Criatividade na Pesquisa

Por Dr. Alexandre Arenzon – 27/06/23 

Realizar pesquisas no Brasil requer um certo nível de criatividade, se não muita. O Laboratório de Ecotoxicologia da UFRGS tem se dedicado a diversos projetos de pesquisa que têm como objetivo desenvolver e aprimorar métodos de avaliação da toxicidade em peixes. Nossos projetos abrangem desde o desenvolvimento embrionário do zebrafish até ensaios de letalidade e efeitos comportamentais destes organismos. No entanto, para realizar estas pesquisas, além do sucesso na reprodução dos organismos, é fundamental garantir uma alta taxa de sobrevivência das larvas. Para isso, contamos com um sistema de cultivo de peixes com recirculação de água após tratamento. Mas não pense que se trata de um sistema de tratamento tecnológico. Basicamente trata-se de um conjunto de aquários acoplados a um sistema de filtros (SUMP) mecânicos, biológicos e luz ultravioleta que recebem, tratam e devolvem a água para os aquários.

Quando mantidos em laboratório, os zebrafish podem atingir altas taxas de sobrevivência, desde que sejam fornecidos alimentos adequados, e que os parâmetros de qualidade da água, como temperatura, pH, oxigênio e níveis de amônia, sejam mantidos dentro de faixas aceitáveis.

Normalmente, laboratórios que não possuem os caros sistemas automatizados de cultivo de peixes acabam mantendo as larvas de zebrafish em béqueres, ou outros recipientes, que requerem trocas frequentes, se não diárias, de toda ou parte da água. Esse manuseio excessivo acaba reduzindo a sobrevivência dos organismos.

Após vários experimentos, conseguimos desenvolver um sistema que garante uma taxa de sobrevivência de mais de 90%, sem a necessidade de manuseio das larvas. Nosso sistema consiste em uma sequência de “filtros de cafeteira”, que funcionam como cestos onde as larvas são mantidas. Essa estrutura é conectada ao sistema de filtros do laboratório e, por meio de um gotejamento contínuo dentro de cada cesto, garante a qualidade da água. O fluxo de água é interrompido apenas para alimentar os organismos, garantindo que o alimento (Paramecium) permaneça concentrado, e disponível, por mais tempo para os peixes.

Os peixes são introduzidos no sistema logo após a eclosão e ali permanecem até serem utilizados nos experimentos (de 8 a 14 dias) ou transferidos para os aquários de crescimento. Nossos dados indicam que é possível manter até 200 larvas em cada cesto sem redução na taxa de sobrevivência.