Por Alef L. Vaz
O consumo crescente de fármacos, hormônios e pesticidas no mundo atual gera um grande problema que merece nossa atenção: a contaminação de lagos, rios ou depósitos subterrâneos (mananciais) com resíduos desses produtos. A partir de estudos realizados em mananciais foram encontrados vestígios de medicamentos e outros produtos químicos, como por exemplo pesticidas e hormônios, nos habitats aquáticos.
Mas como essas substâncias, denominadas contaminantes emergentes, vão parar nos rios, lagos e depósitos subterrâneos?
Geralmente, ao invés de serem retornados às farmácias ou outros postos de coleta especializada de medicamentos (que seria o ideal neste tipo de situação), comprimidos, cápsulas, drágeas e xaropes são descartados de maneira inadequada e acabam poluindo as águas de mananciais.
E será que somente o descarte inadequado de fármacos é suficiente para poluir em grande escala as águas de mananciais?
Também existem outras situações que contribuem com esse problema: quando ingerimos algum medicamento, o princípio ativo não é totalmente degradado no nosso corpo.
Em geral uma parte do medicamento de fato é metabolizada, contudo, uma porcentagem acaba sendo eliminada pelas fezes ou pela urina e direcionada à rede de esgoto. Uma vez que chega na rede de esgoto, a água contendo resíduos do fármaco é submetida às estações de tratamento de esgoto — onde não recebe nenhum tipo de tratamento especial para a neutralização desses compostos químicos — e por fim acaba sendo despejada em um manancial, sendo considerada como água de esgoto já tratada.
Em seguida essa mesma água contendo fármacos, pesticidas e hormônios é captada pelas estações de tratamento para se tornar água potável, onde também não recebe nenhuma espécie de tratamento específico para a remoção dos compostos químicos presentes nela. Por fim, essa água é considerada potável e é distribuída para a população, ainda que contenha traços desses compostos que não foram totalmente removidos.
Como as concentrações desses contaminantes são muito baixas (estima-se que algo entre nanogramas a microgramas por litro de água), o risco de toxicidade aguda aos humanos é baixo. Entretanto, o impacto cumulativo para a saúde humana decorrente do consumo crônico de água contaminada com baixas concentrações de fármacos é desconhecido. Além disso, esses contaminantes, que incluem hormônios, antibióticos e psicofármacos, podem interferir na fauna presente nesses mananciais, alterando o comportamento de peixes e demais organismos que vivem nesse ecossistema.
Uma das possíveis consequências da presença de resíduos de fármacos em lagos e rios é a diminuição de algumas espécies de sapos e outros anfíbios que naturalmente são controladores de pragas.
O aumento descontrolado da população de insetos como mosquitos, portanto, pode ser explicado pela quantidade diminuída de predadores. Se relacionarmos esse fato com a recente crise de zika vírus, chikungunya e dengue, podemos concluir que uma modificação no ecossistema pode resultar em uma crise nacional de saúde, e o descarte inapropriado de fármacos somado à inexistência de um tratamento eficiente de remoção de resíduos pode contribuir para esse quadro.

Para avaliar o possível impacto da presença de fármacos na água no comportamento e desenvolvimento de animais, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) utilizam o peixe-zebra (Danio rerio, paulistinha) como organismo modelo.
Assim como os ratos de laboratório, o peixe-zebra é uma espécie utilizada em diversos tipos de pesquisa. O grupo liderado pelo professor Angelo Piato, do Departamento de Farmacologia, em colaboração com o pesquisador Leonardo Barcellos da Universidade de Passo Fundo (UPF), já estudou os efeitos de diversos psicofármacos utilizados para o tratamento de depressão, ansiedade e esquizofrenia sobre o comportamento de peixes-zebra em diferentes estágios de desenvolvimento.
Observou-se que a exposição a esses fármacos, mesmo em concentrações baixas é capaz de alterar o comportamento natural desses animais, além de prejudicar o desenvolvimento de embriões e larvas. Na natureza tais efeitos poderiam resultar na maior predação desses animais, já que a habilidade de evitar e escapar de predadores pode ser afetada.
Segundo o professor Angelo:
“Utilizamos o peixe-zebra para avaliação do efeito desses compostos em concentrações encontradas no ambiente, e com isso podemos pressupor o impacto que podem exercer na fauna local e vislumbrar um potencial efeito nocivo aos seres humanos. Entretanto, uma pergunta a ser feita é referente ao efeito que décadas de exposição a estes fármacos pode causar em um ser humano que consumiu água ‘potável’ durante a maior parte de sua vida.”
Atualmente, o professor estuda os efeitos de um antifúngico amplamente utilizado na agricultura sobre o comportamento e estresse oxidativo em peixes-zebra.
Considerando os possíveis impactos para o ecossistema e para a saúde humana, será que não existe nenhuma forma de remover esses resíduos da água?
O tratamento químico realizado atualmente nas águas de mananciais é de extrema importância porque ele reduz consideravelmente a poluição ambiental. Infelizmente, porém, não consegue remover totalmente alguns fármacos. Alguns compostos não são totalmente removidos graças às suas características físico-químicas.
A remoção completa exige a utilização de equipamentos e processos mais meticulosos, o que implicaria em um custo muito elevado.
Existem pesquisas que estudam possíveis estratégias capazes de eliminar os resíduos farmacêuticos, porém devido ao custo elevado, ainda são inviáveis para aplicação em larga escala. São necessários mais investimentos em pesquisa e incentivos governamentais para reduzir o custo dessas tecnologias. Enquanto isso, cada um pode minimizar um pouco o dano ao ambiente e à saúde animal descartando corretamente os medicamentos vencidos ou que sobram na cartela.
Saiba mais:
Psychotropic in the environment: risperidone residues affect the behavior of fish larvae.
Programa de descarte consciente, ache o posto mais próximo de sua casa
Informativo sobre remédios vencidos pela prefeitura de Porto Alegre (DMLU)

Muito bom o artigo e nos revela a importância de refletir sobre o assunto tendo em vista a importância da água com suas propriedades inalteradas em nossas vidas