Pacto de silêncio: a violência velada no meio Drag

Pietro Lamarca (Gabi Coiradas)

Tornou-se uma coisa quase rotineira ouvirmos relatos de violência e abuso dos mais diversos, em todos os veículos de comunicação. Também não é uma novidade que muitas dessas ocorrências são praticadas por homens cis contra pessoas pertencentes a alguma minoria. Desde que passei a ter a vivência no meio LGBTQIAPN+, essencialmente no cenário artístico drag, percebo um fenômeno digno de análise: o silêncio acerca de violências sofridas e, principalmente, praticadas por seus próprios membros.

Por que nós mesmos estamos enfiando a cabeça em um buraco quando somos atacados? Por que não há um movimento para que agressores sejam identificados e não frequentem mais os mesmos lugares que suas vítimas? Por que as vítimas seguem amedrontadas e silenciadas? E mais: por que agressores seguem sendo contratados por empresas e organizações que se dizem aliadas?

pacto de silêncio
Foto: Cottonbro. Foto: CC Pexels-c

A resposta pode ser mais fácil — e dolorida — do que pensamos: o pacto da misoginia.

Quando ouvimos mulheres cis dizerem que homens cis protegem uns aos outros, isso também é valido quando falamos de homossexuais. A misoginia tem raízes em todos os cenários, e é um senso comum distante da realidade crer que o meio LGBT estaria livre deste problema, que dá passe livre, com frequência, para episódios de transfobia.

A comunidade — assim vou me referir, daqui em diante, tanto ao meio LGBTQIAPN+ quanto a cenários artísticos drag — de fato é bastante acolhedora. Abrimos os braços para quem está a se descobrir, a quem deseja um lugar seguro para si mesmo. Porém, este mesmo acolhimento é distorcido pela misoginia, tornando-se algo irrestrito entre homens cis. Passa a ser uma máscara de proteção, como se ninguém soubesse que um deles está praticando abusos e violências contra outros gêneros. Saliento aqui que agressores não são EXCLUSIVAMENTE homens ou cis, mas é um recorte que precisa ser observado, pois ainda é a hegemonia que vemos na sociedade, nos mais diversos âmbitos.

Celebridades e violência

O fenômeno Rupaul’s Drag Race colocou sob holofotes uma gama imensa de artistas dos EUA (e agora do mundo). Ainda que tenha revisto algumas problemáticas, como a transfobia existente nas temporadas de início, volta e meia vem à tona alguma caso de assédio, racismo e transfobia por parte de ex-participantes ou mesmo dos próprios envolvidos no reality. A maioria das denúncias e relatos surge com o final de contratos ou da própria temporada em exibição. Trago alguns exemplos que circularam na mídia em épocas distintas:

Venus D’ Lite – Vítima

Venus foi competidora da terceira temporada do programa, em 2011. Em 2013, revelou ter sido estuprada por uma das favoritas do público – a identidade do agressor foi omitida. 

““Em 2013, eu fui estuprada por uma das favoritas de RuPaul’s Drag Race. Estar conectada com o show me trouxe muitos traumas com os quais tenho que lidar e eu procurei ajuda profissional, pois esses traumas afetaram meu coração, arte e mente.” (Texto postado no instagram da artista). Ela também disse ter ouvido vários relatos semelhantes ao falar da sua experiência.

Shangela – Acusado 

Darius Pierce, a Shangela, é alvo de múltiplas acusações de abuso sexual entre 2012 e 2018. Os relatos tinham pontos em comum: a artista embebedava jovens gays para abusar deles. A drag queen figurou em três temporadas do programa, além de fazer grandes turnês pelo mundo.

Sherry Pie – Abusador

Joey Gugliemelli, a Sherry Pie, participante da 12ª temporada, foi desclassificada do reality após inúmeras acusações de abuso sexual. Fazendo-se passar por um diretor de elenco de espetáculos teatrais, ele solicitava aos candidatos – novamente, jovens homens gays – material erótico para avaliação, enquanto os iludia com os papéis nas peças. Ele assumiu a culpa das acusações.

Sharon Needles – Acusado

Vencedora da quarta temporada, foi acusada de abuso verbal e físico contra um menor de 15 anos. Posteriormente, outras acusações do mesmo tipo foram surgindo, além das falas e posturas racistas da drag queen.

Assim, questiono: o quanto de violência fica enterrada em nome do show business? Quantas vítimas desistem de buscar ajuda e denunciar pelo simples medo de não ser validada e, de bônus, perder espaço artístico em cenas pequenas? Quantos agressores compram silêncios e vendem a imagem de boas pessoas?

O ciclo do silêncio

Se no mainstream as coisas já não são as mais fáceis, que dirá quando nos voltamos para as ditas “cenas locais” – o mundo drag de cada cidade ou de cada estado, em sua maioria constituído por artistas de pouco poder aquisitivo e que precisam lutar diariamente para viver da própria arte – isso quando podem viver apenas dela.

Isso talvez seja uma das bases do pacto de silêncio: vítimas hipossuficientes têm medo das vias judiciais não só por toda a descredibilização que sofrerão durante o processo, mas também pelos custos. Com a falta de apoio, muitas desistem de seguir em frente mesmo que tenham provas materiais, pois sem uma boa assessoria, o mero fato de expor um agressor pode reverter a situação: a vítima pode ser processada por calúnia e difamação, e não ter condições de enfrentar mais um problema. Não raro, até Organizações Não Governamentais e Instituições voltadas aos direitos da comunidade invisibilizam a vítima e promovem agressores. 

Fonte:https://natelinha.uol.com.br/famosos/2022/08/02/participante-do-rupauls-drag-race-revela-ter-sido-estuprada-por-drag-queen-do-reality-185423.php.

O que nos leva a mais uma base do pacto, o receio de perder trabalho e espaço. Grande parte de possíveis contratantes de artistas drag fazem parte do recorte hegemônico da sigla. Ainda que também possam sofrer violências, homofobia e racismo, é inegável que são a parte dominante da comunidade, muitas vezes a única lembrada pelas ações à caça de pink money em junho. No mundo drag, isso é agravado por preconceitos vindos de um passado que deveria ter ficado lá atrás, mas muitas vezes perpetuados, como “mulher não pode ser drag” ou “transmasculinos não são homens de verdade”, todos com a misoginia como raiz comum. Assim, como uma vítima de agressão vai denunciar o que sofreu, sendo que a massa empresária de homens cis não só pode proteger o agressor, como também deixar de contratar a vítima? Não são poucos os relatos de artistas com posturas no mínimo questionáveis (para não dizer criminosas) e que continuam sendo contratados para grandes eventos, mesmo que gerem alguma comoção negativa. O ponto comum: são homens cis gays.

Em muitas situações, o que sobra para quem sofre alguma violência é a estratégia da “boca miúda”, ou seja, fazer relatos a pessoas que vão acolhê-la e torcer para que “todos fiquem sabendo” e algo aconteça. Sabemos que nada acontece, mesmo que todos saibam, pois o pacto garante que se passem panos quentes e ignoram-se alertas quando o autor é homem cis.

O resultado final? Medo e silêncio, mesmo que todos à volta da vítima saibam.

Por que todes perdemos?

A perseguição a corpos dissidentes é cada vez maior. Estamos vivos, infelizmente, para ver a ascensão do conservadorismo batendo cada vez mais forte em nossos lombos, e tudo será usado contra a comunidade: religião, política, academia. A maneira mais eficaz de lutar contra o que nos mata é justamente nos fortalecendo. O monstro que engole um, engolirá todos, sem distinção ou recorte.

E isso é impossível quando se continua, por motivos torpes (picuinhas pessoais, rixas artísticas, desentendimentos, preconceito, capitalismo), a fazer vista grossa para a violência. É impossível quando um CNPJ age como se fosse um CPF em defesa dos amigos. Impossível quando o foco é sempre o indivíduo, e não a comunidade da qual ele faz parte. 

Enquanto empresários não fizerem um exercício de consciência acerca da importância do cuidado ao compor um elenco de artistas – essencialmente se já houver múltiplos alertas sobre problemáticas, teremos cenas artísticas viciosas e que não são seguras para pessoas trans, mulheres cis, grupos racializados, corpos dissidentes no geral. Pensar em fazer alguma coisa só depois que algo afeta o próprio lucro só nos transforma em avestruzes aterradas no próprio ego.

Enquanto o consumidor de arte drag local – muitas vezes, os próprios artistas entre si – não perceber que tem um papel central no combate à violência dentro do meio LGBTQIAPN+, que tem o poder de simplesmente não prestigiar a arte de quem agride um semelhante, não haverá ambientes saudáveis para que todes circulem livremente. Como ser indiferente à situação de agressor e vítima em um mesmo lugar, o agressor sendo aplaudido enquanto a vítima precisa engolir seco e reviver em sua mente tudo que passou? 

A sociedade já se empenha o suficiente para passar por cima de nós como um rolo compressor, será que precisamos ser atropelados por quem deveria nos acolher?

Conclusão

A conclusão só pode ser: OUÇA VÍTIMAS. BUSQUE INFORMAÇÕES SOBRE ARTISTAS. PENSE COLETIVO. 

Se você foi vítima: procure ajuda. Por mais que não pareça, vale a pena denunciar qualquer tipo de violência sofrida.