“Meu nome é Gilda, eu sou travesti” – apresentava-se diante dos pedestres ou nas festas curitibanas no intuito de angariar algumas moedas para sobreviver, além, é claro, de roubar beijos dos rapazes com o seu bordão “uma moeda ou um beijo?”. Algumas figuras são tão potentes que não marcam somente a memória das pessoas, mas também a memória de uma cidade e de uma geração. Gilda, portanto, faz parte de uma mitologia de Curitiba, como se fosse uma divindade ou personagem histórica que mora em um imaginário coletivo uma vez que registros, documentos e fotografias da sua pessoa são extremamente difíceis de serem encontrados.

Gilda de Abreu, nascida em 1950, teve seu corpo encontrado em 1983 em um casarão abandonado na Rua Desembargador Motta. Sua morte é cercada de mistérios, pois apesar do atestado de óbito constar doenças como pneumonia, cirrose e meningite; existem burburinhos de que ela teria morrido de frio ou que fora assassinada por um amante ou que tivera se suicidado (MARZINI, NASCIMENTO, 2016: MONTARGIL, 2023). E é interessante notar que a história de Gilda é cercada de rumores, de dizeres, de causos – alguns mentirosos ou aumentados – que tem o intuito de dar veracidade a essa personagem tão importante por transgredir o espaço social, as normas de gênero, as convenções de uma época e de uma cidade. Se tem uma palavra-chave para definir Gilda é: transgressão.
Dizem que sua chegada a Curitiba se deu por volta dos anos 1970 após fugir com o circo. Ela passa a figurar fortemente o cenário de efervescência cultural da cidade, circulando pela Boca Maldita, pela Rua das Flores, pelas diversas praças da região central de Curitiba. Gilda também era uma pessoa em situação de rua, de modo que não figurava só pela quiproquó noturno das festas, baladas e desfiles de carnaval, mas perambulava no dia a dia entre jornalistas, empresários, estudantes, office boys e outros trabalhadores no intuito de conseguir moedas e se demarcar artisticamente a partir da sua expressão: uma barba volumosa, um batom avermelhado, vestidos, trejeitos, desmunhecagens.
Como se pode ver no documentário Beijo na Boca Maldita de Yanko Del Pino, Gilda é uma incógnita até para ser definida, isto é, as pessoas daquela época não sabiam se a tratavam de ele ou ela, se era uma bicha afeminada, uma drag, uma travesti; se ela estava apenas “brincando” ou se de fato era uma atitude radical de se mostrar verdadeiramente para o mundo. Nesse caminho, Gilda obviamente foi uma existência vítima de diversas formas de violência, um corpo atravessado por olhares transfóbicos, moralizantes e de forte exclusão social por ser uma “mendiga” (termo pejorativo que aparece em algumas de suas definições).

Portanto, Gilda foi um incômodo, uma dor de cabeça, uma provocação. Diferente de algumas capitais brasileiras, Curitiba sempre teve aspectos político-históricos de conservadorismo, de um certo ruralismo, de um povo sisudo e de cara fechada, de uma cidade cinza, triste, fria, insólita. Quando surge uma expressão corporal tão oposta e contraditória com essa realidade, Gilda vira uma metáfora dessa situação, tornando-se um ícone e atraindo para si – inevitavelmente – tentativas de silenciamento e de invisibilidade, justamente por mostrar como era possível superar uma sociedade tão preconceituosa e heteronormativa.
Multiplicam-se assim relatos dessas violências: dizem que sofreu uma facada certa vez, dizem que apanhou de um morador de rua e outros dizem que apanhou de um guardador de carros, dizem que foi esganada e que foi xingada em tal data. Dos relatos mais verídicos, está o dia que levou um chute na boca de um político e o dia de véspera de carnaval de 1981 em que foi internada a força em um hospital psiquiátrico. Logo, as violências que a perpassaram se entremeiam de forças muito maiores: não era apenas por pertencer ao que se denomina hoje de grupo LGBTQIAPN+ e nem por ser “da rua”, mas principalmente, por representar modos de existir não autorizados, aceitos e [cis]tematizados. Parece que até mesmo a felicidade de Gilda era uma ruptura com o status quo, uma felicidade que incomodava e não era bem-vista por alguns. Muito do que se pode reconstruir de Gilda está na memória oral que vêm se materializando em comentários perdidos em redes como Facebook, Veremos a seguir uma série de comentários recortados que nos dão um panorama da personagem:
“Grande Gilda, pra nós, curitibanos que estudamos no centro, era a diversão, uns curtiam, outros tinham medo e outros nojo. Ela faz parte de nossas histórias” – Maurício Penteado.
“Tem pessoas que acham que menosprezar o papel cultural ou importância de alguém, é lindo. Sem paciência para estes tipos. Gilda será sempre lembrada” – Jamy Savtchen.
“Bela lembrança. Eu adorava a Gilda. Ela conseguia se fazer bela, apesar dos trapos e das línguas de trapo dos preconceituosos que a detestavam. Certa vez lhe deram um vestido de noiva. Um vestido bonito, que no terceiro dia de uso já estava um chapéu velho. Mas foi muito gostoso vê-la alegre naqueles dias convidando os mocinhos para casar. Cada macho que corria era uma gargalhada dos frequentadores dos bares da XV. Obrigado pela lembrança. Eu levava a moeda, mas só entregava depois do beijo. Meus amigos me zoavam, mas a maioria deles chorou ao saber de sua morte” – Maerlio Barbosa.
“Maravilhosa, debochava e enfrentava a caretice curitibana dançando na Boca Maldita. Gilda um ícone da Curitiba Velha de Guerra” – Paulo Afonso Souza Castro.
“Ela se divertia correndo atrás da gente, mas às vezes dava para perceber a barra pesada que enfrentava” – Chico Cardoso.
“Conheci Gilda também na minha adolescência. Bons tempos onde nos reuníamos na antiga loja de discos ‘Cash Box’ que, mantinha suas caixas acústicas na porta e nós nos bancos de esquina da Muricy com a Rua das Flores, ouvindo música e se divertindo com as peripécias da Gilda, Mendigo? Louco? Homem? Mulher? Travesti? Homossexual? Nada disso. Hoje sabemos que era apenas um ícone performático que marcou um tempo na cidade de Curitiba” – Alcino Fogaça.
“Tinha dó! Uns olhos tristes. Enlouquecida, fazia graça e pirraça para botar medo” – Maria Leitão.
“Gilda era uma figuraça, nunca foi de incomodar ninguém. Os outros é que se incomodavam com ele/ela, pois este era uma época ainda em que não se falava muito em homossexualismo [sic] e nem tínhamos muito conhecimento dos casos a nossa volta. Achávamos que ele/ela fazia estas brincadeiras por gostar. O fato é que Gilda estava sempre feliz e sempre sorrindo…” – Lucia Stuver
“Era tão parte da Boca Maldita e do calçadão da XV, dançando em frente à loja de discos com vestido de chita por cima das roupas esfarrapadas, pedia cigarro e beijava por encomenda, corria atrás, usava batom vermelho. Nunca pensei na sexualidade dúbia. Era uma pessoa, um ser, que girava ao som da loja de discos e ainda o faz na minha memória. Sorria, declarava seu amor por uns poucos tostões, alegremente. Às vezes, sumia. Aparecia limpo, de cabelo cortado, barba feita. Era um rapaz até bonito. Achei que a família cuidava e ele fugia. Lembro que sofreu agressões (facadas de certa feita)” – Cristina Maria Rigler.
O que se vê, portanto, nessa fragmentação e reavivamento da memória disperso em comentários na internet (em blogs, documentários, no Facebook) é uma Gilda construída de vários pontos de vista, que se complementam e que se contradizem, reforçando também a sede popular de uma recuperação de sua memória enquanto parte da formação sociocultural da cidade. Após a sua morte, Gilda foi uma figura muito homenageada – algo que vem se perdendo ao longo dos anos, afinal, em 2023 se completou quarenta anos de sua morte. Enquanto algumas intervenções artísticas tentaram – e ainda tentam – fazer essa recuperação, há ainda certa reticência do poder público em aprovar, manter ou propor monumentos, placas, estátuas, nome de praças ou de ruas vinculadas a Gilda, algo que a população vem pedindo há anos. Essa recuperação se faz tanto necessária, como emergente. Viva a Gilda!
Referências:
DEL PINO, Yanko. Beijo na boca maldita. Curitiba: Rodando Filmes, 2008. DVD (16, 14 min.) (Trechos).
MARZINI, Caroline; NASCIMENTO, Naira. Revista Rua, Campinas, n. 22, v. 2, p. 425-444, 2016.
MONTARGIL, Gilmar. Micro-história, o problema do arquivo e uma arqueologia das mídias nas streams de Rebeca Trans. In: MONTARGIL, Gilmar. Loopando e barbarizando com streamers queers: precarização o trabalho, audiovisualidade tecnogendrada e hackeamentos do corpo-mídia. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023. p. 106-128.
Como citar este texto
MONTARGIL, Gilmar. Gilda: entre memórias curitibanas e arquivos de internet. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/gilda-entre-memorias-curitibanas-e-arquivos-de-internet/>. Acesso em: 23. Jul. 2023.
