Coordenação: Victoria Mello Fernandes (UFRGS)
Debatedores(as): Aliziane Bandeira Kersting (UFRGS) e Matheus Henrique Dias da Silva (UFRGS)
Modalidade: Online
Resumo: Este Grupo de Trabalho busca acolher as diversas discussões que se estruturam em torno do signo da “saúde”. Interessa-nos reunir pesquisas que, ao mesmo tempo em que tensionam a ideia de saúde como categoria normativa, institucional e biomédica, também abram espaço para pensar as múltiplas possibilidades de promoção e produção da saúde em contextos situados. O GT convida trabalhos que investiguem como corporalidades, moralidades e experiências de sofrimento são atravessadas por relações de poder, desigualdades sociais, normas jurídicas e arranjos institucionais, bem como por práticas de cuidado e estratégias cotidianas de resistência e invenção. Ao mesmo tempo, propõe um espaço de diálogo crítico para refletir sobre os modos como justiça e moralidade se imbricam na produção de legitimidades, exclusões e disputas por reconhecimento e direitos. Nosso objetivo é reunir pesquisas e perspectivas que abordem a saúde em sua pluralidade – como política pública, campo de disputa moral e prática coletiva, reconhecendo que os sentidos e práticas de saúde se reconfiguram diante de marcadores sociais como gênero, raça, classe, sexualidade, etnicidade e deficiência. Ao criar um espaço de encontro para esses debates, pretendemos ampliar o diálogo antropológico sobre as formas de viver, adoecer, sofrer e cuidar, em sua complexidade e diversidade.

Apresentações selecionadas (Segunda-feira 10/11, 8h-12h)

ADEQUAÇÕES NO PRIMEIRO ANO DA UNIDADE PSIQUIÁTRICA DO CENTRO DE CUSTÓDIA HOSPITAL VILA NOVA
Autoria: Elisandra de Souza (SUSEPE)
Resumo: Justificativa e Objetivos: A partir da Resolução n. 487/2023 do Conselho Nacional de Justiça que instituiu a Política Antimanicomial em diversos níveis, incluindo o âmbito prisional, a Polícia Penal do Rio Grande Sul através do Departamento de Tratamento Penal deu início às tratativas para o seu cumprimento. O tratamento de pessoas privadas de liberdade com transtornos mentais até então era feitas de duas formas, os casos menos graves eram tratados dentro da casa prisional onde a pessoa estava recolhida, com medicações e atendimentos psicológicos, já os casos mais graves, acontecia a transferência para o Instituto Psiquiátrico Forense na cidade de Porto Alegre – RS. A Unidade 05 inaugurada em setembro de 2023 contava inicialmente com 21 leitos, sendo um de isolamento, mas no decorrer das atividades a capacidade foi revista para 18 leitos, sendo que dos quais no momento efetivamente são ocupados 14 leitos, buscando a qualificação do atendimento e a segurança dos próprios custodiados que apresentam transtornos sociais, deste último caso por vezes este precisa ficar em cela isolado até a estabilização do estado clínico. Métodos: Para análise desse primeiro período de inauguração da Unidade 05 foram analisados os dados quantitativos de internações, bem como dados empíricos coletados entre servidores penitenciários e especialistas da área da saúde envolvidos na operação da Unidade 05. Resultados: Analisando o primeiro ano de funcionamento, podemos afirmar que o grande desafio segue sendo espaço físico, que não atende a grande demanda atual do sistema prisional do Estado. Como pontos positivos, podemos citar a reunião semanal de equipe, que reúne todos os profissionais envolvidos no atendimento aos pacientes da Unidade 05, corpo clínico e Direção do Centro de Custódia Hospitalar Vila Nova (CCHVN), que permite uma maior aproximação entre as questões de segurança e os cuidados necessários ao atendimento da saúde mental. Os aspectos negativos relevantes são a dificuldade na adesão ao tratamento pelos socioeducandos, principalmente após o período de internação no CCHVN, onde retornam as casa prisionais de origem, lugar que em sua maioria não está preparado para receber e manter os cuidados necessários as peculiaridades de pessoas com comprometimento psicológico grave. Como efeito temos a reincidência nas internações do mesmo paciente. Outro aspecto é a alta demanda e o reduzido número de leitos disponíveis ao atendimento desse seguimento de apenados, considerando que as internações são de longa duração. Como consequência a fila de espera por um leito psiquiátrico é volumosa e morosa.
Palavras-chave: Saúde mental

Processos de quilombagem no SUS e além: uma análise das práticas de cuidado e contra-lógicas quilombolas na Paraíba
Autor: Thayonara Marina da Silva Santos (UFCG)
Resumo: O objetivo central que mobiliza este trabalho é analisar as agências, ações e metodologias quilombolas no e diante do Sistema Único de Saúde (SUS), compreendidas aqui enquanto processos contemporâneos de quilombagem (MOURA, 1989). Em linhas gerais, a Quilombagem para Clóvis Moura, como práxis política quilombola, tem o potencial de ameaçar e até desmantelar uma ordem dominante, construindo modos próprios de existir e de organizar a vida. Por este caminho, o recorte priorizado na presente investigação centraliza práticas que revelam tensionamentos, controvérsias e disputas epistêmicas na Paraíba, partindo do pressuposto de que as práticas quilombolas aqui investigadas operam em uma contra-lógica no SUS e além dele. Isto é, ao passo que ordenações sistêmicas burocráticas e capitalistas já consolidadas são postas em xeque, em perspectiva dialética, um outro modelo de saúde pública no Brasil, para os quilombos, tem sido proposto e germinado, desde aqueles corpos-quilombo que atuam dentro do sistema público de saúde, até aqueles que são usuários dos serviços. Na edificação deste sistema, os corpos-quilombo analisados nesta pesquisa, desenvolvem metodologias próprias de conduzir cuidados e de articulação política, em harmonia com o território, desafiando sentidos hegemônicos de saúde e formas burocráticas de gerir serviços e instituições públicas. Uma das hipóteses desta pesquisa está atenta à existência de uma Ética da Quilombagem, que se manifesta na percepção e ação contra-burocrática em relação a mediações e mediadores de práticas e políticas de saúde. De caráter multi-situado, a pesquisa tem demandado a combinação de diferentes técnicas, desde entrevistas semiestruturadas, observação durante trabalho de campo, pesquisa bibliográfica e documental, assim como a análise de documentos oficiais das gestões públicas municipais, estadual e federal. Reunindo discussões que compõem minha pesquisa de doutorado em Ciências Sociais, em andamento desde o ano de 2023, o trabalho investigativo no campo da Saúde Quilombola, que se inicia em 2018, tem sido possível, até os dias atuais, a partir da pesquisa qualitativa e da interlocução de profissionais de saúde quilombolas e não quilombolas, que atuam na Paraíba. Dessa maneira, acompanhando as diferentes formas de interações no mundo contemporâneo, as possibilidades de performances e circulação de narrativas em diferentes contextos, esta pesquisa é o resultado de experimentações investigativas, do trânsito entre diferentes tempos, lugares de pesquisa e análise de fontes distintas, sem dispensar o ciberespaço das plataformas multimídia, sites e perfis institucionais em redes sociais, centralizando, sobretudo, a experiência de usuários quilombolas do SUS e profissionais de saúde que atuam ou já atuaram no estado da Paraíba e em duas comunidades quilombolas, uma no sertão e outra no litoral do estado.
Palavras-chave: Quilombagem; Quilombos; Saúde Quilombola; Cuidado

Sobre os fins de olhos d’água: Um estudo das atitudes perante a morte da população negra na sociedade brasileira a partir da literatura
Autoria: Julya Batista Cezar (UFMG)
Resumo: Se muito pode-se saber de um mundo a partir do estudo de suas atitudes perante a morte e os mortos, questiono-me o que os modos distintos que interpretamos a realidade da morte dizem a respeito do tratamento de vidas negras e marginalizadas pela sociedade brasileira. Ao procurar respostas nas estatísticas, evidencia-se a vulnerabilidade de pretos e pardos à violência letal, a qual, segundo o Atlas da violência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada de 2025, intensifica-se na última década, em todas as regiões do país. No entanto, com o ensaio, busco uma abordagem mais aprofundada e subjetiva desse cenário de violência e morte; por isso proponho uma discussão teórica a partir de exercício comparativo entre duas obras da literatura nacional: o romance Fim, de Fernanda Torres, e a antologia Olhos d’água, de Conceição Evaristo. Ao meu ver, a literatura de ficção tem muito a dizer, não só sobre a sua autoria, mas também aos modos de vida do mundo que a produziu, por mais “inventada” que seja. Compartilho da opinião de Conceição Evaristo, na introdução de Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), de que todas histórias, mesmo as mais reais, são um tanto inventadas, uma vez que, nos espaços vagos entre o acontecimento e a narração, muito é acrescentado. Além disso, também concordo com Luciany Aparecida, escritora contemporânea baiana, que, em entrevista à TV Brasil, afirma que a literatura tem uma responsabilidade social de “nos fazer sentir o que pode estar no nosso cotidiano em um lugar de não-percepção e não-emoção”. O estudo foi finalizado e conclui-se que as atitudes perante a morte no Brasil revelam uma apatia quanto aos ataques e sofrimentos estruturalmente pensados e infligidos aos corpos negros tanto em vida quanto na morte, de forma que pessoas pretas e pardas são forçadas à modos de vida privados de escolhas e profundamente enlutados.
Palavras-chave: Antropologia da morte; Mortalidade; Racismo; Desigualdades raciais; Literatura.

A SITUAÇÃO DO ATENDIMENTO AO PARTO DAS MULHERES PATAXÓ NO EXTREMO SUL DA BAHIA SOB A PERSPECTIVA DE UMA ANTROPÓLOGA INDÍGENA
Autoria: Ísis Passos Brandão (UFBA)
Resumo: O presente trabalho trata-se de uma pesquisa de mestrado em andamento no campo da Antropologia da Reprodução, que investiga os conflitos entre os modelos de atenção ao parto — o biomédico hegemônico e os sistemas de autoatenção indígenas — do Povo Pataxó da Terra Indígena Barra Velha no extremo sul da Bahia. A pesquisa busca compreender como os saberes tradicionais e as medicinas indígenas entram em tensão com a lógica biomédica hospitalar, revelando desigualdades interseccionais que atravessam raça, etnia, gênero e classe nos contextos de atenção obstétrica. Por meio de uma abordagem etnográfica que dará destaque às narrativas de mulheres indígenas, e agentes que atendem o parto, mas também inclui os métodos história de vida e escrita autobiográfica da doula pesquisadora. O estudo pretende analisar como práticas de cuidado ancestrais são mobilizadas, reinterpretadas ou silenciadas dentro do espaço institucional de saúde oficial. Ao abordar os atravessamentos entre cosmologias indígenas e práticas biomédicas, a pesquisa pretende contribuir para o debate sobre a descolonização da saúde reprodutiva e o reconhecimento das medicinas tradicionais como forma legítima de cuidado e agência sobre os próprios corpos.
Palavras-chave: Parto indígena, modelos de autoatenção, descolonização, medicina indígena

