A magia que transborda de mim*

Mystika Ai

A magia que transbroda - poema drag - Mystika Ai
Paulão. Foto: @gabrielliferza

Quando aceitei a fragilidade que reside em mim,  

As palavras transbordaram pela minha boca,  

Escorreram pelos meus dedos,  

Como se entrassem magias,  

Antigas, mas renovadas.  

Sinto as emoções fluírem por todo o corpo,  

Palavras pulsantes,  

Irradiando para cada ponta dos dedos,  

Com um sentimento voraz,  

Uma determinação que arde,  

Mas uma calmaria que me traz paz.  

Quase consigo enxergar essa energia  

Pulsar da palma da minha mão.  

Ela é forte, potente,  

E traz uma voz ancestral.  

Quem diria  

Que minha fragilidade  

Traria a minha força?  

Quem diria que, nas coincidências da vida  

— que eu nem acredito —  

Eu escreveria com a mão  

Onde habitam uma bruxa, suas vassouras e duas luas?  

É ali que digo: a dança é minha paixão,  

Meu fascínio, meu verdadeiro amor.  

E se as palavras fossem passos de dança,  

Compondo uma coreografia  

Que já vivia dentro da minha alma?  

Enquanto eu existir,  

Enquanto eu respirar,  

Minha alma continuará  

A navegar por mares e oceanos,  

Desvendando novas formas  

De expressar as singularidades que habitam em mim.

* Este poema foi publicado anterioriormente em 5 de março de 2025 no site pessoal de artiste.

Desmontar para se montar*

Mystika Ai

Desmontar - Mystika Ai - Grafia Drag
Paulão. Fonte: Acervo pessoal de artiste.

O dia começou difícil.

Olhei no espelho

e não reconhecia a imagem refletida.

Volumes que em outros corpos

vejo beleza,

no meu, não conseguia.

Tamanha a exaustão.

Meu rosto, não reconheço.

Quem é essa figura hoje?

Quem eu sou hoje?

Quem eu quero ser hoje?

Deusa? Paulão? Little Mystie? Paulette?

Nenhuma eu conseguia sustentar.

O peso parecia demais

pra um corpo que desejava se enclausurar.

Me maquiei,

não me reconheci.

me desmontei.

e naquele rosto desfigurado pelo demaquilante,

alguma beleza comecei a ver.

“Cabelo! Isso, vou cortar!”

Me senti um pouco melhor.

Vesti roupas confortáveis,

nas quais me sinto segure.

E fui vestide de mim mesmo.

“Maquiadore sem maquiagem?”

“Drag sem montação?”

“Nem cumprimenta. Mal educade.

Arrogante.”

As vozes implantadas

ecoavam pelos cantos mais obscuros,

entranhados na minha carne.

Em um vai e vem,

que não parecia ter fim.

Cheguei de mansinho.

Com pouca energia e poucas palavras,

fui ocupando meu espaço.

Quando sentei,

olhei as cores.

Um silêncio ecoou.

Uma imagem segura veio à mente,

e maquiei meu rosto.

No meio dessa pintura,

uma drag, montada,

procurando um lugar para ser,

me trouxe um lugar de conforto

e reconhecimento.

Como agradecimento,

retoquei sua maquiagem.

Outra pessoa,

com seus cachos e brincos roxo-amarelo,

confiou seu rosto

para apoiar meus pincéis.

Como um abraço.

Trouxe mais um.

E depois, muitos rostos

confiaram em mim,

transformando face em tela,

maquiagem em pintura,

arte viva e efêmera.

Em meio ao mar de barulhos,

mesmo atordoade,

eu consegui ouvir as vozes.

Mas dessa vez,

eram vozes que me incentivavam.

Palavras foram como abraços.

Com maquiagem e afeto,

juntei meus cacos.

E me montei.

Montar para se desmontar.

Desmontar para se montar.

*Publicado anteriormente em: https://www.mystikaproducoes.com.br/post/desmontar-para-se-montar