Muitas vezes considerada linha de frente dos movimentos LGBTQIA+, a arte drag ou transformismo se desenvolveu na informalidade e às margens do erudito, criando sua própria narrativa e contextos possíveis.
Partindo do entendimento de que essas artistas são trabalhadoras cênicas, dos segmentos teatro e dança, abre-se um novo capítulo na luta pela garantia de direitos do setor.
O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do estado do Paraná (SATED PR) foi o primeiro sindicato do Brasil a, em julho de 2024, incluir as artistas drag na lista de profissionais habilitados para solicitar o seu registro profissional.
UM PANORAMA HISTÓRICO SOBRE A REGULAMENTAÇÃO PROFISSIONAL DAS ARTISTAS
A primeira tentativa para regulamentar a profissão de artista foi em 1928. Dezenas de projetos, tanto do Poder Legislativo, quanto de iniciativas da classe artística, transformaram-se em anais de uma categoria profissional marginalizada jurídica e socialmente.
O Decreto Legislativo 5492 de 1928, dispõe sobre a organização das empresas e locação de serviços teatrais. Foi a primeira tentativa de disciplinar a matéria. O Decreto definia os que podiam se considerar artistas e auxiliares de empresas teatrais. Tratava da forma e da celebração dos contratos, além de regular o registro e a cobrança dos direitos autorais.
No dia 19 de agosto de 1939, liderado por Procópio Ferreira, um grupo de artistas com tochas em punho foi até o Palácio do Catete exigindo do Presidente Vargas maiores facilidades para as excursões das companhias teatrais. Este movimento ficou conhecido como a “Marcha Flambeau”, a qual deu origem ao dia nacional do Artista de Teatro.
Em 1943 o Decreto 5452 aprova a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), na qual diversos artigos são dirigidos aos artistas, garantindo o direito à carteira profissional.
Já no ano de 1947, a Lei 101 subordina ao então Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio o registro dos contratos dos trabalhadores em teatro, cinema, rádio, circo, ou casas de espetáculos e também prevê um contrato de trabalho com prazo mínimo de 120 dias.
Em novembro de 1977, um novo documento elaborado pelo Ministério do Trabalho foi submetido à Comissão Executiva Nacional pela Regulamentação. O Presidente Geisel enviou ao Congresso o Projeto de Lei dispondo sobre a regulamentação da categoria. O Projeto de Lei é aprovado pelo Congresso Nacional e recebe a sanção presidencial. Assim, entra em vigor a Lei 6533 de 24 de maio de 1978, que regulamentou a profissão de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões.
Diante disso, Grande Otelo afirma:
Eu não era. Vocês não eram. Nós não éramos. E hoje finalmente, aqui neste planalto, há poucos instantes, nós começamos a ser, nós começamos a existir. Fazemos parte agora dessa imensa e maravilhosa comunidade brasileira, na qualidade de cidadãos.
Juana Profunda. Fonte: Acervo pessoal.
O DRT DRAG
O Registro Profissional para Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões é regularizado pela Lei 6.533/78, popularmente conhecido pelo seu apelido “DRT”. Cada registro profissional é válido em todo o território nacional, definitivo e vitalício, não precisa ser renovado.
Este é o documento que comprova e legitima a regularidade e atuação formal na área. Pode ser exigido em processos seletivos de diversos editais, contratações via SESC, bem como para produções de televisão, cinema e publicidade, no Brasil e em outros países.
É um símbolo da existência das artistas enquanto trabalhadoras e, nesse sentido, tornou-se ao longo do tempo uma ferramenta simbólica e política de resistência e luta contra o apagamento e invisibilidade de artistas e técnicos que vivem profissionalmente de seu ofício, em especial no caso de segmentos ainda mais marginalizados.
A sindicalização também reforça a luta coletiva por melhores condições de trabalho e por pisos e tabelas de referência para pagamentos.
A banca específica para a arte drag também é um primeiro passo para que estas profissionais passem a ocupar um espaço mais efetivo no dia a dia do sindicato, de modo que suas pautas tenham acompanhamento jurídico e força institucional da entidade nos momentos de luta por políticas públicas mais amplas e mais diversas.
Além de facilitar o acesso desta categoria aos equipamentos culturais, a formalização do DRT para artistas drag oferece maior possibilidade de diálogo e acesso a instituições públicas e privadas. Com isso, as artes da noite mostram-se em sua proximidade com as artes cênicas, popularizando a arte drag e conferindo-lhe a mesma atenção e legitimidade que as formas mais clássicas de representação cênica.
O DRT drag é opcional e não será obrigatório. As artistas podem continuar trabalhando normalmente sem o registro. O que se busca é contribuir na preparação de novas profissionais para os desafios e particularidades deste ofício, trazendo noções de autoprodução e empreendedorismo para as que almejam seguir carreira.
A artista drag está oficialmente habilitada para exercer diversas funções, como por exemplo: diretora, produtora, atriz, figurante, coreógrafa, bailarina, professora, modelo, figurinista, costureira, visagista, maquiadora, peruqueira.
As possibilidades de desdobramento dessa arte são muitas e o DRT DRAG é uma forma de reconhecer a legitimidade desse trabalho e, também, de organizar a luta por direitos trabalhistas e defender remunerações justas.
Fotografia de Fab Lutz. Acervo pessoal de Cassandra Calabouço.
Cassandra Calabouço é uma das drag queens de Porto Alegre que a mais tempo se monta, desde 1998. Como a própria já contou, antes mesmo de conhecer a arte transformista, ela participou de um grupo de teatro, durante a faculdade, no início da década de 1990, o que a permitiu ser introduzida nas sociabilidades LGBTQIA+. Assim, junto também da dança, o teatro foi fundamental na sua condução para experimentar a arte da montação.
Essa experiência de Cassandra não é singular. Ruby Mascarenhas Neto, em sua dissertação sobre uma etnografia com drag queens de Campinas-SP, salienta que as artistas trazem “a referência a uma formação prévia em teatro ou dança” para “dar um aspecto mais profissional” às suas montações (2018, p. 55). A própria origem de um “travestimento cênico” remonta do teatro da Grécia Antiga e demais experiências como o teatro shakespeariano e o Kabuki, teatro japonês do século XVII. Sem aprofundar muito na historicidade desta expressão artística, o importante é ter em mente que, ao menos desde o século XIX, podemos entender que ela seja oriunda de uma comunidade que hoje podemos chamar de queer.
Assim, teatro e arte drag e transformista nunca estiveram muito distantes, por mais que os ambientes teatrais mais sofisticados, como o Theatro São Pedro, o mais antigo da capital gaúcha, tenha um histórico de ser um espaço de maior abertura para expressões alinhadas à cis-hetero-norma branca e dogmas europeus. Felizmente esse cenário está mudando ao longo das últimas décadas, ao mesmo tempo que é válido reconhecer que isso seja algo de fora para dentro, visto as pautas e demandas por inclusão que a sociedade, de certa forma, vem exigindo e se posicionando com a tal da diversidade. Contudo, como aponta Jan Koch (2020), a arte transformista já estava bastante presente em Porto Alegre desde o final do século XIX e foi muito consumida pela população local.
O ano de 1901 marca a localização do registro mais antigo de uma apresentação transformista no São Pedro. Em suas pesquisas sobre esta arte, Koch (2020) encontrou uma notícia-divulgação sobre a Companhia Arcos, que fez shows na capital gaúcha em meados de junho daquele ano. Faziam parte o “barytono Arcos e o afamado transformista Arcos Filho”, que faziam “representação de pequenas zarzuelas”, sendo “o” transformista “sempre aplaudido, pela nitidez e graça com que executa” os seus trabalhos (A Federação, 21/06/1901, p. 2). Apesar de palavras não tão contemporâneas, nos basta saber que os artistas faziam performances teatrais de gênero musical e dramático.
Outra transformista bastante popular na cidade foi Darwin, que realizou inúmeros shows, em diversos espaços, ao longo da primeira metade do século XX. Seus shows exibiam uma variedade de habilidades artísticas, como canto, encenação e, obviamente, troca de figurinos. Em 1915, Koch (2022) também localizou que Argos e Darwin chegaram a fazer parte de uma mesma programação no Theatro São Pedro.
Muitos anos passaram e a montação passou de grande aceitação do público para ser entendida até como ato obsceno, imoral, coisa para a Delegacia de Costumes. Entre as décadas de 1950 e 1960, as transformistas começaram a migrar dos teatros, que nesse momento já eram os menos tradicionais, para agora serem as principais atrações das boates que surgiam nas cidades mais urbanizadas do país. Mesmo trabalhando em locais não tão visíveis, artistas transformistas, ou travestis, como também eram chamadas, chegaram a ser perseguidas e presas pela ditadura iniciada em 1964.
Nesta linha, o teatro se tornou algo mais distante da realidade de grande parte das transformistas e drags das últimas décadas do século XX, ao mesmo tempo que as possibilidades e a coragem para realizar a montação iam aumentando, se difundindo. Todavia, não podemos ignorar a insurgência artística que foi o grupo teatral Dzi Croquettes, que por conta da androginia e ambiguidade de gêneros, foi alvejado pela ditadura, conseguiram atuar por alguns anos da década de 1970, até acabarem exilades na França, onde conseguiram apresentar com sucesso o que pretendiam no Brasil.
A partir desse período, para algumas sujeitas, trabalhar na noite, com entretenimento, se tornou uma das poucas oportunidades possíveis de sobrevivência para além da prostituição. Não são incomuns trajetórias que encontram no travestimento uma nova possibilidade de existir no mundo, no entanto, sem deixar de distinguir o que é estar montada e o que é identidade.
Cassandra Calabouço, corporificada pelo artista Nilton Gaffrée Jr., contou a sua história no Theatro São Pedro, 123 anos depois dos indícios mais antigos de que transformistas pisaram naquele palco. Não quero dizer que desde a sua abertura, em 1858, o Theatro recebeu pouca arte drag e transformista, ou melhor, travestimento cênico, diante da existência de atores reconhecidos como cis-masculinos performarem em papéis femininos. Como as próprias pesquisas de Jan Koch mostram que outras transformistas seguiram se apresentando lá ao longo do século XX. Mais ao final daquele século, o próprio São Pedro passou por períodos de crise em sua gestão, acabando por fechar as portas durante um pouco mais de uma década. Quando a epidemia do HIV/aids se instaurou e foi ignorada pelas autoridades sanitárias e por grande parte da sociedade foi um momento que não apenas a arte transformista, mas grupos da comunidade LGBTQIA+ estiveram desassistidos, como também tiveram poucas oportunidades de trabalho em espaços de mais prestígio social.
Estigmatizadas, muitas sujeitas ganhavam o pão nas ruas, com trabalho sexual. Com a pandemia, além das já existentes precariedades das rotinas de trabalho, agora também precisavam conviver com um vírus, que no momento de início da pandemia, foi tratado como câncer gay. Histórias como a de Brenda Lee, importante ativista que lutou contra as injustiças cometidas contra pessoas com HIV/aids hoje são contadas também no Theatro São Pedro. Brenda ficou conhecida por gerenciar uma casa de acolhimento para travestis em situação de vulnerabilidade, chegando a receber o título de “anjo da guarda das travestis”. Brenda Lee e o Palácio das Princesas é um [maravilhoso] musical que foi apresentado em Porto Alegre, no São Pedro, em março de 2024. Pouco tempo depois, tivemos outra oportunidade de ver mais uma história sobre a nossa comunidade LGBTQIA+ naquele palco, dessa vez não saída de um palácio, mas de um calabouço.
Ao longo de uma hora, o público tenta descobrir onde Cassandra está, através de uma revisita dos seus 25 anos (ou mais?) de trajetória. A narrativa é composta de situações, impasses, aprendizados, ternura e tesão pelas quais ela/ele passou. Tesão em fazer arte drag e transformista e ternura em aceitar que todo o vivido foi por algum motivo. Além disso, são apresentadas performances já conhecidas de Cassandra e coreografias com mais quatro drags, que também dividem encenações sobre o passado de/no Calabouço.
Fotografia de Fab Lutz. Acervo pessoal de Cassandra Calabouço.
Se algum momento do espetáculo merece destaque aqui, é a composição de dublagem de Meu Mundo Caiu, de Maysa, com reproduções de vozes computadorizadas (do Google) que narram momentos não muito felizes, muitas vezes violentos, que Cassandra e Niltinho passaram, em diferentes fases e épocas que aquele corpo e mente viveram.
Além de confissões em cima do palco, Cassandra aproveita o show para homenagear as mulheres de sua vida: sua mãe, irmãs, amigas e suas divas, como a Gretchen, a cantora. Nesta peça, Cassandra remonta momentos únicos de sua trajetória, como o alerta para a plateia que, quando criança, nunca lhe disseram “não brinca com salto, não brinca com maquiagem”, e passando pelo batizado de seu nome, antes mesmo de idealizar se montar. Perto do fim, a drag queen com um quarto de século de idade não perdeu a oportunidade de fazer o que melhor sabe, interagir com o público e até mesmo ensiná-lo uma coreografia, ensaiada para os últimos atos do show.
Essa apresentação no Theatro São Pedro não foi o debut de Onde está Cassandra?. Nos dias 01 e 02 de fevereiro de 2024 a peça pôde ser prestigiada no Centro Histórico e Cultural da Santa Casa e fez parte da programação Porto Verão Alegre, festival que neste ano também completou 25 anos de existência. Contudo, a estreia oficial ocorreu em novembro de 2023, mais precisamente nos dias 24, 25 e 26, no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana, no coração de Porto Alegre. Todas as sessões sempre com as casas cheias.
O espetáculo Onde está Cassandra? foi apresentado no dia 20 de julho de 2024, às 20h, no Theatro São Pedro, em sessão única, de entrada gratuita, como parte do Festival Movimenta Cena Sul, com plateia lotada. Para contar sua história de vida, Cassandra usou elementos básicos da arte drag e transformista como música, dublagem, atuação e até mesmo coreografia, sendo Nilton um dançarino premiado. Essas habilidades de entretenimento não são muito distantes do que transformistas se propuseram nesse mesmo palco há mais de 100 anos atrás, todavia, dessa vez vimos uma drag queen fazendo uma peça teatral sobre drag queen, sobre ela mesma.
Para finalizar, deixo a pergunta: onde estará Cassandra daqui a 25 anos?
Fotografia de Fab Lutz. Acervo pessoal de Cassandra Calabouço.
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A playlist com algumas músicas que aparecem no show pode ser conferida aqui.
Ficha Técnica de Onde está Cassandra?
Direção, Coreografia e Trilha-Sonora: Cassandra Calabouço e Diego Mac
Texto: Cassandra Calabouço e Gui Malgarizi
Elenco: Alpine, a grande (Aline Karpinski), Cassandra Calabouço (Nilton Gaffrée Jr.), LadyVina, Savanah Queen, Zélia Martínez (Zé Passos)
Vozes: Alexa, Cassandra Calabouço, Dani Dutra, Daniela Aquino, Diego Mac, Gui Malgarizi e Nilton Gafrée Jr.
Dramaturgia e Iluminação: Gui Malgarizi
Figurino: Antonio Rabadan
Produção e redes sociais: Giulia Baptista Vieira
Produção operacional: Sandra Santos
Design gráfico: Sandro Ka
Assessoria de Imprensa: Bruna Paulin e Miltinho Talaveira
Referências bibliográficas:
BERNARDY, Bruno Arthur Voss. “Ninguém nunca me disse ‘não brinca com salto, não brinca com maquiagem‘”: trajetória, projetos e metamorfoses da drag queen Cassandra Calabouço e de seu criador Nilton Gaffrée Jr. (Porto Alegre, década de 970-década de 2000) . 2021. Porto Alegre, 87p. Monografia de Bacharelado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
MASCARENHAS NETO, Rubens. Da praça aos palcos: trânsitos e redes de jovens drag queens de Campinas-SP. 2018. 138 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
Quando penso no meu caminho até chegar em minha persona drag, vejo uma estrada repleta de memórias. Quando somos crianças, estamos rodeados de brincadeiras e de faz de conta. Pelo menos, para mim, tudo parecia muito mágico. Como eu era muito tímida, passava muito tempo sozinha, vestindo fantasias e desenhando. Eu amava desenhar roupas, acho que por influência da minha dinda Paula, que fazia faculdade de design de moda. Um dia, cheguei a fazer um catálogo de vestidos, com uma capa cheia de glitter. Esse catálogo acabou se perdendo com o tempo, mas lembro da sensação de imaginar meus vestidos coloridos e brilhosos sendo desfilados em uma passarela.
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma
Sempre fui incentivada pela minha mãe a fazer arte. Como ela trabalhava demais, eu precisava passar mais tempo na escola do que devia. Então, meu tempo extra era preenchido por ler quase todos os livros de investigação criminal da biblioteca e teatro. Eu tinha muito problema com a comunicação, falava o mínimo possível, mas, mesmo assim não deixava de ir as aulas de teatro. Eu também assistia muitos clipes de divas pop no YouTube e no canal da MTV. Eu só não sabia se queria ser igual a elas ou beijar elas. Acho que era as duas coisas. O meu hobby passou a ser improvisar visuais com algumas roupas e dublar músicas. Às vezes eu me produzia toda só para gravar vídeos fazendo isso. Na época, nem sabia que tinha toda uma cultura envolvida nisso e que existia um nome para as dublagens: lipsync. Mais tarde, a cultura LGBTQIA+ passou a fazer parte da minha vida e fui apresentada à arte drag.
Pimp My Drag
Mesmo fazendo várias coisas, ainda sentia que faltava algo em mim, que talvez fosse criar a minha persona drag, mas eu sempre tive dificuldade com começos, então eu precisaria de um empurrãozinho pra isso acontecer. Em abril de 2023, tive a oportunidade de fazer o curso Pimp My Drag, ministrado pela Drag Queen Cassandra Calabouço. Foram três meses de aula com uma turma muito querida, pudemos trocar conhecimentos e aprender bastante uns com os outros. Eu amava ir pras aulas, que eram duas vezes por semana, e sair com algo diferente em mim todas as vezes. Parecia que finalmente eu estava encontrando o que faltava em mim, mas eu ainda não tinha um nome. A saga pela busca do nome perfeito me tirou noites de sono e muitas pessoas me ouvindo falar sobre isso. Até que, um dia, depois da aula, eu e alguns colegas fomos para um bar conversar e um dos tópicos foi o meu nome. Eu tinha algumas opções, mas nenhuma me parecia certa o suficiente, até eu comentar que gostava muito da teoria das cores e do círculo cromático. Nesse momento, junto da minha irmã drag Luná Maldita, surgiu um estalo: Cromática!
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.
É claro que depois disso, como uma ótima libriana, eu fiquei em dúvida e testei algumas variações e formas escritas. Acabei por deixar o nome em inglês, como o álbum da Lady Gaga: Chromatica. Eu tinha um nome e um sonho, agora faltava brilhar. Em um dos dias que teríamos aula, nos encontramos montadas no bar Workroom, no dia do lipsync aberto. Encarei como se fosse minha estreia, e até Instagram eu já tinha criado para Chromatica. Fui surpreendida pelos meus amigos na porta do bar, que não conseguiram entrar pois já estava lotado, mas foi especial demais ver eles ali, cantando parabéns para mim, como se fosse meu aniversário, ou melhor, renascimento. Eu ganhei uma família drag nesse processo, e agradeço muito a todos que fizeram parte. No dia 02 de julho de 2023 estreamos o Baile de Perucas, no Teatro Bruno Kiefer, como conclusão do curso. Esses meses foram muito importantes para a construção de Chromatica, minha persona drag que finalmente havia nascido.
A montação do espetáculo
Sempre gostei de ouvir músicas e assistir filmes antigos, e quando eu digo antigos quero dizer música clássica, que eu passava horas tocando no teclado, e filmes musicais da era de ouro de Hollywood e das décadas que seguiram. Passei a me encantar com as músicas e estilos visuais de cada década desde os anos 50, ouvi-las era como viajar no tempo e viver minhas referências na pele. Filmes como O mágico de Oz, Cantando na chuva, Cabaret, Os embalos de sábado à noite e Grease eram os meus preferidos, tanto que na versão final do espetáculo Eu, Chromatica, temos uma cena especialmente dedicada a dançar trechos de músicas desses musicais. Chromatica vai do clássico ao contemporâneo, sempre se experimentando entre lapsos temporais e diferentes estéticas.
Musicalmente, a peça acabou sendo dominada pelos anos 70 e 80 e pelo Glam Rock, estilo que me encantei. Artistas como Elthon John e David Bowie foram trilha sonora de algumas performances e momentos importantes da minha vida. Algumas semanas antes das apresentações da peça, cheguei a cortar e pintar meu cabelo inspirado no Bowie, para viver completamente aquela fantasia vintage também com meu visual, visto que Chromatica ainda não usa peruca, mas talvez ela passe a usar em algum momento. Avançando alguns anos, os musicais mais atuais também foram muito importantes para mim, como Moulin Rouge, Chicago, Burlesque, O rei do Show, e é claro, High School Musical, que marcou minha infância e teve seu momento na peça com direito a coreografia antes dos trechos clássicos.
As divas pop me faziam querer ser elas, ao passar horas a fio assistindo seus clipes. Aqui dou destaque para a Lady Gaga, que também acaba sendo homenageada com o nome Chromatica, título de um álbum mais recente, apesar de não ter sido o motivo principal para a escolha do nome, gosto quando fazem menção a ela. Voltando aos filmes clássicos, O Mágico de Oz foi contemplado com um número inteiro da música Goodbye Yellow Brick Road, do Elthon John. A música faz menção à estrada de tijolos amarelos que a personagem Dorothy percorreu em Oz, mas com uma mensagem de despedida de um capítulo e início de outro. Na cena, a mensagem fica no subtexto, enquanto eu abro uma mala cheia de figurinos, alguns de performances já feitas por mim na vida real, e encontro a roupa colorida de Chromatica, finalmente deixando as cores invadirem meu visual e fazendo a persona drag surgir.
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.
A cena “Como treinar sua Drag”, em formato de auditório e com interação com o público, trouxe referências do reality show RuPaul´s Drag Race, que acompanhei por muito tempo e acabei conhecendo muitas drags que me inspiro até hoje, como a Sasha Velour. E para finalizar, a última cena da peça teve como trilha sonora “Sucesso aqui vou eu”, da Rita Lee, música que também escolhi para dublar quando Chromatica esteve na noite de Lip Sync aberto no bar Workroom com a turma do Pimp My Drag, simbolizando o início de outra estrada, que teria os tijolos coloridos com todas as cores. Essas são algumas das referências que mais utilizo no meu trabalho atualmente, nem todas citadas estão presentes na versão final de “Eu, Chromatica”, mas foram consideradas e muito faladas no processo de criação do espetáculo.
A minha personagem teria uma evolução dentro da narrativa, começando com uma versão de mim mesma, mas mais teatral, e terminaria como Chromatica. Com o texto da primeira cena em mãos, improvisamos algumas vezes para ajustar as falas até ficarmos satisfeitas. A cena começaria comigo entrando nessa loja e organizando o espaço, ouvindo uma música e me divertindo enquanto arrumava tudo. Para ensaiar, usávamos uma arara com algumas roupas como cenário provisório e os dois bustos de manequim. Digo provisório porque a versão final da montagem dispõe de cinco araras e cerca de sessenta peças de roupa, tornando impossível ensaiar com tudo estando presente, mas falarei sobre a escolha de cenário mais para a frente. Quando eu estaria no fim da organização, a personagem de Alycia chegaria nessa loja com o objetivo de encontrar a roupa perfeita para ela, mas em outra cor que não fosse azul, que era a cor preferida e figurino da personagem Alyx Safira.
Ainda nessa cena, acontece a performance de Goodbye Yellow Brick Road, de Elthon John. É quando minha personagem deixa os medos de lado e abre uma mala que contém vários figurinos e adereços, alguns inclusive que foram utilizados em performances minhas na vida real, me despindo da roupa bege e branca, revelando um body amarelo que é completado com uma calça, botas e luvas vermelhas. Também tiro da mala um espelho, um gel e um pente para dar vida ao cabelo de Chromatica. Ainda tiro um leque da mala, e a última coisa que sai é uma bandeira LGBTQIA+, representando esse momento de aceitar todas as cores que fazem parte de mim.
Eu fiz questão de também trazer uma parte mais séria sobre essa questão e não só glamourosa para a narrativa. Nesse texto, conto uma situação em que uma mulher me questionou sobre isso de uma forma bem inconveniente. Aproveitei também para colocar a questão da expressão de gênero e de sexualidade, que é muito importante para mim, como uma mulher cis, lésbica e de aparência andrógina. Esse trecho também serve para informar que a arte drag é uma expressão artística, e que drag é para todos. Escolhi falar o monólogo direto para o público, com a personagem da Alycia congelada no fundo, quebrando a quarta parede e expressando uma opinião política, tendo como inspiração o efeito de distanciamento, de Bertold Brecht e o teatro épico.
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.
Somente no final, surgiram alguns gestos, para realizar a transição entre o texto e a última performance. Com a pose formada e ultima frase dita, que não ironicamente foi “Eu, Chromatica!” revelando o meu nome e o nome da peça, começa a música “Sucesso aqui vou eu”, da Rita Lee. Eu já sabia desde o início que gostaria de finalizar a peça com essa música, que também dublei na noite em que Chromatica saiu montada pela primeira vez com a turma do Pimp My Drag, quando fomos na noite de lipsync aberto no bar Workroom. Essa música foi a única em português, então seria entendida por todo o público presente, e representa muito da minha criança interior que ainda sonha dentro de mim.
Encontros entre a arte drag e a literatura na pandemia
Ivan Nunes
And he works his body just to be somebody
There’s a woman in the mirror looking like a dream
And he works his body and he feels somebody
And the working boy becomes a dancing queen
Cyndi Lauper, Ballad of Cleo & Joe
Me chamo Ivan e o trabalho que desenvolvo no âmbito do doutorado (PPGLetras/UFRGS) triangula literatura, crítica e teatro. Vejo a literatura como material riquíssimo para o ator, material que o nutre, material inspirador. Antes que esqueça – como se fosse possível –, também sou ator, além de professor de inglês e tradutor, um apaixonado por livros, leitura e literatura.
A crítica me parece ter um papel PERFORMATIVO. Dito de outro modo, caso fiquemos sabendo por intermédio de um crítico que determinado romance ou peça de teatro é pobre ou ruim, acabamos também (influenciáveis que somos) achando que tal romance ou peça é pobre ou ruim. Nesse sentido, a crítica PERFORMA EM NÓS, em nossas mentes, nos atinge e nos molda. Enfim, a crítica forma opiniões.
Acredito piamente que o teatro só tem a se beneficiar quando casado com a literatura. Por um lado, fala-se muito da primazia do texto, o qual sobreporia o ator; por outro, posição que assumo, não temo o texto, acredito que o ator inteligente muda o texto quando necessário para o papel (Boleslawski deixou isso registrado). Além disso, convenhamos que, do ponto de vista do espectador, às vezes é mais fácil recordar de um espetáculo intitulado Romeu e Julieta do que de um espetáculo autoral, moderníssimo, sem texto.
Essa realidade dói e, em boa medida, desmerece/desvaloriza o artista teatral contemporâneo? Fato. Porém, ter um espetáculo teatral atrelado ao título Romeu e Julieta (e por extensão a Shakespeare) pode vir a despertar com maior potência o interesse (pelo teatro) daquele espectador que está em formação, começando a ver teatro, ou até que nunca presenciou teatro. Talvez a perspectiva seja radical, mas Shakespeare também é literatura, e não um patrimônio exclusivo do campo do teatro. E talvez eu aqui esteja privilegiando a literatura, afinal de contas sou doutorando em letras. São escolhas, recortes, vieses, olhares.
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Fonte: arquivo pessoal
Este texto é um olhar.
No contexto da pesquisa, estou em processo de criação do monólogo Senhorme, livremente inspirado em conto de Lygia Fagundes Telles (1918-2022), escritora paulistana que simplesmente aprecio (e recomendo) sem moderação (fala clichê, bem sei). A personagem que desempenho é uma mulher na casa dos sessenta anos, uma professora como eu. Eis que o Grafia Drag me convida para escrever sobre esse processo de criação, sobre essa busca de uma mulher no palco. Eis que surgem questões: como se faz uma pesquisa que envolve teatro em plena pandemia? De que maneiras eu venho tentando encontrar/criar essa mulher? Diante do convite, estou desempenhando um drag?
Fonte: arquivo pessoal
Este texto é um olhar e busca respostas para essas questões.
A pesquisa teve percalços no princípio. Era inviável ensaiar de modo presencial. Medo pairando no ar. Assim, decidi colocar alguns testes de figurinos/maquiagens e esboços de cenas nas redes sociais (Ig: iv_teacher; TikTok: iv.poison). Até acredito que foi assim que o Grafia Drag me encontrou. Recordo que era uma dublagem de Fighter, da Christina Aguilera.
Inicialmente, eu abria UMA MALA contendo figurinos de espetáculos anteriores e, de algum modo milagroso, criava atmosferas e criaturas associadas a um suposto universo da mulher. O processo era (e ainda é) bastante divertido: unhas pintadas, salto alto, perucas, dublagens, elementos que, mesmo eu sendo ator, raramente havia acionado na plenitude (ou com competência artística, com comprometimento para a elaboração de um papel).
Fonte: arquivo pessoal
E do limão fiz uma limonada. A impossibilidade de ensaiar presencialmente me forçou a usar as redes sociais de outro modo (talvez modo mais útil). E as redes sociais trouxeram uma resposta surpreendente e sensível.
Desde que comecei a dispor ao público as performances, vários espectadores registraram que o trabalho é muito criativo, que ele transforma o lixo em luxo (e de fato recolho muita coisa na rua, pelas andanças na cidade agora que a pandemia arrefeceu), e que ele (o trabalho) alegra o dia desses espectadores, traz um respiro no nosso cotidiano tão árduo.
Ao mesmo tempo, vários desconhecidos começaram a se engajar no projeto. Bom exemplo disso é a mala, a qual já se tornou duas, as doações de figurinos são muitas e não param. Ademais, a resposta de mulheres tem sido intensa: sentem-se empoderadas pelo que venho fazendo. Crianças dançam ao som das canções que dublo. E isso é apenas o topo do iceberg, há muito mais, mas não vou me alongar.
Passando para a última das perguntas: estou desempenhando uma drag? Confesso que não sei. Como disse, mesmo sendo ator, sou novo neste nicho de criação. Mesmo assim, quero registrar o seguinte: caso ser drag signifique buscar por uma mulher extracotidiana, dona de voz própria, livre de amarras, uma mulher que não se enquadra em padrões preestabelecidos, em discursos prontos, que se expressa com total e absoluta liberdade, daí sim afirmo com convicção que sou drag.
Em suma, a arte drag para mim é sinônimo de total liberdade, na vida e na criação. E o poder é tanto que há drags com barba, aprendi recentemente. Sou desses ou, melhor dizendo, sou dessas. E, desse modo, o universo drag se amplia, não há jeitos preestabelecidos de ser ou de se comportar. Não há julgamentos, e talvez seja esse o aspecto mais belo da arte. Sim, ser drag é uma arte, tão arte quanto fazer teatro ou receber o título de ator, ou o título de doutor.
Fonte: arquivo pessoal
Engana-se quem pensa que a maior conquista do processo seja a evolução da pesquisa ou do espetáculo em si. A maior conquista é, na realidade, tudo que venho aprendendo, as diferenças, os amigos que tenho feito. São tantos: Manu (minha diretora), Carlos, Marília, Renan (drag babadeira que me emprestou perucas). Mais recentemente, Diego (me emprestou dinheiro de mentira para a performance de Legal tender, do B52’s) e Luná Maldita, que de maldita não tem nada, pois me cedeu espaço aqui para falar, falar de criar, escrever sobre o escrever.
Repito: não sei se sei o que é ser drag ou se sou uma drag, só sei que gosto, que sinto, pressinto. A arte é libertadora, e a arte drag não fica de fora.
Este texto é um olhar, a busca de respostas para certas questões, a celebração da amizade.