Entrevista com Adriana Prates: a Cena King de Salvador

Por: Lorde Lazzarus

Adriana Prates Cena King de Salvador
Adriana Prates como Drag King. Fonte: Arquivo Pessoal

Lorde Lazzarus. Sabemos que você é uma das pessoas responsáveis pelo projeto CABARET DRAG KING (atualmente CENA KING) na cidade de Salvador/BA. Como se deu a ideia de criar esse espaço para o trabalho dos drag kings? Quando foi que tudo começou?

Adriana Prates. Entre outras coisas, tive a ideia do Cabaret Drag King (CDK) porque, basicamente, sentia falta de ver artistas performando masculinidades a partir da linguagem drag e achei que seria legal fazer uma proposta neste sentido. Daí fiz uma chamada e algumas pessoas apareceram se propondo a fazer. Como queria que fosse um show de variedades, convidei também artistas de outras linguagens para criar sobre o tema das masculinidades e montei o espetáculo pela primeira vez em maio de 2013, com a ajuda de Eberth Vinicius e Junior Oliveira, meus parceiros no Coletivo Cena Queer.  Tinha de tudo no CDK, embora os Drag Kings fossem o carro-chefe do espetáculo. A Cena King é um projeto diferente do CDK. Surgiu este ano (2024) e foi concebido como um Drag King Show. É uma proposta do coletivo House of Kings, que tem à frente Karol Senna (Kinn Spada), Ramona Gayão (Tonhão) e eu.

Lorde Lazzarus. Você se monta? Já viveu alguma experiência com a montação? Poderia nos descrever como foi? 

Adriana Prates. Me montei algumas vezes mas geralmente não me monto, só uso alguma roupa referenciada em ideias que temos a respeito do “masculino”. A primeira vez que me montei foi para participar de um show da “Solange tô Aberta”, em 2007, quando me inspirei na capa do disco “The Man Machine”, da banda Kraftwerk. Em algumas edições do CDK tentei fazer umas montações mais elaboradas como Andy Wahrol, Robert Smith e também uma montação inspirada no filme “Parceiros da noite”, mas não fiquei satisfeita com os resultados. Para a estreia do Cena King, este ano, concebi uma montação inspirada pela ideia do ciborgue, que critica formas dicotômicas de pensar e evidencia o papel da tecnologia na constituição do humano. Aproveitei para homenagear o Kraftwerk, os quais, como escrevi naquela postagem do instagram, costumam poetizar a dimensão ciborguiana do cotidiano. Usei como referência a capa de outro disco deles, o Electric Café. Além de uma make, rolou um ensaio fotográfico e uma manipulação digital pra reproduzir a capa do disco. Desta vez eu amei o resultado. Rafael Jones (make), Luciana Brito (fotos) e Andrea May (design gráfico) colaboraram comigo para fazer acontecer minha ideia. Acredito que seguirei fazendo experiências nesse sentido, ainda que eventualmente.

Lorde Lazzarus. Além do Cabaret/Cena King, que outros segmentos artísticos lhe interessam e em quais você se engaja? 

Adriana Prates. Eu me interesso por arte de maneira geral, principalmente por trabalhos de viés alternativo. Mas a minha maior paixão é a música eletrônica, especialmente a House Music. Tenho loucura pelo grave e sou DJ há muitos anos.

 Lorde Lazzarus. Você sente que o trabalho de artistas do Nordeste fica invisibilizado diante de outros trabalhos em outras cenas drag/transformistas brasileiras, especialmente do Sudeste e do Sul do país? Gostaria de falar um pouco mais a respeito desse assunto?

Adriana Prates. Infelizmente, sim. Mas isso ocorre de forma geral, pois a mídia só destaca e dá importância ao que acontece no sudeste do país.

Lorde Lazzarus. Que outros/as/es artistas fizeram e fazem parte do Cabaret/Cena King ao longo de todos esses anos? 

Adriana Prates. No início dos anos 2010 eu integrava o coletivo Cena Queer, junto com Eberth Vinicius e Junior Oliveira. Sob este nome a gente se apresentou em várias partes da cidade, junto com outres artistas que abordavam em seus trabalhos temas como gênero, raça e sexualidade, por exemplo. O Cabaret foi meu projeto pessoal dentro da Cena Queer.  Minha ideia, na época, era que cada edição do CDK tivesse artistas diferentes performando, fazendo a direção, a iluminação, como apresentador (a) etc, mas algumas pessoas acabaram tendo presença constante, como Márcia Andrade, que dirigiu e apresentou várias edições, Isabela Silveira, que também apresentou o espetáculo várias vezes, e Rafael Jones, que encantava o público com números maravilhosos de dança do ventre. Os drag kings foram performados por artistas como Karol Senna, Ingridy Carvalho, Nildes Sena, Mirela Matos Sales, Jack Elesbão, Simone Gonçalves, Ramona Gayão, além de outres que fizeram king de forma mais esporádica. Gostaria de citar aqui o nome de todas as pessoas que participaram, porém passaram pelos palcos do CDK mais de 50 artistas (do teatro, da dança, da cena drag etc). Todas essas presenças estão contempladas no perfil do facebook do projeto (sei que muita gente não tem usado mais o FB porém é lá que tem o registro de todas as edições, além de fotos/bio de todes que participaram. Vale uma visita.) 

A Cena King, por sua vez, é uma proposta do Coletivo House of Kings, do qual faço parte junto com Ramona Gayão e Karol Senna. Por ser um drag show, tivemos unicamente performances de Drag Kings (à exceção de Rainha Loulou, que é Drag Queen). Mapeamos a cena e convidamos todo mundo que fez/faz King em Salvador. Participaram Ivan Bernardino, Mungunzah, Kalunga King, Alexandrite Sativa, Nikolai Molotov, Dimitri e Julian Glover (de Ilhéus, interior do estado), além de Tonhão e Kinn Spada, os anfitriões do projeto. Vale mencionar que alguns kings nasceram nas oficinas que fizemos, como Dom Gatto, Ninfo e Astro, entre outros, e que tivemos a presença de Gilvan, artista que faz cover de Ney Matogrosso e possui mais de 40 anos de carreira na cena drag da cidade. Também propusemos a pessoas que atuam ou atuaram como drag queens que fizessem performances como King, a exemplo de Valerie O’rarah, Desiree Beck, Towanda Verde Frita e Kayokan. Por fim, quero destacar a presença de Rainha Loulou, que participou de edições da Cena Queer, do CDK e esteve agora conosco em todas as edições da Cena King. 

Lorde Lazzarus. Você já sofreu algum preconceito por desenvolver esse projeto por ser uma mulher atuando na cena drag/transformista? O projeto já sofreu algum tipo de preconceito em algum momento? 

 Adriana Prates. Acredito que mulheres cisgênero que fazem drag queen enfrentam mais preconceito pois, para o senso comum, “o certo” é a pessoa performar artisticamente o gênero ao qual não pertence. Com isso acham que mulher “não pode” fazer drag queen mas é ok fazer drag king.  Inclusive, algumas pessoas chegaram a me falar que achavam que eu devia convidar somente mulheres para integrar os elencos do CDK mas minha ideia era ter a participação de pessoas de qualquer gênero, fazendo king (ou queen), justamente para não reforçar essa ideia de gêneros “opostos”. Mas de maneira geral tanto o CDK quanto a Cena King foram muito bem recebidos.

Lorde Lazzarus.  Num texto na sua conta do Instagram você escreveu: “Quando fiz minha primeira montação, em 2007, me inspirei na banda Kraftwerk, que tem mais de 50 anos de carreira e sempre utilizou máquinas e computadores para criar suas músicas, que costumam ter a tecnologia como tema. (…) Cantam sobre o rádio e a radioatividade, máquinas de calcular, medicamentos e meios de transporte, poetizando a dimensão ciborguiana da existência. Eu, como todas as pessoas que vivem neste mundo, sou ciborgue. A frase de (Donna) Haraway também me levou a pensar como a gramática da deusa sempre foi complexa pra mim, que apesar de ser uma mulher cisgênero, nunca consegui expressar uma feminilidade mainstream, enquanto muitos homens cisgêneros, maioria dos que personificam drag queens, conseguem alcançar plenamente um lugar entendido como o da diva.” Poderia nos explicar um pouco mais de onde partiu essa sua reflexão sobre montação, gênero e “feminilidade”? 

Adriana Prates. Questões relacionadas à feminilidade permeiam a minha existência desde cedo. Por ser uma mulher cis, sempre convivi com a cobrança para ter uma performance “adequada” ao gênero que me foi atribuído, ou seja, dentro de padrões normativos de feminilidade. Como diz a letra da música “eu vou sendo como posso”. Inclusive houve (há) momentos em que, quando quis ou por experiência, tentei ser “mais feminina”, mas é fato que, em vez de tentar me adaptar ao padrão mais normativo de gênero, optei por observar, refletir, estudar e, de certa forma, questionar esses padrões. Criar o CDK foi uma forma que encontrei de dividir minhas reflexões sobre esses temas e de congregar pessoas para pensarmos nessas questões de forma coletiva. Quanto ao aspecto da montação, frequentar a noite, de maneira geral, e a cena drag da minha cidade natal (Salvador) enriqueceu o meu olhar e as minhas reflexões em uma medida praticamente equivalente ao tempo que dediquei à minha educação formal. Sou grata e apaixonada pela cena drag de Salvador, uma verdadeira escola de vida, arte e resistência.

Lorde Lazzarus. Que conselho você daria para mulheres cisgênero, em especial, para aproveitarmos esse recorte, que estão começando a se aventurar no mundo da montação (sejam elas kings ou queens)? 

Adriana Prates. Entre muitas outras coisas, acho que, além de tensionar supostas verdades sobre o gênero, Drags são especialistas em tensionar, digamos assim, a diferença entre o real e o imaginário, mostrando a dimensão ficcional do que entendemos como real e envolvendo o público nesse jogo. Acho que vale muito a pena experimentar com isso. Outra coisa que tenho pensado é sobre a relação com a personagem drag, tanto no nível da própria pessoa quanto no nível da convivência etc. A depender do seu envolvimento na cena, muitas vezes a personagem não fica no palco, ela se acopla à vida, de uma forma muito fluida, o que é muito interessante. Se você observar, isso pode nos dizer coisas interessantes sobre gênero, performance e performatividade, na prática.

Lorde Lazzarus. Que futuro você vislumbra para os drag kings brasileiros? 

Adriana Prates. Já ouvi algumas pessoas dizerem que drag king não tem graça, que não favorece a fechação ou que não tem glamour, mas hoje já temos uma certa quantidade de artistas fazendo drag king e mostrando que esse tipo de performance/show pode ser muito rico e divertido. Há um mundo de possibilidades para explorar. Resta ao público se abrir e prestigiar mais nosso trabalho.