Um tratamento revolucionário contra a depressão?

A escetamina é a novidade do momento no tratamento da depressão, mas é preciso cautela!

Por Giancarlo Tomazzoni, Leonardo Siega, Marcelo Olivera e Thaisla Borella


No dia 5 de março deste ano, um novo antidepressivo foi aprovado pelo Food and Drug Admnistration (FDA), agência reguladora norte-americana responsável pelo controle de medicamentos. O novo medicamento, que recebeu status de “terapia inovadora”, foi aprovado para depressão resistente ao tratamento, ou seja, para aqueles pacientes que não respondem aos fármacos disponíveis até então. Trata-se de uma formulação intranasal de escetamina, que chegará às prateleiras dos Estados Unidos sob o nome de Spravato™, comercializado pela empresa Janssen Pharmaceuticals. Mas quais são as vantagens em relação aos fármacos atuais? E as desvantagens? Será que ainda veremos muitos pacientes como o pintado por Van Gogh?

Homem Velho com a Cabeça em Suas Mãos, de Vincent Van Gogh

Tratamentos atuais

Existem diferentes tipos de transtornos depressivos, mas o tipo mais conhecido e geralmente associado ao termo “depressão” é o transtorno depressivo maior, caracterizado por apatia ou perda de interesse, humor deprimido, distúrbios alimentares e de sono, fadiga, baixa autoestima e pensamentos suicidas. A eficácia dos diferentes fármacos atualmente empregados é bastante variável entre os indivíduos, sendo que 30% dos pacientes não apresenta melhora após várias tentativas (transtorno depressivo resistente ao tratamento – TDR). Além disso, os fármacos utilizados hoje causam diversos efeitos adversos que dificultam a adesão ao tratamento. Há, portanto, uma grande necessidade de desenvolver novos fármacos antidepressivos com maior eficácia e menos efeitos adversos.

A esperança

Nesse contexto, a escetamina promete tratar os sintomas de pacientes com TDR. Essa molécula é derivada da cetamina, que já é utilizada na clínica como um anestésico geral, e vem sendo investigada como antidepressivo desde os anos 2000. Tanto a cetamina quanto a escetamina são antagonistas de receptores de glutamato do tipo NMDA, diferente dos outros antidepressivos, que modulam a neurotransmissão monoaminérgica (serotonina, noradrenalina e dopamina). Entretanto, o exato mecanismo de ação responsável pelos efeitos terapêuticos ainda é desconhecido. Apesar disso, a escetamina conseguiu quebrar um jejum de 30 anos sem novas patentes de antidepressivos.

A escetamina tem um grande diferencial: induz efeitos rápidos e persistentes com uma única administração – melhora os sintomas dentro de poucas horas ao invés de semanas como os antidepressivos convencionais. A administração intranasal, além de prática, permite uma absorção mais rápida do que pela via oral.

O lado negativo

Apesar de sua segurança, a escetamina pode causar efeitos adversos significativos como náusea, tontura, falta de ar e alucinações semelhantes a um estado psicótico. Como a cetamina é também uma droga de abuso utilizada principalmente em festas rave, a escetamina não está livre do risco de ser usada indevidamente com fins recreativos. Além disso, a absorção da escetamina pode ser prejudicada em pacientes com desvio de septo e outras malformações da cavidade nasal. Outro problema é que os efeitos adversos de sua utilização a longo prazo são desconhecidos.  O ponto negativo mais imediato, porém, é o preço exorbitante: o tratamento com Spravato™ pode custar até 5 mil dólares no primeiro mês, muito mais do que os antidepressivos convencionais, e muito mais do que a administração da própria cetamina, que também tem efeitos antidepressivos rápidos.

Importação

Não se tem certeza quando ou se a escetamina chegará no Brasil. Para um fármaco novo ser comercializado no Brasil, a indústria farmacêutica fabricante deve submeter os estudos de eficácia e segurança para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que então decide aprovar ou não a comercialização. O fato de já ter sido aprovado nos Estados Unidos aumenta a chance de um parecer favorável no Brasil também, mas o processo pode levar anos.

Conclusão

Apesar de ser considerada uma “terapia inovadora” e o único antidepressivo aprovado nas últimas décadas, ainda é incerto o tamanho do ganho terapêutico e o custo-benefício da escetamina. Há a necessidade de compreender melhor seus mecanismos de ação e efeitos a longo prazo, e baratear o seu preço de mercado. É preciso, portanto, frear a euforia e o sensacionalismo que coloca a molécula como a cura da depressão, uma condição muito complexa para a qual não existe uma solução simples e milagrosa.


Fontes:

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