Blog

Na Comunidade e na Assembleia: as metamorfoses de Mano Changes

Créditos: Reprodução
Créditos: Reprodução
Créditos: Reprodução
Créditos: Reprodução

“Quem é que tem piii… aew?
É porque eu tô sem
Ahh… eu tô sem erva”
(Merda de Bar – Comunidade Nin-Jitsu)

A partir de agora, as postagens do blog vão tratar de um novo tema: corpos em explosão. Metaforicamente, claro. Segundo as ideias do semioticista russo Iuri Lotman, a comunicação é enriquecida pelos tensionamentos entre os sistemas envolvidos, nos chamados espaços de não intersecção, que se constituem como ambientes de criação de novidade. Dessa forma, a explosão ocorre quando a comunicação salta de movimentos previsíveis para a imprevisibilidade, que, a partir de uma determinada tensão, cria algo que não estava determinado. Assim, são chamados de corpos em explosão os que, ao construírem uma série de sentidos sobre si, provocam um determinado tipo de rompimento sob diferentes ritmos e intensidades.

Conhecido como Mano Changes, Eduardo Paz Bier é um dos corpos em que se pode observar, sob determinados aspectos, rompimentos de sentidos e ressignificação. Ele adquiriu fama especialmente no Rio Grande do Sul, como vocalista da banda Comunidade Nin-Jitsu. Criado em 1995, o grupo mesclava heavy metal, reggae e funk com rap, e com suas letras irreverentes e polêmicas, que falavam abertamente de drogas e sexo, conquistou rapidamente o público jovem, vendendo 50 mil cópias de seu primeiro CD, lançado em 1999.

Ao lançar-se candidato a deputado estadual, em 2006, Mano Changes, famoso pela irreverência e identificação com o público jovem, reforça sua campanha com o slogan “Chega dos mesmos”. Contudo, tendo como principal bandeira eleitoral a representação efetiva da juventude no parlamento gaúcho, o músico ingressa no Partido Progressista (PP), considerado ideologicamente conservador e com grande força no interior do Rio Grande do Sul.

Ainda candidato, em entrevista ao blog Nova Corja, Mano justificou a escolha pelo PP em função da identificação da família, proprietária de uma indústria produtora de máquinas agrícolas, com a legenda, que também contaria com uma juventude organizada e atuante, segundo ele. Também durante as eleições, questionado por internautas do ClicRBS, durante entrevista ao portal, sobre as referências a drogas feitas nas músicas de sua banda e sobre possíveis propostas referentes à legalização da maconha, o músico afirma que essas proposições competiriam a um deputado federal e que, apesar de letras como a de “Merda de Bar”, em que afirma que “parceiros e cortezes são os manos, que comigo fumam heroína pelos cantos”, a banda não faz apologia às drogas.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=TNq5YQqg2JU]

Eleito em 2006, o agora músico e político passou a conciliar os shows da Comunidade Nin-Jitsu com as atividades de deputado, concorrendo a vice-prefeito em 2008, na chapa de Onyx Lorenzoni (DEM), e tornando-se, em 2010, o primeiro músico brasileiro a reeleger-se deputado estadual. Na atividade política, Mano mescla características e atividades condizentes com o cargo, como a presença em comissões e encontros partidários e o uso de trajes como terno e gravata, com a participação em eventos musicais e culturais. Fora dos palcos, entretanto, procura apresentar-se como o mesmo vocalista irreverente de sempre. Aos 37 anos, utilizando um vocabulário permeado por gírias, movimentando frequentemente as mãos durante sua fala, e trajando roupas informais, como boné, camiseta e tênis, é notável a frequente busca por mostrar uma identificação com os jovens, seu fãs e eleitores alvo.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3BTlBZpiQC0]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=St-F0nghRnw]

Em Cal(e)idoscorpos, Cleide Riva Campelo relaciona corporalidades com semiótica, analisando o corpo como um texto da cultura e contextualizando-o em relação ao mundo físico a que pertence. Assim, segundo a autora (1996, p. 27), desempenhando inúmeras tarefas químicas, físicas e psicológicas e existindo num tempo e espaço determinados, “o corpo sofre também a ação de um tempo mítico: o tempo de cultura, que é a relativização do tempo cronológico”.

Relacionando o estudo semiótico de Riva Campelo com a observação das falas, gestos, aparências e atitudes de Mano Changes, podemos considerá-las como textos corporais que se compõem no tempo da cultura e que se constituem na resignificação de sentidos sobre si mesmo. Dessa maneira, o músico e deputado transita entre dois mundos – o musical e o político – incorporando mudanças de forma sutil. Ele evita grandes modificações, uma vez que “uma mudança radical no estilo corporal de qualquer pessoa causaria grande espanto nos que convivem com ela, pois o estilo faz parte da identidade de cada um” (1996, p. 77). Tratando-se de uma pessoa pública, que busca constante apoio – e votos – de um grande público, sobretudo da juventude, a atenção à manutenção de um “estilo” roqueiro misturado ao político é sem dúvida muito grande.

No artigo “Mídia, imprensa e as novas tecnologias”, Nísia Martins do Rosário também aborda o corpo a partir da perspectiva semiótica, analisando as mudanças comportamentais e a relação da sociedade com o corpo ao longo dos séculos. Considerando o corpo como produtor de sentidos e inserido em um contexto de diversificação, o mesmo costuma estar ligado…
“a um grupo de representatividade capaz de gerar identificação e criar modelos. A exceção à regra, por exemplo, poderia ficar por [conta da deputada federal Esther Grossi. Mesmo tendo uma identidade político-partidária, portanto, filiada a um grupo e inserida num modelo ideológico, ensaia a sua autonomia estética – pelo menos em parte – ao tingir o cabelo das mais diversas cores, construindo sua própria significação” (ROSÁRIO, 2002 p. 303).

Assim como a educadora e ex-deputada Esther Grossi, Mano Changes constrói a sua própria significação dentro de um grupo político, ao adaptar, e não abandonar suas características próprias como artista e vocalista de banda de rock dentro de sua nova atividade.

Créditos: Reprodução
Créditos: Reprodução

 

Referências:
Mano Changes diz que optou pela política para defender os jovens: http://www.clicrbs.com.br/eleicoes2006/jsp/default.jsp?tab=00074&newsID=a1313113.htm&subTab=04095&uf=1&local=1&l=&template=3208.dwt&section=Not%EDcias. Visualizado em 21 de março de 2013.
A Nova Corja entrevista Mano Changes: http://www.novacorja.org/?p=1684 .Visualizado em 21 de março de 2013.
LOTMAN, Yuri M. Cultura y explosión. Barcelona: Editora Gedisa, 1999.
CAMPELO, Cleide Riva. Cal(e)idoscorpos: um estudo semiótico do corpo e seus códigos. São Paulo: ANNABLUME, 1996.
ROSÁRIO, Nísia Martins. Corpo em tempos de pós-modernidade: semiose ilimitada. In: pp. 293 – 309, Mídia, imprensa e as novas tecnologias. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

 

Texto:

Nísia Martins do Rosário
Guilherme Almeida

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *