O cadáver do aceleracionismo
Por Benjamin Noys:
(Tradução: Fabrício Silveira)
Por que chutar o cadáver do aceleracionismo? Mais de dez anos depois de que cunhei o termo — “aceleracionismo” — , pela primeira vez, ele parece ter desaparecido ou ter sido eclipsado por debates mais urgentes. Se o aceleracionismo pode ser definido como o movimento cultural que defende a adoção da tecnologia e do pensamento abstrato para abrir caminho rumo a um futuro pós-capitalista, parece que restam poucos aceleracionistas. Mas não há o risco, especialmente para um crítico do aceleracionismo como eu, de manter vivo algo que já deveria estar morto? É verdade que as paixões despertadas pelo momento aceleracionista se dissiparam, e o movimento que existia, especialmente à esquerda, agora assume formas mais sóbrias e contidas. Se o aceleracionismo é um movimento de vanguarda, na mesma linha do futurismo, então, como tantos desses movimentos, parece ter se esgotado. Isso não é necessariamente algo a ser lamentado, mesmo por aqueles que o abraçaram. Os futuristas italianos viam seu movimento pró-velocidade como algo que deveria se tornar obsoleto pelas forças que eles próprios haviam desencadeado. De um ponto de vista cultural e político muito diferente, Guy Debord, líder dos situacionistas nas décadas de 1960 e 1970, achava que o papel das vanguardas era desaparecer, uma vez que seu trabalho estivesse concluído. Os pró-aceleracionistas podem até argumentar que o aceleracionismo alcançou seus objetivos, colocando os debates sobre tecnologia e transformação social no centro das discussões e, sendo assim, agora pode sair de cena com honra.
Os rumores sobre o fim do aceleracionismo foram exagerados. Numa época muito dada a metáforas góticas, poderíamos acrescentar que o aceleracionismo, apesar de morto, continua a ser um espectro que assombra a paisagem cultural. As questões relativas ao papel da tecnologia em nossa cultura e em relação à mudança política não desapareceram. Os recentes debates sobre grandes modelos de linguagem (LLMs) e inteligência artificial (IA) sugerem o quão urgentes continuam sendo (e o quanto continuarão sendo urgentes) as questões da substituição dos seres humanos por máquinas e do controle da tecnologia. Se o aceleracionismo foi o primeiro movimento de pensamento na era das mídias sociais, então essa era não terminou. O aceleracionismo inicialmente prosperou no espaço dos debates em blogs, permitindo discussões mais longas, e no Twitter (agora X), dando a esses debates uma forma abreviada e pungente. Hoje, as mídias sociais são cada vez mais dominadas por bots, memes, IA e monetização. A decadência de várias plataformas online tirou parte da carga utópica desses espaços virtuais, deixando para trás um cenário mais esparso e mais virulento.
Isso ainda levanta a questão de como devemos lidar com a tecnologia, seus potenciais e seus perigos (mesmo que esses perigos não pareçam oferecer muitas chances de se reverterem, de encontrarmos uma salvação). Embora o aceleracionismo possa ter desaparecido como movimento, juntamente com as plataformas das quais dependia, esse desaparecimento em si levanta questões. Podemos, é claro, observar o domínio corporativo dos espaços online, com uma série de nomes conhecidos (Google, Amazon, Netflix, etc.). Os Zaibatsus da ficção cyberpunk Sprawl, de William Gibson — megaempresas vastas, possivelmente até inteligentes —, certamente estão entre nós. Ao mesmo tempo, os agentes estatais continuam trabalhando e, paralelamente a isso, um espaço cada vez mais automatizado de bots e IA emergente, na forma de grandes modelos de linguagem, prospera. É claro que, mesmo no início da década de 2010, estimava-se que 90% de todo o tráfego diário de e-mails era spam, o precursor de algumas formas de IA contemporânea. O espaço da internet tem sido um espaço de guerra e crise contínuas, à sua maneira. E refletir sobre isso é uma tarefa vital.
Eu diria que o fracasso do aceleracionismo em persistir até os dias de hoje diz respeito à sua falta de envolvimento crítico com a tecnologia. Embora fosse correto levantar questões sobre a tecnofobia de alguns elementos da esquerda e da sociedade em geral, a tecnofilia que a substituiu foi, em grande parte, apenas uma inversão. Esse ponto seria abordado com força devastadora por Harrison Fluss e Landon Frim em seu livro Prometheus and Gaia (2022). Esse livro observou a coincidência de opostos entre o aceleracionismo e seus críticos, como Bruno Latour, que abraçou um pensamento aparentemente alternativo de Gaia e da Terra. Fluss e Frim argumentaram que o que era comum entre essas visões de mundo eram compromissos irracionalistas, incluindo a aceitação do mito como modo constituinte do nosso pensamento. O pensamento da tecnologia permaneceu obscurecido por esse modo mítico. Pode ser que o tipo de questionamento que o aceleracionismo pelo menos começou a fazer precisasse ser feito e continue relevante, mesmo que as formas como essas críticas foram feitas não tenham se mostrado duradouras.
O que então aconteceu ao aceleracionismo, de lá até aqui? Se o aceleracionismo desapareceu ou sofreu uma mutação, será que uma breve reconstrução dos últimos dez anos ajuda a nos (re)orientarmos? Entre o primeiro manifesto aceleracionista (2013), a primeira edição do meu livro Malign Velocities (2014) e agora, houve uma série de manifestos, muitas vezes inspirados pelo aceleracionismo. A inspiração original, e com argumentos para ser considerado o primeiro manifesto aceleracionista, foi o Manifesto para a Filosofia (1999), de Alain Badiou. Badiou já havia insistido na necessidade da filosofia, na necessidade de uma forma matemática abstrata para o pensamento, e já havia feito críticas divertidas às invocações piegas de Heidegger aos camponeses e à Floresta Negra. Acontece que, apesar da adesão de Badiou à alta tecnologia, sua maneira de pensar continuava fortemente influenciada por Heidegger. No entanto, foi a verve polêmica de Badiou, sua adesão à filosofia e sua postura pró-tecnologia que se mostraram influentes. Houve uma breve era de manifestos e, é claro, anti-manifestos, à medida que a batalha sobre o aceleracionismo se espalhava e se intensificava.
Isso não é dito apenas para zombar. O manifesto não era apenas uma forma propícia para a redução da capacidade de atenção, mas também refletia um desejo de romper com a linguagem hierática, dilatória e muitas vezes mistificadora da teoria anterior (especialmente a teoria conhecida como pós-estruturalismo). A própria reviravolta de Badiou contra a linguagem e a insistência na matemática também influenciaram esse desejo de realmente dizer e fazer coisas, em vez de falar sobre dizer e sobre fazer coisas. A tendência derridiana de começar toda discussão com uma meditação sobre começos e títulos começou a parecer a mais arcaica das táticas de adiamento. Dito isso, a forma breve e agressiva do manifesto poderia deixar muito a cargo do leitor. Parte do objetivo original de Malign Velocities era buscar a história e o contexto de várias formas do gesto aceleracionista. As ideias, como disse Mao, não caem do céu, mas emergem da prática social. Os raios dos manifestos lançados do Monte Olimpo das mídias sociais podiam ser energizantes, mas também enervantes. O terreno instável, as suposições sobre a autoria, os vários coletivos que podiam ou não ser coletivos, e as anátemas e denúncias levaram a um cenário agitado e muitas vezes confuso.
Uma característica desse período foi a impaciência com os modos de pensamento anteriores e existentes, com algumas exceções (tal como Badiou). Isso não se aplicava apenas à denúncia aceleracionista da política popular, que afirmava que a política de esquerda existente estava ligada ao humano, à comunidade, à natureza e aos seus limites. Também tivemos, por parte do realismo especulativo, a rejeição do correlacionismo, em que todo o pensamento anterior estava fixado na relação do humano com o não humano e, portanto, não podia acessar a grande realidade exterior. Argumentava-se que a política de esquerda era dominada pelo “programatismo”, em que a esquerda tentava desenvolver programas para liderar os trabalhadores, em vez de seguir a dissolução da identidade do trabalhador. Outro exemplo mais recente é o ataque afro-pessimista aos radicalismos anteriores por serem anti- negros, por ignorarem o papel estruturante da escravidão na sociedade e no pensamento.

A ironia era que esse pensamento se assemelhava muito à tentativa heideggeriana (e derridiana) de pensar além do fechamento da metafísica. Embora Heidegger pudesse estar errado sobre a tecnologia, que ele afirmava ser a última forma de metafísica, ele aparentemente estava certo ao descartar vastas áreas do pensamento como metafísicas. O jogo poderia ser jogado: quem foi o último metafísico? Foi Nietzsche, com sua vontade de poder, como disse Heidegger? Ou Antonin Artaud e seu esgotamento da presença em sua própria loucura, como sugeriria Derrida? Derrida também poderia sugerir que o próprio Heidegger havia sido vítima desse modo de pensar. Embora os movimentos da década de 2010 tivessem como objetivo se livrar do que consideravam debates estéreis, a ironia é que eles os repetiram, dando-lhes novas formas.
Nesta fogueira do passado, houve alguns sobreviventes importantes, nomeadamente Nietzsche e Deleuze. Embora tenha referido a influência de ambos em Malign Velocities, subestimei a influência de Nietzsche em particular. Nietzsche não apenas proporcionou aos aceleracionistas um tom agressivo, mas também uma política cultural antiburguesa, um antagonismo à metafísica e uma aceitação do mito e da estética. Desde a publicação em inglês de Nietzsche, the Aristocratic Rebel (2020), de Domenico Losurdo, e a reedição de The Destruction of Reason (2021), de Georg Lukács, ganhamos recursos valiosos para uma crítica a Nietzsche. O problema não é simplesmente a política declarada de Nietzsche, que é a de um rebelde aristocrático, mas também como seu pensamento é dominado pela política e por uma fragmentação da razão em nome da contingência. É esse ataque metafísico à razão que precisa ser considerado e respondido.
Em termos de aceleracionismo, este não é apenas o problema do aceleracionismo de direita e reacionário, personificado na figura de Nick Land — “nosso Nietzsche”, segundo Mark Fisher. O aceleracionismo de direita e reacionário adota com satisfação o radicalismo aristocrático nietzschiano e sua política de castas, seleção e aniquilação. O problema é que as posições aceleracionistas de esquerda também são comprometidas pelos mesmos compromissos irracionalistas nietzschianos. Essa é a combinação indesejável, como disse Lukács, da ética de esquerda com a epistemologia de direita. Devo acrescentar que essa crítica a Nietzsche também impactou meu próprio trabalho, que era vulnerável em sua adoção da politização nietzschiana que dependia da vontade e da escolha. Algumas figuras associadas ao aceleracionismo, embora de forma marginal, seguiram uma direção diferente — em direção à razão e a Hegel. Isso parece contradizer minha análise. Essa tendência, no entanto, ainda é existencial, ao enfatizar a escolha, e nietzschiana, ao enfatizar a vontade. Sua referência preferida é a um Hegel supostamente não metafísico, e uma de suas principais referências hegelianas, Robert B. Pippin, recentemente redirecionou-se para Heidegger.
Talvez tudo isso signifique que os últimos dez anos não tenham sido tão estranhos quanto podem parecer à primeira vista. Por trás da aparência de mudanças radicais e da renovação de posições e ideias, houve mais continuidade do que imaginávamos. Como sugeri, Deleuze, um dos formuladores mais influentes do aceleracionismo (junto com Guattari), continua altamente influente, e Nietzsche também persiste (em seu poder e) em sua influência. A ênfase dos pensadores pós-estruturalistas na linguagem e na mediação pode ter diminuído, mas o compromisso com uma materialidade fragmentada de alteridade caótica e instável permanece. O que poderíamos dizer é que os compromissos filosóficos ou metafísicos centrais (mesmo sendo considerados antimetafísicos) não mudaram significativamente.
As aparências, é claro, sempre contam. O aceleracionismo é cada vez menos reivindicado como posição nos debates. Suas raras aparições agora parecem surgir entre aqueles da extrema direita que realizam ações violentas. Eles usam o aceleracionismo para se referir à aceleração do conflito, visando atacar espaços de hibridismo e crenças que vão contra os desejos racistas de purificação. Nesse caso, o aceleracionismo se assemelha mais à estratégia da tensão na Itália dos anos 1970, na qual atores de extrema direita tentavam realizar atos violentos que desestabilizassem a ordem existente e incentivassem soluções autoritárias. Essas também são ações isoladas, nas quais a ideologia funciona mais como um rótulo ou até mesmo um meme com o qual um indivíduo se identifica. Podemos ver novamente a influência das mídias sociais, com esses atores de extrema direita adotando o manifesto, o vídeo ao vivo e o meme para justificar e difundir sua ideologia. O aceleracionista, neste caso, é um influenciador maligno (ou mal-intencionado).
Além disso, recentemente, o aceleracionismo reapareceu novamente nos níveis superiores do mundo corporativo, com o aceleracionismo efetivo (e/acc). Agora, o objetivo é usar a tecnologia para sustentar e espalhar a consciência humana (ou o que quer que substitua essa consciência) por todo o universo. Tomando emprestadas ideias de Nick Land e da ficção científica, o e/acc quer criar o desenvolvimento desregulamentado da tecnologia, especialmente da inteligência artificial, para nos permitir transcender o que William Gibson chamou de “a carne”. Aqui podemos ver que o aceleracionismo converge com o mercado capitalista, e a noção distópica das corporações como seres sencientes emergentes, encontrada em Gibson, é revertida na promessa de um futuro radicalmente novo.
O que podemos observar em ambos os casos é a força e a persistência do aceleracionismo de direita. Embora o futurismo italiano tenha sido um movimento heterogêneo, com tendências nietzschianas, anarquistas e proto-fascistas, ele pode servir como um alerta salutar sobre o destino do movimento aceleracionista. Podemos destacar o fato de que o futurismo foi um movimento cultural sujeito a diferentes inflexões, como o futurismo russo, mais à esquerda. Essa diversidade, no entanto, obscurece os compromissos centrais com uma política estética do mito que transforma a tecnologia, de uma realidade social a uma força mítica. A necessidade de compreender a tecnologia, e especialmente o controle da tecnologia (o que costumava ser chamado de controle dos meios de produção), ameaça desaparecer em um movimento que oferece apenas a pseudo-solução da fusão com a tecnologia.
De muitas maneiras, o aceleracionismo foi uma tentativa consciente de reinventar um movimento de vanguarda numa época em que tais movimentos eram considerados impossíveis. Ele também deu a Nietzsche um papel central, por sua política de vontade e mito, exatamente como fizeram as vanguardas anteriores. A aceitação do aceleracionismo entre os artistas, condenada por muitos pensadores aceleracionistas, também apoia essa ideia do aceleracionismo como um movimento cultural mais amplo. Isso não significa negar o papel das ideias ou negar as possibilidades de mal-entendidos, mas sim insistir que essas ideias e mal-entendidos se desenvolveram a partir das ambiguidades e tensões do próprio aceleracionismo. Malign Velocities foi e continua sendo uma tentativa de compreender algumas dessas ambiguidades e tensões, tanto historicamente quanto em seu ressurgimento.
Analisar e compreender o aceleracionismo é compreender algo do que tem acontecido nos últimos dez anos. Pode-se dizer que foi um movimento muito restrito, desconhecido pela maior parte da humanidade — apenas um pontinho em relação a todas as questões e forças reais que moldaram esses anos. Isso pode ser verdade, mas a maneira como o aceleracionismo reencenou gestos do passado e prometeu novos futuros tecnológicos utópicos para a era das mídias sociais ainda me parece reveladora. Ele representou algo das forças e do trabalho reais e sua expressão ideológica nesse período. Se precisamos, como sugeriu Hegel, compreender nosso próprio tempo em pensamento, isso inclui compreender onde podemos pensar que ele se desviou. É por isso que ainda acho que vale a pena reconhecer as velocidades malignas do aceleracionismo e suas mutações.
…
Nota do tradutor: o livro Malign Velocities: Accelerationism and Capitalism, de Benjamin Noys, foi lançado originalmente em 2014, pelo editora inglesa Zero Books. Em 2025, foi relançado, com uma nova apresentação, aqui traduzida, e um novo prefácio, escrito por Steven Shaviro. Foi publicado também na Espanha e na Alemanha.
Hello Donnie!
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