As atividades experimentais sempre estiveram presentes no Ensino de Ciências?
É difícil alguém questionar a importância das atividades experimentais no ensino das disciplinas científicas (Ciências, Física, Química e Biologia). Mas será que elas sempre estiveram presentes no ensino das ciências? Sabemos que esta relação entre o Ensino de Ciências e as atividades experimentais não é recente. Não ousamos falar aqui da origem desta relação. Mas parece-nos relevante resgatar uma experiência da década de 1950 que nos auxilia a refletir um pouco sobre esta relação.
Em 1955, no II curso de Aperfeiçoamento para Professores de Física do Ensino Secundário, realizado em São José dos Campos (IBECC, 1955), já se percebia a importância das atividades experimentais para o Ensino de Ciências:

“Estou certo de que aqui se fez foi convincente, especialmente no sentido de que é possível desenvolver um ensino experimental suficiente com meios bastante simples, com aparelhamento barato. É incomparavelmente melhor dar menor cópia da matéria bem explicada do que fazer um estudo “à vol d`oiseau” de um número muito grande de fenômenos.” (IBECC, 1955, p. 29)
Krasilchik (1987), ao se referir as expectativas do Ensino de Ciências nesta década de 1950, destaca o objetivo das atividades experimentais muito discutidas nesta época:

“Uma das mudanças pretendidas era substituir os chamados métodos tradicionais por uma metodologia ativa. Aqueles configuravam o ensino verbalista, centrado no uso de livros-texto e na palavra do professor, cuja função era a transmissão de informações que deveriam ser memorizadas e repetidas. Já nessa época, um dos grandes objetivos visados foi o de proporcionar maior liberdade e autonomia ao aluno para participar ativamente do processo de aquisição de conhecimento”. (KRASILCHIK, 1987, p. 7).

Imagino que vocês já devem ter ouvido este tipo de discurso, ou mesmo defendido as atividades experimentais com estas justificativas. Reparem, é um livro de 1987 falando da década de 1950! De lá pra cá muito já se debateu sobre a importância das atividades experimentais e como desenvolvê-las no Ensino de Ciências. Ainda assim, alguns experimentos podem até ser parecidos com as propostas da época (já viram alguma proposta parecida com a da figura ao lado?).
Voltando a nossa pergunta inicial, sabiam que as atividades experimentais sumiram por um tempo das aulas de ciências? Muitos kits de experimentos foram distribuídos para as escolas nas décadas de 1950 e 1960 (e alguns kits desta época ainda estão presentes em algum canto dessas escolas). Muito da política de formação de professores e de investimento em laboratórios de ensino foi abandonada nas décadas de 1970 e 1980, quando se optou-se por um crescimento racionalizado (e não proporcional em investimento) do sistema educacional brasileiro. Nesta perspectiva racionalizada, a quantidade de professores era essencial para o aumento das vagas nas escolas. Já a formação docente poderia ser encurtada (Resolução CFE de 1974 para a licenciatura curta) e baseada em teorias (numa perspectiva tecnicista do ensino que se tornou emergente). Os laboratórios de ensino nas escolas, seus materiais e técnicos, se tornaram dispensáveis.
Podemos até pensar que o incentivo as atividades experimentais de baixo custo a partir da década de 1990 poderia ser influência deste momento histórico. Se seria difícil voltarmos a ter investimento em laboratórios de ensino, os professores poderiam desenvolver experimentos simples com materiais reciclados ou de fácil acesso. Claro que preferimos ficar com a justificativa mais recorrente de que é preciso aproximar as ciências do cotidiano dos estudantes e nada melhor do que mostrar que é possível fazer experimentos com materiais que temos em nossas próprias casas.
Muitas outras possibilidades de se pensar as atividades experimentais apareceram nas últimas décadas, as associadas ao ensino por investigação e o movimento maker são algumas delas e pretendemos também retomá-las em outros tópicos. Esperamos, pelo menos, que essas poucas informações contribuam para se compreender melhor a complexidade que se é pensar a relação entre as atividades experimentais e o Ensino de Ciências.
Até uma próxima!
Referências:
IBECC, II Curso de Aperfeiçoamento para Professores de Física do Ensino Secundário. São Paulo: IBECC, 1955.
KRASILCHIK, Myriam. O Professor e o currículo de Ciências. São Paulo: EPU, 1987.