3 filmes em que os recursos hídricos são o pano de fundo da história

por Marcela Nectoux – Engenheira Ambiental, mestranda em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos (PROFÁGUA/UFRGS) e hidróloga na SOMAR Meteorologia.
Os filmes dessa lista ficaram conhecidos por suas excelentes atuações, elencos com grandes estrelas e por roteiros incríveis. Mas, nesse post, o protagonista será o tema dos recursos hídricos e como ele foi tratado nesses três sucessos do cinema.
A água, como sabemos, é um tema transversal, mas que, muitas vezes, fica “escondido” apenas como pano de fundo nos roteiros de Hollywood. Hoje, vamos investigar como esse tema foi explorado em três filmes e como essa análise pode ser útil para quem se interessa pelo tema de gestão e planejamento de recursos hídricos.
O Preço da Verdade – Dark Waters
Todd Haynes – 2019
Onde assistir: Google Filmes, Apple TV, Amazon Prime
O primeiro filme da nossa lista é também o mais recente. Em “O Preço da Verdade” conhecemos a história real de um advogado corporativo que passa a investigar um caso de contaminação em West Virginia, nos Estados Unidos. O caso inicia com mortes de animais de uma fazenda na cidade de Parkersburg mas, após um olhar mais próximo, revela uma grave contaminação por PFOA (ácido perfluorooctanoico) proveniente de uma fábrica da Dupont, que usa esse ácido sintético na produção do Teflon.
Uma abordagem interessante desse filme é dar enfoque nos impactos na comunidade de uma dispersão de poluentes em sua fonte de água. O filme acerta em mostrar a escala do impacto e, ao mesmo tempo, o quão difícil é para essa comunidade acessar informações de qualidade da água e os compostos presentes no efluente industrial. Em uma época em que se fala muito em Compliance nas empresas, é importante destacar que o cumprimento da legislação ambiental na indústria também deve ser apresentado de forma transparente e acessível, possibilitando que os mecanismos de controle sejam efetivos.
O filme também trabalha bem com a questão do “tempo da ciência” versus a expectativa da sociedade. Um grande número de amostras é coletado para determinar os impactos e o grau de contaminação por PFOA, mas os resultados demoram anos para serem processados e gerarem laudos. Em tempos de pandemia, o filme nos faz lembrar o quanto métodos científicos demorados e a necessidade de soluções imediatas entram em conflito.
Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento
Steven Soderbergh – 2000
Onde Assistir: Google Filmes, Apple TV
O segundo filme dessa lista você provavelmente já conhece ou, até mesmo, já viu. Mas, além de ser um grande sucesso que deu o Oscar de melhor atriz a Julia Roberts, Erin Brockovich também trata da questão dos recursos hídricos de uma forma que, até então, não tinha sido vista em Hollywood.
Assim como o primeiro filme dessa lista, trata-se de uma história real de contaminação da água em uma comunidade americana. Nesse caso, uma contaminação por Crômio Hexavalente (C6) em Hinckey, California, proveniente de uma planta industrial da PG&E (Pacific Gas and Electric Company).
Um ponto importante é a forma como os temas mais densos a respeito do crômio e seus impactos são apresentados no filme. Erin, por ser uma assistente do escritório de advocacia, busca conhecer mais sobre o C6 com um professor da Universidade e, a forma que a personagem vai compreendendo a relação entre a fonte poluidora e os impactos na comunidade reflete o entendimento do público da história.
Outro momento do filme que merece destaque é quando o Conselho de Água (Water Board) é apresentado. É neste órgão da estrutura de gestão de recursos hídricos da Califórnia que os documentos relativos à qualidade da água da região estão armazenados, e servem como fonte para que Erin comprove a presença do Crômio na água da cidade. Mas, o Conselho da Água é apresentado apenas como um repositório de papeis que não são lidos e analisados. Uma reflexão importante, já que os instrumentos de gestão não podem ser apenas “pedaços de papel” empilhados em repartições públicas.
007 – Quantum of Solace
Marc Forster – 2008
Onde assistir: Google filmes, Telecine
Quem diria que o agente do serviço secreto mais famoso do cinema teria um filme centrado na questão dos recursos hídricos? Mesmo que isso possa ter passado despercebido por muitos fãs da franquia, esse é o enredo do segundo filme de Daniel Craig como 007.
Ao contrário dos dois títulos anteriores dessa lista, nesse filme o tema não é contaminação das fontes de água potável, mas sim, o conflito pelo uso da água. Outra diferença importante é que o filme se passa na Bolívia, mais perto da nossa realidade aqui no Brasil. Bond enfrenta a organização Quantum, que planeja barrar a fonte de água do país latinoamericano, de forma a criar um monopólio.
O interessante é que o filme joga com o conceito de recurso mineral, já que o território almejado pelo vilão parece, a princípio, não possuir nenhuma riqueza a ser explorada. Contudo, o recurso mineral mais fundamental para a vida humana passa desapercebido e é, de fato, o que o vilão busca explorar: fontes de água para abastecimento.
O filme trabalha, portanto, o viés geopolítico associado à gestão de recursos hídricos. Ou seja, de que forma os Estados obtêm o acesso à água, e de que forma essas decisões por parte dos governos impactam o dia a dia da população. Nos faz lembrar, no cenário brasileiro, das discussões sobre o Novo Marco do Saneamento, sancionada este ano pelo governo, e que propõe uma nova estrutura de governança para esse setor.



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