Por Ana Carolina Abreu, Camila Dias, Mariana Breidenbach e Natalia Rossato
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) acomete indivíduos que, como o próprio nome sugere, tenham passado por alguma situação traumática, como acidentes, desastres naturais, abuso, guerras e outros eventos. Os critérios utilizados para diagnosticar o TEPT são: presença de sintomas intrusivos (lembranças, pesadelos, flashbacks); evitação de estímulos associados ao episódio traumático; alterações negativas no humor e na cognição; e alterações na excitação e reatividade (hipervigilância, raiva, irritabilidade).
Quando os sintomas persistem por mais de um mês após o evento, o indivíduo é diagnosticado com TEPT. Nem todas as pessoas que passam por situações traumáticas desenvolvem o transtorno, mas a presença de alguns fatores de risco – falta de apoio social, transtornos psiquiátricos prévios e fatores genéticos, por exemplo – pode predispor ao desenvolvimento dessa condição.
Os aspectos neurobiológicos do TEPT ainda não são completamente conhecidos. Estudos de neuroimagem mostram alterações no córtex pré-frontal, na amígdala e no hipocampo, regiões do cérebro que são responsáveis pela experiência, regulação das emoções e formação de memórias. Pessoas com TEPT tendem a responder de forma diferente à adrenalina, o que faz com que tenham uma reação exagerada em situações estressantes. Elas também costumam apresentar baixos níveis do neurotransmissor serotonina (o que contribui para comorbidades como ansiedade, irritabilidade e ideação suicida) e altos níveis do hormônio T3 (triiodotironina) – o que pode aumentar a sensibilidade a outros mediadores do estresse.
Existem dois tipos principais de tratamentos para o TEPT: os não farmacológicos e os farmacológicos. No primeiro grupo, encontram-se o exercício físico e a psicoterapia. A psicoterapia baseia-se principalmente em conversar sobre o trauma de maneira que este possa ser superado e frequentemente foca nas percepções ruins que os pacientes criam sobre si próprios e sobre o ambiente.
Já as terapias farmacológicas buscam amenizar os sintomas decorrentes do transtorno. Existem diversos fármacos que podem ser prescritos, sendo que atualmente os principais são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (SSRI), como a sertralina e a paroxetina. Eles agem impedindo que esse neurotransmissor seja recaptado e volte para o neurônio pré-sináptico. Assim, possibilitam que a serotonina atue por períodos prolongados sobre seus receptores, intensificando seu efeito. No entanto, apenas 40-60% dos pacientes respondem ao tratamento com fármacos – que somente reduzem os sintomas, ou seja, não há cura definitiva. Diversos grupos de pesquisa têm trabalhado no desenvolvimento de fármacos que sejam mais eficazes, e uma molécula que tem demonstrado resultados promissores é a MDMA (3,4-metilenodioximetanferamina).
A MDMA, uma das substâncias presentes no ecstasy, foi patenteada em 1912 pela empresa Merck com o objetivo de ser usada como um precursor de fármacos anticoagulantes. Entretanto, entre 1970 e 1980 começou a ser utilizada nos Estados Unidos por psicólogos e psiquiatras como um auxílio à psicoterapia.
É importante destacar que o ecstasy não é MDMA pura, pois contém diversos contaminantes. Estudos mostram que até 50% de um lote de comprimidos de ecstasy pode não conter MDMA e sim cerca de 20 adulterantes distintos e tóxicos. Em 1985, atingiu-se o pico do uso recreativo do ecstasy e a droga foi considerada uma das mais perigosas nos Estados Unidos. Em 1986, o pesquisador Rick Doblin fundou a MAPS (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos) na tentativa de defender a pesquisa com a molécula. Apenas em 1992 a MAPS obteve permissão para iniciar uma pesquisa clínica com MDMA.
A MDMA atua principalmente no sistema serotonérgico, aumentando a quantidade de serotonina que é liberada na fenda sináptica, levando ao aumento da energia, da empatia, do prazer, da confiança, da alegria e da aceitação. Diferente da MDMA em sua forma pura, o ecstasy pode causar efeitos adversos perigosos, como náuseas, desidratação, hipertermia, hiponatremia (redução da concentração de sódio no sangue) e hipertensão. Esses sintomas são frequentemente ignorados pelo usuário devido ao estado de despreocupação e bem-estar provocados pela droga, o que pode causar exaustão, convulsões e até mesmo a morte. O consumo combinado com bebidas alcoólicas (comum em festas e raves) pode ocasionar uma parada cardiorrespiratória, levando ao óbito.
Apesar dos efeitos adversos assustadores que acompanham o uso irresponsável e descontrolado do ecstasy, diversas pesquisas confirmam que a MDMA é segura se utilizada em doses e ambientes supervisionados. Ela pode ser utilizada para auxiliar pacientes com TEPT, principalmente aqueles que são resistentes aos tratamentos padrões. A MDMA causa uma diminuição dos sentimentos de ansiedade e de depressão, reduz o medo e altera as percepções de significado. Isso provavelmente acontece pela modulação da transmissão serotonérgica no cérebro, mas também ocorre a liberação de diversas outras substâncias, como a ocitocina, que aumenta os níveis de empatia e de proximidade, tornando mais fácil para o paciente confiar no terapeuta e conseguir falar sobre o trauma sem o medo exacerbado.
Em 2011, foi publicado o primeiro estudo com MDMA em pacientes com TEPT resistentes ao tratamento: 20 pacientes receberam placebo ou MDMA associados à psicoterapia. O grupo que recebeu MDMA teve uma grande redução dos sintomas de TEPT e essa diminuição se manteve mesmo após dois meses da última administração de MDMA. Esse resultado demonstra como a MDMA pode melhorar a qualidade de vida de pacientes com TEPT, e outros estudos corroboram com esses achados.
Atualmente, os estudos em estágio mais avançado envolvendo a MDMA são aqueles relacionados ao TEPT. Entretanto, novas evidências indicam que, assim como o LSD (dietilamida do ácido lisérgico), a cetamina e a psilocibina (presente nos cogumelos alucinógenos), a MDMA pode ser utilizada para auxiliar no tratamento de outros transtornos, como depressão, ansiedade e dependência ao álcool. De qualquer forma, o uso dessas drogas no tratamento de transtornos psiquiátricos precisa ser melhor investigado em ensaios clínicos, para confirmar a segurança e a eficácia desse tipo de terapia.
A polêmica envolvendo o tema aqui abordado advém do preconceito existente em relação às drogas – o que faz sentido, tendo em vista as graves consequências do seu uso abusivo. Além disso, doenças psiquiátricas ainda são muito estigmatizadas. Saúde mental ainda é um tema visto como tabu, e por isso pouco discutido, o que favorece o preconceito. No entanto, não podemos deixar esse preconceito impedir a aquisição de novos conhecimentos, especialmente quando eles podem contribuir para a qualidade de vida dos indivíduos que sofrem desses transtornos.
Fontes:
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Bem interessante
Estou estudando síndromes adrenérgicas, ótimo material!!
estranho essa parada de ansiedade pq tives crises severas de ansiedade msm usando de forma recreavita em doses baixas
Achei sensacional o material, e estou pesquisando porque faço uso de Efexor contra depressão e ansiedade já há alguns anos, e usei MD pela primeira vez esse ano. Achei estranho por não ter sentido praticamente nada diferente, comparado à resposta que meus amigos tiveram, e isso em duas ocasiões diferentes. Tive medo de que o efeito do antidepressivo pudesse ser potencializado, e no final eu ficar com dois estímulos para aumento de serotonina, mas não senti, e estou procurando possíveis causas porque achei interessante.