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Das interfaces entre Comunicação e Performance

Douglas Ostruca

O livro Performance: uma introdução crítica, de Marvin Carlson, foi lançado em português em 2010, originalmente publicado com o título Performance: a critical introduction, em 1996. Para tratar do tema, o autor organiza as ideias em três partes: 1. Performance e as Ciências Socias; 2. A arte da Performance; 3. Performance e Teoria contemporânea. No presente ensaio, propomos transitar pela primeira parte, considerando pistas que apontam para interfaces entre Comunicação e Performance.

A primeira parte do livro, voltada para o conceito de Performance nas Ciências Sociais, é dividida em três capítulos nos quais são discutidas respectivamente a performance cultural, a performance social e a performance linguística, havendo atravessamentos entre elas. Nos primeiros parágrafos do capítulo 1, já nos é indicado que os estudos da performance apresentam abordagem interdisciplinar e se organizam enquanto tal entre as décadas de 1960 e 1970. É no texto Performance & the Social Sciences: Introduction de Richard Schechner, publicado como introdução do periódico The Drama Review em 1973, que são indicadas as abordagens específicas da Teoria da Performance.

Paralelo a isso, sabemos que a organização dos estudos de Comunicação no Brasil também decorre por volta da década de 1970. Entre as bases para as reflexões do campo emergente podemos mencionar a coletânea de textos Teoria da cultura de massa [1969], de Luiz Costa Lima, trabalhada até hoje em salas de aula e ainda presente na literatura de editais de seleção da Pós-Graduação. No livro indicado, encontramos autores de diferentes áreas, passando pela Sociologia, pela Filosofia, pela Física, pela Literatura, pela Semiótica e pela História. Isso indica o caráter interdisciplinar da comunicação desde de sua constituição no Brasil.

Contudo, além da coincidência no período de organização dos estudos da performance em paralelo ao campo da comunicação e do caráter interdisciplinar de ambos, são ainda outras pistas que nos levam a escrever o presente texto. Em seu livro, Marvin Carlson pontua que entre os autores articulados por Richard Schechner estão o sociólogo Erving Goffman e o antropólogo Victor Turner, os quais partem de conceitos próprios ao teatro para analisar manifestações culturais de modo mais amplo.

No caso de Goffman, há um destaque para o livro A representação do eu na vida cotidiana publicado pela primeira vez em 1956. O primeiro capitulo desse livro leva o nome de “performances” em inglês, termo traduzido para “representações” na versão em português. Nas palavras do autor “venho usando o termo ‘representação’ [performance] para me referir a toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença continua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência” (GOFFMAN, 2014, p.34). Nisso, notamos uma ênfase sobre as interações de um indivíduo com um determinado grupo, com destaque para os efeitos das ações desse indivíduo sobre tal grupo.

No livro Curso básico de teorias da comunicação (2016) das professoras Vera França e Paula Simões, Erving Goffman aparece como um dentre outros autores que são trabalhados no campo da comunicação, localizado especificamente na corrente do Interacionismo Simbólico. Como temas centrais nos estudos de Goffman as professoras e pesquisadoras situam as interações sociais e o desempenho dos indivíduos, sendo o desempenho definido pela seguinte citação “toda atividade de um determinado participante, em dada ocasião, que sirva para influenciar, de algum modo, qualquer um dos outros participantes” (apud GOFFMAN, 1996, p.23). Em outros termos, trata-se de determinada ação realizada por um indivíduo para influenciar um grupo em uma interação.

Em relação as citações trazidas nos dois parágrafos anteriores, chama nossa atenção a proximidade entre as definições de desempenho e de performance em Goffman, as quais convergem nas ações de um indivíduo na interação com um grupo. Salvo o deslocamento do termo “performance” por “representação” na tradução de Goffman para o português, perguntamos: seriam as performances, segundo a definição desse autor, uma das preocupações próprias aos estudos de Comunicação?

Além de Erving Goffman, percebemos outros autores recorrentes nos estudos da Comunicação povoando o rastreio de Marvin Carlson sobre a performance. Dentre eles: Gregory Bateson, William James, Michel de Certeau, Mikhail Bakhtin, Umberto Eco, Noam Chomsky, John Austin, Julia Kristeva, Jurgen Habermas. Em outra oportunidade, caberia um pouso sobre esses autores, buscando notar qual é a contribuição destes para os estudos da performance e como são articulados no campo da Comunicação.

Ainda em relação aos autores investigados por Carlson, um aspecto que desejamos destacar é que ao tratar de Kenneth Burke, há indicação de que o pesquisador busca em termos do dramatismo elementos para compor suas análises dos recursos e motivações humanas para influenciar opiniões e ações. Os termos mencionados são: “O que foi feito (ação), quando e onde foi feito (cena), quem fez (agente), como ele fez (argumento) e por quê (propósito)” (CARLSON, 2010, p.48). O que nos lembra, é claro, do modelo funcionalista de Harold Laswell, presente em seu texto A estrutura e a função da comunicação na sociedade (1948), para descrever um ato de comunicação, o qual inclui as questões: Quem? Diz o que? Em que canal? Para quem? Com que efeito?

Para encerrar essa breve incursão pelo primeiro capítulo de livro de Marvin Carlson, voltemos ao início, especificamente ao texto Performance & the Social Sciences: Introduction (1973) de Richard Schechner. Nesse trabalho, são indicadas sete áreas de entrecruzamento entre as Ciências Sociais e a Teoria da Performance. Dentre elas, duas nos saltam aos olhos: “3. análise de vários modos de comunicação (distintos da palavra escrita); semiótica” e “5. Aspectos da psicoterapia que enfatizam a interação entre pessoas, a encenação e a consciência do corpo” (SCHECHNER, 1973, p.3).

No tópico 3, temos explicitamente a menção ao interesse nos modos de comunicação em perspectiva semiótica, a qual volta-se para os sistemas de linguagem de modo mais amplo, para além da linguagem significante. Já no tópico 5, o destaque é para as interações entre as pessoas, que embora sejam situadas na via da psicoterapia, podemos dizer que também apresentam especificidades nas discussões do campo da comunicação — como é o caso das reflexões que partem das pesquisas de Erving Goffman, já pontuadas anteriormente.

O presente ensaio partiu da leitura do primeiro capítulo do livro de Marvin Carlson sobre os estudos da performance, no qual destacamos pistas sobre o que nos parece uma zona de interface entre Comunicação e Performance. A partir do percurso realizado, notamos que existem atravessamentos de uma pela outra, sendo os modos de comunicação uma das abordagens nos estudos da Performance e as performances um dos interesses nos estudos de Comunicação.

Referências

CARLSON, Marvin. Performance e as ciências sociais. In: Performance: uma introdução crítica. Belo Horizonte: editora UFMG, 2009.

FRANÇA, Vera; SIMÕES, Paula. A dramaturgia de E. Goffman. In: Curso básico de teorias da comunicação. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

GOFFMAN, Erving. Representações. In: A representação do eu na vida cotidiana. 20.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

SCHECHNER, Richard. Performance & the Social Sciences: Introduction. The Drama Review, 1973.

Como citar este artigo

OSTRUCA, Douglas. Das interfaces entre Comunicação e Performance. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/das-interfaces-entre-comunicacao-e-performance/. Acesso em: 28 abr. 2022.

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