Capítulo 1. A força do leque de Crystal

Douglas Ostruca

Este é o primeiro capítulo da tese “Micropolítica das montações: um estudo das comunicações transversais em fabulações transformistas” (2024), desenvolvida como uma narrativa fabulatória no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A pesquisa acontece em meio aos trânsitos pelos territórios transformistas de Porto Alegre.

SINOPSE: Forçada a se mudar para a capital, professora Luná se enreda em meio à solidão e aos fantasmas que a habitam. Como saída, ela investe suas forças na pesquisa da cena transformista de Porto Alegre, sendo provocada a se transformar ao longo do processo a partir dos encontros com as artistas.

***

A praça dos Açorianos, no Centro Histórico de Porto Alegre, é ocupada por uma multidão de pessoas. Apesar do vento gelado próprio ao inverno cortante, o sol do início da tarde aquece os corpos já agitados. O povo faz a festa, uma grande festa a céu aberto. Bandeiras coloridas se espalham por toda parte, algumas com as cores do arco-íris, outras com as cores azul, rosa e branco. Crianças correm para lá e para cá, deixando escapar risos soltos e gritos desarticulados. São tantas as variações de famílias presentes que a tradicional monocromática é apenas mais uma configuração em meio à multidão. Transformistas, drag queens, drag kings, drag monstras, pessoas travestis, homens e mulheres trans, não-bináries, bissexuais, bixas, pansexuais, intersexuais, assexuais e mais tantas outras ainda por vir formam uma multidão queer fervendo nas ruas da capital (Preciado, 2011).

Uma figura esguia, com ar fantasmagórico, vaga entre as pessoas. Ela passa em silêncio, observando curiosa os mínimos detalhes como quem tem fome de alegria. Os olhos escuros são aumentados pelos óculos de aros grossos, dando a ver dois buracos negros que atraem para si o mundo. Embora seu desejo seja olhar sem ser olhada, sua estranheza peculiar inevitavelmente chama a atenção das pessoas. A saia preta de veludo e a camisa social compõem uma vestimenta elegante, contrastando com os gestos desengonçados que mostram um despertencimento difícil de camuflar. Luná veio para a capital fugida de seu passado, o qual, apesar de seu desejo, persiste no corpo, reforçando a rigidez. Para sentir-se à vontade consigo mesma em meio à multidão, ela compra um latão de cerveja da primeira vendedora ambulante que vê.

O caminhão de som se dirige lentamente em direção à orla do lago Guaíba. Luná acompanha o mundaréu de gente que se organiza atrás do veículo. A música Rajadão (2020) da Pabllo Vittar toca em toda a potência e o povo canta junto em voz alta. “A previsão do tempo diz que o céu fechou / O poder da vitória vai curar a dor / O temporal agora vai cair em mim / A chuva da vitória vai reinar no fim…”. O volume da música é reduzido gradualmente. Ao ver a transformista Gloria Crystal subir no carro de som, Luná não se contém, um sorriso se esboça flexibilizando os traços rijos de seu rosto. Em sua memória é viva a lembrança da dublagem que Gloria fez da música Fortissimo (Rita Pavone, 1966) há mais de 10 anos, em São Borja. A rememoração alegre lhe traz um frescor em meio ao gélido breu generalizado em seu corpo.

Gloria Crystal na Parada de Luta de Porto Alegre (17/07/2022). Foto: Luná Maldita.

Gloria Crystal assume o microfone: “Boa tarde, Porto Alegreeee”. O povo responde; não satisfeita, a artista insiste: “Eu quero mais forte! Boa tarde, Porto Alegreeeee!”. Em uníssono, as múltiplas vozes revoam, estremecendo o chão. A artista prossegue: “Me sinto honrada por apresentar mais uma edição da Parada de Luta de Porto Alegre. Ainda me lembro da primeira que aconteceu lá em 2007. É uma alegria imensa fazer parte disso. Esse é um momento importante pra gente botar a cara no sol e dizer a que viemos. Eu quero ver todo mundo vibrando comigo! Entendido?!”. A multidão responde “sim” aos berros, expressando excitação.

À medida que a cerveja entra, a tensão no corpo de Luná se dissipa. Ela se permite um momento de diversão, inspirada pela extroversão de Gloria, que brinca com as palavras usando o chiste como estratégia de discurso. De cima do caminhão, a artista dança alegre e interage com o público agitado. “O improviso é outro elemento perceptível na comunicação, é aí que as conexões de ideias mais estranhas acontecem”, depreende Luná. Interrompendo sua divagação, alguém grita seu nome. Assustada, ela olha na direção de onde vem a interpelação. “Mia!”, responde Luná colocando a mão sobre o peito. Mia usa um vestido curto até as coxas, a cintura é sobreposta pelo espartilho preto. Ela é acompanhada por Tiffany Plazza, que está de vestido vermelho com transparência e uma coroa em tecido da mesma cor. “Que susto, achei que fosse algum estudante da faculdade”, complementa Luná aliviada. “Ai amiga, você ainda está com essa mania? Não vai me dizer que é por isso que está com esse look de professora do século XIX”, responde Mia, debochada. Tiffany ri do comentário.

Desconcertada, Luná muda de assunto: “Estou fazendo a pesquisa de campo para aquele estudo que comentei contigo”. “A senhora está sempre trabalhando né gata, mesmo na diversão ela não para! Você precisa relaxar um pouco”, diz Mia. Tiffany atravessa a conversa: “Eu fui chamada pra performar na última noite do In.fame, quer ir com a gente?”, convida a drag. “Como assim última noite?!”, responde Luná, surpresa. “Você não soube? Eles vão se mudar de cidade, estão fechando”, explica Tiffany. “Poxa, gosto daquele espaço, é um dos mais acessíveis que conheci”, responde Luná, chateada. “É uma notícia triste mesmo, mas essa vai ser a primeira performance da Tiffany em um bar, então é motivo pra comemorar também!”, comenta Mia estalando os dedos no ar. Luná concorda em encontrar Mia e Tiffany no In.fame, elas se despedem. Luná compra outra cerveja e continua a caminhada, observando tudo com a mirada ferina.

Em meio à multidão, algumas pessoas batem leques no ritmo da música. “Que coisa lindaaaa!”, comenta Gloria conectada ao instante. “Parem a música um momento, quero ouvir o som desses leques batendo com força”, pede a artista. Aos poucos, o povo ergue seus braços múltiplos e, em uníssono, o som de mil leques ressoa pelas ruas de Porto Alegre. TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ… Sobre o carro de som, Crystal ergue seu próprio leque amarelo somando-se à multidão. Tamanha é a força desse ato que uma rajada de vento faz a coroa de cabelos vermelhos de Crystal esvoaçar, ela fecha os olhos por um instante e dá uma gargalhada dizendo: “Essa é a força do leque! Essa é a nossa força, meu povo!”. A multidão grita, aplaudindo a artista. O cortejo continua.

Já na Orla do Guaíba, Gloria desce do carro. Luná corre desengonçada para alcançar a artista, ela a cumprimenta ofegante: “Olá, Gloria”. “Eu mesma, a própria. Contigo correndo desse jeito, achei que era arrastão. Aloooka!”, responde Crystal gargalhando em alto astral. Luná deixa escapar um riso, desconcertada. “Meu nome é Luná, sou professora substituta na UFRGS, estou pesquisando o transformismo aqui em Porto Alegre. Entre outros artistas, conversei com João Carlos Castanha, Lauro Ramalho, Zé Adão Barbosa e Charles Machado. Adoraria conversar sobre o tema contigo também”. “Mas olha só, uma acadêmica entre nós”, diz Gloria zombeteira, e prossegue: “Legal seu interesse, mas agora eu não consigo, preciso ir pro palco, podemos conversar em outro momento? Farei um show no Mixx Bar no início do mês que vem, aparece lá que a gente toma uma cerveja”. “Maravilha! Estarei lá, muito obrigada, Gloria, é um prazer te conhecer”, responde Luná em tom formal. A artista se vai e no rosto da professora aflora um sorriso, algo raro dado o seu momento de vida.

Um turbilhão de ideias atropela Luná, seus pensamentos maquinam acelerados. A visão embaça, a atenção volta para si mesma e ela não enxerga o que se passa ao redor. Alguém abre um leque com força ali por perto, o som ecoa os mil leques que há pouco batiam em conjunto. O corpo de Luná é percorrido por um arrepio. “Quem diria, um inofensivo leque usado cotidianamente para abanar, torna-se uma tecnologia política nas mãos dessa multidão…”, diz ela em voz baixa. Com o celular em mãos, a professora manda uma mensagem para si mesma no Whastapp: “Quais são as diferentes montações com as quais o leque já se conectou? Que outras funções o leque assume ao variar a montação?”.

REFERÊNCIAS

PRECIADO, Paul Beatriz. Multidões queer: Notas para uma política dos “anormais”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, SC, v. 19, n. 1, p. 11–20, 2011.

Drag e as identidades políticas*

Persephone Ephemera Pepper

Persephone identidades políticas
Retrato de Persephone como convidada na roda de conversa intitulada “Corpas Culturais Autoficcionais”, mediada por Giovanna Bittencourt Morastoni no Somos Muitas – Encontro de Artes Cências LGBTQIAPN+, ocorrido em Blumenau/SC em maio de 2024. Foto: Sabrina Marthendal.

Há uma discussão que considero indispensável toda vez que começo a lecionar Drag a uma nova turma, que é sobre o uso das palavras “feminino” e “masculino”. Houve uma época da minha vida que eu tinha horror a essas duas palavras e via que poucas coisas no mundo contribuíam mais à estrutura de dominação de gênero quanto a insistência em utilizá-las. Pensava que em qualquer contexto essas palavras gerariam frases que reforçariam o status quo que desejava mudar. Porém essa posição mudou quanto mais eu me aprofundei no estudo do gênero e da Arte Drag e hoje vejo da seguinte forma: se mantivermos em mente que o que define o significado desses significantes não são características inatas, mas sim o resultado de uma padronização cultural que persistiu até hoje, talvez possamos utilizar estes significantes para destruir essa relação de significação.  Vejo “masculino” como “aos modos dos homens”, ou “seguindo a tradição dos homens” e “feminino” como “aos modos das mulheres”, ou “seguindo a tradição das mulheres”. Não se pode retirar da análise a História, o presente não existe destacado do passado. Se algo é relacionado a um gênero, não é porque esse algo define todas as possibilidades do gênero, mas está relacionado porque historicamente demonstrou incidência nesse gênero. E essa incidência frequentemente foi compulsória e violenta.

Portanto, quando inicio com uma nova turma, explico que “masculino”, por exemplo, a partir dessa conversa significará “culturalmente associado aos homens” e utilizaremos esse vocabulário apenas a fim de evocar imaginários, jamais para regrar o que se deve ser, afinal, não desejo criar nenhuma “Escola de Princesas” (mencionada no subcapítulo Mascaramento). Nós, como dissidentes de gênero, devemos utilizar de nossa visão além da cisgeneridade, além do “teatro do mundo” (PRECIADO, Um Apartamento em Urano: crônicas da travessia, 2020, pp. 206-209), para transgredir, para hackear e para criar um teatro “anti-mundo”. Pelo menos é assim que vejo e é assim que ensino.

Existe mais uma questão sobre esses termos, que é a importância deles para a comunidade dissidente de gênero. Como é que se poderia afirmar-se fora da cisnorma sem eles? Se a cisnorma é um acordo, ora tácito, ora explícito, que associa expressões a genitais, como poderíamos afirmar o que somos (e consequentemente, o que não somos) sem utilizarmos do vocabulário desta norma da qual vivemos sob o julgo?

Curiosamente, o ideário masculino/feminino, visto de forma afirmativa, tem uma história bastante extensa em comunidades queer anglófonas, frequentemente observável como a dicotomia Butch/Femme[1]. Butch e femme, me parecem ter um significado bastante parecido com os discutidos anteriormente para “masculino” e “feminino”, porém há diferenças gritantes: essa dicotomia é utilizada pela própria comunidade queer a fim de reconhecer a multiplicidade de expressões dentro de um mesmo “sexo”, não para reforçar normativas do discurso do sexo. Butch e femme frequentemente, inclusive, são termos utilizados na comunidade ballroom que, uma vez sendo contextos populados por muites dissidentes de gênero, também se referem à performatividade do gênero, em detrimento a qualquer menção a categoria do “sexo”. Em alguns contextos contemporâneos, são termos que são até flexibilizados a fim de representar o gênero como um espectro recheado de recombinações de significantes, não como um ideário binário e fixo, como pode-se observar na imagem abaixo.

escala Futch identidades politicas drag
A “escala futch” apresentada com exemplos de Pokémons em formato de peixe. Fonte: KnowYourMeme,

Ao observar a aplicação de significações de gênero a personagens tão inumanos como Pokémons[3], percebo como o olhar de nossa cultura é viciado em categorizar a partir do que se vê. Mesmo desafiado pela necessidade da pareidolia, o olhar ainda, acostumado com uma sociedade de gêneros, consegue (ou talvez até sente necessidade de) categorizar gênero em desenhos de peixes ficcionais. E é nessa operação do ato de espectar o espetáculo da significação de gênero que a brincadeira do dispositivo Drag mora.

Os lugares do espectro de gênero, porém, não devem ser vistos como simétricos, como dois lados de uma moeda, como um yin-yang. Performar o masculino e o feminino têm significados diferentes. Não creio ser justo imaginar que, ao tratar de montar um plano pedagógico para lecionar Drag, deva-se tratar ambos como se jogassem num jogo de regras justas e equilibradas. Porque o gênero ainda chega a nós como uma instituição colonial de dominação. Porque os homens e as mulheres ainda estão desiguais em uma série de quesitos. Porque até a subversão da norma da cisgeneridade em forma de performance não está equiparada em ambos os gêneros. Porque, por exemplo, os Drag Kings não estão em pé de igualdade com as Drag Queens.

Como pode ainda ser observado tanta segregação baseada em gênero em uma forma de arte que se baseia na subversão das lógicas compulsórias de gênero? E então voltamos às discussões de falta de representatividade discutidas no subcapítulo Caminhos para o conceito contemporâneo. Mas é preciso transgredir para avançar. É preciso reinventar os conceitos de gênero. Retomo à conceituação de Beauvoir (The Second Sex), onde existe o Um e o Outro. Os homens, ocupando historicamente o lugar da filosofia, teorizaram as mulheres, transformando-as em Outros, mas chega a hora, no contemporâneo de inverter tais lógicas: o Um se tornar o Outro e o Outro se tornar o Um. Na performatividade Drag King vemos esse estudo, essa forma de apreensão, no ato de calçar os sapatos deles, de seus opressores. A masculinidade sendo investigada pelas mulheres numa atitude de alteridade.

No filme A Man For A Day (Peters, Man For a Day, 2012)[4], acompanhamos um grupo de mulheres alemãs passando pelo processo pe-drag-ógico de Diane Torr. Vemos como Torr as conduz a fazer uma investigação mimética, de caçar com o olhar gestualidades dos homens transeuntes das ruas para depois, em dinâmica laboratorial, reproduzi-las com o próprio corpo. “Homens são um bom espetáculo, fáceis de estudar porque não estão acostumados a serem espectados, estão acostumados a serem espectadores” (2012) é algo dito pela professora nessa parte do filme.

Em parte da metodologia de Torr, ela traz o conceito de owning and enlarging (“propriedade e crescimento”, tradução livre do subtítulo do trecho do documentário) na atitude masculina, que se concretiza na forma de andar: “Então, quando você andar, há um sentimento de que o seu pé é dono deste pedaço de chão abaixo dele. Essa ideia de propriedade está bastante incluída na identidade masculina, esse senso de propriedade… e de posicionar a si mesmo” (minutagem 42:27 do filme, tradução livre). A pe-drag-oga diz para as alunas no início da oficina: “não é sobre se tornar um homem, nem se tornar uma mulher, é sobre se tornar mais e isso será empoderador para vocês”. Em outro momento, Torr as ensina a não sorrir o tempo todo, não “acenar que sim balançando com a cabeça” em qualquer resposta. Ao mesmo tempo que nessa pedagogia da masculinidade há a ideia de “ser mais”, há um espaço negativo delineado pelo que não se faz.

Sempre me intriga qualquer forma de arte que tenha o conceito de espaço negativo, e o conceito de que o que está em volta de algo é o que define este algo. Então, com a masculinidade é a mesma coisa. É o que está em volta, sabe? É esse.. É sempre a dicotomia: o mover-se para frente e o conter-se, o ser forte e o ser vulnerável e isso é o que é interessante. É o que eu acho que faz qualquer performance boa: paixão.

(Venus Boyz, 2001) (Minutagem 44:12 do filme. Depoimento de Storme Webber[5], tradução minha.)

 A figura de linguagem empregada por Storme Webber em Venus Boyz (BAUR & MAEDER, 2001) é cria uma forma de análise interessante a partir do conceito “espaço negativo”. A partir do que não se é, a partir do que não se faz, a partir do que não se tem etc. O que seria então a masculinidade em espaço negativo? O que é que se pode ser circunscrito a partir do que não pertence à performance masculina? O que sobra? Se tomamos como exemplo instruções que Diane Torr emprega em sua pe-drag-ogia King, há uma questão de poder envolvida. Se a instrução é caminhar pelo espaço como se fosse sua propriedade, isso implica que a feminilidade (como construída social e historicamente) tem a ver com alguma dimensão de insegurança, de perigo, talvez de até ser “estrangeire em sua própria pátria”, não ter propriedade, mas sim ser “a propriedade”. Se a instrução é não sorrir e acenar que sim com a cabeça o tempo todo e a todes, talvez a visão da professora da feminilidade imposta seja algo ligado à complacência, o conformismo e à servidão. Essas características não são ontológicas, mas sim performativas, em conforme a uma história de docilização do grupo oprimido.

Em entrevista a Anthony Padilla[6], Ladon Cider afirma: “cansada de ser uma dama, eu me tornei o homem” (CIDER, MOLASSES, & DYKEY, 2023). Mas no sentido de performance artística, uma vez que a própria artista afirma se sentir confortável sendo uma mulher cisgênero no dia a dia. Landon Cider não passa de um personagem para a artista por trás da máscara, mas embora ela encare dessa forma, também afirma que através do King consegue explorar possibilidades andróginas de sua própria identidade. King Molasses, no mesmo vídeo afirma: “Minha Arte Drag não é sobre me parecer com um homem. Minha arte é sobre me sentir liberado da expectativa das outras pessoas e dos sistemas de opressão” (Idem). A montação de King Molasses, curiosamente, é uma aparição extremamente passável em sua masculinidade que parece cisgênero, o próprio afirma que é frequentemente tratado como homem quando está montado: mas vejo isto como uma contradição produtiva. Por mais que a primeira parte de sua argumentação entre em choque com o que vemos materializado em forma de montação, acontece o efeito performativo descrito no performer e na plateia, de fraturar expectativas e sistemas de opressão.

Outra parte da mesma entrevista é digna de nota:

Mulheres não eram convidadas ou bem-vindas em espaços gays e queers antigamente. Chutavam-nos porta afora. Nós não éramos celebradas, e então frequentemente precisamos achar nossas próprias coisas, e aí é que onde muita coisa evolui. Quando você se sente desgraçada e você tem que achar o seu próprio espaço seguro. Mulheres tiveram que fazer isso nos nossos próprios espaços queer porque, infelizmente, homens muitas vezes não querem mulheres por perto. Na minha vida, eu já fui chutada porta afora de espaços de homens gays, de bares gays. 

(CIDER, MOLASSES, & DYKEY, 2023).

Este trecho ressoou em mim como um determinado conceito utilizado por Judith Butler, emprestado de Luce Irigaray: “economia significante falocêntrica”  (BUTLER, 2021, p. 29). Razoavelmente, sim, estou tirando-a de contexto, mas uma vez que esta sequência de três palavras me moveu a aprofundar minha o meu pesquisar, penso que é relevante trazê-la aqui. Penso que pouca coisa é mais ilustrativa em sua concretude de uma economia significante falocêntrica que um Drag King sendo expulso de um espaço dominado por homens gays. Butler se referia a um questionamento filosófico sobre a (ir)representabilidade do gênero mulher pela linguagem, mas neste exemplo vemos na história do corpo em carne e osso de Landon Cider o efeito de uma cultura falocêntrica em prática. É contraditório que espaços que deveriam ser de aceitação pratiquem esta violência ao corpo dissidente de Landon Cider, o que só mostra que mesmo dentro de um “movimento LGBTQIAPN+”, diversas violências podem ser praticadas por uma fixação genital e pela misoginia encrustada nas operações do desejo e da sexualidade.


Notas de Rodapé

[1] Verbete Butch-femme, escrito por Theresa Theophano, no arquivo da GLBTQ – Encyclopedia of Gay, Lesbian, Bisexual, Transgender and Queer Culture. Disponível em: <http://www.glbtqarchive.com/ssh/butch_femme_ssh_S.pdf>. Acesso em 29 de outubro de 2023.

[2] A “escala futch” (futch sendo um termo gerado a partir da fusão de femme e butch), segundo a enciclopédia virtual de memes KnowYourMeme, aparece pela primeira vez em um post na rede social Tumblr, em que ë autore afirma tê-la encontrado, demonstrando que autoria de sua criação é desconhecida. Representa em forma de diagrama o espectro de gênero que contempla não-binaridades e frequentemente é preenchida com imagéticas pertencentes a um mesmo universo semântico a fim de fazer humor. Fonte: <https://knowyourmeme.com/memes/futch-scale>. Acesso em 29 de outubro de 2023.     

[3] Criaturas-personagem pertencentes ao universo da franquia de mídia Pokémon, que dificilmente necessita de apresentações. O patrimônio líquido da The Pokémon Company é estimado em 2023, com o valor de conversão do dólar, na data que escrevo em R$589.615.710.000,00 (589,6 bilhões de reais). Fonte: <https://mediacoverage.com/the-pokemon-companys-net-worth/>. Acesso em 29 de outubro de 2023.

[4] Disponível na íntegra em: <https://www.youtube.com/watch?v=h54-Dl953ls>. Acesso em 29 de outubro de 2023.

[5] Storme Webber (1959-presente) é ume artista multiartista, curadore negre e indígena, dois-espíritos que atua em Seattle/Washington (EUA). Storme é ume des entrevistades no documentário Venus Boyz sobre Drag King e transmasculinidades.

[6] Um produtor de conteúdo para redes sociais. O vídeo que me refiro reúne momento de entrevista com os Drag Kings: Landon Cider, King Molasses e Spikey Van Dykey. Disponível em: <https://youtu.be/181Bf_ft7WU?si=KpJNTRkpEVBLQwp_>. Acesso em 04 de novembro de 2023.

Referências

BAUR, G., MAEDER, K. (Produtores), & BAUR, G. (Diretor). (2001). Venus Boyz [Filme Cinematográfico]. USA. Fonte: https://vimeo.com/ondemand/venusboyz

BEAUVOIR, S. d. (2011). The Second Sex (1 ed.). (C. Borde, & S. Malovany-Chevallier, Trads.) New York, USA: Vintage Books.

BUTLER, J. (2021). Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (21 ed.). (R. Aguiar, Trad.) Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Civilização Brasileira.

CIDER, L., MOLASSES, K., & DYKEY, S. V. (04 de agosto de 2023). I spent a day with DRAG KINGS. (A. Padilla, Entrevistador) YouTube. Acesso em 04 de novembro de 2023, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=181Bf_ft7WU

Peters, K. (Produtor), & Peters, K. (Diretor). (2012). Man For a Day [Filme Cinematográfico]. Alemanha. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=h54-Dl953ls

PRECIADO, P. B. (2020). Um Apartamento em Urano: crônicas da travessia (1ª ed.). (E. AGUIAR, Trad.)

* Subcapítulo I. c) “Drag e as identidades políticas” (p. 46-52) de “UMA ANDANÇA POR PEDAGOGIAS DRAG”, dissertação de mestrado de Persephone Ephemera Pepper (a.k.a. Jeanne Martins Speckart).

Como citar

SPECKART, J. M. Uma Andança Por Pedagogias Drag. Orientador: Vicente Concílio. 2023. 114 páginas. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, UDESC, Florianópolis, 2023. Disponível em: <https://sistemabu.udesc.br/pergamumweb/vinculos/0000c4/0000c495.pdf>. Acesso em 28 de maio de 2024.