As drags no orgulho e na luta LGBTQIAPN+

Podcast Grafia Drag #2

Podcast Grafia Drag

No segundo episódio do podcast Grafia Drag, Mia The Witch, Ptera Dactyla e Professora Luná Maldita falam sobre o mês do Orgulho, com destaque para o papel das drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+.

orgulho e luta lgbtquiapn+
Foto: Tugce Eerten Barrett
Fonte: Pexels CC

A partir dessa temática, Luná lembra que na revolta de Stonewall que aconteceu nos EUA em 28 de junho de 69, as drag queens assumiram linha de frente na luta. Já Ptera puxa o gancho do orgulho e da autoafirmação, para ela a arte drag ajuda as pessoas a se expressaram,

“(…) tem muita gente que se descobre trans com a drag, né? E eu acho que isso é uma coisa dessa questão, da importância pro orgulho. A drag (…) tem muito dessa questão de empoderamento, de lacre. É muito bom pra gente se conhecer. A gente pega nossas características boas e exalta elas, ou pegamos coisas que queremos ser e exageramos isso”.

Ptera no orgulho e na luta
Ptera Dactyla.
Fonte: Arquivo Pessoal

Ao pensar sobre o papel das drags no orgulho e na luta LGBTQUIAPN+, Mia lembra de um vídeo de Lorelay Fox, no qual a youtuber sugere que a drag queen é uma porta voz da comunidade. Nesse sentido, Mia entende que “a drag queen, através desse encantamento ou dessa curiosidade que ela provoca nos outros através da arte, ela se torna uma comunicadora em prol da comunidade”.

A partir das falas de Ptera e Mia, Luná diz perceber na arte drag estratégias de sobrevivência, isso porque para ela o processo de montação carrega em si uma potência para “deslocar inseguranças e medos, de se reencontrar a partir de um outro lugar (…)”. Quanto a essas inseguranças, a professora defende que, em parte, são efeitos da imposição compulsória do sistema de sexo-gênero binário a todos os corpos, o qual gera traumas já desde a infância. Esses traumas reforçam bloqueios promovendo o envenenamento do corpo por afetos tristes, por vezes, isso ocorre nos primeiros espaços de socialização e formação de uma pessoa, como a família e a escola. Para Luná, isso é uma questão política, mais precisamente de uma micropolítica do desejo.

Luná no orgulho e na luta
Profª Luná Maldita.
Foto: Henrique Cardoso.

Em relação a essas articulações entre arte drag e política, Mia menciona que “só o fato das manas drags encararem esse local de arte que desafia papéis de gênero, muitas vezes indo contra o que a norma diz que a gente deve fazer, usar, vestir, se portar, só aí, já dá todo um cerne do ato político da drag queen também”. Ptera complementa afirmando que a arte drag produz entranhamentos e desconfortos, seja para chocar, para se divertir, ou só para ser bonita mesmo, existe aí um deslocamento do olhar do outro.

Para situar algumas variações nas montações efetuadas no contexto da revolta de Stonewall, Luná recorre ao livro “Mother Camp”, de Esther Newton, publicado em 1972 como resultado de uma pesquisa realizada no final da década de 60. Newton localiza naquelas circunstâncias dois padrões de comportamento entre as artistas female impersonators (imitadoras da feminilidade) da época.

Por um lado, as stage impersonators (imitadoras de palco) tendiam a se restringir aos limites do palco, essa era uma vertente mais profissional, onde havia demarcação rígida entre esse espaço do profissional da arte e da vida pessoal. Então, fora dos palcos, Newton sugere que essas artistas elas nem se comunicavam entre si. Por outro lado, as street impersonators (imitadoras de rua) andavam montadas nas ruas montadas, disputando o espaço público. Assim sendo, Newton menciona que provavelmente quem tomou a frente daquele movimento lá de Stonewall não foram as stage impersonators que eram as artistas mais estabelecidas no momento, mas, sim, as street impersonators que eram mais ousadas e ocupavam um espaço público.

Em vista disso, Mia lembra da roda de conversa com as Rainhas da Noite, realizada pelo Grafia Drag na Casa de Cultura Mário Quintana em 10 de junho de 2023.  Nesse encontro, entre outros tópicos, Laurita Leão e Lady Cibele falaram sobre diferenças de tratamento entre atores que performavam feminilidade apenas no palco e pessoas travestis que não estavam atuando, esse era seu modo de vida, então se colocavam assim publicamente também. Nesse contexto, Cibele comenta que a polícia enquadrava as drags, as atrizes, mas elas eram liberadas, porque performar a feminilidade no teatro, dentro dos limites do palco, era autorizado. Mas, afirmar no espaço público um modo de vida que desloca o sistema de gênero binário, como no caso das travestis, então elas eram presas e passavam por violências.

Mia ainda sublinha que é importante “(..) pensar que, de fato, essa transformação, essa revolução. Ela nunca aconteceu num local pacífico e muita gente teve que realmente e literalmente dar o sangue, sabe? (…) Durante a roda [de conversa] elas falavam muito sobre o quanto elas tiveram que passar para que hoje a gente consiga sair na rua e pegar o nosso uberzinho, como elas falaram, toda montada. E é muito sobre isso, muito sobre a contribuição que elas deram no passado para que a gente consiga hoje fazer esse tipo de coisa e nos sentiremos orgulhosas, sabe? É uma geração dando força para a outra, abrindo caminho para outra”.

Mia no orgulho e na luta
Mia The Witch.
Fonte: Arquivo pessoal

Ptera lembra que embora tenhamos avançado muito nas lutas, ainda tem muito a ser feito, especialmente em um momento político de ascensão de um movimento conservador que reafirma os valores do sistema de gênero binário e se coloca, entre outras coisas, como anti-trans e anti-drag. Nas palavras da artista, “Eu acho que, claro, a gente ainda tem muito chão para correr, né? Essa questão de imagina, de ser crime ser trans, de não poder ser travesti, não poder simplesmente viver, viver como tu é. E é muito louco, né?”.

Como saída para enfrentar essa situação Ptera situa a necessidade de falarmos por nós próprias de “(…) captar a fala, de retornar o poder da nossa própria narrativa na nossa mão e poder escrever”. Além disso, a drag reforça que precisamos valorizar as artistas que estão ao nosso lado, compondo a cena com a gente, em relação com a gente. Diante disso, professora Maldita também diz considerar importante essa dimensão do coletivo, das articulações coletivas,

“Eu estava comentando com a Mia esses tempos que durante o período em que eu estava mais nessa experiência individual, na montação, ficava muito presa em ciladas de inseguranças. E a partir do momento em que eu comecei a me vincular mais com coletivos, com outras pessoas, o próprio coletivo do Grafia Drag. Nossa, isso me ajudou muito, porque a gente passa a estar conectada com as nossas, né? A gente consegue ir além de armadilhas que sozinhas, às vezes a gente não consegue”.

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Foto: Tarek Mahammed
Fonte: Pexels CC

Em conexão com isso, Luná também afirma que considera a relação com as artistas transformistas e drag mais experientes num vínculo de ancestralidade. Em suas palavras, “(…) acredito que nessa ideia de uma ancestralidade transformista, uma ancestralidade LGBTQIAPN+, isso também tem relação com a fala, são forças que nos atravessa agora, no presente em ato. Então, o que a gente fala, o que a gente vive também é atravessado por essas vivências e experiencias que vieram antes, né?”.

Além desses tópicos as três artistas abordaram outros aspectos do contexto brasileiro, mapeando alguns movimentos e expressões de resistência que se proliferaram pelos subterrâneos da ditadura militar. Esse é o caso da própria arte transformista que por algum tempo foi autorizada pela censura nos limites do teatro, ainda que proibidas de outras mídias como rádios, jornais, revistas e televisão.

Com esse segundo episódio do podcast, Mia The Witch, Ptera Dactyla e professora Luná Maldita deixam suas contribuições para as discussões sobre as conexões e curtos-circuitos entre os movimentos sociais e as drags no orgulho e na luta LGBTQIAPN+.