Identificando regime de vazões funcionais para assistir práticas de operação de reservatórios e recuperação de ecossistemas

Identificando regime de vazões funcionais para assistir práticas de operação de reservatórios e recuperação de ecossistemas

Identificando regime de vazões funcionais para assistir práticas de operação de reservatórios e recuperação de ecossistemas

Por Ana Paula Dalcin (1) e Guilherme F. Marques (2)

O armazenamento de água por meio de reservatórios é um importante meio de garantir segurança hídrica e energética para a sociedade, mas também ameaça o equilíbrio natural de ecossistemas aquáticos e comunidades. Uma vez que restaurar regimes de vazão naturais de rios ao seu estado original é muitas vezes inviável ou indesejável, visto os vários benefícios apontados, o conceito de vazão ambiental surgiu como forma de encontrar um balanço entre os usos econômicos da água e a preservação de ecossistemas.

A ideia de vazão ambiental explora diferentes opções de regime de vazão que podem ser preservados ou recuperados de acordo com as preferências da sociedade tanto em locais onde novas infraestruturas são planejadas como em locais já alterados. Contudo, a escolha de uma vazão ambiental sempre traz efeitos econômicos, sociais e ambientais para os diferentes usuários de água de uma bacia. Por exemplo, adotar uma vazão ambiental próxima ao regime natural de um rio pode diminuir a água armazenada em reservatórios para enfrentar estações de seca, aumentado o risco de déficit hídrico ou energético. Por outro lado, a adoção de vazões ambientais mínimas pode não trazer respostas ecossistêmicas relevantes.

Conseguir prever esses efeitos é um desafio na gestão dos recursos hídricos, o que requer o emprego de modelagens computacionais e monitoramento ambiental de bacias hidrográficas de longo prazo. Focar em um regime de vazão ambiental que desengatilhe um processo ecológico ou geomorfológico importante no ecossistema aquático, também denominadas como vazões funcionais, é uma estratégia fundamental para traçar planos de recuperação e guiar o emprego de vazões ambientais. Como exemplo, componentes específicos de um regime de vazão, como a magnitude, a duração e o tempo de início de uma cheia são responsáveis por acionar processos de migração e desova de peixes, bem como garantir a inundação da planície para que as larvas se desenvolvam em refúgios contra predadores e com acesso a alimento.

O estudo realizado com apoio do Inter-American Institute for Global Change Research (IAI) e recém publicado na revista Journal of Water Resources Planning and Management da ASCE conseguiu avançar no conhecimento da resposta de ecossistemas aquáticos a diferentes regimes de vazão, o que permite subsidiar práticas de operação de reservatórios. O artigo explora diferentes combinações de componentes de um regime de vazão (magnitude, duração, tempo, frequência e variação das vazões) e a sua resposta ecossistêmica em termos de recrutamento de peixes migradores. A bacia do Rio Paraná, a qual apresenta forte desenvolvimento hidrelétrico e sofre os efeitos da regulação da vazão de longa data, com redução já amplamente reportada na literatura quanto à abundância de peixes migradores, foi escolhida como caso de estudo.

Os resultados permitiram não apenas quantificar diferentes respostas ambientais a mudanças no regime de vazão, como também verificar regimes de vazão que possuem melhor performance tanto para usos econômicos como para o ecossistema, o que permite melhor flexibilidade na negociação da escolha da vazão ambiental a ser implantada em bacias amplamente antropizadas.

Para conhecer o estudo acesse: https://ascelibrary.org/doi/full/10.1061/(ASCE)WR.1943-5452.0001567

(1) Ana Paula Dalcin, doutoranda, PPGRHSA, IPH/UFRGS

(2) Professor Guilherme Fernandes Marques, PPGRHSA, IPH/UFRGS

 

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