Sobre Teoria das Mídias
Nísia Martins do Rosário
Você percebe diferença entre ler um livro impresso e um livro eletrônico? Nossas experiências dizem que não é a mesma coisa, apesar de, num mesmo título, as palavras, as frases, os parágrafos serem os mesmos no papel e na tela. Mas, como isso se explica em termos comunicacionais? Ao desenvolver a Teoria da Mídia, Harry Prost[1] – entre outros tópicos – auxilia a esclarece sobre esses diferentes perfis dos meios e como eles impactam sobre a comunicação e sobre a cultura. Quem traz ao Brasil a perspectiva do pesquisador alemão e cientista político da comunicação é Norval Baitello Júnior, professor da PUC-SP e pesquisador de destaque na área da comunicação no Brasil e no exterior.

No livro A serpente, a maçã e o holograma, publicado pela editora Paulus, Baitello Júnior esclarece a concepção oferecida por Pross, o qual sistematizou as mídias em primárias, secundárias e terciárias, expandindo o seu entendimento e abrangência para além dos meios de massa, incluindo fatores biotecnológicos, psicoantropológicos, bem como componentes sociais, políticos e econômicos.

A obra do pesquisador brasileiro apresenta cuidadosamente as categorias de Pross, aqui serão apenas pinceladas.
A mídia primária se configura no próprio corpo e nos seus recursos capazes de gerar comunicação pela oralidade, gestualidade, escuta, olfato, tato, expressões faciais, entre outros;
A mídia secundária expande as corporalidades para outros suportes que não mais o corpo, tais como as diferentes formas de escrita (registradas sobre papel, pedras, couro etc), o vestuário, a tatuagem, a pintura sobre o corpo, o design urbano e de produtos. Esses meios permitem a expansão do espaço-tempo da comunicação e da memória;
A mídia terciária é “filha” da eletricidade. Manifestando-se em aparatos eletrônicos – desde a telegrafia até a internet –, ela afeta os processos de mediação, se propaga em escala muito alta e altera com mais intensidade o espaço-tempo da comunicação.
Por meio dessa perspectiva, pode-se voltar a pensar sobre o livro impresso (mídia secundária) e o livro digital (mídia terciária), conforme o início deste texto. As diferenças entre eles, que podem parecer se concentrar no suporte físico, não devem ser compreendidas somente como uma distinção na dimensão material, mas é preciso considerar como cada um desses meios afeta e impacta o modo e o processo de comunicação e como é afetado e impactado pelo ambiente comunicacional. Não se trata apenas de adaptar-se a uma nova tecnologia, mas trata-se de outras experiências olfativas, táteis, estéticas, espaciais, cognitivas; são, portanto, ativados outros vínculos, outras memórias, outros modos de percepção e de tradução.
A serpente, a maçã e o holograma, entretanto, não se detém às contribuições de Harry Pross, a proposta do autor da obra é refletir sobre a Teoria da Mídia[2] também pela perspectiva de Aby Walburg e Vilém Flusser, sem esquecer Dietmar Kamper e Hans Belting. Baitello Júnior busca construir um pensamento comunicacional ecológico voltado ao ambiente comunicacional e cujos princípios são questionadores, críticos e dubitativos. Por esse ângulo, ele afirma que a Teoria da Mídia tem procurado dar atenção também ao entorno, ao ambiente e à geração de vínculos, tornando mais complexos os parâmetros da teoria da comunicação.

No desenvolvimento de seus argumentos, Baitello Júnior emprega as concepções de Flusser sobre a gula, o lixo, a devoração, o consumo, o feminino, os conceitos de escalada da abstração, aparelho e funcionário para chegar às metáforas do vazio e das atividades devoradoras. Sem a pretensão de explicar o pensamento do autor de A serpente, a maçã e o holograma – para que o deciframento seja feito no próprio livro –, trago um trecho provocador do texto, capaz de estimular mentes inquietas:

[…] Flusser demonstra ser um bom aprendiz da Antropofagia, pensando, portanto, todo o fenômeno midiático como operação devoradora, ou seja, pensando a comunicação como processo de incorporação do outro. Cada passagem para uma nova realidade comunicacional significa uma perda, uma subtração de materialidade, de dimensionalidade, um avanço do “vazio” sobre o “cheio” ou sobre o “pleno”.
BAITELLO JÚNIOR, 2010, p. 42
A imagem, que é um alvo importante das pesquisas do autor, é tratada na obra de maneira intensa e problematizada, sobretudo, como mídia terciária (imagem técnica, acústica e visual) que dispensa alfabetização. De natureza paradoxal, essas imagens configuradas por pontos, traços e números são entendidas como a presença de uma ausência e operam na nulodimensionalidade (sem dimensões espaciais). É por esse caminho que Baitello Júnior tensiona, a partir da visualidade, os ambientes culturais de vinculação e uma existência humana iconomaníaca de multiplicação de si e rejeição à morte.
Sobre o título do livro, vale lembrar que a maçã e a serpente têm uma consagrada vinculação bíblica, mas a serpente nessa obra assume também a metáfora do fio elétrico, do raio, da eletricidade geradora da mídia terciária, e a maçã transforma-se em holograma, objeto de um acalorado e engraçado embate entre Vilém Flusser e Vicente Romano – sobre o qual não darei spoiler.
Notas
[1] PROSS, Harry. Medienforshung. Darmstadt: Carl Habel, 1972
[2] Uma teoria que se desenvolveu desde o início dos anos 1990 “nos países europeus onde a formação profissional não obedece aos ditames do mercado, mas se propõe a desenhar futuros de sociabilidade mais amigável”. (BAITELLO JÚNIOR, 2010, p.10)
Referências
BAITELLO JUNIOR, Norval. A serpente, a maçã e o holograma: esboços para uma teoria das mídias. São Paulo: Paulus, 2010.
Como citar este artigo
ROSÁRIO, Nísia Martins do. Sobre Teoria das Mídias. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/sobre-teoria-das-midias/. Acesso em: 12. Out. 2022.
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