A primeira drag: abertura de caminhos na arte e na academia

Kam Middle Space

Pioneiro (adj. s.m.) […] aquele que desbrava caminhos e faz a exploração de uma região desconhecida; desbravador.

“[…] Kam Middle é a primeira ‘drag’ a ser homenageada por turma de farmácia da USP” – Jornal da USP – 01/11/2024.

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Kam Middle Space é homenageada pela 95ª turma de farmácia da USP. Fonte: Acervo pessoal da artista.

É um reconhecimento enorme receber o título de ser o primeiro em algum lugar. Primeiro lugar na Billboard HOT 100, na universidade, no concurso público, no pódio das Olimpíadas ou até mesmo nas eleições presidenciais. O termo “pioneirismo” mais recentemente me fez refletir sobre seu peso simbólico ao quebrar barreiras e abrir espaço para um universo novo e desconhecido. 

Neste 3º ensaio ao Grafia Drag, proponho uma reflexão acerca do significado de pioneirismo na comunidade drag: quem é a primeira drag?

Quando recebi a notícia de que seria o farmacêutico homenageado, a primeira drag, da 95ª turma de Farmácia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – USP, confesso que fiquei surpreso. É um reconhecimento que carrega consigo a coragem de ser visível em ambientes que historicamente não nos abraçaram. Conquistas como essa abrem caminho para que outras pessoas LGBTQIAPN+ também se sintam autorizadas a ocupar os mais diversos espaços. 

Nesse contexto, nada disso seria possível sem o apoio daquela que me emprestou a primeira peruca: minha mãe Drag. Falar de famílias drag é falar de um universo tão diverso quanto as pessoas que nele habitam. É tentar definir algo que, por natureza, escapa às definições rígidas e aos padrões convencionais. Não existem certidões, heranças ou laços de sangue — e, no entanto, esses vínculos podem ser mais profundos e transformadores do que heranças genéticas. 

No dia a dia, as mães e pais drags compartilham mais do que conselhos: dividem figurinos, perucas, sapatos e acessórios que ajudam novas drags a subir no palco com confiança. Esses itens, muitas vezes inacessíveis financeiramente para quem está começando, tornam-se símbolos de apoio e pertencimento. Quando uma mãe empresta sua bolsa ou um pai ajusta um salto para a filha, eles não estão apenas fornecendo ferramentas; estão dizendo: “Você faz parte disso. O palco também é seu.”

Essas relações se moldam e se transformam continuamente, refletindo o espírito de uma comunidade que vive da reinvenção. Conforme o relato de Speckart (2023), em sua dissertação de mestrado, para que uma família drag exista, tudo o que se precisa é de um acordo — às vezes explícito, às vezes implícito — sobre quem ocupa cada papel. Não há regras, e isso é libertador. Mas também há a incerteza: o que acontece quando uma das partes deixa de se montar? O que diferencia a maternidade drag de outros tipos de vínculos? 

Talvez seja a espontaneidade. Não há contratos, nem prazos ou horários determinados. Adotar filhes drag é um ato que simplesmente acontece, muitas vezes sem palavras, em um olhar ou em um momento de apoio inesperado. Nesse sentido, Speckart (2013) também pontua sua experiência pessoal ao desempenhar o papel de mãe e por vezes professora. Segundo a pesquisadora, ao contrário do papel de professora, ser mãe drag não é um trabalho, não envolve uma divisão de tempo calculada ou remuneração. É uma entrega que surge do desejo de ver outra pessoa crescer e florescer na arte.

Quando esse vínculo é saudável e genuíno, é algo mágico de se ver. Algumas famílias carregam o nome de uma casa ou haus/house com orgulho, mesmo sem papéis definidos, unidas pelo desejo comum de criar e celebrar a arte drag. Essas casas, surgem por diferentes motivos e se adaptam aos contextos em que estão inseridas. Muitas vezes, a necessidade que une essas pessoas não é material, mas criativa e emocional. É a busca por um espaço onde se possa experimentar, errar e crescer. Onde a curiosidade e o desejo artístico sejam alimentados. Em alguns lugares, essas casas se organizam como coletivos artísticos estruturados; em outros, são apenas grupos fluidos que se encontram e se reconhecem.

Minha própria trajetória na drag carrega esse senso de comunidade. Aprendi com minha mãe drag que a arte de se montar é tanto sobre autodescoberta quanto sobre conexão. O pioneirismo que me trouxe à posição de homenageado acadêmico também foi moldado pelas lições que vieram dessas trocas. A maquiagem, os saltos e os aplausos são apenas a ponta do iceberg; o que sustenta tudo isso é a solidariedade entre nós.

Hoje, enquanto reflito sobre o pioneirismo que me foi atribuído, penso no peso simbólico que ele carrega. Não se trata apenas de ser o primeiro, mas de garantir que eu não seja o último. O pioneirismo não é apenas sobre quem chega ao topo, mas sobre abrir portas para que outros sigam pelo mesmo caminho. No palco ou no laboratório, na arte ou na ciência, continuo levando comigo as lições que aprendi com minhas famílias drag e acadêmica. E, mais do que nunca, carrego o compromisso de fazer com que minha visibilidade sirva como uma ponte para que outras pessoas também brilhem. Seja com um salto alto ou com um jaleco, seguimos construindo espaços onde todas as identidades possam ser celebradas.

REFERÊNCIAS:

SPECKART, Jeanne Martins. Uma andança por pedagogias drag. Dissertação de Mestrado (Especialização em Artes Cênicas). Centro de Artes, Design e Moda, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2023, 114f.