Coordenação: Rafael Cristaldo (UFRGS) e Taiane Naressi Lopes (UFRGS)
Debatedores(as): Carlos Henrique Cerezer Machado
Modalidade: Online
Resumo: As religiões, sempre acompanharam os humanos – até mesmo quando são negadas. Este Grupo de Trabalho quer reunir pesquisadoras e pesquisadores que apresentem como as religiões, em sua diversidade, se relacionam com emergências climáticas e os discursos ecológicos. Como cada religião explica o que são as catástrofes climáticas? Como o discurso ecológico muda e molda as práticas religiosas? Como as catástrofes climáticas e os discursos ecológicos se relacionam com as mitologias? Como que ações e discursos religiosos nesses planos se fazem presentes no espaço público? Convidamos você para compor este espaço que visa a escuta e o compartilhar de diferentes enfoques religiosos frente às mudanças climáticas que estão ocorrendo. Juntos, além de ampliarmos as reflexões e o conhecimento sobre o que cada vertente religiosa interpreta e aponta como uma via possível, nos fortalecemos enquanto uma área a compreender estes fenômenos atuais. Ademais, também aceitaremos trabalhos que tratem das religiões em temáticas diversas, basta intercalar o tema do seu trabalho com a capacidade de antropologia de narrar a vida em outros contextos.

Apresentações selecionadas (Terça-feira 11/11, 8h-12h):

Deus é Tudo em tudo – a Cosmologia Sufi de Sheikh Nazim al-Haqqani
Autoria: Rafael Magalhães Vasconcelos Maron (UFBA)
Resumo: A presente proposta, vinculada à pesquisa de doutorado em andamento, está situada na área temática de Antropologia da Religião, com foco na religião islâmica e em sua vertente mística, o sufismo. Com mais de um bilhão de praticantes, o Islã possui grande diversidade interna, composta por diferentes escolas jurídicas, teológicas e propostas espirituais. A principal fonte religiosa, o Alcorão, é a mesma para todos os praticantes, mas as diferenças hermenêuticas em sua interpretação dão margem aos diversos segmentos dentro da religião. O sufismo, conhecido como a via mística do Islã, surgiu por volta do século VIII d.C. Inicialmente uma proposta de um estilo de vida ascético e de pobreza espiritual, o sufismo se desenvolve em uma prolífica tradição de contemplação mística do Divino, organizando-se em ordens sufis (turuq, sing. tariqa), baseadas nos ensinamentos codificados de mestres carismáticos e herdados a partir de uma cadeia sucessória. Diferentemente de interpretações exegéticas do Alcorão, os ensinamentos do sufismo advêm de experiências e visões espirituais dos mestres, o que gerou grande diversidade de crenças e práticas complementares às práticas canônicas islâmicas. A ordem Naqshbandi Haqqani é atualmente uma das maiores do mundo, de caráter transnacional e presente em países islâmicos e não islâmicos. Foi liderada por Sheikh Nazim al-Haqqani (1922-2014), e atualmente é conduzida por seu filho, Sheikh Mehmet Adil (1957). Me baseio na abordagem crítica de Talal Asad, que desconstrói a ideia de religião como uma crença privada, e recorro a alguns de seus conceitos como “tradição discursiva” e a relação entre religioso e secular. Partindo dessa abordagem, pretendo fazer uma investigação etnográfica na sede da ordem em Istambul. O objetivo é compreender a relação entre seu discurso autoritativo, baseado em uma relação pessoal de seu mestre com o plano espiritual e o Divino, e as dinâmicas da modernidade e do mundo material e concreto. Como uma tradição opera discursivamente suas mudanças rituais e subjetivas diante do mundo contingente? Como o trabalho de campo ainda não foi iniciado, o recorte desta proposta de trabalho enfatizará os discursos de Sheikh Nazim al-Haqqani, buscando compreender como se dá a construção de sua narrativa cosmológica, que articula os acontecimentos ambientais e geopolíticos do último século com as tradições escatológicas islâmicas sobre o fim dos tempos.
Palavras-chave: Islamismo; Sufismo; Religião; Mística

RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA E AFRO-BRASILEIRAS: MULHERES NEGRAS DE TERREIRO EM UMA CIDADE DA FRONTEIRA (BAGÉ- RS).
Autoria: Hélen de Oliveira Soares Jardim (UFPEL) e Cláudio Baptista Carle (UFPEL)
Resumo: As primeiras manifestações religiosas de matriz africana e afro-brasileira no Estado do Rio Grande do Sul (RS) resultam da diáspora forçada de africanos (as) submetidos à escravização, estando em permanente transformação no transcorrer da história (CORRÊA, 2016, p. 41). Na cidade de Bagé (RS) localizada na fronteira do Brasil com o Uruguai não foi diferente. Contudo, entendo que as práticas de resistência subvertem o pensamento científico eurocêntrico. Sodré (2017) propõe a criação, possibilidades e a elaboração de uma “filosofia nagô”, como uma “forma alternativa de subverter ao pensamento ocidental, excludente e cristão. Atenta as cosmopercepções, narrativas, subjetividades e memórias de mulheres negras produzidas nos terreiros, trago um pequeno recorte da pesquisa em andamento no Doutorado em Antropologia na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), bem como a inserção etnográfica junto ao campo afro-religioso através dos diálogos espontâneos realizados com duas Yalorixás: Maria de Oxalá e Margareth de Oxum. Estas mulheres são dirigentes de Umbanda e de Quimbanda a mais de 30 anos, e, para ambas, o Batuque passou a fazer parte da sua trajetória religiosa anos mais tarde. A pesquisa dialogará com a ideia de “Escrevivência” de Conceição Evaristo (2016), assumindo meu posicionamento político-metodológico de (re) existências dentro do campo por ser uma mulher negra adepta dessas religiões há quase 30 anos, provocando-me a sentir, vivenciar, presenciar e aprender com/e/as interlocutoras da pesquisa. O caminho ainda é longo, porém, a importância desta no campo da Antropologia e das Ciências Humanas e Sociais, é de grande relevância em prol da diversidade religiosa, principalmente para a compreensão dessas manifestações religiosas como forma de pertencimento, preservação, legitimidade social em um contexto de fronteira, já que “brasileiros e platinos foram integrados em várias redes de parentesco religioso” nas últimas décadas (ORO, 1999, p. 92).
Palavras-chave: Religiões afro, Mulheres Negras, Resistência.

Rituais que fazem território: Wituk, cosmologia e defesa ambiental em Sarayaku
Autoria: Maria Caroline Franco Valentim (UFC)
Resumo: Analisa-se o wituk, prática de pintura corporal do povo Kichwa de Sarayaku, como ritual que produz e torna visível o território. A questão central é como o wituk atua como dispositivo simbólico e político para proteger o território diante de pressões extrativistas, traduzindo desequilíbrios ecológicos em termos cosmológicos e mobilizando ação pública.
Metodologia e status da pesquisa: estudo qualitativo, bibliográfico e documental. A análise baseia-se em reanálises de etnografias e estudos sobre Sarayaku e casos análogos, em registros audiovisuais comunitários e de mídia, e em documentos coletivos e manifestos indígenas. As interpretações apoiam-se na triangulação de pelo menos duas fontes por afirmação. A pesquisa encontra-se na fase de sistematização das fontes e elaboração analítica; não houve trabalho de campo in loco.
Quadro teórico: articula-se uma leitura entre ontologias indígenas e relações humano–não humano (VIVEIROS DE CASTRO, 2004; DESCOLA, 2005; KOHN, 2013) e produções de autorias indígenas, especialmente KRENAK (2019) e KOPENAWA; ALBERT (2010). Krenak oferece um enquadre sobre a responsabilidade de adiar o fim do mundo; Kopenawa conecta cosmografia xamânica à denúncia da destruição ambiental. A partir desses aportes, o wituk é interpretado como tecnologia de resiliência: o corpo pintado atua como extensão do território e a performance ritual reconfigura temporalidades de renascimento e redes de cuidado.
Contribuições esperadas: mostrar que práticas religiosas indígenas operam simultaneamente como cosmologia, cuidado ambiental e estratégia política, oferecendo elementos analíticos para a antropologia das religiões e propondo caminhos éticos e metodológicos para pesquisas colaborativas futuras.
Palavras-chave: Wituk; Sarayaku; pintura corporal; cosmologia indígena; defesa territorial

Depois da proibição, o quê? Transfusão de sangue e o lugar do conhecimento médico-científico nas publicações da Sociedade Torre de Vigia.
Autoria: Carlos Henrique Cerezer Machado (UFRGS)
Resumo: Desde 1945, as Testemunhas de Jeová têm recusado integralmente qualquer procedimento médico que envolva a transfusão de sangue. Embasadas pela reinterpretação de passagens bíblicas que proíbem seu consumo alimentício, o presente trabalho tem como objetivo analisar as consequências que essa doutrina tem tido na maneira em que a Sociedade Torre de Vigia, autoridade centralista da denominação, qualifica procedimentos médicos e conhecimentos científicos, resultando não no seu silenciamento mas numa proliferação de discursos sobre esses artefatos: hemodiálise, transplante de órgãos e de medula óssea, vacinação, fracionamento de sangue, doação e exame de sangue, cirurgias cardíacas, flebotomia, entre muitos outros. A partir de uma análise documental de suas publicações, argumento que essa doutrina, longe de apenas se estabelecer como uma simples proibição, acaba resultando em casuísticas muito mais complexas do que esperado –– Aqui, num diálogo crítico com o trabalho de Mary Douglas (2019) sobre as dinâmicas sociais e simbólicas de classificação. Assim, acaba envolvendo não apenas relações de interdição, mas também relações de permissibilidade, estabelecendo zonas cinzas caracterizadas por posições ambivalentes e, de forma marcante, pela articulação interessada dos próprios conhecimentos médico-científicos como estratégia de legitimação extra-teológica. Isso possibilita reflexões perante o “problema de demarcação” epistemológica entre ciência e não-ciência no contexto da gestão do conhecimento científico por atores religiosos. Assim, se trata de conceber a relação religião-medicina, seguindo Lucas Baccetto (2022), como uma relação englobante que sujeita a medicina aos parâmetros da teologia, não apenas em termos de oposição e/ou controle mas de dependência mútua. O trabalho apresentado deriva da pesquisa realizada em ocasião do meu trabalho de conclusão de curso e, portanto, está num estágio bastante inicial, limitado empiricamente pelo seu escopo majoritariamente documental e bibliográfico.
Palavras-chave: Religiões afro, Mulheres Negras, Resistência.

