláveis ao corpo e outras predestinem-se aos moldes do corpo humano, estamos diante da materialidade de conceitos, diante da máxima criativa da moda. Tal conjuntura de criações levam a questionar adjacências que estão inerentemente relacionadas a moda: a arte, o corpo e o próprio sistema que rege a moda. São expressões que nos levam a reafirmar a moda como algo além da peça a se vestir, como um sistema autônomo, mas ambiguamente conectado ao viés cultural, pois se alimenta de traços de sistemas culturas (humanos ou não, reais ou fictícios, vigentes ou não), ao mesmo tempo que lança para o campo cultural modos de ser e particularidades que se inflacionaram no campo da moda, como a busca pelo novo, pelo choque, pelo excêntrico. Nesse sentido, a aproximação com a arte  vai além da instauração dessas criações em um espaço institucional da arte como são os museus; são relações que nos ficam visíveis aos olhos quando a moda proclama liberdade, quando uma ideia expressa nas materialidades do sistema moda se colocam como um afeto, como uma experiência do sujeito que está diante de uma criação-obra, com significados que vão além da pura e jocosa inserção de elementos têxteis.

 

 

No entanto, aquilo que fica mais evidente – talvez estejamos elucidados pelo nome dado à exposição, que traduzida ao português seria algo como “corpos utópicos” – seja o estranhamento de estarmos diante de moda que, por vezes, pede autonomia do corpo que a veste. Mais do que isso, sugere novos corpos que não aquele fisionomicamente humanóide. Lança novas perspectivas sobre as relações de presença da corporalidade e clama por uma interdependência mais igualitária entre criação e aplicação prática do vestir-se. Por fim, libera o corpo de uma forma premeditada, o lança para o campo da ficção e da utopia (paradoxos que a moda cria, pois, é ela que muitas vezes condiciona e modela os corpos ideais de uma sociedade). Visualizamos corporeidades que são afetadas pela moda no que tange às questões de sustentabilidade, das relações de gênero e da passagem pelo crivo tecnológico.  São corpos amorfos, que perdem suas feições faciais, a silhueta, que perdem sua capacidade fisiológica de respirar: o que está em jogo não é a organicidade de uma realidade tátil, mas a liberdade de criação. Não seria esse um caminho para resolver aqueles nós de tensão entre moda e arte? (sistema o qual por muito tempo renegou a moda por suas funções de ordem prática). E se assim for, parece ser o corpo, isto é, o suporte para o qual a moda é pensada, o meio ideal para que essas manifestações ocorram. Se a moda ganha independência criativa para se expressar – e se sublimar enquanto experiência artística – é nesse momento que os corpos também ganham fluidez  e “pedem carona” para novas possibilidades de ser e de se apresentar: reais ou utópicos, porém livres de um desejo de forma totalizado.

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Vista da instalação da exposição “Utopian Bodies”

TEXTO

Maurício Rodrigues

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