Uma drag de cinema

Ayla Cinema (Igor Urban)

Meu caminho Drag se abre muito com o Teatro, assim como o possível início da história Drag em Roma e Grécia, onde homens interpretavam papéis femininos. Eu tinha uns 18 anos. Meu sonho era ser ator. Um diretor de teatro me disse que eu era muito viado para fazer galãs, e que se eu não era capaz de interpretar galãs másculos,  então, era melhor eu seguir outra carreira. Esse trauma e esse soco no estômago me rondaram até eu descobrir no que eu transformava ele. Logo depois, quase no mesmo ano, comecei a experimentar a existência do meu alter ego Ayla, batizada pela primeira amiga que me maquiou. Entrei no google e descobri que o nome significa brilho da lua em Tailandês, gostei, e o nome ficou. Também tive uma pessoa muito importante nesse processo de despertar e de dar os primeiros passos com minha Drag que foi Dalvinha Brandão. Para  mim, ela é uma grande artista. Transita por todas as linguagens artísticas com maestria, inclusive deixo aqui a indicação do disco que ela gravou, chama-se “O Amor É Uma Invenção da Nasa pra Vender Travesseiro”. Ela foi como uma Drag Mother para mim, sabe todas as histórias, todos os bafos, todos os truques. 

Ayla drag de cinema
Ayla Cinema em Revelações. Foto: LeticiaHF.

Em 2015, passei um ano em Portugal, estudando cinema. Conheci um grupo de Teatro, com o qual me identifiquei e decidi entrar . Comentei que fazia Drag, e me deram o papel de uma cantora que vinha do Brasil na montagem que estavam fazendo. Eu tinha uma cena de destaque em que fazia uma dublagem. Ali, um mundo se abriu, entendi que eu não precisava ser galã para fazer acontecer. Eu precisava desvendar mais da persona que criei, precisava desvendar mais o que era Drag para mim. 

Voltei ao Brasil em 2016, Rupaul’s Drag Race ainda não era um grande surto, Pabllo Vittar estava surgindo. Era nebuloso Drag ser mainstream no Brasil, não tínhamos noção que vinha um segundo boom em relação ao tema, em termos midiáticos. Considero que era o início de um novo momento para o cenário Drag. Naquele ano, eu tinha que  criar um documentário para uma matéria de faculdade, e  disse para a minha dupla: tenho esse filme em que quero falar sobre o carnaval e tenho esse em que quero entrevistar diferentes gerações de Drags. Ela disse: “Se você fizer esse filme de Drags eu topo!”. E eu lancei um: Mas será? É meu primeiro filme, será que as pessoas vão me levar a sério?! Ela me encorajou muito, disse que era o que me pulsava, e mais, disse que Ayla tinha que abrir o filme, deixando claro a minha subjetividade, porque aquela pesquisa me movia.  Assim foi, Ayla abre o filme com a frase: “Não é sobre querer ser mulher”, porque era uma mensagem que eu queria deixar claro, Drag independe de gênero e sexualidade, é sobre outros departamentos. 

Foi muito especial as trocas que tivemos, seguimos o filme com Juana Profunda, hoje uma sumidade consagrada da cena Curitibana, ali ela começava  já com questões e desejos muito contundentes. Ali foi um encontro de cara, Juana se tornou uma das minhas melhores amigas no in e no out Drag, também se tornou minha musa, atuando em outros filmes que dirigi depois. Na mesma festa, entrevistamos Suzaninha Richtofen, outra sumidade, mas da cena de Florianópolis, também foi importante  tê-la conosco. Nossa terceira entrevistada foi Diandra Stope, que também foi especial, porque ela trouxe a ótica de uma cena de Curitiba que não existe mais, de certa forma. Ela viveu o primeiro auge Drag nos anos 90, com boom do filme Priscilla Rainha do Deserto. Conseguimos imagens de Diandra performando na CATS CLUB, uma finada casa em Curitiba que ficou famosa por shows de Drags. Fechamos o filme com a cereja do bolo, que foi Silvetty Montilla, uma sumidade não só da cena paulistana, mas da cena brasileira. Ela foi muito receptiva, deu sua visão como um todo, amarrou toda a pesquisa muito bem. Intitulamos o filme de “O Mundo Estratifica, O Corpo Se Desloca”. É algo que veio de uma frase, lendo um artigo de Judith Butler, no qual  ela fala sobre performance de gênero, para ela, Drag é sobre tirar o gênero desse lugar estratificado que o mundo nos coloca. O filme rendeu bons frutos, fomos selecionados para o Olhar de Cinema, um dos festivais mais importantes do país e circulamos por outros festivais como CineBH. Saí dos festivais com respostas muito contundentes de público, e com uma certeza que aquele era meu lugar de fala, que era uma coisa pouco falada, e que eu precisava habitar esse espaço. Drags no cinema, ainda tinha um mundo a desbravar e a falar. E ainda tem!

Ayla drag de cinema
Ayla Cinema em Mirror Mirror On The Wall (2019). Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Atrizes Drags no Cinema a gente só tem como grandes referências Divine nos Estados Unidos e Laura Divison no Brasil. Laura é uma referência que inclusive me chegou tardia, as pessoas não conhecem muito e os filmes são raros de achar, porém, foi uma grande artista que deve ser celebrada.  Priscilla Rainha do Deserto, é um grande marco, mas foi feito com atores de renome que não são Drags. Já Laura e Divine, levaram as personas filme a filme, como uma grande construção. 

Mais que o meu trauma subvertido, meus desejos começaram a ganhar mais espaço e mais fôlego. Pensei, Ayla já habitou o primeiro filme, porque não Ayla habitar vários filmes? Vou criar o meu próprio espaço enquanto articulação e trabalho de ator e vou fazer esse emblema entre criador e criatura. Com isso, comecei a desenvolver um método autodidata de como eu dirigiria e atuaria de Ayla, ao mesmo tempo, nos próximos filmes que gostaria de criar. E assim foi com mais um filme, dessa vez, uma videoarte intitulada “Snow Ayla”, em que desconstruo ideias de contos de fada e falo sobre abuso, com uma trilha remixada do filme clássico da Branca de Neve, da Disney. Fiz uma performance ao vivo com o filme no Festival Ruído Encena em 2017, um festival de performances incrível, idealizado pela Juana Profunda a.k.a. Daniel Valenzuela. Esse festival propunha como um grande encontro de arte de performance do Brasil e até de outros lugares do mundo. Tinha todo tipo de performance ,não só Drag, foi de fato um evento especial. 

Em 2018, escrevi uma ficção intitulada Te Convidei Pra Jantar. A sinopse consistia em uma Drag e um palhaço, num date existencial, em que discutem sobre carreira, sobre o real e o irreal, sobre o que existe por detrás de diferentes tipos de artificialidade do alter ego e como eles não se desmontam em momento algum. O filme era complexo demais, muitas cenas, muito diálogo, vi que ali não daria pé para atuar e dirigir nem se Ayla fizesse uma ponta (risos). Chamei um trio de atores talentosíssimos da cena curitibana que eu tenho o privilégio de ser amigo, Juana Profunda e Cleydson Nascimento como protagonistas. Rubia Romani também tem um papel, ela é uma atriz que sou fã, multifacetada, vai do drama à  comédia, mas tem várias personas que habitam aquele corpo como, um Drag King, que construiu uma cena de Drag Kings em Curitiba, e também possui uma personagem Burlesca. Ambas figuras, Rubão e Ruby Hoo, colocam abaixo qualquer boate ou lugar em que se apresentam. Sou fascinado pelas ações e desejos dela, assim como sou por Juana. 

2019 foi um momento derradeiro do meu TCC, na antiga Faculdade de Artes do Paraná, hoje intitulada UNESPAR. Resolvi retomar a videoarte,  os contos de fada e Ayla diante das câmeras. Crio “Mirror Mirror On The Wall”, subverto finais felizes, subverto a imagem do príncipe e da princesa. E, de novo, bebo de Branca de Neve, escolhi como epígrafe uma frase do filme Branca de Neve, de 2000, do Diretor Português João César Monteiro em que diz: “Que Imprudente ideia, a do príncipe, ter interrompido Branca de Neve no melhor dos sonos e, com um beijo que ela negará sempre, retirá-la do caixão de vidro para a restituir à vida, isto é, à carne, e arrogar-se direitos sobre ela”. O filme de César Monteiro é bem polêmico, ele é mais áudio do que visual, foi rigorosamente criticado, são muitos minutos de tela preta. É uma adaptação de um texto teatral escrito pelo suíço Robert Walser, no início do século XX. Para  mim não só fazia sentido com toda a desconstrução e estranheza que eu queria passar, mas também como uma homenagem a tudo que o Cinema Português me trouxe. Convidei novamente Juana Profunda para integrar o elenco e o talentoso ator Max Carlesso. Mais uma vez entramos no festival Olhar de Cinema e ganhamos o prêmio de melhor filme da Mirada Paranaense. Me trouxe novas certezas de que sim, se meu eu, lá do passado tinha dúvidas se iria ser levado a sério, aqui estamos, e também que desejo era esse de tanta aprovação da cisnorma? A gente só tinha que fazer, fluir e seguir, as outras coisas seriam consequências, ou não. Não era validação que importava, era diálogo, era habitar um espaço.  

Ayla drag de cinema
Performando na Festa de Dalvinha Brandão em 2017. Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Só sei que olhei para tudo até aquele momento, e até pensei, eu posso falar sobre outras coisas, eu posso dirigir filmes sobre qualquer outra coisa, mas ainda tem muito fôlego para imergir no Drag, ainda tem muito chão e muita coisa a dizer. Esse ano, finalmente, finalizei meu primeiro filme para além da academia e  por projeto de lei. O filme se chama Revelações, foi produzido pela Beija Flor Filmes.Começo a abrir uma nova aba, sai dos contos de fada, saio da fantasia um pouco, do etérico, e venho para o real. Talvez, meu filme mais complexo e meu filme mais íntimo, resolvi falar sobre a minha relação com minha Tia Avó. que é uma das maiores pesquisadoras de abelhas do mundo e está com demência avançada. Com esse filme, quero questionar se as pessoas se esquecem que foram conservadoras ou podem existir pessoas que nunca foram? Não vou dar mais spoilers, vocês vão ter que assistir ao filme que sai em breve, mas basicamente é uma anatomia da minha vida, onde desejos e pulsões começam. Também é uma celebração a quem minha Tia foi e é.

  A mensagem que eu quero deixar aqui, é da nossa pensadora contemporânea “Nunca acreditem em vocês”, (brincadeira). O que eu quero deixar é que acreditem sim, acreditem que Drag pode ocupar o espaço que a gente quiser, e se o espaço não existe, a gente vai dar um jeito de abrir ele.

Não sou cantora, não sou humorista, não sou do bate cabelo, estou aqui provocando em abrir outra aba pouco usada, porém já antiga por exemplos citados, sou uma Drag Atriz de Cinema. Não gosto de caixas mas no Sul desbravei o lugar da Direção, mas também existem outras Drags diretoras de Cinema pelo Brasil que estão produzindo no hoje que devem ser celebradas como Toni Dri a.k.a. Malu Vitta em São Paulo, Paula Lice na Bahia e Rafael BQueer no Pará, inclusive procurem pelo trabalho dessas artistas pois são incríveis.  

Peça Quase Ministro, 2016 em Portugal. Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Para mim, se Cinema não for um espaço de quebras de paradigmas e uma lupa para novas e ou outras existências, não faz sentido. Assim como Drag é sobre desmantelar o que nos foi posto,vou seguir meu Cinema Drag, até achar que não tenho mais camadas e assuntos sobre. 

Sou muito grato a todas as equipes que fizeram parte dessa trajetória, e embarcaram nas minhas loucuras, afinal Cinema não é uma arte que se faz sozinho, ela é do coletivo. Drag tem um processo um pouco mais solitário, porém sem as trocas com o outro ela também não existe, seja nos camarins com outres artistes, seja no encontro com o público de teatro ou boate, ou quem sabe no encontro do público com um filme de Cinema, porque não?!