O debate em torno da produção de água e o reflorestamento

O debate em torno da produção de água e o reflorestamento

O debate em torno da produção de água e o reflorestamento

por Eng. Ambiental Iporã Brito Possantti, PPGRHSA, IPH/UFRGS

Um debate científico que permeou a história da hidrologia desde o seu surgimento e hoje ainda está presente em aplicações técnicas e políticas orbita em torno do impacto de florestas sobre o regime hidrológico de bacias hidrográficas.

As informações postadas refletem a opinião do(s) autor(es) e não necessariamente da Instituição (IPH/UFRGS).

 

Resumo:

  1. Florestas tendem a reduzir a quantidade de água em rios pois as árvores tendem a remover a água por processos de transpiração e interceptação;

  2. O solo de floresta é responsável por altas taxas de infiltração, mas parte da água que se infiltra tende a ser absorvida pelas árvores da floresta;

  3. A água que consegue se infiltrar profundamente em solos de floresta tende a melhorar a qualidade da água dos rios;

  4. Justamente por evaporar de volta parte da água para atmosfera pela transpiração e interceptação, florestas interferem nos fluxos atmosféricos de água em escala continental e global;

 


Um debate científico que permeou a história da hidrologia desde o seu surgimento e hoje ainda está presente em aplicações técnicas e políticas orbita em torno do impacto de florestas sobre o regime hidrológico de bacias hidrográficas. De acordo com McCulloch e Robinson (1993), as três principais ideias que mobilizam esse debate são as seguintes:

  1.  “florestas aumentariam as chuvas”;
  2.  “florestas reduziriam as inundações”; e
  3. “florestas aumentariam as vazões mínimas”.

No jargão atual, a ideia central seria algo como “florestas ofereceriam o serviço ambiental de regulação da disponibilidade de água”.

De fato, conforme colocado por Andréassian (2004), ideias semelhantes a essas foram levantadas mesmo na Antiguidade por Plínio, O Velho, e passaram a ser alvo de constante especulação, discussão e ações políticas na Europa a partir do final do século XVIII.

O principal método experimental para abordar essa questão de forma científica passou a ser, ao longo do século XX, estudos com bacias pareadas (Andréassian, 2004). Em poucas palavras, esse método consiste em (1) calibrar uma curva de correlação entre duas bacias hidrográficas florestadas muito parecidas em termos geomorfológicos, (2) aplicar um “tratamento” para umas das bacias (isto é, desmatar uma delas) e (3) observar a diferença entre a nova curva de correlação com a calibrada anteriormente ao tratamento. Com esse e outros tipos de experimentos, o debate em torno dessa questão passou a ter mais evidências e menos especulação.

 

Segundo 137 experimentos de bacias pareadas revisadas por Andréassian (2004), todos apresentam um aumento na produção anual de água após o tratamento. Em um estudo de revisão mais recente, Filoso et al. (2017) sustentam que em 79% de 308 estudos de caso (que envolvem alguma forma de expansão ou redução da cobertura florestal) quanto menos floresta, mais água se verifica no rio em termos anuais. Ou seja: as observações apontam que florestas tendem a reduzir a quantidade total de água na rede de drenagem de suas bacias hidrográficas. O mecanismo proposto para explicar esse fenômeno é que florestas apresentam uma taxa de evapotranspiração (isto é, a evaporação decorrente da interceptação e transpiração de água) relativamente mais alta que outras coberturas do solo. 

A chuva cai, mas parte da água volta para a atmosfera graças às árvores da floresta. Sobra menos água nos rios.

 

Com tais constatações cada vez mais sólidas, a ideia do reflorestamento como uma panaceia para a promoção de múltiplos serviços ambientais passa a ficar mais frágil, principalmente quando se trata do plantio extensivo de árvores exóticas tais como pinus e eucalipto. Por exemplo, Jackson et al. (2009) sugerem que se perdem benefícios da disponibilidade de água quando se busca maximizar o sequestro de carbono com reflorestamento e, por isso, tomadores de decisão precisam conhecer melhor tais trade-offs antes de participar do mercado de carbono.

Por outro lado, ainda que a noção de que “florestas atraem chuva” esteja equivocada quando se trata da escala de pequenas ou médias bacias hidrográficas, justamente pelo fato da evapotranspiração se manifestar de forma acentuada em florestas que a água pode ser transferida pela atmosfera para locais mais distantes. Conforme argumentado por Ellison et al. (2012), o debate da relação de florestas com a hidrologia precisa ser colocado em uma perspectiva de escala continental ou mesmo global. Nessa escala, os autores ressaltam, as florestas emergem como atores cruciais do ciclo hidrológico nos continentes, transferindo água para regiões que de outra forma seriam áridas. É o caso da relação entre a floresta amazônica e o sudeste do Brasil.

Na perspectiva da produção de água em escala de bacia, a conclusão geral que se pode chegar é que, apesar do solo de floresta permitir uma alta taxa de infiltração, parte da água infiltrada é “sequestrada” pelas plantas e transferida de volta para atmosfera. Conforme Neary et al. (2012) destacam, o maior provedor de serviços ambientais relacionados à água, em especial em relação à melhoria da qualidade, é o solo da floresta – e não necessariamente as plantas da floresta. Esse aparente paradoxo pode ser mais bem entendido quando colocado em uma ótica evolutiva: a seleção natural favorece árvores que maximizam a infiltração de água, que criam um solo rico em matéria orgânica e macroporos para beneficiar seu sucesso reprodutivo. Essa estratégia evolutiva não tem nada a ver com regular a vazão de rios ou beneficiar seres humanos e suas economias. Boa parte da água fica para as árvores.

 

 

Referências:

ANDRÉASSIAN, V. Waters and forests: from historical controversy to scientific debate. Journal of Hydrology, v. 291, n. 1–2, p. 1–27, 31 maio 2004.

ELLISON, David; FUTTER, Martyn N.; BISHOP, Kevin. On the forest cover-water yield debate: From demand- to supply-side thinking. Global Change Biology, 2012.

FILOSO, Solange et al. Impacts of forest restoration on water yield: A systematic review. PLoS ONE, 2017.

JACKSON, Robert B. et al. Trading Water for Carbon with Biological Carbon Sequestration. Science, [s. l.], v. 310, p. 1944–1947, 2009. Disponível em: <http://science.sciencemag.org/>

MCCULLOCH, J. S. G.; ROBINSON, M. History of forest hydrology. Journal of Hydrology, v. 150, n. 2, p. 189–216, 1993.

NEARY, D. G.; ICE, G. G.; JACKSON, C. R. Linkages between forest soils and water quality and quantity. Forest Ecology and Management, v. 258, n. 10, p. 2269–2281, 30 out. 2009.

1 comentário até agora

Walter Collischonn Publicado em10:19 am - set 30, 2019

Excelente texto Iporã!
Sugiro que você veja o trabalho de doutorado da Débora Missio Bayer sobre este assunto.

Deixe uma resposta