Tô de Drag: o coletivo é revolucionário

Anubis Blackwood

Este ano faço dez anos enquanto artista drag e, em outros ensaios literários como RuPaul’s Drag Race é o bastante para uma drag sonhar? (2024), onde  enfatizei minha jornada inicial solo. Ao longo da minha trajetória participei da criação do coletivo Tô de Drag, que hoje será o foco dessa conversa.

Tô de Drag
Primeira formação do coletivo em 2023. Fonte: acervo fotográfico do coletivo.

Aquela história tão recorrente entre as novas gerações de drag também aconteceu para mim: uma drag de banheiro. Para quem experienciou essa jornada sabe que os conhecimentos ao redor da montação giram em torno da internet, e muitas vezes quando colocamos em prática e nos montamos, não há na maioria das vezes sequer perspectiva de sair de casa, ou do banheiro em si. Falta de companhia, repressão familiar, vergonha, falta de confiança e medo da reação pública são alguns fatores que moldam esse estudo em reclusão.

Acontece que somente uma pequena parte dessa arte envolve teoria. A meu ver, sua maior dimensão se constrói no campo social e em exposição pública, e isso se dá por uma herança histórica. Nossa jornada foi escrita em comunidade, onde até nos momentos em que as artistas ficavam dentro de seus espaços de criação, faziam isso em companhia de sua família drag. Por isso, passei mais da metade da minha carreira me sentindo incompleta: por mais que tivessem amigues para sair, esses ocupavam um lugar de suporte na minha vida enquanto comunidade LGBTQIAPN+, mas não podiam ocupar o espaço de suporte artístico e político, e era justamente essa ausência que reverberava em mim.

Assim, ao mudar da capital para o interior de São Paulo,mais especificamente Jundiaí, pude encontrar uma comunidade mais íntima e pouco tempo depois fazer parte da criação do primeiro coletivo drag da região. Meu coração foi finalmente tomado por uma sensação de completude. Hoje, somos 12 integrantes e não possuímos nenhum processo seletivo: queremos que todo mundo agregue e se sinta bem, amparade por nossa família. Dentre muitas entradas e saídas, conseguimos assegurar que somos um grande mecanismo de mudança, tanto no âmbito interno de cada pessoa, uma vez que nossa abordagem serve de apoio para o processo de autoconhecimento,  quanto no âmbito externo, uma vez que nos posicionamos socialmente como grupo. 

Nossa história é, de certa forma, recente, já que iniciamos nossas projeções em 2022, mas a trajetória tem sido extremamente rica e cheia de altos e baixos. Esse é o ponto desse ensaio: registrar nossa jornada para que possamos mitigar as incansáveis tentativas de nos apagar enquanto forças artísticas. Não sei dizer o quanto nosso coletivo vai durar, mas quero hoje, agora, deixar toda nossa graciosa experiência registrada, a fim de evidenciar a importância da organização coletiva e inspirar futuros coletivos drag.

Embora frequentemente enfatize o fato de sermos o primeiro coletivo drag da nossa área, jamais posso afirmar que criamos uma cultura drag aqui. Antes de nós tivemos Divinna Synik, Karol Della Lastra, Kauara Laffity e tantas outras que viveram momentos de glória nas décadas anteriores. 

Tô de Drag
Espetáculo “Drag Através do Tempo”, pela Lei Paulo Gustavo, Campo Limpo Paulista, Sp. Foto: Nala Vizion.

A primeira versão do coletivo Tô de Drag veio em 2022, em uma oficina drag organizada pela própria Divinna Synik. Essa oficina é uma tradição da nossa comunidade em Jundiaí, ocorrendo há mais de dez anos, em setembro, tendo Karol Della Lastra como idealizadora (nossa avó, como ela mesma gosta de ser chamada). Essa oficina culminava em um concurso que elegia a Miss Drag da Parada LGBTQIA+ de Jundiaí, e nós, na época cinco, não conseguimos tratar de forma tão competitiva umas às outras. No fim daquele dia, criamos um certo carinho, por mais que nunca tivéssemos nos visto antes. 

Após esse evento, continuávamos a conversar no grupo do Whatsapp. Tudo começou com um tom despretensioso como: “vocês sabem de algum rolê drag aqui?” ou “onde posso comprar uma lace?”. E não demorou muito para que começássemos a perceber que não havia esses rolês drag, ou que não tínhamos dinheiro para comprar laces e looks caros, o que nos fez conversar sobre emprestar coisas umas para as outras. Desse modo, transformar aquele grupo do Whatsapp em um coletivo foi nada burocrático: foi simplesmente natural, quase inevitável, diante das dificuldades que atravessávamos enquanto indivíduos.

O capítulo seguinte foi cheio de descobertas, ternura e amizade. Havia ali uma ideia simplória: queríamos ocupar palcos e faríamos isso de forma gratuita ou não. Havia um ímpeto em se montar e performar, nada tão longe disso. O que primordialmente queríamos era criar laços emocionais umas com as outras e termos companhia quando saímos por aí, pelas noites de Jundiaí. Era o que precisávamos na época. 

Quando olho para trás, percebo que o Tô de Drag desempenhou um papel vital para cada integrante que passou pelo coletivo. Não possuíamos perspectiva de que poderíamos perseverar na arte drag. Parecia algo impossível no interior, uma vez que não nos contratávam, chamávam ou sequer aparecia uma viva alma para nos dar a possibilidade de ter uma carreira profissional. Drags do coletivo me confessaram que, se não fosse pela força da nossa união, certamente já teriam desistido dessa área de atuação. Isso se dá, pois se manter em regiões interioranas é um desafio avassalador para qualquer artista, ainda mais para artistas drag, que enfrentam, até mesmo em grandes cidades, enormes dificuldades em não só capitalizar, mas tornar a execução do que fazemos viável.

Além disso, desde seu primeiro dia o coletivo é mecanismo direto de autoconhecimento e expressão. Sempre dialogamos sobre o livre-arbítrio de cada pessoa e para onde cada uma direcionaria a arte. Tínhamos drag DJ, drag cantora, drag dançarina de vogue, drag teatral…cada uma em seu nicho, mas sempre compartilhando vivências, dores e delícias. Para essas cinco (me incluindo nesse número), isso foi suficiente até certo ponto. Em 2024 tivemos a saída de uma integrante e, no ano seguinte, perdemos mais duas. Não porque o coletivo não era bom, mas porque cada uma, dentro de toda a liberdade que sempre demos umas às outras, não se viam mais na abordagem que tínhamos como coletivo ou na arte drag em si. Assim, em 2025 seguimos com um plano que tínhamos desde nossa fundação oficial, em 2023: abrir o coletivo para outres integrantes. 

Tô de Drag Brasil
Noves integrantes do coletivo, 2025. Foto: Alex Balbino.

Ao abrirmos, fomos agraciadas com uma gama diversa e pudemos amparar as novas drags que apareceram na região. Se antes tínhamos uma sensação de que todas estavam no mesmo barco, dessa vez o cenário mudou um pouco. O coletivo já tinha uma história prévia, assim como as drags fundadoras que continuavam nele. Já tínhamos executado eventos de grande porte com auxílio de editais culturais, já tínhamos entrosamento entre nós e, acima de tudo, tínhamos experiência enquanto grupo. Em decorrência disso, passamos por momentos de educação e compartilhamento de causa, ao mesmo tempo que aprendemos com quem chegava. Encontramos a necessidade de fazer mais encontros, oficinas e até mesmo criar um grupo adjacente apenas para compartilhar estudos e referências drag. O coletivo que sempre prezou por educar, e o novo grupo trouxe ainda mais fortemente essa função, e isso mudou tudo.

O nível de complexidade aumentou exponencialmente se compararmos ao período de  fundação do Tô de Drag. O tom despretensioso de se montar e ocupar qualquer palco que nos deixassem subir deu lugar para uma instituição educacional e de apoio para quem está iniciando a jornada drag. Hoje, o coletivo continua com um tom afetuoso, mas devido à demanda interna e externa, ele também necessita que tenhamos uma abordagem quase empresarial. Nós intermediamos negócios com contratantes, fazemos eventos abertos ao público e frequentemente somos convidadas para agregarmos a iniciativas de cunho político e social. O coletivo desempenha um papel muito mais rebuscado na comunidade LGBTQIAPN+, e isso nos força a tratar a arte drag de forma extremamente séria e profissional.

De maneira transparente, posso afirmar que ao longo dos anos percebemos que as demandas não giram em torno apenas de performar no palco. Movimentos sociais precisam de nós, assim como o cenário cultural da região. Em aspecto profissional também, já que nas intermediações com contratantes percebemos que precisamos de um amparo maior, uma vez que já enfrentamos problemas ao redor de remuneração justa e do olhar externo que o mundo tem perante nossa arte. Não nos levam tão a sério como levam demais artistas como musicistas e atuantes de arte visual, o que nos obriga a nos fortalecer enquanto instituição. É como se hoje tivéssemos uma responsabilidade que exacerba nossas necessidades de forma que não as torna mais individuais. Uma vez que nossa região nos avalia como grupo, precisamos coletivamente  nos posicionar como tal. 

Referente ao posicionamento, posso dizer que isso também se ampliou em ação. Encontramos uma ampla gama de objetivos artísticos como sessões de desenho com modelo vivo drag, colaborações fotográficas com fotógrafos, além de ministrar oficinas. Antes, queríamos só um lugar para performar, já hoje queremos nos desafiar a nos inserir em qualquer lugar que queiramos agregar.

Por isso, vejo um futuro brilhante para o Tô de Drag. Sem pseudo-pioneirismo, tampouco menosprezo, vejo a realidade através dos meus olhos: nos organizamos de forma que raramente visualizo no cenário nacional e atuamos com tanta multidisciplinaridade que também compreendo o quão raro é fazer tal feito. Por isso, afirmo que o coletivo Tô de Drag é revolucionário, ao menos nas vidas de quem participa e é atravessado por ele. 

Tô de Drag Brasil
Drag Vibes, festival de performances drag feito anualmente pelo coletivo. 2025. Foto: Ju Tafarelo.

Devido à dificuldade de resistir em uma cidade historicamente ultraconservadora, coletivos são essenciais para Jundiaí. Temos coletivos que trabalham em prol do meio ambiente, dos direitos da mulher, de populações racializadas e me enche o coração perceber que o Tô de Drag se encontra, atualmente, em estado de igualdade em relação a todos esses. Sabemos com toda a certeza do mundo que, mesmo que algo aconteça um dia e tenhamos que finalizar os trabalhos, por muitos anos a cidade se lembrará de nós. Criamos um legado inegável, e dentre tantas oficinas e iniciativas de que já participamos, mudamos a perspectiva de vida de muitas pessoas. O que mais esperamos é que as drags (pelo menos as que estão ao nosso redor) compreendam seu poder artístico e político além do profissional, e nunca aceitem menos do que merecem. Torcemos para que ao longo do tempo possamos atuar tal qual um sindicato e assim possamos remar contra a maré, maré essa que tende a nos inferiorizar. Não é à toa que estamos em processo de nos tornarmos ‘ponto de cultura’ na cidade. 

Em cidades que nos ensinam de forma explícita a reduzir a nossa existência, organizar-se coletivamente é um gesto radical de insubordinação.Depois de anos de experiência compreendo que o Tô de Drag nunca foi apenas sobre performance. Foi e continua sendo sobre permanência. Ocupamos espaços com seriedade, os quais por muito tempo nos foram negados. Transformamos ,a cada ato, a ausência em presença organizada.

Mais uma vez, afirmo que  nossa duração é incerta, mas há algo que já não pode ser desfeito: uma vez que nos vimos em conjunto, uma vez que entendemos a potência de existir em grupo, torna-se impossível desaprender esse gesto.

E eu não sou mais uma drag enclausurada entre quatro paredes, negociando meu reflexo com a possibilidade de existir. Minha imagem não é mais sustentada de forma solitária. Ao olhar meu reflexo, não vejo mais somente eu: meu espelho reflete muitas, em toda sua gama. 

Talvez o Tô de Drag não tenha resolvido todas as lacunas que atravessam a experiência de ser uma artista drag no interior, e nem poderia. Mas ele fez algo que, para mim, parece ainda mais rebeliante: ele tornou impossível voltar à solidão como um estado natural.

NoiteSuja Santa Ceia: Benditas sejam as Themônias!

Matheus Aguiar¹

NoiteSuja Santa Ceia (2018). Fonte: Vimeo.

NoiteSuja é um coletivo de artistas criado em 2013 em Belém (Pará), pelos artistas Matheus Aguiar (S1mone) e Tristan Soledade. Além dos seus fundadores, colaboram ou já colaboraram com a NoiteSuja também Brigitte Liberté, Diel Bentes, Leonardo Botelho e Tarcisio Gabriel. A partir de um núcleo de produção cultural, o grupo já realizou dezenas de festas, espetáculos de teatro, festivais, performances coletivas e individuais, produções audiovisuais, ocupações de espaços públicos, exposições de arte, ensaios fotográficos, produções acadêmicas e inúmeras experiências artísticas na Amazônia paraense e em todo o Brasil, com e sem incentivos financeiros.

O grupo é formado por pessoas com identidades dissidentes, que tem a arte Drag (ou “a arte da montação”) como ponto de partida para suas manifestações, e nunca descansam de romper com tradições/preconceitos impregnados nesse gênero artístico. Procuram, em suas “festas-manifestos” (festas noturnas temáticas, com apresentações de artistas dissidentes de sexo e gênero) e demais propostas inter-relacionais, sobretudo, coletivizar o fazer Themônia, identidade artística genuinamente amazônica, nascida nas NoiteSujas e que se espalha por todo o mundo.

Quando o Facebook ainda era a rede social mais utilizada no Brasil, cada festa-manifesto tinha seu próprio texto poético (publicado, na época, junto a página de divulgação do evento no perfil do Feici) servindo de Bíblia para que o público pudesse montar o seu visual, e para que os artistas que subiriam no palco no dia do evento desenvolvessem a sua performance, editassem suas faixas de música, costurassem suas roupas ou as colassem com cola quente.

Em 2018, o Coletivo NoiteSuja realizou a “NoiteSuja Santa Ceia”, em uma véspera de Natal, na Boate Malícia (antiga boate gay, localizada no Reduto da prostituição em Belém). A fim de gerar imagens para divulgar a festa-manifesto, o grupo abriu um chamamento entre as artistas Themônias para que um ensaio fotográfico fosse realizado, no mês de outubro. É neste mês que religiosamente acontece, em Belém do Pará, o Círio de Nazaré, maior procissão católica do mundo, quando um mar de corpos se imprensa pelas ruas da cidade guiados pela imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Do chamamento feito pela NoiteSuja, quatorze artistas apareceram para o ensaio fotográfico, que aconteceu no bairro central Batista Campos, ao lado do Cemitério Soledade. Elas vinham de diversas regiões afastadas do centro, como o Conjunto Maguari e Pedreira. São elas: Shayra Brotero, Pandora Rivera Raia, Isabella Pamplona, Amoras Signoreth, Monique Lafon, Gigi Híbrida, Tristan Soledade, Dom Pine, Bunny das Coxinhas, La Falleg Condessa, Mikaela Anaiv, Skyyssime, Perséfone de Milo e Flores Astrais. Na produção estavam Diel Bentes, Danyllo Bemerguy, Luka Cortez e Matheus Aguiar. Na época, o homem trans e Drag Themônia Dom Pine – mantido no centro das imagens – estava grávido de poucos meses. Sua presença prenhe aponta para uma mesa farta de vidas trans e travestis, não-binárias, pessoas racializadas, pessoas amazônicas, que celebram-se em comunhão.

Este ensaio visual, sobretudo, convida os olhares e as consciências a adentrarem por mais esta criação do Coletivo NoiteSuja com a presença das Themônias. Histórico entrosamento NoiteSuja–Themônias que resultou no trabalho artístico “Santa Ceia”. Trata-se de uma série fotográfica e uma videoarte feitas por muitas mãos, carregada em detalhes, cores, tecidos e pessoas. Além de uma fotografia “mãe”, repleta de manipulações digitais – inspirada na pintura de Leonardo da Vinci “A ultima ceia” (1495-1497) – o ensaio fotográfico também gerou um vídeo onde as Themônias repartem e comungam o pão (no caso, uma coxinha). No vídeo, são apresentadas as informações textuais que o público, na época, precisaria seguir para chegar até a festa, o sagrado ritual do encontro. 2018 marcou o ano da morte de Matheusa Passareli e Marielle Franco, a prisão de Lula e o prelúdio de um governo fascista. Este ensaio se constrói a partir das experiências e impressões vividas pelo autor do texto, Matheus Aguiar, integrante da NoiteSuja, e quem trabalhou em todas as etapas do nascimento destas imagens. Poucos dias antes de 2019, esses artistas fizeram a sua ultima ceia.

***

NoiteSuja Santa Ceia

E quando estavam reunidos em celebração, como uma família, repartiram o alimento e a bebida. Então, comeu-se o corpo.
O corpo que padece nas esquinas pela madrugada, farto do apedrejamento e cheio de resistência. Corpo político.
E beberam o sangue, o mesmo que está nas mãos dos que nos apedrejam, nos silenciam, nos tiram o direito de ser.
Sangue sagrado.
Cearam e se fartaram.
Celebraram a vida.

Coletivo NoiteSuja, 2018.
NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (série/imagem mãe), Fotografia com manipulação digital, 90 ×58cm, Belém (PA). Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Lembro de andar pelo centro da cidade de Belém (PA) carregando pesadas sacolas, cheias de maçãs, uvas, pêras e mangas. Recordo de um grande tecido marrom aveludado, encontrado por acaso em uma caçamba de lixo, em frente a uma sinagoga, pela maquiadora e modelo Isabella Pamplona. Talvez tivesse sido usada originalmente em uma parokhet, cortina que ornamenta a Arca desses espaços judaicos de culto e encontro. Era novembro de 2018 quando me encontrei com Diel Bentes (Leid), Danyllo Bemerguy (Rudá Urbana) e Lucas Paixão (Luka Cortez) no Pérola Eventos, espaço de recepções ao lado do Parque Soledade, cemitério centenário onde não mais se enterram mortos. Esses quatro artistas e produtores somaram forças para que imagens santas fossem paridas. O clique da câmera, como comumente acontece nas criações do Coletivo NoiteSuja, não foi feito por um só dedo. Diel cedeu o espaço da família de seu marido e as Themônias, atendendo a um chamamento do Coletivo, o adentraram, trazendo cada uma sua própria Amazônia, seu sotaque, seu coração. Muitas de nós, alcunhadas hoje por Themônias, nos criamos em cidades interioranas do Pará, onde brincamos de pira na rua e nos banhamos nos igarapés até os dedos enrugarem – Cametá, Capitão Poço, Nova Esperança do Piriá, Castanhal, Barcarena… As suas diferentes águas nos cortam e sangramos. Não há problema em sermos diferentes, pois nos sentimos iguais nas diferenças. Ao desaguarmos no mesmo rio, depois de viajar igarapés, forças estranhas nos mantém flutuando juntas, em sagração.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (série), Fotografia digital, 4356 × 2904 px, Belém (PA). Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Acima do tecido marrom, posicionamos os elementos da mesa. Uma pequena estátua em gesso de cigano, comprada em uma casa de umbanda. Uma “S1moninha”, uma boneca da S1mone de cabelos vermelhos e barba, o meu eu Themônia. Um Maneki-neko (ou gato das boas-vindas) japonês, dourado, com seu incansável movimento de unhar. Um pilão de madeira e cestas de cipó. Taças, velas e plantas. E a catuaba, ela mesma! Uma birita de vinho e fermentado de maçã e catuaba, onipresente nos encontros do Coletivo, entre as que bebericam. Bebida canônica. Pergunto a Danyllo, Themônia que trabalhou no projeto, qual a lembrança mais chamuscada daquele dia. Rudá (seu nome Drag) responde que a grande novidade “foi juntar todo aquele rolê Drag num rolê que não era festa”. Na NoiteSuja, também chamamos esses eventos de festas-manifesto. “Era uma produção fotográfica. Bem diferente do que rolava. E a Flores Astrais comendo olhos foi tudo pra mim”. Um dos elementos presentes na “Santa Ceia” são os olhos enervados, que boiam sobre o sangue nas taças.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920. px, Full HD, Belém (PA), 2018. Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

A maioria das coloridas roupas, panos e santos sudários foram levados por Gigi Híbrida, Themônia carnavalesca do bairro da Pedreira. Os adereços de cabeça são de Leonardo Botelho. Produtor da NoiteSuja e figurinista, Botelho ajudou a iluminar feito auréolas os picumãs (“perucas”, no pajubá) das artistas. Correria. Abre mala. Maquia. Ajeita o que errou. Themoniza mais. Decide que o erro é acerto. Espera alguém que se atrasou. Cola com “cola Themônia”² os cílios de papel. “Tu diz que gruda?”, Shayra brinca. Começo o ensaio pedindo que ainda não se comam as frutas da mesa, com o desejo de guardá-las para uma cena de comilança.

Mas ah! Benditas sejam as Themônias! Mordiscaram a cena! O fruto proibido sempre nos foi tentador. Alice, na história Alice no País das Maravilhas (1951), também não obedeceu e avançou nas guloseimas da mesa farta. E não apenas comidas, mas também cogumelos alucinógenos. Cliques de câmera. Posicionamos as quatorze modelos na grande mesa. Clique, clique. Mudávamos as posições. Alguém ia no banheiro. Muita conversa durante a “Santa Ceia”. Será que foi essa algazarra toda com Jesus? “Gente, silêncio!”, pedimos algumas vezes. Conversar muito (hablar, hierogritar) é o que fazem Themônias quando se reúnem. “É um kikiki, kákáká”. Quase ao final do ensaio, filmamos o material que seria a videoarte, usado na divulgação do evento “NoiteSuja Santa Ceia” na rede social Facebook. Na foto, Shayra Brotero segura um beck (cigarro de cannabis). No vídeo, Perséfone de Milo acende – babilônico fogo – o bong. Flores Astrais traga. Bateu a liga! O homem grávido no centro da imagem tem chifres. Exibe a prenhe barriga defronte a suculenta mesa. Consagra e reparte seu pão (coxinha). Entre as Themônias, se reza o provérbio: seu filho crescerá abençoado. Tristan Soledade me contou: “Quando foi que a gente fez um ensaio fotográfico, sabe? Quando que a gente sentiu essa importância de artista? Quando isso aconteceu? Com um mínimo investimento que fosse. O espírito era de ‘vamos aproveitar, porque a gente não tem isso sempre! Esse conforto pra se montar!”.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920, px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

 

2018 foi um ano extremamente difícil para pessoas sexo-dissidentes no Brasil. Os assassinatos de Matheusa Passareli e Marielle Franco esquartejaram, alvejaram e queimaram nossas almas. Também nesse ano, Lula foi preso injustamente, enquanto um governo pautado na necropolítica se aproximava, consentido por 49 milhões de brasileiros que apertaram “17” (espadas contra nosso peito) e “confirma” em urnas eletrônicas. Cada um deve contar sua própria versão e aversão deste 2018 pré coronavirus. As quatorze artistas que fizeram das tripas coração para a construção dessa imagem (Shayra Brotero, Pandora Rivera Raia, Isabella Pamplona, Amoras Signoreth, Monique Lafon, Gigi Híbrida, Tristan Soledade, Dom Pine, Bunny das Coxinhas, La Falleg Condessa, Mikaela Anaiv, Skyyssime, Perséfone de Milo e Flores Astrais) podem contar dos Brasís que só elas sentiram. Brasil em brasa. Como também os produtores que trabalharam na coxia desse ensaio fotográfico (Diel Bentes, Danyllo Bemerguy, Luka Cortez, e eu, que escrevo essas linhas). “A gente tava feliz com a importância daquele momento, nós que estávamos em cena ali”, me contou Tristan Soledade em uma conversa através de áudios de WhatsApp. “Sabíamos que o cansaço que a gente tava sentindo seria por algo maior. É um cansaço que não tava nem perto do que estaria por vir nos próximos anos”.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920. px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Não foi fácil realizar essas imagens num contexto tão frágil. Lembro do dia 28 de outubro de 2018, um mês antes do ensaio acontecer. Na noite daquele domingo, sentei em uma roda de manas, em sua maioria pessoas trans e travestis. Sob uma luz fraquinha, lembro das suas feições. Dos nossos medos compartilhados, e do sentimento de que anos trevosos se aproximavam. Pouco antes, a cantora Pabllo Vittar havia lançado seu álbum “Não Para Não”, que escutávamos piamente. Lembro dos versos daquelas canções, gritados por uma amiga trans. E do silêncio da nossa roda. De repente, alguém começou a chorar copiosamente. Choro de morte, de velório. Nos abraçamos. Dali um mês, duas pessoas presentes naquela roda fúnebre participaram das imagens da “Santa Ceia”. Ensaio não. Ritual.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920 px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Diel, na época um ativo produtor do Coletivo, foi quem iniciou a edição da imagem, logo após o fim dos trabalhos no Pérola Eventos. Digitalmente, removeu o fundo, aplicou o céu celestial e a textura de pergaminho nas bordas. Em seguida me enviou os arquivos, e dei continuidade ao trabalho de tipografia. Com pincéis, tinta e caneta nanquim, desenhei a próprio punho o título “Santa Ceia” e as informações para a festa. Escaneei e tratei em programas de edição.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (cartaz), Fotografia com manipulação digital, 29,7 x 42 cm, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja.

Na época, eu estava sem internet em casa. Viviam roubando os cabeamentos dos postes, ou porque não conseguimos pagar naquele mês, não me lembro ao certo. Escolhi músicas que já estavam no meu computador para compor a trilha sonora do vídeo “Santa Ceia”. Decidi por uma música de Alice Coltrane, compositora norte-americana, que ouço quando desejo entrar em estados de transe e foco, geralmente para produzir. E o vídeo finaliza com uma versão acelerada de Tom Zé, esse nordestino que dá vários nós no nosso raciocínio. Gosto de começar pela música, e com ela evoco as imagens, os cortes, as sobreposições. Artista faz mágica. Na época, uma amiga havia me emprestado o DVD do filme “O Livro de Cabeceira” (1996), que assisti no meio de todo esse processo e que mexeu comigo.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920 px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja.

As imagens ficaram prontas e a divulgação começou no Facebook e Instagram: “Convocamos as bruxas, bichas, drag kings, criaturas da mata, alienígenas e toda Belém pra nossa ‘Santa Ceia’ deste sábado (22/12), na Boate Malicia. Uma noite de trocas e partilhas, drag shows, discotecagem e muita grelhação até de manhã. Vem mana!”.

REFERÊNCIAS

NOITESUJA. NoiteSuja Santa Ceia. Belém, 7 dez. 2018. Facebook: noitesuja. Disponível em: https://www.facebook.com/events/127755988117075/. Acesso em: 9 jun. 2024.

NOITESUJA. NoiteSuja Santa Ceia (2018). Vimeo, 11 out. 2019. Disponível em: https://vimeo.com/365870073. Acesso em: 9 jun. 2024.

NOTAS

¹ Graduando em Licenciatura em Artes Visuais no Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI. Em 2024, integrou o Grupo de Estudos Memórias das Artes Visuais: Arte e Política do Prof. John Fletcher (FAV/PPGPATRI/UFPA). É artista visual, autor, quadrinhista e produtor cultural. Membro-fundador do Coletivo NoiteSuja (2013). E-mail: matheusaguiarrrrr@gmail.com.

² “Cola Themônia” é um nome alternativo para a cola permanente, originalmente utilizada para trabalhos artísticos sobre madeira, papelão, acrílico e outras superfícies. Em Belém (PA), seja pela força da precariedade ou pela alta aderência a pele, o produto foi amplamente utilizado na maquiagem, para dependurar cílios, pedrinhas brilhantes e outros acessórios no rosto e em todo o corpo. É, até hoje, item indispensável no estojo de maquiagem de muitos artistas que já passaram pelos palcos da NoiteSuja. Durante os eventos do coletivo, não raro ouvimos uma artista perguntar para a outra: “Ei mana, tu tem cola Themônia pra emprestar?”.

Performance drag e identidade

Paco Leal

No campo das artes cênicas, situarei o fazer drag dentro do escopo da arte da performance, considerando que há um forte atravessamento entre a expressão artística (drag) e a pessoa que performa. Semelhante ao que acontece com a/o performer, em que frequentemente é seu próprio corpo que está em cena (no sentido de que não apenas interpreta um personagem, mas também mostra-se a si mesma/o), também a/o drag performa a si mesma/o, estabelecendo uma relação arte-vida bastante próxima. 

Aqui, utilizarei o termo performer em consonância com o pensamento da professora, pesquisadora e diretora Beth Lopes:

Uso o termo performer em vez de ator me referindo aquele que não se restringe à interpretação teatral no sentido convencional, mas transita por diferentes campos do conhecimento, desfronteriza as linguagens, amplia as noções espacio-temporais e fricciona as relações entre o real e o ficcional incorporando estados emocionais, subjetividades, memórias, criando a sua poética particular.

(Lopes, 2009, p. 135).

No entanto, faço essa categorização apenas para colocar a questão a partir de um lugar, uma vez que é difícil categorizar uma arte que abrange também o teatro, a dança e as artes visuais. Refiro-me à performance drag como “figura montada”, termo que ouvi pela primeira vez no LabDrag – Laboratório de Pesquisa e Formação em Arte Drag. A expressão foi dita pelo pesquisador Arthur Gomes, que performa a Drag Suzaninha, em abril de 2023. 

Performance drag Esmeralda
Esmeralda Dip
Foto: Humberto Araújo

Há ainda quem utilize termos como personagem, persona, alterego ou duplo. O fato é que quando uma pessoa se monta, colocando coisas sobre si, não deixa de ser quem é, mas se coloca em um estado alterado, tornando-se o que o pesquisador Ian Habib chama de Corpo Transformacional: “um corpo que potencialmente altera seus estados corporais em cena (2021, p. 72). São “corpos que não são mais corpos, são outros corpos” (Id., p.45, grifo do autor).

São aqueles que, partindo da modificação dos seus estados corporais, têm, dentre outros aspectos, suas formas, suas existências e suas qualidades de movimento alteradas. A mudança de um estado corporal para outros, isto é, a transformação corporal, pode se dar, por exemplo, pelo trabalho corporal imagético, por indicações de movimento, por estratégias de movimentação baseadas em tarefas físicas e por acoplamentos e reacoplamentos em teias de materialidades que incluem corpos humanos e mais-que-humanos, como organismos vivos e mais-que-vivos, campos invisíveis, dispositivos tecnológicos, coisas, forças, espaço-tempo, conceitos abstratos e epifenômenos – as produções de efeitos materiais podem se dar também a partir da imaginação, memória e pensamento.

(HABIB, 2021, p.92).

O que ocorre na arte transformista é um paradoxo semelhante ao que encontramos ao interpretar uma personagem: não existe uma fronteira transparente entre o eu e o outro. Este “euoutro” vai existir ao mesmo tempo, e o que vem de um ou de outro para constituí-lo é complexo de dizer. No caso da drag, quanto existe do performer na sua criação e quanto da drag existe na/no performer? No meu ponto de vista, essa relação é dialética: um depende do outro para existir. Eles são a mesma coisa e a existência de um anula a do outro em certos aspectos: existe uma força tensionadora entre essas existências.

Nesse sentido, pensar as questões de identidade em relação à arte transformista é algo bastante plausível, já que na figura montada as características e questões que constituem o eu da pessoa que performa irão aflorar. Há quem afirme que ao se montar de drag, se torna outro, e que a figura montada é somente personagem. Mas talvez a composição da figura montada favoreça emergir atitudes que de outra forma ficam reprimidas ou silenciadas. 

É comum ouvirmos relatos de que quando uma pessoa se monta ela se sente mais empoderada, tem mais coragem, se sente mais confiante, extrovertida. A montação funciona como um veículo para que aspectos que já existem naquela pessoa se manifestem. E ao construir essa imagem e performar no mundo essa figura, as questões que a/o performer agencia em sua própria vida irão aparecer, quer queira mostrar ou não, pois os signos e significantes estarão presentes na imagem: gênero, raça e etnia, cultura, classe, sexualidade.

Sendo assim, este ensaio levanta a hipótese de que a experiência da montação é um veículo importante na construção da identidade do sujeito, uma vez que por meio dela a pessoa se defronta com as suas próprias questões. Neste processo de autorreflexão, ao emergir a drag, emerge o ser, que volta a interferir na drag, em um processo constante de retroalimentação. 

Como reflexo dessa afirmação, observamos que a figura montada pode ir mudando ao longo do tempo,  ela não é fixa. Semelhantemente a nós, que somos sujeitos-em-construção (Butler, 1993), é impossível que ela não se altere. Só o passar do tempo, as mudanças no corpo, as rugas, a disposição física já mudariam essa performance, por mais que idealmente se tentasse manter a mesma imagem de outrora.

performance drag Esmeralda
Esmeraldo Dip
Foto: Lainha Loiola

Observamos também uma aproximação com o tempo da arte da performance. Muitas performances são irrepetíveis, ou ao se repetirem, abraçam o novo. A/o performer se deixa atravessar pelas mudanças, diferenciando-se um pouco nesse sentido da relação entre o ator e  a personagem, que de alguma forma é um pouco mais fixa.

Pensar a identidade na contemporaneidade passa por uma discussão em diversos campos de saber, tornando-se por vezes polêmica. A identidade é discutida na psicologia e psicanálise, sociologia, filosofia, biologia, nas artes e em outros campos. Tendo como referência a obra de alguns autores/as que falam mais diretamente sobre este conceito, como Stuart Hall (2006), José Estéban Muñoz (1999),  Erving Goffman e outros que utilizam o conceito em suas obras, como Judith Butler (2008), podemos ampliar a discussão. 

Para concluir, considero que a montação drag é um processo criativo que constrói sobre si um outro corpo e proporciona mais fluidez à identidade do sujeito na construção de um espaço de liminaridade entre a realidade e a representação.

Referências

Butler, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 10ª Edição, 2006.

Habib, Ian Guimarães. Corpos Transformacionais: a transformação corporal nas artes da cena. São Paulo: Hucitec, 2021.

Lopes, Beth. A performance da memória. Revista Sala Preta, v. 9, p. 135-145, 2009.

Muñoz, José Estéban. Disidentifications: queers of color and the performance of politics. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.

Como citar este texto

COSTA FILHO, Francisco Carlos. Performance drag e identidade. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/performance-drag>. Acesso em: 18. Set. 2023.

Número artístico e performance: tem alguma diferença?

Lady Lazzarus

Atualmente vemos drag queens e transformistas ocuparem os mais diversos lugares: nós as vemos na TV, nos concursos, nos espetáculos de teatro, nas intervenções urbanas, nas capas de revistas e até nas headlines de notícias. A arte da montação alcança o mainstream e é vista e consumida por, essencialmente, todo o tipo de público, conquista fãs e adeptos, desperta curiosidade e até alguma polêmica. O repertório dessas artistas é o mais vasto possível: elas dublam, cantam, atuam, dançam, fazem stand up comedy e protagonizam quadros de entrevistas, dentre muitas outras atividades. Adquirimos o costume de dizer que drag queens e transformistas apresentam PERFORMANCES variadas, e isso se deu também à popularização do reality RuPaul’s Drag Race, que legendado em português, diz: “Foi pedido a vocês que preparassem uma performance de dublagem para esta noite.” Com isso, a batalha entre as drag queens inicia e o painel de jurados decide quem fica e quem sai do programa. Aqui reside a dúvida – e a provocação: drag queens fazem PERFORMANCES?

Número artístico e performance Chi Chi DeVayne e Thorgy Thor
Chi Chi DeVayne e Thorgy Thor na Batalha de Dublagem do reality Rupaul’s Drag Race.
Fonte: Youtube

A arte da performance é a manifestação artística mais “jovem”, conforme os estudos em História da Arte. Ela se manifesta pela primeira vez no início do século XX com o Movimento Dadaísta e segue se desenvolvendo fortemente até os nossos dias. Hoje, temos performers e artistas que exploram a performance que influenciam os mais diversos trabalhos nas Artes Visuais, Artes Cênicas, Cinema e Audiovisual e até na Arte Urbana. Mas o que é a arte da performance?

“A performance ou performance art, expressão que poderia ser traduzida por ‘teatro das artes visuais’, surgiu nos anos sessenta (não é fácil distingui-la do happening, e é influenciada pelas obras do compositor John Cage, do coreógrafo Merce Cunningham, do videomaker Name June Park, do escultor Allan Kaprow). Ela chega à maturidade somente nos anos oitenta. A performance associa, sem preconceber ideias, artes visuais, teatro, dança, música, vídeo, poesia e cinema. É apresentada não em teatros, mas em museus e galerias de arte. Trata-se de um ‘discurso caleidoscópico multitemático’ (A. Wirth)”

(PAVIS, 2011).

Mas para entender um pouco melhor o que é a performance, precisamos também estabelecer o conceito de PERFORMER:

“Termo inglês usado para marcar a diferença em relação à palavra ator, considerada muito limitada ao intérprete do teatro falado. O performer, ao contrário, é também cantor, bailarino, mímico, em suma, tudo o que o artista, ocidental ou oriental, é capaz de realizar (to perform) num palco de espetáculo. O performer realiza sempre uma façanha (uma performance) vocal, gestual ou instrumental, por oposição à interpretação e à representação mimética do papel pelo ator. Num sentido mais específico, o performer é aquele que fala e age em seu próprio nome (enquanto artista e pessoa) e como tal se dirige ao público, ao passo que o ator representa sua personagem e finge não saber que é apenas um ator de teatro. O performer realiza uma encenação de seu próprio eu, o ator faz papel de outro”

(PAVIS, 2011).

A partir da breve definição de performance e performer dada por Patrice Pavis, vemos que existe uma diferença entre o performer, que é um artista de palco que se manifesta das mais variadas formas, do ator, que encarna um personagem específico (ou até mais de um). É como se o performer fosse um artista orgânico, que colocasse mais de si em suas encenações e obras, o que combina com o conceito de “drag persona”, que é o que estabelecem para si vários(as) artistas transformistas. A drag queen ou o drag king não é, na grande maioria das vezes, um personagem, mas sim uma persona, uma manifestação da própria pessoa que o encarna, uma faceta do seu “eu”. Sendo assim, de alguma forma seus shows são quase sempre atos únicos, que dependem da reação do público, o que mais uma vez difere da atuação no teatro, por exemplo. Um espetáculo teatral pode ser encenado sem público algum e sem levar em consideração nenhuma reação ou ação do público, enquanto a arte do performer é, de certa forma, interativa: ela depende da leitura, da reação e às vezes até da ação do público para ser um ato completo.

Mesmo assim, será que todas as manifestações artísticas das transformistas são performances?

Entre os artistas de palco que não são atores – cantores, circenses, bailarinos e artistas da dança, mímicos, cômicos – é muito comum vermos encenações pautadas, que possuem começo e fim, que caminham de forma linear ou não, que são ensaiadas, que até podem possuir um roteiro para sua execução. A isso damos o nome de ATO ou NÚMERO ARTÍSTICO, uma vez que é criado para ser repetido várias vezes, como uma encenação teatral. O número artístico pode ou não ter um propósito específico, mas ele possui marcações essenciais, ações específicas, trilha sonora que não pode ser acidental, dentre outros elementos que estão mais próximos de uma cena curta do que de um ato performático. A performance é algo que exige esforço específico do artista, que fala diretamente com ele e transmite também uma mensagem às pessoas que assistem, e que pode se modificar pouco a pouco (ou drasticamente) com a interação do público.

Gabriella apresenta a performance “A Carne” no espetáculo DRAG NIGHT SHOW, dirigido por Lady Lazzarus. Tradução do poema e preparação do performer: Lady Lazzarus.

A performer Marina Abramovic, considerada uma pioneira na arte da performance, tem em seu repertório de criações várias intervenções onde colocava à disposição do público o seu próprio corpo, a ponto de arriscar a própria vida. Um de seus trabalhos mais conhecidos é intitulado Rhythm 0, de 1974, onde a artista ficou em uma galeria com uma mesa a seu lado contendo vários objetos como: uma pena, uma rosa, uvas, mel, um chicote e até uma arma com uma bala. As pessoas passaram seis horas interagindo com Marina, que não reagia em nenhum momento. Rasgaram suas roupas, cortaram seu corpo, carregaram-na de um lado para o outro, até que uma pessoa resolveu “testar” a arma com ela. Neste momento, o galerista interviu dizendo que a performance havia acabado e Marina voltou a si, chorando, caminhando ensanguentada pela galeria. As pessoas assustadas correram para fora.

Número artístico e performance Marina Abramovic
Marina Abramovic – “Rhythm 0” – 1974.
Fonte: Reprodução – IMDB

Para trazer um exemplo de artista brasileira dentro do mesmo espectro de Marina, Marcia X criou a performance/instalação Pancake em 2001. Marcia ficava dentro de uma bacia de alumínio e perfurava latas de leite condensado de 2,5kg e derramava por sobre si. Depois de abrir cerca de 10 ou 12 latas de leite condensado, ela então peneirava confeitos e colocava também sobre seu corpo.

Número artístico e performance Marcia X
Marcia X – “Pancake”. 2011.
Fonte: Reprodução – O Globo

Mas as performances precisam seguir sempre esse tipo de ação? Não. Como vimos na definição apresentada por Pavis no início deste texto, ela pode incluir outros elementos de arte em sua encenação, como a música, o canto, a dança, a poesia, dentre outras, e elas podem também estar combinadas para provocar o público, passar uma mensagem, estabelecer uma conexão, criar uma experiência diversa.

Quando falamos de um número de dublagem, que é o “carro-chefe” das apresentações de transformistas e drag queens, estamos diante de um NÚMERO ARTÍSTICO, um ato
encenado, de forma menos roteirizada e mais inspiracional, mas ainda assim algo que requer uma preparação prévia, que vai desde a execução de um figurino, adereços, perucas e acessórios até a incorporação de expressões na letra da música dublada. Um número de dublagem não é necessariamente uma performance, pois ele segue um caminho traçado previamente pelo(a) artista.

Entre transformistas, drag queens e drag kings e artistas de circo encontramos poucas diferenças. Todos possuem caracterização específica, que inclui figurino, maquiagem, peruca e acessórios e todos apresentam algo a fim de entreter o público. No caso do circo temos números de aéreos (tecido acrobático, lira, trapézio), palhaçaria, contorcionismo, dança etc. Por que palhaços(as) não apresentam “performances”? Por que sempre chamam seus shows de “números” ou “atos” artísticos? Porque eles seguem uma partitura corporal, uma espécie de roteiro com um clímax, criado especialmente para ver o público reagir a tudo isso. Existe muita diferença entre um número de aéreo com música e um número de dublagem? Ou ainda, entre um número de palhaçaria ou um número de canto? Não, na verdade não há diferença. Mesmo assim, não vemos artistas circenses se referirem aos seus shows como performances, pois as performances são MENOS encenadas e MAIS sentidas pelo performer do que os números artísticos, que são criados para apresentação em uma temporada de shows, seja ela diária, semanal ou mensal (e até esporádica).

Quando Pavis nos diz que a performance não é “pré-concebida” é justamente porque ela vai depender da condução da plateia presente. É o público que guia o artista no caminho da performance, e não o contrário, como no número artístico. No número artístico, o artista prepara um caminho e conduz seu público por ele. Há um clímax, mas ele já é pré-definido pelo artista, que aguarda certa reação de seus espectadores (alegria, incômodo, emoções diversas). Na performance, o performer é quem recebe essa energia do público e é ele que vai experienciar as emoções, ele que será surpreendido pelas pessoas que interagem com ele ou o assistem. Geralmente as performances são concebidas para um momento e um espaço específico, enquanto os números artísticos podem ser repetidos indefinidamente, adaptando-se aos espaços e aos recursos disponíveis.

Quer dizer então que um(a) artista transformista NÃO é um PERFORMER? Não. Ele é um performer, pois ele vai encenar ou até improvisar algo dentro do seu repertório de conhecimento e ação, mas ele tem noção completa (ou deveria ter) de até onde pode ir e também até onde o público pode acompanhá-lo. Ele não precisa de um palco italiano e luzes profissionais, embora isso ajude a conduzir seu ato. Ele não precisa também se ater a um texto e um conjunto de ações específicas. E, claro, há artistas transformistas que produzem performance na sua essência, que criam intervenções e interações com o público que dependem deste último, que dependem de sua observação e até de suas ações. A arte do transformismo engloba muitos fazeres artísticos e pode, sim, se usar da arte da performance, mas via de regra, ela fica num lugar onde é mais fácil manter um repertório que pode ser facilmente repetido em qualquer lugar do que dialogar com um momento, um espaço e um público em específico.

O significado principal da palavra PERFORMANCE, conforme o dicionário, é DESEMPENHO. Quando vemos essa palavra sendo utilizada em inglês, na grande maioria das vezes ela quer dizer apenas isso. Como consumimos mais e mais conteúdo produzido por outros países para pautar nossas referências como transformistas, isso nos faz crer que toda vez que criamos um ato encenado, um número artístico, estamos criando uma “performance”, pois ouvimos isso no reality show e achamos que também se aplica ao que fazemos. Mas, não é bem assim. Precisamos, como artistas, saber a diferença entre uma coisa e outra, pois a arte performática exige mais de nós, exige mais preparo físico e menos poética, mais convicção e menos estética. É algo mais visceral, mais intenso, que transforma o performer e sua plateia.

Como disse o fantástico Erick Barreto, um pioneiro da arte transformista brasileira: “Transformistas são palhaços de luxo. Pintamos a cara para passar uma coisa que não somos e nem sentimos” – se referindo aqui ao ato do female impersonation, que é a “imitação” daquilo que seria uma mulher, também uma base da arte transformista no passado, antes de recebermos a iluminação da Teoria Queer sobre gênero, arte, suas diferenças e onde se tocam. O trabalho artístico do(a) artista transformista reside mais na transpiração, na prática, do que na inspiração, na poética. E não há problema algum em criar um repertório de atos ou números artísticos. Eles não estão, de maneira alguma, abaixo da performance, apenas são formas diferentes de explorar a atuação de um performer.

Número artístico e performance Erick Barreto
Erick Barreto no documentário “Bananas is my business”.
Fonte: Gayblog/Reprodução

Referências

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2011.
Marina Abramovic. Rhythm 0 – 1974. MoMA. Disponível em: https://www.moma.org/audio/playlist/243/3118. Acesso em 24 de julho de 2022.
Marcia X. Marcia X: Pancake. Disponível em: http://marciax.art.br/mxObra.asp?sObra=1&sMenu=2. Acesso em 24 de julho de 2022.
Erik Barreto Diana Finsk se transforma em um palhaço no Show de Calouros. Arquivo Transformista. Disponível em: https://youtu.be/0XwgHOgwdZY. Acesso em 24 de julho de 2022.

Lady Lazzarus é transformista. Dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora, preparadora de elenco e palestrante. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com o drag king Lorde Lazzarus, que criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que corou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king.

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Ser drag sem ser queen

Wendell Cândido

O relato que estou a escrever é sobre a minha vivência enquanto drag king. No Rio de Janeiro, quando comecei a atuar em 2015, era difícil achar referências de maquiagens ou outras dicas de como transformar meu corpo com curvas, seios, em um corpo mais normativamente masculino, com mais pelos e barba. Foi quando me juntei ao coletivo Drag-se e seu canal no YouTube que começamos a criar tutoriais e conteúdos que também contemplavam os artistas drag kings, gerando maior visibilidade para tal prática artística.

Assim, fui entrando mais no ambiente drag e percebi o quanto precisávamos criar espaços habitados por kings. Os espetáculos eram majoritariamente feitos por drag queens, e eu, iniciante, não sentia que era capaz de me igualar a elas. Hoje em dia essa é uma ideia bastante atípica em minha mente, igualar-me a alguém.  Talvez a experiência tenha me feito notar que é pelas particularidades que ganhamos força. Ai…, a idade é uma dádiva, não é mesmo?

Neste espaço, quero partilhar histórias, a primeira delas é de quando me apresentei como drag king pela primeira vez. Fui convidado a fazer essa apresentação em uma das festas produzida pelo coletivo Drag-se, naquele momento, o grupo só tinha mais um king chamado Charlie Wayne, o encontro com ele foi importante para o meu despertar artístico, voltarei a esse ponto adiante.  

Minha persona é casada com a drag Tizi Nebulosa, artista e tatuadora fabulosa, convidei ela para se apresentar enquanto coadjuvante comigo na festa do Drag-se e ela aceitou. Dublamos “How can I go on” do cantor Fred Mercury, na versão onde ele canta juntamente com Montserrat Caballé, cantora lírica catalã. Foi realmente precioso, momento esse que recordarei até quando conseguir me lembrar (tenho costume de esquecer coisas). Temos uma química inegável, ambos com tendências ao drama, criamos uma conexão de tal forma que a boate nos olhava atentamente e apreciava de forma prazerosa o instante. Finalizamos a performance satisfeitos e felizes.

Wendell Cândido ser drag sem ser queen
Wendell Cândido e Tizi Nebulosa
Fonte: Arquivo Pessoal

O público aparentemente também estava contente com a atuação, começaram a parabenizar Tizi Nebulosa pelo trabalho, considerando que era ela a personagem principal da performance. Ninguém levou em conta que eu era o ator principal, afinal estão acostumados a verem Drag Queens em destaque na cena. Isso vai além do fato de quem era o principal ou coadjuvante, as pessoas nem chegaram a  falar comigo! Tizi ficou desconfortável, mas de forma gentil seguia repetindo que era a convidada e que o artista principal era eu, Wendell Cândido. Ela continuou me apresentando a todos que falavam com ela e, nesse instante, percebi que eu precisava atuar mais na cena drag.

As pessoas precisavam de mais referências drag kings na vida delas para terem outras perspectivas de atuação e performance.

Lembram-se que comentei do Charlie Wayne? Pronto! Chegou a hora de explicar como ele foi uma figura importante para o começo da minha carreira. Ele me despertou a vontade de atuar como drag king. Minha referência. Eu, assim como as pessoas presentes na minha primeira atuação só tinha referências de drag queens. Um dia assisti a performance do coletivo Drag-se, antes mesmo de pensar que poderia fazer parte do grupo. No palco estavam artistas maravilhosas em um show lindo, mas apenas um king, Charlie.

Aquela discrepância me fez pensar: por que apenas um King, o único King? Questionando sobre essa situação junto a um amigo, surgiu a colocação que me fez começar a atuar. A frase foi: “Bicha, ao invés da senhora ficar reclamando, vai lá e atua”. Bom… pensando bem, acho que foram duas pessoas que me fizeram começar a atuar: Charlie Wayne e esse meu amigo que foi ferozmente direto e desafiador!

Desde então, tive a oportunidade de performar em algumas boates internacionais e nesses seis anos que se passaram muitas coisas mudaram. Hoje, temos maior quantidade de artistas drag kings na ativa, criando projetos, coletivos, tutoriais, trocando experiências e ideias. Mas ainda assim, o espaço reservado nas boates para as nossas atuações é bem reduzido em relação às drag queens. Obviamente, dependendo do país em questão, o público consumidor de shows de drags tem maior conhecimento de quem são os drag kings, ou sabem o que eles representam para a comunidade LBTQIA+. Mas a caminhada ainda é longa e está para ser feita em conjunto.

Em vista do que eu disse até aqui, me parece que abrir espaços para além dos que nós mesmos habitamos, é de importância infinita. Acredito que é através dessa construção de espaços seguros, de afeto e crença nas coisas que saem do que já nos é conhecido que surgem grandes artistas, grandes propostas e grandes experiências.

É pensando nisso que  pretendo fazer desse espaço de expressão, um diário-afetivo-instrutivo de experiências e discussões sobre como nós podemos alimentar nossos artistas e nossas mentes de coisas novas, para além do já estabelecido.

No nosso próximo encontro, vou compartilhar com vocês um pouco da história do surgimento dos drag kings no mundo e indicar o trabalho de alguns deles. Dentre esses, tive o prazer de trabalhar com alguns e, com outros, sigo trabalhando até hoje.

Beijos de paixão e até já!