Memoricídios e as políticas do esquecimento – Parte II
Gilmar Montargil
Memória da amnésia
Memória da amnésia dá nome a uma intervenção artística realizada na virada de 2015 para 2016 na cidade de São Paulo. O foco está nas estátuas e monumentos que são retirados de seus locais de origem, indo parar no desterro – local que deveria abrigar essas peças momentaneamente, mas que acaba virando a nova morada dos objetos, esquecidos e ocultados do olho público. “Via de regra, três são as motivações que explicam a mudança de monumentos de lugar em São Paulo: obras urbanas, questões orçamentárias e argumentos de cunho ideológico moral” (BEIGUELMAN, 2019, p. 79). A autora discute, portanto, as questões tecno-políticas que decidem aquilo que deve ser visto ou não. Estátuas podem eventualmente serem mudadas de seus locais de origem (Giselle conta a história de várias no livro), porém, esse nomadismo vem acompanhado também da perda de simbolismo e de afetividade do público com a peça. Ficar dois ou oitenta anos em um galpão – conjuntamente com outros inúmeros objetos como restos de computadores e de obras – não só compromete a integridade das peças, como também a integridade do público que não lê.
Por esse motivo, Memória da Amnésia colocou em exposição novamente alguma dessas peças, mas deixando-as deitadas para fazer o público refletir sobre horizontalidade/verticalidade; o que se lê/ o que se contempla; documento/monumento. Estátuas não são meras esculturas artísticas, elas também possuem o caráter de documento – objetos capazes de historicizar a sociedade e nossos sentimentos.

Já é ontem?
Nunca se verbalizou tanto sobre a efemeridade e a rápida obsolescência das tecnologias, como exposições artísticas brincando com mídias velhas e todo o debate envolvendo lixo tecnológico e mudanças climáticas. Anúncio de um mundo catastrófico. A cultura digital, por sua vez, intensifica ainda mais o descarte e perdas de toda ordem: dados, arquivos, programas que param de funcionar, redes sociais que deixam de existir, fotografias nunca mais encontradas, videogames e celulares que não ligam mais. O que reina hoje é uma cultura da reprogramação, nada pode ser perdido e tudo deve ser consumido e reconsumido. “Esse sistema responde bem a uma cultura capaz de conviver com o envelhecimento, a corrosão dos materiais, as asperezas do que é natural” (BEIGUELMAN, 2019, p. 140).
A autora rememora uma época de pujança para o Rio de Janeiro, momento em que várias obras foram sendo construídas para as Olimpíadas de 2016, época em que se falava em futuro, do Museu do Amanhã, com muitos projetos, figuras de linguagem que sintetizam um burburinho econômico, com maquetes 3D mostrando como ficaria a cidade. Porém, com os casos de corrupção, superfaturamento e obras nunca concluídas visitar esse contexto acaba ganhando outro sentido. Em alguns locais, “[…] a sensação é que o futuro chegou e já foi” (BEIGUELMAN, 2019, p. 142). Nesse sentido, a autora faz um ensaio visual com o intuito de não mostrar apenas o degradado e as mudanças ocorridas na zona portuária do Rio de Janeiro, pelo contrário, adota a linguagem dos erros e das imperfeições tecnológicas (glitchs) como forma de fazer uma crítica do futuro.
Atravessadas por problemas de “carregamento”, esgotamento de memória do sistema e incapacidade de processamento das informações, as imagens estouram na tela. Trazem à tona seus índices de cor mais primários, como se revelassem suas entranhas. Sem ceder ao “padrão global” de qualidade ou à comoção da ruína urbana que mumifica um passado-presente de exclusões sociais […].
BEIGHELMAN, 2019, p. 143

Museus das perdas para nuvens de esquecimento
Giselle Beiguelman argumenta que o mundo contemporâneo está diante de uma overdose documental. Só que essa overdose é conflitante, pois ao mesmo tempo que nunca estivemos produzindo e consumindo tantos registros, voltar ao passado recente é difícil. Isso ocorre por causa da obsolescência da web e dos aparatos tecnológicos. Não só a memória e os processos de arquivamento sofrem com links quebrados e suspenção de encodes, mas também as artes. Indaga a autora:
[…] trata-se de toda uma nova cultura da memória que subverte os princípios do arquivamento tradicional, baseado na lógica da seleção, do descarte e da organização de documentos. Como lidar no campo da preservação e da conservação, com arquivos que somem obras que param de funcionar, serviços que desaparecem de um dia para o outro?
BEIGUELMAN, 2019, p. 192
A partir de sua obra O livro depois do livro, Beiguelman (2019) demonstra as dificuldades de reproduzir a obra de net art na ambiência tecnológica atual. É preciso lembrar que o contexto de uma obra artística também é conteúdo e que os artistas de net art, sobretudo dos anos 1990, estavam envolvidos com taxas de transmissões, padrões de velocidade, linguagens de programação e modos de usar a internet que são quase impossíveis de serem reproduzidos no contexto atual devido a essa rápida transformação a que estamos expostos. Existem iniciativas de arquivamento como o Web ARChive e o Old Web Today que visam permitir a navegação em páginas e versões antigas de sites como forma de preservar essas ambiências e experiencias. Como era navegar num portal em 2000? Usar o Facebook em 2010 ou comprar produtos no Ebay em 2018? No entanto, apesar de processos de emulação, isto é, programas e configurações que permitem a reprodução com certa similitude de sites, portais e outras tecnicidades da web de antigamente, sempre haverá perdas nesse processo, em especial para artistas, que lidam com um fazer artístico interligado com a arquitetura tecno-instrumental da internet.
Giselle Beiguelman relembra o impacto que o evento de 11 de setembro de 2001 teve na compreensão e uso da internet, não vista mais apenas pela ótica da transformação social, sendo abordada também pelo seu potencial de uso por terroristas e outras intenções maléficas (um debate tolhido por certo exagero e paranoia). A questão é que o uso da internet é gratuito – o que é diferente de ser livre. Essa gratuidade vem acompanhada com um pagamento: nossos dados. “Mediadas por algoritmos sofisticados, plataformas como Google, Amazon e Facebook tornaram-se a própria internet, expelindo tudo aquilo que não se encaixa no modelo das nuvens para um limbo do não reconhecido pelo padrão. Entre esses padrões não reconhecidos, fica uma galeria de programas e scripts independentes, subitamente “expulsos” da órbita dos browsers e dos sistemas operacionais” (BEIGUELMAN, 2019, p. 197).
Como hoje há todo uma prática institucionalizada de como usar a internet denominada 2.0, com certo monopólio de sites e redes sociais vinculadas à nuvem, toda uma gama de atividades, ferramentas e artes que não utilizem os padrões tecno-instrumentais desse Estado-Plataforma acabam sendo entendidas como erro, vírus, fora dos padrões, spam – como por exemplo, obras que utilizam freeware, isto é, softwares livres. “No horizonte algorítmico do pós-nuvens, no entanto, obras que utilizaram esse tipo de programa estão hoje condenadas” (BEIGHELMAN, 2019, p. 197). Por fim, a autora discute que essas obras passíveis de serem reprogramadas e atualizadas, elas acabam virando um original de segunda ordem e abrindo margem para a obra ir ganhando novas camadas. Mas talvez precisássemos assumir que na cultura digital algumas obras são irrecuperáveis e faz parte considerar essas perdas e essas impossibilidades de preservação de objetos, obras, memes, arquivos como constituintes da nossa memória.
Beleza compulsiva tropical
No último ensaio, a autora rememora o incêndio do Museu Nacional ocorrido em 2 de setembro de 2018. Reflete sobre palavras-chave como ruína e catástrofe. “A catástrofe transcende a escala humana. A ruína é local, a catástrofe é planetária” (BEIGHELMAN, 2019, p. 215). Porém, a catástrofe é do domínio do anunciado, do previsto. O incêndio foi um tipo de “memoricídio” – uma forma deliberada de destruição da memória. Beighelman (2019) argumenta que a cultura de ódio e de preconceito permite também uma cultura de apagamento histórico, uma cultura que não cuida do outro e nem da memória do outro. “Somos exímios memoricidas” (BEIGUELMAN, 2019, p. 216).

O laço da sociedade com o Museu Nacional era de extrema fragilidade, uma vez que as pessoas passaram a lhe conhecer no noticiário quando pegou fogo, burburinho que não durou mais de uma semana. Porém, ele era pouco visitado e pouco se sabia dele. Um museu esquecido. Sem assistência também de recursos governamentais. O que fazer agora que o Museu Nacional foi destruído, deixar à mostra suas ruínas? É nesse pós-incêndio que Giselle Beiguelman se embrenha para realizar fotografias e nos dar o seu relato. É no surrealismo que busca uma explicação: “Definitivamente, o incêndio do Museu Nacional é nossa beleza compulsiva. Nossa condição de inércia e pulsão política de morte” (BEIGUELMAN, 2019, p. 218). Há margem para dizer que o inacreditável, o catastrófico, o surreal, em dadas circunstâncias, transforma-se em realidade.
Referência
BEIGUELMAN, Giselle. Memória da amnésia: políticas do esquecimento. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2019. 248 p.
Como citar
MONTARGIL, Gilmar. Memoricídios e as políticas do esquecimento de Giselle Beiguelman – Parte II. Corporalidades, Porto Alegre, 18. abr. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/corporalidades/memoricidios-e-as-politicas-do-esquecimento-parte-ii> Acesso em: 27-4-2023.
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