Apresentação
A Comissão de Imagem Fixa e em Movimento apresenta Imagens em formação, exposição coletiva que reúne fotografias, desenhos e registros ora de experimentações ora de processos com imagens. As obras resultam de pesquisas e práticas que dialogam com a Antropologia, e foram selecionadas por meio de chamada pública, realizado para o VI Encontro Discente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS.
Nossa mostra dá continuidade às mostras de Antropologia Visual realizadas por e para discentes ao longo das edições do Encontro Discente. O evento, que surgiu em 2017 com a intenção de criar um ambiente de trocas entre colegas do PPGAS/UFRGS, hoje, na sua sexta edição, com alegria, acolhe trabalhos de programas de diferentes cidades e estados do Brasil.
As produções reunidas revelam a vitalidade do campo da Antropologia Visual, que se manifesta em múltiplas formas de criação: fotografia, desenho, colagens, bordados e outras experimentações que enriquecem o diálogo entre arte e antropologia. Quando não inventando a roda, fazendo com que ela siga girando.
Com a mesma intenção de promover trocas e encontros entre discentes que acolhemos os trabalhos de colegas e os organizamos justamente na Sala de Aulas do PPGAS. Ocupamos, assim, esse espaço de ensino e aprendizagem com os trabalhos artísticos que realizamos, como um modo também de incentivar colegas a experimentações nesse sentido.
Com ânimo pelos diálogos e frutos que podem surgir, convidamos toda a comunidade a apreciar os trabalhos acolhidos.

Obras e autorias
Rumo ao abismo com o dragão e sua “ciência sem forma”.
Alex Hermes
Como artista e doutorando em Antropologia, investigo a intersecção entre ciências sociais e artes, focando em como memória, trauma e realidade são construídos através de imagens. Minha pesquisa participativa ocorre no território indígena Pitaguary (CE), em espaços sagrados onde práticas de pajelança e Umbanda se unem à luta por direitos territoriais. Utilizando a metáfora do “abismo” e do “dragão”, exploro o silêncio e o caos resultantes de uma história de apagamento. Através de uma metodologia de “Mesa”, inspirada no Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, emprego a montagem de fotografias e arquivos para desconstruir cenários sociais e criar narrativas que dialogam com a memória e a imaginação. Este processo busca romper fronteiras entre arte e saberes tradicionais, propondo a imagem como ferramenta para acessar memórias, exorcizar traumas e fabular mundos possíveis. A “Mesa” funciona como um espaço colaborativo onde o encontro com as imagens gera novas formas de conhecimento e de articulação entre o passado e o presente.

Memórias em Palimpsestos: resgatando imagens de um acervo familiar atingido pela enchente de 2024
Gabriel Cortezi Schefer Cardoso / Mestrando / PPGAS – UFRGS e Júlia da Rosa Martins / Graduanda / Unilasalle Canoas
4 de maio de 2024, Canoas, Rio Grande do Sul. A chuva torrencial aterrorizava a noite dos gaúchos. Os rios transbordavam, as sirenes soavam e os diques rompiam. A água tomou conta de mais de 60% da cidade, forçando mais de 125 mil canoenses a abandonarem suas moradias. Assim foi anunciada a enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, uma das maiores catástrofes ambientais do Brasil. As casas permaneceram submersas por mais de 25 dias. Neste ensaio fotográfico, registramos o processo de resgate de mais de mil fotografias, documentos e álbuns de uma família atingida pela enchente. Essa experiência exprime a relevância do ofício do antropólogo visual, cujo conhecimentos se tornam valiosos no resgate de registros afetados. Refletimos sobre como essas imagens, marcadas pela enchente, passam por um novo processo de significação. Se antes eternizavam momentos, agora suas histórias são atravessadas por um duplo marco: o retrato do passado e o vestígio do presente. Transformadas em palimpsestos da memória, elas revelam-se como dupla-imagens: revivem lembranças do passado e, ao mesmo tempo, carregam em suas manchas as marcas da memória e do desastre.

Vigília pela Terra: Memória, Resistência e Esperança
Gabriela Fialho e Rafael Proença, Graduandos em Ciências Sociais (UFRGS)
A pesquisa “Juventude, Ações Sociais Cristãs e Perspectivas de Futuro” se orienta em como as ações sociais conduzidas por agentes religiosos transformam as perspectivas de futuro da juventude e para quais direções. As lideranças religiosas influenciam e inspiram as comunidades por meio de subjetividades ético-políticas, e isso pode ser visto através do trabalho social do Coletivo Abrigo, uma organização dedicada à promoção de educação, cultura, esporte e assistência social, que atua no bairro Sarandi, em Porto Alegre (RS). O bairro faz parte da periferia da cidade e foi extremamente afetado pelas enchentes de maio de 2024, transformando os projetos futuros dos indivíduos em incertezas. Completando um ano do desastre climático que atingiu o estado do Rio Grande do Sul, foi realizado pelo Coletivo Abrigo e pelo ISER, um evento inter-religioso chamado “Vigília pela Terra”, com o objetivo de refletir sobre o futuro diante das mudanças climáticas e dos impactos socioambientais. Trata-se de um ato em defesa do bioma Pampa, em memória de um ano da enchente e em direção à Cop30. O encontro promoveu intervenções artísticas por meio do diálogo inter-religioso e teve como principal iniciativa a articulação de grupos religiosos para o fortalecimento de ações de enfrentamento à crise climática. Ao promover alianças entre fé, arte e política, a vigília apresenta formas de cuidado, solidariedade e pertencimento ecológico no contexto do bioma Pampa e das comunidades afetadas pela enchente, conectando o passado da catástrofe à ação comunitária presente e à esperança de um futuro pautado na justiça ambiental. Dessa forma, destacamos que o trabalho do Coletivo Abrigo nos mostra, que mesmo em meio à tragédias, emergem sementes de futuro. É nessa incerteza criada que possíveis futuros plurais se desenham através de práticas concretas de reconstrução do viver.

Caderninhos do cotidiano: registrar-pensar o futebol espetacularizado.
Gabriel Moreira Monteiro Bocchi, doutorando (PPGAS/UFSCar).
No curso dos últimos oito anos, o autor tem desenvolvido o projeto de desenhos sobre o dia a dia intitulado “Caderninhos do cotidiano”. Caminhos, estranhamentos, sujeitos e percepções diversas, vivenciados durante ações e deslocamentos cotidianos, são registrados por meio de desenhos, anexação de objetos e legendas descritivas. À priori desenvolvido com intuitos artísticos e pedagógicos, ao longo do processo de doutoramento (iniciado em maio de 2023), realizar registros ilustrados de situações do dia a dia têm sido inserido às linguagens possíveis ao trabalho de campo antropológico. No caso da etnografia vinculada ao atual projeto de pesquisa do autor, centralizado em pensar relações de sociabilidade vinculadas ao futebol espetacularizado, tem elaborado registros de tal ordem a partir das práticas e vivências etnográficas. Os desenhos abrangem situações (mais ou menos ordinárias) que registram e despertam o pensar sobre os temas e subtemas da pesquisa.
Para a participação nesta Exposição Coletiva, selecionou-se desenhos que remetem a alguns dos temas de atenção na pesquisa: relações entre rivais, variações nas vestimentas e deslocamentos corporais.

Mulheres na EJA: entre afetos_ofícios_sonhos
Katiuci Pavei _ doutoranda PPGAS/UFRGS
A EJA tem predominância de alunas mulheres negras (Brasil, 2024). A negritude as torna ainda mais vulneráveis à violência, vivenciando diariamente a interseccionalidade da opressão – de raça, gênero e classe -, que estrutura socialmente o nosso país. A partir de conversas com as minhas alunas no Colégio de Aplicação/UFRGS, fui conhecendo suas trajetórias, desafios e realidades cotidianas. Seus caminhos são marcados pela constante negociação de fronteiras: * Retorno à Escola: A busca pela conclusão da educação básica e pelo saber. * Trabalho: A necessidade de conciliar os estudos com os fazeres profissionais para o sustento. * Cuidado: Os ofícios afetivos (casa, filhos, família) e a consequente dupla ou tripla jornada. * Esperança: A força motriz dos sonhos agenciados, buscando autonomia e um futuro melhor. Vidas que se encontram no espaço etnográfico da sala de aula e que compõem uma trama baseada em respeito, resiliência e admiração.

Ficha técnica
Comissão organizadora:
Júlia Mistro Rodrigues
Leo da Silva
Luana Bohrer Krob
Mareu Nunes Ferreira
Mário Ferreira da Silva
Comissão de seleção:
Júlia Mistro Rodrigues
Luana Bohrer Krob
Mareu Nunes Ferreira
Mário Ferreira da Silva
Artistas-pesquisadores(as):
Alex Hermes
Gabriel Cortezi Schefer Cardoso
Gabriel Moreira Monteiro Bocchi
Gabriela Fialho
Katiuci Pavei
Júlia da Rosa Martins
Rafael Proença
Produção e montagem:
Adilson Silva da Silva
Júlia Mistro Rodrigues
Luana Bohrer Krob
Mareu Nunes Ferreira
Mário Ferreira da Silva
Materiais gráficos e identidade visual:
Gabriela Aguiar
Apoio:
Adão Sérgio Fraga de Oliveira (Servidor UFRGS/Portaria IFCH)
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS)
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UFRGS)
Núcleo de Antropologia Visual (NAVISUAL/UFRGS)
Local: Sala de Aula PPGAS / UFRGS
Período: de 10 à 24 de Novembro 2025

