Economia Pós-Autista

Nesses tempos de reforma curricular é bom lembrar uma discussão que teve início na França em 2000, quando um grupo de estudantes de Economia lançou o Manifesto Pós-Autista, dando início a um movimento com repercussão internacional que teve resposta de economistas como Robert Solow e James K. Galbraith.

Esses estudantes denunciavam a excessiva matematização da Ciência Econômica e seu afastamento da realidade. A Economia estaria se tornando uma ciência autista. Eles defendiam um ensino mais próximo da realidade, com menos modelos abstratos, além do pluralismo metodológico.

O manifesto, em tradução do prof. Ivo Theis:

“Nós, estudantes de economia, declaramo-nos insatisfeitos com o ensino que recebemos em virtude de diversas razões.

1) desejamos escapar de mundos imaginários: muitos de nós escolhemos o estudo da economia para adquirir uma compreensão aprofundada dos fenômenos econômicos com os quais os cidadãos de hoje são confrontados; no entanto, o que nos é ensinado – e isso é basicamente teoria neoclássica – não atende a nossas expectativas; como se sabe, essa teoria não se reporta a fatos concretos (fatos históricos, funcionamento de instituições, comportamento e estratégias reais dos agentes econômicos), que sejam empiricamente verificáveis. O desprezo da teoria neoclássica convencional pelas realidades concretas nos coloca o problema da inutilidade de nosso aprendizado.

2) opusemo-nos ao uso descontrolado da matemática: a matemática pode ter sido um instrumento importante para auxiliar os economistas a explicarem fenômenos econômicos. Todavia, a matemática parece ter se tornado um fim em si, afastando o conhecimento econômico do mundo econômico real; a formalização matemática presente em muitas análises econômicas tem permitido corroborar hipóteses formais de trabalhos rebuscados e publicar bons papers; mas tem, sobretudo, distanciado o saber em economia dos problemas econômicos verdadeiramente relevantes atualmente.

3) somos favoráveis ao pluralismo de abordagens na economia: tem havido pouco espaço para a reflexão, em grande parte devido ao fato de que as questões econômicas têm sido abordadas de apenas um ponto de vista – o do mainstream neoclássico. Somos contra esse dogmatismo. Queremos um pluralismo de abordagens, ajustado à complexidade de objetos e à incerteza das questões que se referem ao campo da economia (desemprego, desigualdades, vantagens e desvantagens do comércio livre, globalização, desenvolvimento econômico, etc.).

4) chamado aos professores – acordem antes que seja muito tarde: apelamos a todos quanto entendem nossas reclamações para que apóiem reformas no ensino de economia rapidamente; o risco de que os atuais estudantes de economia, do mundo inteiro, abandonem seus cursos é grande – e isso não porque perderam seu interesse na área, mas porque não desejam mais ficar prisioneiros de um conhecimento distanciado do mundo econômico real. Esperamos que prevaleça o bom senso”

Veja aqui o currículo defendido pelos estudantes franceses.

Mais informações sobre o Movimento Pós-Autista podem ser encontradas em www.paecon.net ou no primeiro caderno do PET de Economia da UFF: Para além do Empírico: uma crítica ao Movimento Pós-autista.

8 respostas em “Economia Pós-Autista”

  1. Toda essa choradeira poderia ser reduzida na seguinte frase: “Eu quero ser economista mas não quero estudar matemática.”

  2. Natural que um manifesto desse tipo tenha vindo da França. Afinal, é um povo que passa a maior parte do tempo reclamando daquilo que não é moderno ou que vêm de fora. Não surpreende que a França viva de glórias do passado e que tenha problemas estruturais enormes(as questões dos imigrantes e do desemprego no país são simplesmente caóticas). Economia dinâmica e flexível, nem pensar.

    Os que apóiam tal manifesto, podem ficar tranquilos no curso de economia da UFRGS. Não temos um curso autista, temos um curso marxista.

    Claro que isso é muito pior, autistas sabem fazer contas e certamente são mais tolerantes à mudanças que os marxistas(que veneram um autor desde o século XIX sem nunca questionar suas teorias).

    Um ponto importante é a falta de interesse dos estudantes no curso. Isso é um problema aqui também, o vestibular de economia passa longe da lista dos mais concorridos. O motivo é óbvio: não existe mercado para empregar profissionais formados em Marx. Ainda que muita gente pense que faculdade nao deve ser pautada pelas necessidades do mercado, a maioria dos estudantes pretende utilizar os conhecimentos adquiridos no curso para, no futuro, empregá-los numa profissão que garanta sustento.

    Alguém sabe onde estão contratando gente que saiba calcular mais valia?(Não vale responder: “Na monitoria da cadeira de economia política”.)

  3. 1) Qualquer Ciência só pode trabalhar com “mundos imaginários”. O nome científico desses mundos se chama Modelo Teórico. Se trabalham com modelos porque “a Realidade Concreta” é muito muito muito complicada. Tão complicada que foi preciso inventar uma coisa chamada Ciência para tentar entende-la. Se a realidade fosse simples, não teria porque fazer Ciência. É a velha história do mapa que tem escala 1:1. Ele pode ser muito completo e tudo mais, mas ele não serve pra nada. Por isso os “mundos imaginários” são extremamente úteis em qualquer ciência, até mesmo na Economia. Não existe ninguém que não use modelos. Ninguém. Entretanto, existem aqueles que admitem que estão usando modelos e os outros que acreditam que seus modelos são a “Realidade Concreta”.

    E os modelos neoclássicos modernos são justamente os únicos que permitem a realização de verificação empírica, ao contrário dos marxistas que, quando as previsões dão errado, surge sempre uma nova reinterpretação do Evangelho Segundo Marx.

    2) Eu também me oponho ao uso descontrolado da matemática. A questão é que, até onde eu aprendi, não há uso descontrolado. Otimização Estática/Dinâmica e todas ferramentas matemáticas necessárias para a realização desses problemas são perfeitamente razoaveis e vão ao encontro da teoria neoclássica que assume um agente racional que otimiza. Não existe nada de estranho.

    3) Todo mundo é favoravel ao pluralismo. Quem seria contra? Talvez em Cuba, URSS, Venezuela e Coreia do Norte o pluralismo não seja muito encorajado nas universidades Estatais…
    A questão é que o custo de oportunidade em aprender é positivo. Só existem 4 anos, 8 semestres e algumas centenas de créditos…
    Eu adoraria estudar mais a fundo os Fisiocratas mais a fundo, mas a questão é que deve-se ter prioridade. O foco deveria ser voltado a Economia Moderna que é aceita nos grandes centros acadêmicos e que faz parte dos grandes Journals e Revistas de economia.

    Por isso, mais Samuelson e menos Marx. Mais Mankiw e menos Keynes. Mais Blanchard e menos Rosa Luxemburgo.

    –

    Por fim, gostaria de protestar contra o rótulo de “Economia Autista”.
    A Economia Mainstream (Novos-Keyensianos, Novos-Clássicos e a Nova Síntese Neoclássica) é amplamente aplicada com centenas de milhares de estudos empíricos e verificações. Não é de maneira nenhuma uma Economia Autista, tendo em vista que ela incorpora, sempre que necessário, diversos conceitos que foram desenvolvidos fora do mainstream. O exemplo mais evidente é Keynes. Um sujeito que teve idéias que iam radicalmente contra os Neoclássicos e que teve vários conceitos incorporados a Economia Mainstream.

    Economia Autista são os marxistas e toda essa patuleia que acha que um velho barbudo no século XIX descreveu TODA a economia de maneira perfeita de maneira que ele foi capaz de prever TODO o comportamento da humanidade até o juizo final.

  4. Caros colegas.
    Estamos em plana transição da era da revolução industrial para era da revolução da informação. Tudo está sendo revisto, repensado e, porque a economia não deveria sofrer essa avaliação? Vamos abrir nossa mente à diversidade e pluralidade de pensamento. Há um novo mundo em construção que não aceitará unilateralismos. Só a explicação neoclássica para o comportamento social é insuficiente. A construção revolucionária da nova sociedade está em curso e é impossível frear. Será melhor ou pior? Não sabemos, só sabemos que será diferente.

  5. Só a explicação neoclássica para o comportamento social é insuficiente.

    Por isso que hoje em dia se estuda economia comportamental e racionalidade limitada. Desde as teorias do consumidor e da firma, a teoria econômica ortodoxa já evoluiu um monte, incorporando muitos aspectos que antes eram considerados heterodoxos.

  6. Todo mundo falou em Marx, o tempo todo, esse é justamente o problema do nosso curso. Os professores(com exceção de uns 4 ou 5) não param de falar em Marx, aí falta conteúdo, falta mercado de trabalho, falta aluno interessado, falta tudo.

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