Candy Boom
Olá, confetes de chocolate. Essa é a forma como chamo meus leitores, seguidores, ouvintes, espectadores e afins. Acho interessante chamar assim porque são coloridos, diversos, e por dentro temos muitas semelhanças, sabores e dissabores.
Sou a drag queen Candy Boom, feita, pensada, vivida, experienciada e (des)construída pela Michelle, uma mulher cisgênero (Até onde sei), gorda, professora de geografia, catarinense, de São José, cidade ao lado de Florianópolis, nascida em 23/12/1990 e que finalmente colocou pra fora a persona drag em setembro de 2018, na parada da diversidade de Florianópolis.

Fonte: Arquivo pessoal
Acho importante colocar esses recortes para entenderem os lugares de onde minhas percepções sobre a cena drag partem. Fui encantada por personagens desde criança. Eu assistia as transformistas na TV, os Shows de Calouro, imitava a Britney Spears na escola. Minhas memórias me falam que eu era a única pessoa mais voltada a esse estilo de pop no fundamental II. Participava de teatrinhos na escola como personagem principal e depois no ensino médio, no terceirão, lembro da minha turma não querer performar no final de ano e eu me “enfiei” com a turma do segundo ano para poder participar de alguma forma.
No primeiro ano do ensino médio também participei de teatrinho na escola. Eu estava sempre empolgada com danças e divas pop, mas por ser gorda o balé não foi um caminho que se abriu pra mim, tive que me contentar com o Kung Fu na escola, isso no fundamental II ainda.
Foi somente quando entrei na faculdade que o mundo das baladas LGBTs se abriu pra mim, as festas alternativas do centro de Floripa não eram necessariamente exclusivas para gays. Foi lá, em 2009, que pela primeira vez acharam que eu era hostess da balada e adorei, mesmo sem receber um tostão. Tive grandes referências de mulheres cis a frente das baladas, Fernanda Almeida e Samantha Daus foram figuras emblemáticas que me faziam nem sequer cogitar que mulher não poderia estar onde estavam. Aqui na grande Florianópolis isso nunca foi uma questão pra mim.
Mas durante a pandemia, recebi hater misógino por fazer drag, por ser drag. Claro que não posso afirmar que não tenha perdido oportunidades por ser mulher, mas isso nunca foi evidente. Diferentemente da gordofobia, que é extremamente escancarada. As pessoas duvidam do que eu posso fazer em palcos, do quanto aguento, do quanto consigo entregar em arte.
Nesse sentido, há também toda a questão envolvida com a manutenção do padrão corporal, especialmente por ser uma cidade litorânea, o “corpo do verão” é muito cobrado por aqui. Quem não se encaixa no meio, ou corre pelas beiradas, ou acaba largando em busca das tais “profissões mais sérias”. O corpo gordo está muito em exposição para julgamentos e nas baladas e pubs que frequento são raros os corpos gordos. Esperam a comicidade como única fonte, traçam vilania como a gente pode perceber nas representações de vilões de filmes/desenhos infantis. Na própria Divine, inspiração pra Ursula, nós vemos a comicidade e vilania presentes. Claro que esse também é um caminho louvável, mas há outros. A arte drag é múltipla.

Fonte: Arquivo Pessoal
Em quais lugares, em quais espaços, em quais corpos a arte drag pode estar?
Em todos! Seja uma celebração de casamento, um aniversário, uma festa temática, um open bar, um show… Na maioria dos lugares que frequento eu levo minha drag, inclusive na própria sala de aula que já consegui levar em rodas de conversa e palestras.
Reafirmo, a arte é pra geral! Qualquer pessoa pode ser artista, ou mesmo produzir algum tipo de arte. No mundo drag temos uma grande barreira midiática, há reforços do conceito de que quem começou a fazer arte drag foram homens gregos que precisavam atuar como mulheres já que as mulheres eram subjugadas e negavam o palco a elas. Contudo, temos outras vertentes dessa história, temos travestis e mulheres trans à frente da arte drag, temos histórias fora do eurocentrismo que mostram rituais de montação sendo feitos por mulheres. Temos muitas inspirações. No Brasil dos últimos tempos temos Elke Maravilha, por exemplo, que é uma explosão de referências e trejeitos drags. Temos em nível internacional a própria Lady Gaga, Stefani Germanotta, que criou e dá vida à persona Lady Gaga.
Quando frequento baladas e me apresento para pessoas, algumas delas perguntam se sou mulher e falam que não sabiam que mulheres poderiam fazer drag. Então minha didática é colocada em cheque e explico sobre podermos estar em quaisquer espaços. Sabemos que o salto alto foi criado para um corpo masculino padrão do século XVII, porém há registros até mais antigos de saltos. As próprias convenções de cores que atualmente tanto reforçam que rosa é de menina, na verdade, sendo o rosa um vermelho enfraquecido, ele era utilizado pelos filhos homens da nobreza, cujos homens ostentavam vestes vermelhas.
As questões de vestuário de gênero foram construídas, desconstruídas, misturadas, ressignificadas com o passar dos séculos, e hoje, novamente estamos nesse processo. Processo no qual é completamente habitual mulheres usarem calça, contudo, no ocidente, um homem de saia ainda causa estranheza ou até repúdio. Falar que mulher pode ou não ser ou fazer algo é complicado demais. Existem ainda pessoas que falam para mim que deve ser mais fácil eu enquanto mulher fazer drag. E não, não é mais ou menos fácil. Como mulher cis não preciso aquendar, mas quem disse que toda drag feita por homem cis ou mulher trans ou ainda não- binário precisa? Temos opções de vestuário em que não aparece volume de órgão geniral, como as saias, os tutu de bailarina, e mesmo quando aparece, qual é o problema?.
Outra questão é a valorização financeira da arte drag, que é urgente! O público e os próprios clientes querem ver glamour, mas o glamour é caro e o cachê não acompanha essas expectativas . É muito difícil manter a arte drag viva no saldo positivo, no lucro. Perucas, penteados, roupas, pedrarias, sapatos, ornamentos personalizados, objetos cênicos para as performances… Além de uma maquiagem minimamente saudável que não precise retomar o carvão que muitas drags usavam. Eu como professora que moro com minha família ainda consigo me manter, conheço pessoas que entre um bico aqui outro ali entregam/vendem panfletos com seus desenhos ou/e suas poesias para assim sustentar um pouco das suas artes drag.
A arte no Brasil é dispendiosa, muitas vezes elitista, quem tem dinheiro consegue mantê-la, quem não tem dificilmente alcança palco, são obstáculos a mais, e a barreira de morar em uma região provinciana, mais conservadora torna ainda mais complicado. Existem escalas de artistas, acredito que seja uma das profissões que isso mais acontece, essa divisão hierarquizada, mesmo com uma mesma função uns ganham mais outros menos de acordo com os investimentos, com os interesses dos investidores. Nós, professores, sabemos que recebemos pouco, mas há certo piso, certo controle nisso. Um artista é muito difícil ter esse controle. Os Jobs surgem aqui e ali, oferecem cachês que às vezes nem o transporte paga, quanto mais todos os apetrechos que mencionei anteriormente que um artista transformista precisa para se apresentar.
É difícil manter a criatividade em cima quando muito do que pensamos para formar uma performance tem valores acima do cachê que será recebido após a performance. Aqui no Brasil não temos a cultura do público colocar dinheiro na roupa da drag. Quem sabe com um reforço assim conseguiríamos retroalimentar performances nesse sistema. Enquanto borbulham ideias para deixar a arte viva, vamos fazendo como o bom brasileiro “na gambiarra” mesmo, com várias adaptações, cortes, recortes, cola quente e muita, muita explosão doce e amorosa.
O que quero destacar nesse texto é que qualquer pessoa, independente de gênero, altura, comprimento, largura, peso, tamanho de pé, tamanho seja lá do que for, pode performar, pode ser drag. Nós já estamos falando de uma arte que rompe caixinhas da heteronormatividade, não vamos somente trocar de caixas né?! Além disso, não há facilidade ou dificuldade em termos biológicos para mulheres ou homens fazerem/serem drags. O que há é a dificuldade financeira, certamente, e social. Os olhares julgadores para o corpo feminino são intensos, as restrições do que mulher pode ou não fazer são imensas. O que podemos fazer para mudar esse contexto? Continuarmos lutando contra preconceitos e conquistarmos mais e mais mulheres para entrarem na arte drag, rompendo os próprios receios do que “pode e não pode” e outros empecilhos desse mundo.
Como citar este texto
BOOM, Candy. Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/desafios-da-arte-drag/. Acesso em: 16. Fev. 2023.
