Sua excelência, o peixe: as transformações de Romário

“Irresponsável. Irreverente. Irrequieto. Egoísta. Debochado. Abusado. Explosivo. Quase uma bomba que tem pernas. Autoritário. Radical. Parece o dono do mundo. Talentoso. Rápido. Craque. Artilheiro. Faz gol como quem brinca. Baixinho. Pernas arcadas. Língua presa. Biotipo plebeu para um príncipe do futebol-moleque: Romário”
A descrição contundente do ex-jogador no início da matéria do jornal O Globo de 13 de setembro de 1993 não é gratuita. Aos 27 anos e já consagrado como um dos grandes craques do futebol brasileiro, com passagens pelo Vasco da Gama, onde começara a carreira, pelo holandês PSV e então no Barcelona, Romário de Souza Farias, carioca de origem humilde, foi naquele ano um dos responsáveis pela classificação da seleção brasileira para a copa de 1994. Conforme Helal (2006, p.6), o jogador desafiou “o processo de “disciplinarização” daquela comissão técnica. Assim, o “desempenho” de Romário confronta-se com a “disciplina” imposta na seleção”. Nesse processo o “baixinho” foi alçado definitivamente à categoria de ídolo.
Paralelamente a isso, eram frequentes as referências às noitadas e às “escapadas” da concentração. A sinceridade do jogador, que declarou ser avesso aos treinos, foi frequentemente explorada pela mídia, especialmente em relação aos embates do craque com outras personalidades do futebol, como o também jogador Edmundo, que passou de amigo a desafeto em alguns anos.
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Em 2005, o “baixinho” protagonizou uma nova polêmica com outro grande nome do futebol brasileiro, largamente explorada pela mídia. Durante um jogo de futebol de praia, no qual é filmado de pés descalços e sem camisa, Romário responde ao ex-jogador Pelé, que havia sugerido que ele encerrasse sua carreira dentro das quadras. Demonstrando a irreverência característica e manifestando contrariedade com a declaração do “Rei” do futebol, afirma que “Pelé calado é um poeta”. A frase caracteriza a conturbada e midiática relação dos dois, que até hoje é marcada pela exposição dos desentendimentos entre eles através dos meios de comunicação e das redes sociais. Conforme publicado no Blog Meio de Campo, do GloboEsporte.com, no dia 25 de abril, ao chamar mais uma vez Pelé de “poeta” e este responder que “Deus dizia que perdoava os ignorantes. Então eu também perdoo os ignorantes”, Romário fulminou acrescentando, através de seu Twitter, que ele, “além de poeta, também é um boçal”.
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A carreira rápida do atacante, que quase duas décadas depois do tetracampeonato brasileiro viria a tornar-se deputado federal, já era marcada por seu temperamento irreverente e malandro, mantido na postura mais discreta e protocolar durante a atividade política. A personalidade, também carregada de uma dose de transgressão, é uma constante na construção da figura pública de Romário.
Nas reportagens do jornal O Globo do período entre as eliminatórias de 1993 e o mundial de 1994 analisadas por Helal, segundo quem, Romário, ao mesmo tempo em que é mostrado como alguém que ajuda financeiramente os amigos e a família, mas sem se furtar a destacar as próprias qualidades futebolísticas, rompe com a característica cultural brasileira de exaltação da falsa modéstia, e “consegue com essa faceta de sua personalidade confundir e até mesmo polemizar com aqueles que o idolatram” (2006, p. 07). Ao tornar-se um ídolo do futebol do país, o “rei da área” confrontou o altruísmo com o egoísmo e o individualismo compondo sentidos dúbios para si e, ao mesmo tempo, provocando reações também ambíguas nos torcedores.
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Em 2010, dois anos após aposentar-se oficialmente do futebol, o baixinho ressignificou a sua imagem como sujeito midiático, substituindo a identidade de craque malandro, festeiro e irreverente pela de parlamentar dedicado a causas esportivas e médicas. Eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), Romário expôs novos significantes, até então menos conhecidos, entre eles o de orador performático. Agora, no âmbito da Câmara dos Deputados, as gírias e as roupas de praia dão lugar às falas protocolares, à escolha das palavras e aos trajes mais formais, seguindo o decoro parlamentar.
As mudanças na vida profissional e pública exigiram a reconstrução das corporalidades por meio da revogação de sentidos em prol da construção de novos. Contudo, a ambiguidade do jogador se transfere para o deputado. Apesar do vocabulário mais formal e dos ternos e gravatas (que abandona depois das quintas-feiras, quando volta ao futevôlei das areias cariocas), Romário tenta provar que não abandonou algumas características marcantes, que constituem sua imagem pública desde sua juventude como atacante. Em entrevista ao jornal O Dia, Romário faz questão de demonstrar que apesar de ter mudado de atividade, continua o mesmo “marrento” de sempre. Destaca: “Não sei se vocês reparam, o Romário político é o mesmo Romário, que fala palavrão igual, não vai mudar nunca”.
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Desta vez, as matérias midiáticas destacavam a assiduidade de Romário às sessões legislativas, além do comprometimento com a defesa dos direitos de pessoas com deficiência e com a fiscalização das obras para a Copa do Mundo de 2014, legitimados pela posição de pai de uma menina portadora da Síndrome de Down e de ex-tetracampeão mundial.

O lado “jogador” do agora deputado passou a provocar constantes rupturas com a imagem mais serena e austera geralmente associada aos políticos tradicionais e que foi parcialmente assumida por ele, ao seguir o decoro exigido pela instituição. Especialmente a partir do fim de 2011, um pouco mais experiente em relação às regras do jogo político, é possível perceber o maior desembaraço de Romário ao exercer seu cargo. Primeiramente durante a gestão de Ricardo Teixeira na presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade máxima do esporte no país, quando confrontou o cartola e o secretário geral da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Jerôme Valcke, durante audiência na Câmara dos Deputados, depois durante a atual gestão de José Maria Marin como presidente da CBF, o ex-craque não mediu esforços para criticar os responsáveis pelo planejamento e controle das obras do mundial de 2014.
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Referências:
Romário: ‘A política me fez muito bem”:
http://odia.ig.com.br/portal/rio/rom%C3%A1rio-a-pol%C3%ADtica-me-fez-muito-bem-1.431536. Visualizado em 18 de março de 2013.
A resposta de Romário: http://globoesporte.globo.com/platb/meiodecampo/2013/04/25/a-resposta-de-romario/. Visualizado em 26 de abril de 2013.
HELAL, Ronaldo. Idolatria e malandragem: a cultura brasileira na biografia de Romário. In: pp. 24-39, Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação – v.26 – n.2 – 2006.
Texto:
Nísia Martins do Rosário
Guilherme Almeida
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