Economia ecológica: o básico

Economia ecológica: o básico

Economia ecológica: o básico

por Iporã B. Possantti (1) e Guilherme F. Marques (2)

Olhar para a água pelo ângulo econômico é essencial para a gestão e planejamento de recursos hídricos. Mas ainda se percebem tabus na sociedade para falar sobre isso, como se a água não fosse um recurso escasso. O objetivo desse post é, assim, trazer conceitos fundamentais para futuras discussões sobre água e economia. E para isso precisamos falar sobre o básico da economia ecológica.

(1) engenheiro ambiental, Mestre em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (IPH/UFRGS); (2) professor do IPH/UFRGS e coordenador do Grupo de Pesquisas em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos

Valorando a água

O relatório de 2021 das Nações Unidas para a Água apresentou como tema o valor da água. É uma ótima leitura, que pode ser acessada gratuitamente.

Olhar para a água pelo ângulo econômico é essencial para a gestão e planejamento de recursos hídricos. Mas ainda se percebem tabus na sociedade para falar sobre isso, como se a água não fosse um recurso escasso.

O objetivo desse post é, assim, trazer conceitos fundamentais para futuras discussões sobre água e economia. E para isso precisamos falar sobre o básico da economia ecológica.

O texto contém muitos conceitos obtidos no livro Ecological Economics de Herman Daily e Joshua Farley (segunda edição, 2011) que é uma ótima referência da área. Como o texto também manifesta opinião em certas passagens, é preciso estabelecer que ele não reflete uma visão institucional da UFRGS nem do IPH. De qualquer sorte, estamos abertos para críticas e comentários. 

 

Mas o que é economia?

Economia é uma disciplina que estuda a alocação de recursos escassos entre fins alternativos. Podemos escolher, por exemplo, alocar aço na fabricação de tratores ou na fabricação de tanques de guerra. Ou alocar água para irrigação ou produção de energia (como pode ser o caso hoje no Brasil!).

Na verdade, economia tem muito a ver com escolhas. Nesse sentido, as três perguntas fundamentais para nós, humanidade, são:

  • Quais são os objetivos finais que nós desejamos?
  • Quais recursos limitados precisamos para atingir esses objetivos?
  • Quais objetivos recebem prioridade e qual é o limite dessa prioridade?

Uma resposta possível para a primeira pergunta é: maximizar o bem-estar humano, ou “utilidade”. Assumindo que o bem-estar humano é revelado por aquilo que indivíduos compram e vendem (valor de troca) e assumindo também que seres humanos são insaciáveis, o crescimento da produção de bens e prestação de serviços (fluxo de valor de troca) é um bom indicador de que estamos marchando coletivamente em direção ao nosso objetivo final. De fato, fluxo de valor de troca define o Produto Interno Bruto (PIB) de uma economia. Se o PIB aumenta de um ano para o outro, presume-se que foi um ano bom.

Essa resposta e as premissas subjacentes são os fundamentos da escola neoclássica de economia. Essa escola parte do princípio que nossos desejos são manifestados por transações de mercado e que a maior parte dos recursos escassos são mercadorias (market goods, em inglês). Assim, boa parte da atenção na escola neoclássica é devotada para o mecanismo de alocação de mercadorias: o mercado. Em certas condições, o mercado soluciona (pelo sistema de preços) a alocação de mercadorias de forma que nenhuma mudança deixaria pelo menos alguém melhor sem deixar outro pior, situação que se chama Pareto-eficiente.

Em termos de escala nacional ou global, a escola neoclássica aposta em um modelo macroeconômico estruturado em famílias de um lado e empresas de outro. Esses dois agentes interagem de forma virtuosa, produzindo um fluxo circular de valor de troca que se auto-reforça, resultando assim em uma espiral de crescimento econômico e, por consequência, de bem-estar (Figura 1 a).

 

Contexto histórico da economia ecológica

Os anos 60 e 70 foram marcados pelo auge da guerra fria, a corrida espacial e a revolução cultural nos países ocidentais. Isso resultou na “consciência planetária” inédita que hoje temos como garantida, mas que não existia até pouco tempo.

Essa atmosfera cultural induziu certos economistas nos Estados Unidos a tentar incluir o meio ambiente no modelo econômico neoclássico. Mas foi aí que eles perceberam que o modelo neoclássico estava fundamentalmente errado e precisava ser profundamente reformado. Isso resultou na economia ecológica.

A economia ecológica, assim, é uma ramificação revolucionária da economia neoclássica. Importante ressaltar: economia ecológica não é ecossocialismo. A economia ecológica reconhece o fato de que, sob determinadas condições, o mercado é o mecanismo mais eficiente para alocar mercadorias. Ainda assim, ela refuta os fundamentos macroeconômicos da economia neoclássica e aponta para um caminho alternativo ao crescimento econômico: o desenvolvimento sustentável. Também veremos que ela converge para um aspecto comum ao ecossocialismo, pois não é socialmente possível desenvolvimento sustentável sem a redistribuição de renda.

 

Macroeconomia neoclássica e a física

O modelo macroeconômico neoclássico está errado porque ele viola as leis da termodinâmica. Se você aceita essas leis, você precisa abrir mão do modelo macroeconômico neoclássico.

A física teórica presume a existência de matéria e energia (ou as cordas) como os únicos componentes do universo, além do tecido estrutural das dimensões espacial-temporais. E a primeira lei da termodinâmica diz o seguinte: matéria e energia se conservam. Já a segunda lei da termodinâmica diz que matéria e energia tendem a se dissipar. Em outras palavras: tudo que existe tende a se dispersar de um estado ordenado (heterogêneo) em direção a um estado desordenado (homogêneo). O universo é um fenômeno dissipativo.

Assim, ordem só é possível ser mantida localmente, às expensas de fontes externas de energia livre. É preciso trabalho para manter a ordem. Nessa perspectiva, podemos conceber o planeta como um sistema energeticamente aberto mas materialmente fechado.

A primeira implicação disso para a economia é que não existe crescimento material real, já que a matéria se conserva. O máximo que podemos fazer é reordenar a matéria disponível do planeta às custas de energia e de resíduos dispersos no ambiente.

A segunda implicação para a economia é que não existe crescimento de bem-estar, já que matéria e energia são tudo que existe, nada além. O que chamamos de “bem-estar” é na verdade um fenômeno psico-fisiológico atuando em sinapses no cérebro (tanto que medicamentos analgésicos e antidepressivos funcionam). Essa sensação prazerosa de bem-estar não se acumula indefinidamente, mas apresenta picos de intensidade e logo desvanece, à medida as substâncias estimulantes se dispersam e o cérebro se ocupa pensando em outras coisas.

Como bem coloca o historiador Yuval Harari, a resposta para o seu bem-estar pode estar na comida, nos exercícios físicos, nas relações sociais, ou simplesmente na farmácia. Esse pensador também sugere que um bem-estar mais sutil e perene tem a ver diretamente com a ficção que você confere para a sua trajetória de vida. Nenhuma dessas explicações baseadas na psicologia e na biofísica permitem “crescimento de bem-estar”.

 

A macroeconomia ecológica

Em oposição à economia neoclássica, os fundamentos macroeconômicos da economia ecológica são baseados na física. No modelo ecológico, o sistema econômico, ou antroposfera, está incrustado na biosfera (Figura 1 b). A biosfera, por sua vez, é um sistema material esférico e delgado que está confinado entre o manto e o topo da atmosfera. Em uma escala temporal humana, esse sistema é fechado para a matéria mas aberto ao fluxo de energia livre solar e geotérmica (entrada) e de calor (saída).

Para manter o estado de bem-estar psico-fisiológico de indivíduos, o sistema econômico converte materiais disponíveis na biosfera em bens e serviços. Essa conversão só é possível às custas de energia livre e da produção não intencional de resíduos materiais e calor. Esse é o chamado fluxo de atravessamento (throughput, em inglês), que quando aumenta em intensidade os economistas neoclássicos chamam de “crescimento econômico”. Em oposição ao virtuoso fluxo circular de valor de troca da economia neoclássica, esse fluxo é material, linear e termina em resíduos inúteis dispersos na biosfera.

Parte das estruturas disponíveis na biosfera são convertidas em capital antropogênico, isto é, estruturas capazes de produzir um fluxo de bens e serviços. Essas estruturas estão constantemente se dissipando pela ação da segunda lei (depreciação) e precisam ser reparadas (manutenção) sob o custo de mais materiais e energia.

Outra parte da biosfera nos proporciona bem-estar diretamente, o que faz dessas estruturas receberem o rótulo de “capital natural”. Os bens e serviços produzidos pelo capital natural recebem os rótulos de “recursos naturais” e de “serviços ambientais”. Algumas dessas estruturas são tidas como “renováveis” por se autorrepararem contra a depreciação (autopoiese) pelo consumo de energia solar, como os ecossistemas. Outras são ditas “não-renováveis” por não serem autopoéticas na escala temporal humana, como os combustíveis fósseis.

Figura 1 | Diagramas esquemáticos da macroeconomia neoclássica (a) e da macroeconomia ecológica (b).

 

Não existe almoço grátis na biosfera

Quando fazemos escolhas, precisamos sacrificar algo. Dizer “sim” para um é dizer “não” para muitos. Na economia isso se chama custo de oportunidade: a melhor alternativa sacrificada quando uma escolha é feita.

Se a primeira lei da termodinâmica é válida, é preciso desmontar a infraestrutura existente de capital natural para construir capital antropogênico. Isso resulta obrigatoriamente em um sacrifício de bem-estar provido diretamente pelos recursos naturais e serviços ambientais. A antroposfera só pode crescer às expensas da biosfera. No jargão econômico: existe um custo de oportunidade para o crescimento econômico. Ou ainda: não existe almoço grátis na biosfera.

E esse é o cerne da economia ecológica: a macroeconomia possui uma escala ótima. A partir de certo ponto, o crescimento de capital antropogênico passa a ser antieconômico pois os benefícios econômicos adicionais (ou marginais, no jargão econômico) ofertados não conseguem suplantar os custos de oportunidade adicionais decorrentes da perda de capital natural (Figura 2).

Figura 2 | O problema da escala ótima da macroeconomia ecológica em termos de valor marginal.

Para estimar o custo de oportunidade da expansão do capital antropogênico é preciso valorar o benefício marginal do capital natural. Uma das primeiras estimativas globais para esse valor, feita por Costanza et al. (1997), foi de 33 trilhões de dólares por ano, que na época era cerca de duas vezes maior que o PIB global. Segundo os autores, foi uma estimativa por baixo em função das incertezas nos dados disponíveis.

Mas sem a valoração podemos conceber o problema da escala macroeconômica, em termos de bem-estar ou utilidade: o limite ótimo do crescimento do capital antropogênico é quando a sua utilidade marginal se iguala à sua desutilidade marginal (Figura 3).

Figura 3 | O problema da escala ótima da macroeconomia ecológica em termos de utilidade marginal.

 

Vazio ou cheio?

Se a macroeconomia tem escala ótima, a pergunta mais relevante que a economia ecológica busca responder é se estamos perto de passar o limite da escala ótima, ou limite da sustentabilidade. É uma pergunta relevante já que, se for confirmada, ações urgentes precisariam ser tomadas para reduzir os danos do colapso.

Mas aqui as opiniões divergem. Por exemplo, existe a hipótese de que o mundo é vazio, e não lotado (detalhe e e f da Figura 3). Essa hipótese otimista sustenta que ainda há muitos recursos naturais a serem explorados e a biosfera é resiliente, vai suportar os impactos por muito mais tempo.

Uma versão mais radical da hipótese do mundo vazio defende que não há motivo para preocupação, pois a inovação tecnológica irá revelar formas inéditas de acabar com a escassez de energia livre e isso permitirá neutralizar os custos de oportunidade do crescimento de capital. Nessa linha, não existe o problema de esgotamento de recursos naturais, pois eles são tidos como perfeitamente substituíveis pela engenhosidade humana.

De fato, segundo a escala Kardashev, que mede a quantidade de energia de civilizações tecnológicas hipotéticas, civilizações avançadas seriam capazes de consumir a energia de estrelas inteiras. Nessa escala, a humanidade estaria praticamente ainda na Idade da Pedra.

Mas se é tão óbvio que a inovação tecnológica nos reserva um futuro digno de ficção científica, onde estão as outras civilizações avançadas? Considerando a idade do universo (13 bilhões de anos) e se a vida é um fenômeno comum, a galáxia deveria ser um lugar bem agitado. Mas não é. O silêncio do céu talvez seja uma advertência sinistra do destino efêmero das civilizações tecnológicas que já existiram em outros planetas. Por outro lado, se a vida é raríssima no universo, então não seria irracional desmontar a biosfera do único planeta que abriga a vida? Essas perguntas profundamente objetivas consistem no chamado Paradoxo de Fermi.

 

Redistribuição de renda

Como dito antes, economia ecológica não é ecossocialismo, pois reconhece o sistema de preços (mercado) como o mecanismo de alocação mais adequado para mercadorias, como veremos adiante. Mas a economia ecológica converge com o ecossocialismo no sentido de que a desigualdade social precisa ser reduzida pela redistribuição de renda.

Na escola econômica neoclássica, a solução para acabar com a miséria e a pobreza humana é inequívoca: mais crescimento econômico. Segundo essa linha, não é preciso interferir na estrutura social: basta fazer o bolo crescer que os mais pobres terão amanhã uma fatia maior que hoje – ainda que o fatiamento continue sendo injusto. É a chamada promessa da fatia maior. Quando funciona, poucos reclamam e muitos saem felizes. Quando não funciona, as tensões sociais se acumulam, especialmente se a desigualdade social for muito grande.

Mas se a macroeconomia tem uma escala ótima, cedo ou tarde o crescimento econômico deverá encontrar o limite da sustentabilidade. Se formos capazes de identificar esse limite e resolvermos respeitá-lo, o que vamos prometer para os pobres? Pedir para aceitar a desigualdade social eterna? A única saída para esse dilema é fatiar o bolo de forma justa. Por isso, a economia ecológica sustenta que o desenvolvimento sustentável só é possível a partir da redistribuição de renda e redução das desigualdades sociais.

 

Mercado

O grande mérito da economia neoclássica foi ter desvendado os princípios de como mercados funcionam – os princípios microeconômicos. Esse conhecimento é preservado pela economia ecológica. A diferença, contudo, consiste no reconhecimento de que mercadorias são um subconjunto muito específico de recursos escassos.

Mas o que é um mercado? Um mercado é um sistema espontâneo e descentralizado de comunicação e alocação de recursos escassos entre consumidores e produtores.

É comum as notícias confundirem o conceito econômico “puro” de mercado com o mercado de ações. Outra confusão comum é confundir o conceito “puro” de mercado com capitalismo ou com neoliberalismo. É fundamental acabar com essas confusões.

Consta que o comércio de mercadorias remonta às origens do homo sapiens e floresceu em muitas as culturas pré-industriais. É claro que o comércio existente entre os ilhéus polinésios que usavam pontas de flecha e porcos como moeda de troca não se equipara em complexidade com os mercados modernos, mas era um mercado incipiente.

Ninguém cria ou projeta um mercado, ele simplesmente acontece, basta existir uma demanda. O máximo que é possível fazer é melhorar as condições para um mercado surgir. E ainda que seja possível reprimir um mercado, tudo indica que é muito difícil suprimir um mercado, mesmo que as mercadorias sejam ilegais ou consideradas tabus. Para um mercado efetivamente desaparecer, é preciso que a demanda acabe, seja por uma mudança cultural ou por que o recurso simplesmente deixou de ser escasso.

 

Eficiência e distorções de mercado    

Mercados são o resultado de milhares de decisões individuais, independentes e sem planejamento central. Da mesma forma que a seleção natural age cegamente e produz organismos adaptados, a “mão invisível” do mercado produz a alocação eficiente de recursos escassos. Isso acontece porque o sistema de preços comunica a escassez do recurso no sistema, resultando em um preço de mercado que é Pareto-eficiente, uma condição em que nenhuma mudança deixaria pelo menos alguém melhor sem deixar outro pior.

Mas existem certas condições para os mercados funcionarem com eficiência de Pareto e sem distorções. Essas condições são:

Muitos produtores. Um mercado precisa ser competitivo, isto é, sem monopólio. Os princípios da microeconomia demonstram que sistema não produz preços de mercado sob a influência de produtores desproporcionalmente grandes (monopolistas).

Informação disponível a todos. Um mercado precisa também ser um sistema de comunicação de preços entre todos fornecedores e consumidores. Por exemplo, se o quadro da Monalisa for leiloado sem aviso prévio em Morungava, interior rural do Rio Grande do Sul, é provável que o maior lance seja muito abaixo do preço de mercado. 

Sem especuladores. O benefício marginal das mercadorias precisa ser decrescente à medida que os consumidores as acumulam, o que é conhecido como o princípio da utilidade marginal decrescente. Quando acumular mercadorias traz cada vez mais benefícios, surge uma bolha especulativa que distorce o mercado e desestabiliza o sistema de preços.

Sem propaganda. Propaganda visa a produção subliminar de uma necessidade de bem-estar ou utilidade que não existia antes na mente de consumidores. Se propaganda fosse meramente informação, o preço seria apresentado, o que geralmente não acontece. Considerando que um mercado objetiva alocar recursos escassos de forma eficiente, a propaganda distorce esse objetivo, pois o produtor não produz somente o recurso, mas também a necessidade por ele.

Mercados são eficientes para alocar mercadorias somente quando todas essas condições são satisfeitas. Mas poucos bens e serviços ofertados pelo capital natural podem ser considerados mercadorias. E quando o são, mercados não são capazes de alocação intergeracional de recursos naturais não-renováveis, o que também é uma distorção de mercado se considerarmos as futuras gerações como consumidores. Considere o que aconteceria nos preços de combustíveis fósseis se delegações vindas do futuro aparecessem para negociar conosco! 

 

A natureza dos recursos

Antes de continuar, algumas definições conceituais sobre recursos se fazem necessárias. Recursos podem ser classificados em dois tipos que diferem profundamente em sua natureza:

  • Recursos tipo estoque-fluxo: são transformados materialmente naquilo que produzem. Podem ser armazenados para uso posterior e usados em virtualmente qualquer taxa de consumo. São esgotáveis. Exemplos: os grãos em um silo (produzem farinha), o minério em um depósito (produzem metal), a madeira em uma floresta (produzem lenha).
  • Recursos tipo fundo-serviço: causam a transformação de produtos sem serem transformados no processo. Não podem ser armazenados para uso posterior e provêm serviços em uma taxa definida. Não são esgotáveis, mas se depreciam. Exemplos: o moinho de farinha, a fornalha metalúrgica, as árvores da floresta.

O capital natural pode ser de um tipo ou de outro. Mas também pode ser ambos, como o exemplo da floresta. As florestas são um estoque-fluxo de madeira. Mas também são um fundo-serviço de diversos serviços ambientais. E aqui o problema da escala macroeconômica se faz evidente: o benefício econômico de desmontar a floresta vem junto com o custo de oportunidade dos serviços ambientais sacrificados. As florestas são, felizmente, um sistema que se autorregenera com energia do sol (ecossistema), o que implica que podemos encontrar um fluxo sustentável de obtenção de madeira sem abrir completamente mão dos serviços ambientais.

 

Exclusividade e rivalidade

Recursos podem apresentar exclusividade. Na prática isso significa direito à propriedade, que é garantido por alguma instituição, como o Estado. Nada é exclusivo na ausência de uma instituição para garantir esse direito. Sem uma instituição garantidora, só resta ao possuidor do recurso desencorajar outros de não tomá-lo de si.

Recursos também podem apresentar rivalidade. Ao contrário da exclusividade, que é garantida por uma instituição, a rivalidade é uma característica física intrínseca de um recurso. O uso de um recurso rival por alguém impede o uso desse recursos por outros. Tanto estoque-fluxos quanto fundos-serviços podem ser rivais. Se uma padaria consome a farinha de um silo (um estoque-fluxo), ela impede outra padaria de fazer o mesmo. Se uma indústria usa a atmosfera para diluir suas emissões (serviço ambiental de dispersão, um fundo-serviço) ela impede outras indústrias de fazer o mesmo (não com o mesmo ar!).  

Mas alguns recursos do tipo fundo-serviço são não-rivais: a iluminação pública é um exemplo (um serviço público), assim como a proteção oferecida pela camada de ozônio (um serviço ambiental). O consumo por um não impede o consumo por outro. Recursos não-rivais, apesar de esgotáveis, não são alocáveis entre consumidores.

Certos recursos são congestionáveis. Esses recursos oscilam rapidamente entre abundância e escassez. Parques, estradas e praias públicas são exemplos de recursos que aparentam ser não-rivais em condições normais mas, à medida que a intensidade de uso ou consumo aumenta, a rivalidade do recurso passa ser evidente.

 

O problema do acesso livre

É evidente que mercadorias precisam apresentar rivalidade e exclusividade. Ninguém está interessado em fazer comércio de um recurso não-rival; e é muito arriscado comprar ou vender bens sem a garantia do direito à propriedade.

Assim, o mercado não é capaz de alocar recursos não-exclusivos ou não-rivais. Tais recursos geralmente são rotulados como “bens públicos” (public goods, em inglês) ou “bens comuns” (common goods, em inglês). Na verdade não são apenas bens mas também serviços, o que sugere um rótulo melhor, como “recurso público” ou “recurso comum”.

Em um artigo seminal, Garret Hardin (1968) propõe a ideia de que recursos comuns estão destinados a um fim trágico pela sobrecarga de uso, já que indivíduos agem racionalmente mas por interesse próprio. Ele chamou isso de “A Tragédia dos Comuns”. Essa proposição implica que as decisões individuais e descentralizadas não somente criam uma “mão invisível” eficiente que aloca mercadorias, mas também criam um “pé invisível” destrutivo que esgota os bens comuns.

Esse problema é melhor rotulado por “problema do acesso livre”, pois propriedades comunais, que pertencem não a um único indivíduo mas a uma comunidade específica, geralmente possuem mecanismos para evitar esse problema.

 

Evitando a tragédia

Considerando um dado recurso comum, quais são as maneiras de evitar a tragédia? Existem três maneiras alternativas, de acordo com Donella Meadows:

A primeira delas é privatizar o recurso comum. Não queremos dizer aqui monopolizar o recurso, mas parcelar o recurso entre os consumidores. Nesse caso, o problema do acesso livre desaparece porque não existe mais acesso livre. É como fazer o que Alexandre, o Grande, fez ao não conseguir desatar o complicado nó Górdio: frustrado, ele cortou o nó com sua espada. Mas para existir exclusividade de uso (leia-se direito à propriedade) é necessário uma instituição para a garantir, como o Estado. Além disso, essa estratégia simplesmente não funciona para recursos comuns que são não-rivais.

A segunda maneira é regular o uso do recurso comum por uma instituição. O acesso continua livre, mas o abuso é desencorajado pela ação coercitiva da instituição reguladora. É o caso das propriedades comunais mencionadas anteriormente. É o caso de bens públicos não-rivais típicos que vemos ao caminhar na rua. E pode ser o caso de certos recursos naturais e serviços ambientais: basta que instituições reguladoras sejam criadas e mantidas por políticas públicas. É aqui que habita o planejamento e gestão de recursos hídricos.

A terceira alternativa, apontada por Meadows, é educar os usuários para não abusar do recurso, ou seja, a serem altruístas. Se o respeito aos limites do recurso comum é internalizado culturalmente, o abuso é desencorajado por uma reflexão moral na mente de cada consumidor. Essa estratégia dispensa, teoricamente, a presença de uma instituição, necessárias nas outras. Na prática, como a educação precisa ser reforçada continuamente, essa abordagem funciona mais como uma linha complementar às outras.

 

A promessa de um próspero declínio

De acordo com a economia ecológica, o desenvolvimento sustentável promete para a humanidade a manutenção do bem-estar humano de forma socialmente justa por alguns milênios. Não crescente, tampouco para sempre, pois nada cresce e nada é para sempre. É uma promessa bastante sóbria comparada com a promessa da escola neoclássica, que promete “crescimento sem limites de bem-estar humano”.

Para isso acontecer, a antroposfera precisaria funcionar como um subsistema em estado estacionário (em inglês, SSSS: steady-state sub-system). Nesse sistema, os serviços ambientais seriam conservados na medida em que complementariam os bens e serviços produzidos pelo capital antropogênico. A necessária manutenção do capital antropogênico seria viável pelo consumo de recursos naturais em uma velocidade sustentável (no caso dos recursos renováveis) ou em uma velocidade que permitiria a alocação inter-geracional de longo prazo (no caso dos recursos não-renováveis).

A imagem final do desenvolvimento sustentável é de que, ao longo de milênios, certos recursos insubstituíveis (como o fósforo dos solos, por exemplo) iriam ser lentamente esgotados, mas sem os colapsos catastróficos de um mundo lotado, violento e desconfortável. Enquanto isso, a humanidade teria bastante tempo para se desenvolver e amadurecer como espécie viva diante do universo. Nas palavras de Odum: um próspero declínio.

 

Referências

Costanza, R., d’Arge, R., de Groot, R. et al. (1997). The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature 387, 253–260. https://doi.org/10.1038/387253a0

Daily, H. & Farley, J (2011). Ecological Economics : principles and applications. 2nd ed. Island Press, Washington, 2011.

Hardin, G. (1968). The Tragedy of the Commons. Science, 162, 1243-1248. http://dx.doi.org/10.1126/science.162.3859.1243 

Meadows, Donella H (2009). Thinking In Systems : a Primer. London ; Sterling, VA :Earthscan, 2009.

Harari, Yuval N. ( 2015). Sapiens : a brief history of humankind. New York : Harper,

Harari, Yuval N. (2019). 21 Lessons for the 21st Century. London, England: Vintage.

Odum, H., & Odum E. C.. A Prosperous Way Down: Principles and Policies. Boulder, Colo: University Press of Colorado, 2001.

Webb, Stephen (2015). If the universe is teeming with aliens … Where is everybody? Seventy-five solutions to the Fermi paradox and the problem of extraterrestrial life. 2 ed. Heidelberg : Springer, 434 p. (Science and Fiction – A Springer Series).

Imagem de capa: https://unsplash.com/photos/Q1p7bh3SHj8

 

 

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