Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS . Foto: Paulo Neobeck
(Lorde Lazzarus) Primeiramente, gostaria de dizer que é muito especial para mim fazer essa entrevista com você, uma vez que sou fã de sua pessoa e seu trabalho, e também por já termos dividido a bancada do júri do Concurso KING OF KINGS de 2023. Foi muito marcante conhecer você no Rio em 2018, no Bixcoito Dregui Festival, organizado por Miranda Lebrão (que hoje, já é RuGirl pela segunda vez, com o Global All Stars). Na ocasião, você fazia parte da “Exposição Viva” e homenageava Ney Matogrosso. Quais foram os pontos de partida para a criação de Vicente Van Goth? Quais são suas referências e influências?
(Vicente Van Gogh) Me aproximei da arte drag através de amigues que se montavam como queen, colaborando no figurino e maquiagem delus. Isso era 2015 ou 2016 e eu não conhecia nenhum drag king na época, ainda que já tivesse muita vontade de estar no palco performando masculinidade. Na época eu era muito fã de um rapper e idol de k-pop chamado G-Dragon e me inspirava nele para absolutamente tudo, inclusive vestir minhas primeiras roupas “masculinas” e cortar meu cabelo curto pela primeira vez, o que seria a semente para a compreensão da minha identidade não-binária e drag king. Também em 2015, em uma viagem ao Japão, assisti a um espetáculo do Takarazuka Revue, companhia teatral tradicional composta exclusivamente por mulheres. Ver as atrizes que interpretavam papéis masculinos foi uma experiência que me mudou e me disse que era possível realizar o que eu há tanto tempo desejava. No final de 2016 me apresentei como Vicente Van Goth pela primeira vez.
(Lorde Lazzarus) Em seus números artísticos e figurinos, é frequente a presença de signos e elementos de cultura asiática amarela (japonesa, como o Butô, e coreana, com as canções de k-pop). Como é trazer para o palco do transformismo a sua ancestralidade? Qual a importância, na sua visão, de pessoas como você ocuparem esse lugar na arte drag/transformista no Brasil?
(Vicente Van Gogh) Essa busca pelo contato com a ancestralidade veio mais de forma afetiva do que qualquer outra coisa. A figura masculina da qual eu era mais próximo na infância até o início da idade adulta foi meu avô japonês. Evocar essa ancestralidade é, acima de tudo, estar mais perto dele depois que ele faleceu. Minha experiência com masculinidade e afeto vem praticamente toda dele.
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS. Foto: Paulo Neobeck.
(Lorde Lazzarus) Neste ano você participou do Concurso DRAGSTAR, no Rio de Janeiro, que é o antigo RAINHA DE CINELÂNDIA, e que tem lugar no icônico teatro Rival, palco histórico do transformismo brasileiro. Acompanhando a competição, vi que você era um dos favoritos a vencer, mas ficou em terceiro lugar. Você concorda com a sua colocação na ranking do concurso? Você acha que sofreu, de alguma forma, preconceitos diversos por ser um artista AFAB transgênero?
(Vicente Van Gogh) O resultado é algo que escapa totalmente do nosso controle quanto artistas, posso falar apenas do trabalho que apresentei ao longo do concurso, do qual me orgulho muito. Apresentei performances consistentes e tive quase que exclusivamente críticas positivas das juradas. Talvez não fosse a hora de uma pessoa como eu vencer, mas com certeza não por falta de qualidade artística. Sim, sofri preconceito aberto e velado durante a temporada, cheguei a falar um pouco sobre isso nas minhas redes.
(Lorde Lazzarus) Recentemente você debutou a sua persona drag queen, Zara Tustra. Zara Tustra, em suas palavras, é “o desgraçado feminino, [uma] mística sem deus”. Como se deu a criação dessa persona? Quais diferenças você destaca entre Vicente Van Goth e Zara Tustra?
(Vicente Van Gogh) A Zara se criou na pandemia, a partir de um processo psíquico muito doloroso. Fui tecendo o primeiro figurino dela para lidar com questões mentais e, mais tarde, físicas. Quando vi, havia ali essa persona que eu já tinha idealizado tantas vezes sem desembocar no concreto. Frente a tantos discursos vazios sobre o tal do “sagrado feminino”, o meu desgraçado feminino era real e habitava meu corpo. Para mim, tanto o Vicente quanto a Zara têm sua parcela de desgraçamento e de celebração, ambos calcados nos binarismos que nos são impostos durante nosso desenvolvimento.
(Lorde Lazzarus) Seu trabalho é muito prolífico. Além de drag king e drag queen, você também atua na arte burlesca e como figurinista. Por que a escolha pelo burlesco? Que artistas dessa vertente são fonte de inspiração para você? A arte da montação, da criação dos figurinos e do burlesco caminham junto com Vicente e Zara Tustra ou você se vê desenvolvendo algo diferente nesse espectro?
(Vicente Van Gogh) Tudo caminha junto pra mim. Escrita, figurino, performance. Ferramentas de se contar uma história e de celebrar a vida e a expressão do corpo. O burlesco surgiu na minha vida “por acaso” e foi uma comunidade que me acolheu como performer quando a cena drag sequer me enxergava. Tenho a alegria de dizer que minhas inspirações no burlesco são amigues e pessoas com quem dividi o palco.
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS. Foto: Paulo Neobeck.
(Lorde Lazzarus) Como é a cena drag/transformista do Rio de Janeiro? Você a considera plural o suficiente (com toda a diversidade de corpos e artes possível)? Você se sente acolhido e valorizado por ela?
(Vicente Van Gogh) Sinto que precisei trabalhar como transformista por quase oito anos antes de ser verdadeiramente visto pela cena drag, o que só começou a ocorrer a partir do meu desempenho no DRAGSTAR. Inclusive, ainda que eu tenha sofrido preconceito por ser uma pessoa AFAB durante a temporada, conheci pessoas e artistas maravilhosas que me acolheram e demonstraram respeitar e valorizar meu trabalho. Sobre a pluralidade da cena, acredito que ela ocorra mais em potência do que na prática. São poucas as oportunidades de trabalho, então drags iniciantes acabam se lançando e se desenvolvendo através dos concursos. De certa forma, concursos tendem à padronização. Fazer um bom número drag e fazer um bom número para concurso são coisas diferentes, mas infelizmente grande parte dos performers drag não tem a oportunidade e a liberdade de se desenvolver como artistas fora das expectativas das competições.
(Lorde Lazzarus) Você tem vontade de se inscrever para participar do DRAG RACE BRASIL? Acha que seria possível que alguma pessoa AFAB seja selecionada para essa segunda temporada?
(Vicente Van Gogh) Tenho vontade, um dia. Possível é, mas bem pouco provável.
(Lorde Lazzarus) Vicente e Zara certamente têm planos grandiosos para os palcos onde podem se apresentar. Tem algum número em especial que você gostaria de explorar com cada um deles e aguarda por oportunidade? Poderia dar um spoiler do que seria para todo mundo que acompanha o GRAFIA DRAG? E onde seria um sonho poder se apresentar?
(Vicente Van Gogh) Tenho vontade de fazer um número com os dois juntos, mas ainda não faço ideia de como isso ocorreria. Nunca pensei sobre exatamente onde seria um sonho me apresentar, ainda que já tenha me apresentado em vários lugares dos sonhos (como o Teatro Rival, por exemplo). Mas seria incrível ser convidado para me performar no máximo de cidades possível, no Brasil e fora dele.
(Lorde Lazzarus) Que conselho você dá às pessoas AFAB que estão ingressando no mundo da montação, e que são desencorajadas constantemente com o machismo que ainda impera dentro e fora dos nossos espaços?
(Vicente Van Gogh) Vai ser difícil. Você vai ouvir merda no camarim e vai ser desvalorizade quando estiver no palco, tudo isso vai acontecer. Mas você também vai ter a oportunidade de transformar, pelo menos um pouco, a cena, ousando estar onde não queriam que você estivesse. Nós temos uma vivência única e, na maioria das vezes, somos pessoas multitalentosas que precisam dar conta de muitas habilidades para serem vistas. Ou seja, a cena só tem a ganhar com a nossa presença.
(Lorde Lazzarus) Se quiser deixar algum comentário, convite ou conselho a todas as pessoas que leem e prestigiam o GRAFIA DRAG, deixamos esse espaço.
(Vicente Van Gogh) Queria convidar a todes a conhecer meu trabalho através dos meus perfis no Instagram (@vicentevangoth / @zaratustradrag) e assistindo a um show meu, se tiverem a oportunidade. Aguardo convites para performar, no RJ e em outros estados. Fortalecer a cena king não é só elogiar e seguir nas redes, é também convidar para performar em shows e festivais.
“Minha vida inteira foi uma lição. Não me arrependo de nada. […] escreva aí que eu me orgulho muito do que eu fiz. Tenho o maior orgulho de ter sido travesti”.
Ektor Von Hoffmeister
Sophia Loren. Fonte: Capa da revista Manchete. 13/05/1961.
Irajá Freire Hofmeister
Irajá Freire Hofmeister (1939-2018) nasceu em 1939, em Palmeira das Missões, de acordo com O Cruzeiro (29/12/1962). Embora algumas citações o registrem como bajeense (Manchete, 18/01/1969), a maioria das matérias e alguns parentes, com quem troquei algumas palavras, me confirmaram que ele era de Palmeira das Missões, município no norte do Rio Grande do Sul. Talvez de Bagé, assim como de Pelotas, muitas vezes, tenha sido usado como ironia, pela masculinidade atribuída aos primeiros e pela homossexualidade atribuída aos segundos. Não sei se foi por isso – nesse texto.
O pai era alemão e a mãe brasileira. Parentes sugeriram que ele teve que sair do Rio Grande do Sul por não conseguir viver sua vida conforme queria. É narrativa recorrente na biografia de LGBTQIA+: migrar por dificuldades de aceitação nas famílias. Mas é devido notar que quase nunca é a família inteira, quase sempre há exceções.
Alguns textos robustecem a ideia de escape/fuga para o caso em específico. Uma das revistas que gostava de retomar seu nome era a Placar, dedicada ao futebol. Como assim? Irajá (já nomeado Ektor, prenome que passou a utilizar no futuro, quando se estabeleceu no mundo da moda), era tido por homossexual notório. Era mesmo? Como a homossexualidade sempre causou rebuliços e a sussurros de historinhas picantes no mundo dos jogadores e torcedores e treinadores, a pauta estava dada quando descobriram que ele era irmão de um jogador, depois representante de uma agremiação desportiva.
Trata-se de Rubens Freire Hofmeister, falecido em 2001, ex-jogador do Cruzeiro de Porto Alegre, presidente da Federação Gaúcha de Futebol, vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, no pé de quem viviam pegando, que, por sua vez, não gostava do tema: “[Rubens] não gosta do irmão, o costureiro Ektor, de Paris – o ex-travesti Sofia Loren, que fez fama nas boates cariocas” (Placar, nº3, ano I, 1970). Certa feita, houve uma briga feia de Rubens com o presidente do Flamengo, o deputado Márcio Braga. Esse teria chamado aquele de “bichona” (Placar, 12/12/1987) em algum programa televisionado, o que, provavelmente, ocorreu por confusão que fez entre os irmãos. Até que ponto esse desentendimento entre irmãos era real, se foi resolvido com o tempo. Não sei.
Tampouco sei precisar se Irajá foi para o Rio de Janeiro rompido com os familiares, embora curto período de dificuldades indique nesse sentido. No início da década de 1960, ele foi envolvido num imbróglio nebuloso, bastante repercutido. Conforme periódicos da época, teria participado de um roubo de joias na casa do engenheiro Luís Palma Marques, no Leme.
Foi preso junto com o (mantenho o artigo masculino para todos, porque assim era usado na época) “anormal” Raul Ambrósio do Nascimento (“Raulina”, 24 anos). Já conhecido como Sophia Loren, Irajá argumentou, aos policiais, que apenas acompanhava certos Nei (“Nádia”) e Lourival (“Marisa”), que seriam os autores do crime. As gazetas estamparam: “foi preso juntamente com outros anormais” (Diário Carioca, 09/08/1960), dando ênfase na conclusão de que os denunciados eram “pederastas”, o adjetivo/categoria mais recorrente junto com anormais.
Irajá morava em um apartamento da Avenida Delfim Moreira, no Leblon, com Marilza Rangel de Souza (ou Marilza Rangel Pestana, antiga vedete do Teatro Rival). No inquérito, disse que ela era sua companheira, apesar de, quando pressionado, assumir que ambos mantinham outros relacionamentos para suprir suas necessidades. Algumas matérias insinuaram que Sophia mantinha um caso com um político famoso, cujo nome não foi revelado.
No cerne dessa muvuca, aos 21 anos, Irajá era um “moço de constrangedora beleza (tratando-se de um homem)” (Última Hora, 08/08/1960). Observando as diversas fotos nos jornais, percebe-se que era um tipo atraente tanto em sua versão masculina quanto na feminina, quanto na andrógina. Rapaz de “cabeleira basta, de vários matizes claros, boca recortada, olhos verdes e agudos” (Última Hora, 08/08/1960).
Aos poucos, o quiproquó tomou grandes proporções. Cogitou-se que Sophia Loren participava de espécie de uma rede de agenciamento de mulheres (“escravas brancas”) para homens de posses, negócio de alcance interestadual (Diário da Noite, 09/08/1960). O escândalo, no entanto, acabou se centrando em torno do que ficou conhecido como “gang dos pederastas” (Última Hora, 09/08/1960). À suposta existência de uma organização de gays contraventores, a polícia saiu para abordá-los na cidade, detendo muitos deles para averiguações. Nessa edição, o cronista Antônio Maria (1921-1964) já alertava, denunciando a imprensa irresponsável e as implicações: “Erra, o repórter policial, que escreve a notícia maior que o crime”. Sobre Marilza, informou que era casada com um construtor de estradas de rodagem e que ela oferecia o apartamento para Sophia por afeição, mas que o espaço não era um lupanar ou QG ou sede da gang de pederastas como vinham divulgando os meios de comunicação.
Em função do banzé todo, “a Polícia investe contra a juventude homossexual (péssima generalização) de Copacabana”, continuou Maria. Teriam sido detidos Francisco Rocha, por estar na residência de Sophia; o paranaense Raul Ambrósio; o “caso sentimental” desse, o paranaense João Renato; o decorador Hugo de Freitas, conhecido como Nêga Huga. Entre os recolhidos, “Francisco Cloené Rocha, apelidado de Elvis Presley, tem 20 anos […], é natural do Rio Grande do Sul […]” (Última Hora, 09/08/1960). A maioria foi alvo da ação por ter estado em um aniversário festejado no Bar dos Pescadores, na Tijuca, comemoração que se deu pouco tempo depois do assalto no apartamento do engenheiro – fraco argumento para justificar os encarceramentos.
A maioria desses homossexuais (se é que todos eram), ao que parece, tinha contatos de gente importante. O gaúcho Elvis Presley, depois de muito chorar e de se dizer injustiçado pelo tempo que passou na prisão, avisou que cientificaria um senador amigo seu. “Os telefones da 3ª DP não pararam ontem. Ora chamavam o delegado Hermes Machado ora era o dr. Armando Pereira. Eram pedidos e mais pedidos de ‘pessoas importantes’ em favor dos companheiros de ‘Sofia Loren’” (Correio Braziliense, 11/08/1960).
Por intermédio dessas pessoas influentes, muitas das quais teriam contratado advogados, os presos foram soltos. Depois da soltura, as reportagens foram escasseando e, nas últimas, Irajá apenas era citado como eventual cúmplice, porque teria aguardado que Nei e Lourival assaltassem o apartamento ao sopé do prédio. A “gang dos pederastas”, tão bem aceita pelo imaginário, foi desmentida pelo Última Hora (10/08/1960), que passou a apontar o roubo como algo isolado. A varredura policial e abordagens na imprensa marrom, no entanto, já tinham impactado, a título de investigação e moralização, nos abusos – tratamento, aliás, nada incomum em um tempo em que travesti e homossexual era agravante aos olhos do poder repressor.
Sophia Loren
Logo Irajá tomou as páginas novamente, mas, dessa feita, o destaque se deu em razão de outro fato. Seguindo o que escreveu Audálio Dantas (1929-2018) – o jornalista que descobriu a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) -, Irajá, que então tinha 23 anos, era “ex-aluno de escola militar, ex-decorador de vitrines, ex-dono de boutique, e ex-Sophia Loren” (O Cruzeiro, 29/12/1962).
Atentando essa linha do tempo, nota-se que o período militar foi na Escola Militar de Três Corações, uma fase em que Irajá, segundo ele afirmava, se interessava mais em fazer desenhos do que por balística. O trabalho como decorador foi em Copacabana, mesmo lugar em que estabeleceu a boutique. Trabalhos de pouco fôlego. Mas como surgiu a fulgurante Sophia Loren (a essa altura ex)?
“Disseram-lhe, em rasgos de entusiasmo, que o seu rosto era o de Sophia Loren ‘sem tirar nem por’. E ele achou que era bom ser Sophia Loren. Foi à costureira, escolheu vestidos e se lançou como travesti, apresentando-se em boates. Em pouco tempo era famoso em todo o País com o nome da Loren”, explicou Dantas. Para a Manchete (13/05/1961), Sophia tinha explicado que sempre fora seu desejo ser cantor. Os amigos teriam visto a semelhança com a atriz italiana, quando, por brincadeira, a imitava.
Há um registro de apresentação deuma Sofia Loren (nos jornais, aparece com “ph” e com “f”), que foi presa, no restaurante Raffiné, porque o estabelecimento não tinha autorização para apresentar show de travesti (Diário Carioca, 31/12/1960). Provavelmente foi Irajá. Depois, um dos amigos teria contado do sucesso das imitações ao dono da boate Favela, em Copacabana, onde Sophia passou a se apresentar. Não sei se era apenas dublagem com lip-synk (como acontece nos shows de Ru Paul atualmente) ou se cantava mesmo, porque há um registro de que iriam testar a voz de Sophia para um eventual álbum pela RCA.
Nesses tempos de Favela, uma historinha mexeriqueira tomou conta dos periódicos. Em 30/12/1960, Loren teria ido para a boate Apache, “vestido de mulher, muito bem caracterizado”. “Lá pelas tantas, chegou o Atílio Cerrino. Viu a ‘moça’ e se interessou. […] E formou par constante, até o fim da noite…” (Última Hora, 31/12/1960). Cerino teria levado a moça para casa, marcado cinema, e, provavelmente, só soube pelos jornais. Embora um tanto saborosas, essas narrativas desvelam de um tempo em que se pensava que a intenção única da travesti era enganar os homens, tanto que o verbo travestir tem conotação pejorativa (Ex: “Ideia travestida de boa intenção.”).
Parte dessa trajetória artística pode ser recuperada. Duas apresentações reverberaram. As atuações em Rei Momo em travesti, de autoria de Gomes Leal, Mário Meira Guimarães (1921-1983) e Walter Pinto (1913-1994), no Teatro Recreio (Jornal das Moças, 09/03/1961) e em Vive les femmes (Diário da Noite, 31/05/1961), espetáculo dirigido por Carlos Machado (1908-1992), apresentado na casa Night and Day, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro.
Apesar de ser chamada de “bicharroca gaúcha” em alguns momentos, a atuação junto com Grande Otelo (1915- 1993), Consuelo Leandro (1932-1999) e outros passou a ser motivo de admiração por muitos, especialmente pela dita semelhança com a atriz italiana Sophia Loren. Conforme Dantas, muitos diziam que “era a mais bela mulher de show de Carlos Machado.” Carlos Machado, por sinal, era gaúcho, de Porto Alegre, e ficou famoso na capital como boêmio. Mais tarde, a partir dos anos 1940, se tornou figura indelével da vida artística carioca.
Revistas promocionais das peças dirigidas por Carlos Machado.
Quando ainda com contrato com a Night and Day, os jornais especulavam que Sophia Loren estaria ensaiando uma apresentação no Au Bon Gourmet, restaurante de Copacabana, mas parece que não foi liberada por questões contratuais. Por essa época, o playboy Mariozinho de Oliveira, falecido em 2016, famoso por promover festas excêntricas para a high society em seu apartamento na Avenida Atlântica, anunciou que faria o casamento de Sophia Loren com o cronista Jeff Thomas. Loren só aceitou embarcar mediante alto cachê (Revista do Rádio 617/1961). Jeff, que era uma espécie de colunista social da playboyzada milionária, mesmo acostumado com as brincadeiras de Mariozinho, caiu fora. Assim, o casamento, que já se vendia como escândalo, foi abortado. Mariozinho não se deu por vencido e celebrou a união do ator Eugênio Carlos com a travesti Marlene Dietrich (O Semanário, 29/06 a 05/07/1961). Nesse período, muita repercussão ganharam também as esporádicas aparições de Sophia ao lado de Jorginho Guinle (1916-2004), outro socialite afortunado (Diário Carioca, 01/01/1961).
Sophia Loren. Fonte: Revista do Rádio nº 613, 1961.
O mundo do entretenimento com travestis gerava reações diversas. Havia quem amava o exótico, o erotismo, a arte. E havia quem lançava mão de todos os discursos moralizantes pensáveis para desabonar a incorporação delas ao show-bizz. Conforme o Última Hora (23/05/1961), no Planalto, se ouviam rumores de que o gaúcho João Goulart (1919-1976), o Jango, então presidente, queria varrer o strip-tease e os travestis do cenário nacional. Rumor que preocupou Carlos Machado, que argumentou: “se de fato sair esse decreto, tenho a impressão de que ‘Sophia Loren”, terá que viajar para Nova Iorque ou Paris. A meu ver, a ‘Sofia’ fará um grande sucesso em qualquer das melhores boates do mundo […] pois o seu travesti tem um ar de curiosa ingenuidade, com um toque de amadorismo que o valoriza. Esse rapaz é um dos maiores ‘travestis’ do mundo. Pena que queiram proibi-lo […].”
Pouco tempo depois, Irajá deixou para trás sua personagem de sucesso: “A fase ‘Sophia Loren’ foi apenas um meio para conseguir nome. Entretanto, não a renega, porque acha que a travesti é um gênero artístico como outro qualquer” (O Cruzeiro, 29/12/1962). Isso o enquadra no transformismo do ator-travesti, na lógica drag-queen?
Entretanto, deixar o passado não foi tão simples. Pela vida toda, seria lembrado pelo performer que foi. Ele retomou o assunto algumas vezes: “Claro que não poderia me aborrecer com estas histórias. Para acabar de uma vez por todas com isso, escreva aí que eu me orgulho muito do que eu fiz. Tenho o maior orgulho de ter sido travesti. Por ter feito travesti, hoje sei exatamente o que a mulher gosta de usar e vestir” (Manchete, 02/05/1970). Questionado, na mesma entrevista, sobre a vontade de casar e ter filhos, respondeu: “… não gosto de viver só e hoje começo a me sentir só. É verdade, começo a me sentir só…”. Indagar sobre casamento e filhos sempre foi indireta para homossexuais e para pessoas de quem se desconfiavam estarem no armário, misto de curiosidade e sarcasmo.
Em Paris, ele aceitou explanar algumas questões para José Márcio Penido, que inferiu sobre coisas que Ektor teria feito no Brasil: “[…] foi ruim? Ter sido travesti foi ruim?” Ektor respondeu: “A gente deve recordar só as coisas boas da vida. O bom é o agora. Minha vida inteira foi uma lição. Não me arrependo de nada” (O Pasquim, 18 a 25/04/1970). Vários colunistas, no entanto, sempre afirmaram que ele odiava ser lembrado dessa fase da vida. Uma delas, Gilka Sezerdelo Machado, escreveu: “ele detesta que relembrem seu passado” (Tribuna da Imprensa, 03/03/1970). Talvez tenha se dado o que acontece com cantores que não aguentam mais ouvir os fãs pedirem a mesma canção, apenas estava cansado de centrarem toda sua vida naquele período, embora – como se viu – não o renegasse.
É devido considerar, ainda, que, naqueles tempos, gays hoje consagrados, não eram exatamente assumidos. Por isso é comum encontrar várias abordagens provocativas. Um exemplo dessas alfinetadas é o que escreveu Titto Santos: “O filme do dia: Os indiferentes […] Com Clóvis Bornay, Denner, Ektor (vulgo Sophia Loren) e um montão de nêgo enrustido que zanza por aí” (O Jornal, 22/06/1969). O bailarino e carnavalesco baiano gay Evandro de Castro Lima (1920-1985), desejou boa sorte para o amigo, lembrando “a temporada em Porto Alegre, onde ele e Ektor passaram grandes carnavais” (O Jornal, 22/01/1969), nota que, apesar do bom tom, também tinha um discurso subliminar.A orientação sexual de Irajá/Sophia/Ektor, por sinal, não tem contornos definidos. Por um lado, as gazetas insinuavam a homossexualidade em piadas de todos os tipos. Por outro, sempre o apresentavam com alguma pretendente. Ainda no Night and Day, surgiram os rumores de um relacionamento com a vedete Éllen Blanco, com quem contracenava: “Sofia Loren é olhado com reserva por alguns, incrédulos de que ele venha a se apaixonar por uma moça. Embora se deva separar o artista de sua verdadeira personalidade, a verdade é que todos estranharam que ele, Sofia Loren, estivesse para casar” (Revista do Rádio, 625/1961). Ambos negaram o trelelê.
Sophia Loren. Fonte: Revista Manchete. 18/01/1969
O certo é que as mulheres se encantavam por ele. “Certa dama do ‘society’ apaixonou-se de tal forma pelo travesti Sofia Loren, que chegou a montar um apartamento para o seu amor” (Revista do Rádio, 630/1961). Evidentemente, tanta ambiguidade, não autoidentificada como acontece hoje, no mundo pós-identitário, deve ter sido razão e resposta a sofrimentos para ele e para muitos. Pode ter sido homossexual, bissexual, até mesmo heterossexual. Why not?
Ektor von Hoffmeister
Ainda como Sophia Loren, no início dos anos 1960, fez a primeira viagem para a Europa. Segundo o relatado aos jornalistas quando veio para o Rio Grande do Sul, para o casamento da irmã Maria Elaine, depois de 12 anos ausente do estado, seu histórico foi ir do RS para o RJ, daí para uma temporada rápida em Paris, com retorno para São Paulo e, finalmente, a partida para a Itália (Diário de Notícias, 24/04/1969). Não foi localizado indício de que a escolha pela terra gringa tenha se dado por que a atriz Sophia Loren é italiana. Mas é bem provável.
Em Roma, ele se apaixonou pela alta costura. Em princípio, pretendia se aprimorar no desenho e na pintura. O nome Ektor, segundo ele, foi adotado para assinar as pinturas que ensaiava. Por lá, esporadicamente, trabalhou como manequim masculino para as marcas Pierre Cardin e Brioni. Mas logo passou a se concentrar mais na arte da costura, na moda enquanto estilista.Como ele mesmo disse, esse período de seis anos na Itália teve um começo complicado: “No começo, foi terrível, eu não conhecia ninguém, não conhecia nada. Passei fome mesmo” (O Pasquim, 18 a 25/04/1970). Após certo tempo, começou a fazer relativo sucesso nesse mundo, algo replicado por aqui com um misto de desconfiança, desdenho e aplausos.
Ektor. Fonte: Revista O Cruzeiro. 29/12/1962.
Em 1969, ainda em Roma, abriu uma casa voltada para a moda. O jornal Última Hora (06/02/1969) noticiou o sucesso na Europa, onde figuras importantes compareceram ao lançamento da primeira coleção assinada, que estaria ganhando repercussão internacional. Por aqui, parte da imprensa vinha sendo demandada no sentido de parar com a associação da imagem do costureiro ao da ex-travesti Sophia Loren. Mas essa vinculação – naquele momento entendida como pejorativa, algo que, hoje, teria outra conotação para boa parte da sociedade – não desapareceu, sequer foi minimizada. A Manchete (18/01/1969), por exemplo, estampou duas fotos – de Irajá como Sophia e como Ektor – anunciando: “No Brasil ele se chamava Sofia”. O Diário de Minas (11/05/1970) marcou o tratamento como “ex-travesti”, embora o dizendo superado, porque Ektor estava no Brasil, onde, com bem sucedido, teria apresentado suas coleções em desfiles em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Figurino de Ektor. Fonte: Diário de Minas. 02/06/1969.
A colunista Carmen Verena foi uma das que se mostrou indignada quando um vespertino paulista anunciou fotos da época de travesti, o que foi vetado, decisão que elogiou discorrendo sobre a “solidariedade dos coleguinhas da imprensa de São Paulo, impedindo que tal matéria fosse publicada” (O Jornal, 04/05/1969). Talvez o anunciado noivado com Maria Stella Splendore, então ex do estilista Denner (1937-1978), tenha sido um dos estratagemas para renovar a imagem de Ektor.
Os jornais cobriram a novidade, mas sempre com desconfiança de que não passava de embuste. Ao menos em uma entrevista, Ektor sustentou que a relação entre os dois – Maria fora contratada como modelo da Maison Ektor – fora assim denominado por ela, por interesses dela, não dele (Manchete, 02/05/1970). Confiança relativa que se dê aos impressos, a briga entre os dois renderia um texto longuíssimo. Em 1969, quando Maria retornou ao Brasil, a imprensa colocou as seguintes palavras em sua boca: “[Ektor] é cheio de complexos de inferioridade e carrega nas costas o ‘fardo’ de ter sido famoso pelas suas fantasias de outro sexo que não o de homem. Por isso simulou um golpe de publicidade para apagar essa coisa de travesti […]” (O Jornal, 31/10/1969). Casamento desfeito.
Provavelmente houve um movimento para apagar a figura travesti, porque, como acima mencionado, as pessoas, infelizmente, o consideravam uma nódoa. Tentativa frustrada, ao final, porque a Sophia Loren gaúcha, apesar de vida efêmera, foi notável, um furacão. A carreira como estilista também ascendeu. Com a maison recém-montada em Roma, conheceu dois financistas ingleses, que o convenceram a se mudar para Paris. Entre esse povo do dinheiro estava Lord Nicholas Sekkers, um fabricante de tecidos húngaro, naturalizado inglês, que vários jornais brasileiros, maliciosamente, passaram a associar ao seu nome como financiador, talvez algo a mais. Embora possa ter sido esse “algo a mais”, lembro que acreditar que todo o homem próximo a uma travesti ou a homossexual mantém com ela/ele um affaire é um dos motivos, creio eu, pelos quais muitas relações sociais de amizade sequer puderam brotar – porque a possibilidade é insustentável para o mundo machista.
Sekkers foi um dos cinco que fizeram a sociedade na qual Ektor passou a trabalhar na capital francesa, conforme disse a O Pasquim (18 a 25/04/1970). Para esse jornal, também comentou que não gostava dos hippies, que os considerava “sujos”, o que rendeu uma saraivada de críticas ácidas, entre elas a de Sônia Jansen, que revidou: “Diz pro Ektor falar mal dos hippies lá na puta que o pariu. Bicha! Bicha! Bicha!” (O Pasquim, 11 a 17/06/1970). Aqui, também, transparente uma forma comum de tratamento dispensado ao mundo LGBTQIA+, que é redarguido com insultos voltados à identidade de gênero e/ou à orientação sexual, que não faz parte da argumentação.
Conforme a Manchete (08/03/1969), ele comprou os salões que vinham sendo ocupados pelo estilista italiano Roberto Capucci, na Rue Cambon, em Paris. Além de estar no epicentro do mundo da haute-couture, contratou a equipe de Cristóbal Balenciaga (1895-1972), que estava desempregada, porque aquele teria acabado de fechar uma de suas maisons. Logo passou a ser anunciado como “o costureiro brasileiro que faz sucesso em Paris” (O Jornal, 01/03/1969).Nessa época, foi muito badalado pela high society, que fazia questão de dizer que ele era comprado por famosos e bilionários, entre os quais Bessie Wallis (1896-1986), a Duquesa de Windsor, e Grace Kelly (1929-1982), a atriz-princesa. Agito esse, diga-se, que manteve algo do exótico que era o que fazia a alta sociedade levar Sophia Loren às festas privadas.
Baron von Hoffmeister
Mas que moda era essa? Há muitas imagens pelos jornais. Maria Alves de Lima destacou que o costureiro incorporava elementos brasileiros às suas criações. Em uma coleção “usou balangandãs da Bahia e, neste ano, o corte gaúcho, inspirado nas bombachas do Rio Grande do Sul” (O Cruzeiro, 05/05/1970). Mais detalhadamente: “[…] no gênero esporte, inspirado no folclore do Rio Grande do Sul, com calças bombachas e botas de salto metálicos, dando numa vaga ideia de esporas” (O Jornal, 18/02/1970); “na linha gaúcha, o conjunto de saia-calça e jaqueta curtinha em lã cenoura-forte, blusa de malha com gola rolê branca, assim como as botas e o chapéu” (O Jornal, 19/04/1970).
Não entendo de moda, a confecção me parece lindíssima. É difícil apontar o potencial e a relevância de Ektor. Valentino – o estilista – chegou ao Brasil, em 1969, furando os olhos do brasileiro, dizendo que seu nome lá fora não era gigante como aqui pensavam: “É bom mas não é o melhor” (O Jornal, 08/08/1969). “As camisas fofas e laçarotes à guisa de gravata, para eles e para ela, marcando um gol para o Unisex” (O Jornal, 07/09/1969) seriam, para alguns, arte menor. Bastante reiterada era sua predileção pela maxi-saia. Odiava a minissaia, dizendo que desfavorecia a mulher. As pantalonas estavam na moda, inclusive na sua.
Um parente com quem conversei comentou que ele, vez em quando, fazia vestidos belíssimos para parentes do RS. Daqui mandavam as medidas, ele remetia a roupa por Correio. Raras vezes, vinha ele mesmo com a encomenda – o que deve ter repensado depois do que aconteceu em 1969. Vésperas do casamento de uma irmã sua, em Porto Alegre, ficou retido na Alfândega do Rio de Janeiro, onde teve que desembolsar 5.000, na moeda de então, para liberar um vestido de noiva que trazia a tiracolo. Ainda teve tempo de brincar, lembrando os tempos de Sophia Loren, reclamando que bem poderia ter dito que o vestido era para uso pessoal (O Jornal, 20/04/1969).
Ektor parece que andava meio chateado com o Brasil. Dizia que era ignorado. Tanto que, em 1970, só teria vindo ao país natal para apresentar a coleção primavera-verão por ter sido convidado pela embaixatriz da Grã-Bretanha no Brasil, Lady Hunt, que era sobrinha de um dos cinco sócios da sociedade da qual Ektor participava em Paris, Madame Levantis. O desfile foi aplaudido no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Ektor. Fonte: Revista Manchete. 21/06/1969
Por esse tempo, ele anunciou vários projetos, alguns dos quais não devem ter passado do papel. Anunciou-se a mudança para Houston, nos Estados Unidos (O Jornal, 19/12/1970); a abertura de uma filial nesse país. Foram meses difíceis, porque as gazetas começam a especular que o financiador o teria abandonado, assim como seu assessor mais próximo, o gaúcho José Carlos Marques.
O impacto foi grande. A colunista Gilka Serzedelo Machado resumiu: “Primeira entrevista de Ektor, depois de perder tudo em Paris, porque seu protetor Lord Nicholas Sekkers o pegou fazendo o que não devia: ‘Não tem importância, perdi o apartamento da Ille Saint Louis, a boutique, a Maison Ektor, mas me sinto tremendamente feliz. E isso é o que importa” (Tribuna da Imprensa, 02/07/1970).
O estilista vivia luxuosamente. O apartamento citado por Machado era de três andares, no coração de Paris, onde era vizinho da atriz Michèle Morgan (1920-2016), que ele relacionava entre suas clientes. A marca parece ter sido objeto de disputa, porque ele passou a divulgar que seu nome, de então em diante, seria grafado como “Ector”. Em 20 de setembro, a nova de que teria adquirido outra boutique em Paris. Ventilado, também, um contrato com uma firma do Texas, para quem seria desenhista (Tribuna da Imprensa, 15/10/1970).
Em 1971, a revista Intervalo destacou: “O ex-travesti Ektor (que, nos tempinhos de palco, usava o nome de Sophia Loren), hoje costureiro, acaba de desmanchar seu casamento, em Nova York, com uma milionária colombiana. Já arrumou suas malinhas e voou para o México, onde vai montar uma Maison de alta costura.” Não é possível precisar o grau de veracidade do que essas notas traziam sem um debruçar biográfico mais delongado.
Quanto aos familiares, no Sul, algumas matérias apontaram que costumava passar o Natal em família. Disso se pode perguntar: A avaliação dos familiares mudou? Alguns sempre foram mais abertos? Os jornais exageravam ao colocar das dificuldades com os seus? A nova situação financeira, privilegiada apesar dos percalços, criou um verniz intrafamiliar?
Se saiu do RS botando fé em ares menos preconceituosos no moderno Rio de Janeiro, não foi bem isso que encontrou, embora as oportunidades tenham surgido por lá, onde, afinal alcançou a fama. Em 1978, quando foi visitar os pais, em Porto Alegre, o colunista Reynaldo Loy o descreveu como “o maior costureiro e decorador” do México. Se tem algo que Irajá/Sophia/Ektor/Ector soube fazer era bom suco de limões. A tiracolo, vinha “a última noiva” (Tribuna de Imprensa, 21/06/1978), que iria apresentar aos progenitores.
Pouco sei da sua permanência no México (o que, penso, poderia render outro capítulo ou alterações significativas). Sabe-se que continuou trabalhando, já com a marca alterada de Ektor/Ector para Baron von Hoffmeister. Alguns dizem que passou a trabalhar com decoração. Daí em diante há uma lacuna, porque só se tem conhecimento, vagamente, do falecimento, em 2018. Essa informação eu devo ao escritor e pesquisador Luiz Morando, autor de Paraíso das maravilhas: uma história do crime do parque (Fino Traço Editora, 2012), que, há alguns anos, me repassou, por e-mail, vários recortes de jornais, alguns dos quais foram muito úteis agora.
Os bens – penso nas fotos, eventuais escritos, acervos de desenho -, tudo ficou por lá, aos cuidados de uma pessoa querida sua, com a qual, até o momento, não consegui contato. Enquanto escrevia, lembrei-me do recente documentário – bom, mas chapa branca – sobre Walter Mercado (1932-2019), o Ligue Djá. Ektor renderia um bom filme, foi um sobrevivente.
*Esse texto, com menos imagens e com poucas alterações, foi publicado originalmente no blogue “Memórias e histórias das homossexualidades”, de Rita Colaço, no dia 08/08/2020 com o título “A extraordinária história da Sophia Loren brasileira”.
Graças à popularização dos reality shows envolvendo drag queens, drag kings e outras manifestações do transformismo, vemos hoje muitas pessoas interessadas em buscar as origens dessa arte que, por definição, desafia os padrões de gênero. Considerada parte da cultura LGBT nos dias de hoje, há muita controvérsia acerca do que é o transformismo, onde surgiu e até sobre quem pode abraçar essa arte.
Não há dúvidas que o transformismo tenha herdado parte dos seus “genes” do teatro. “Homens” – entre aspas, pois hoje a definição de homem é bastante ampla – interpretando mulheres podem ser considerados “drag queens” – também entre aspas porque é uma forma bastante genérica de colocar essa arte. “Mulheres” – entre aspas pela mesma razão que ‘homens’ – interpretando homens podem ser consideradas “drag kings”. Para situar o transformismo na história da arte consideramos essas manifestações.
Lorde Lazzarus Foto: Marcelo de Paoli
Também podemos dizer que o transformismo é uma forma de hackear o gênero, um dispositivo utilizado para evidenciar estereótipos de gênero. Em relação a isso, no livro “Problemas de gênero” (2018), Judith Butler parte das expressões da drag queen Divine para perguntar: “Seria a drag uma imitação de gênero, ou dramatizaria os gestos significantes mediante os quais o gênero se estabelece? Ser mulher seria um “fato natural” ou uma performance cultural(…)?” (p.9).
De qualquer forma, se quisermos saber mais acerca do transformismo como arte e porque ele tem fascinado tantas pessoas ao redor do mundo, precisamos entender que em cada país ele se manifesta de uma forma, e é um resultado direto de cada abordagem cultural. Por conta da influência massiva da cultura estadunidense nas televisões e serviços de streaming brasileiros, exibindo programas como RuPaul’s Drag Race e a série Pose, muitas pessoas acreditam que o transformismo, ou a “arte drag”, como se fala por lá, tenha apenas um berço e um certo leque de estéticas padrão. Errado!
O transformismo latino americano é muito diferente do transformismo norte americano, e o transformismo brasileiro é muito diferente do transformismo estadunidense. Nos Estados Unidos, ele nasce à margem da sociedade, nos salões de “bailes” (cultura ballroom), onde as “casas” (ou “haus”) drag batalham entre si por troféus nas mais diferentes categorias. Também tem origem nos cabarés, nos lugares onde a entrada do cidadão “regular” era proibida. As performances envolvem maquiagem, habilidade com a dança (especialmente o vogue), o canto e a postura do performer. A figura das pessoas transgênero é muito presente nesse cenário. Mães de haus costumavam ser, em sua maioria, pessoas trans.
Já na América Latina, o transformismo nasce no teatro e nas casas noturnas, inspirado pelas grandes divas do cinema internacional, envolvido de muitos paetês, plumas e pedrarias. As transformistas pioneiras, em sua maioria mulheres trans e travestis, oferecem ao público números burlescos, de canto, de dublagem e dança envoltos em muito glamour e que tomam lugar em palcos nobres e casas especializadas nesse tipo de show, frequentadas por pessoas ricas e, às vezes, também bastante famosas. No Brasil, o transformismo foi muito presente no palco dos teatros e transformistas eram dirigidas por nomes de peso, como Bibi Ferreira.
Naquele contexto, as transformistas não ocupavam apenas o teatro , mas o cinema e a TV. Rogéria e Elke Maravilha protagonizaram filmes e novelas, inclusive em horário nobre, para um público massivo de brasileiros assistir. Se você achava que Pabllo Vittar ou Gloria Groove haviam sido as primeiras drag queens brasileiras a ocupar esses lugares de importância na mídia, você se engana. Nosso país já foi bem menos “careta” nesse sentido e nossas drag queens já tiveram até mais respeito e prestígio do que têm hoje, considerando, claro, a população e a cultura da época.
E onde descobrimos tudo isso? Onde está registrada essa história? Em livros, em filmes e em arquivos de TV e teatro. Sim, existe também literatura que descreve todo esse cenário e como as coisas se popularizaram e também decaíram, e como nossas incríveis performers, em sua maioria mulheres trans e travestis, começaram a construir essa estrada por onde hoje podemos caminhar com maior facilidade. Dentre os livros para conhecer a era de ouro do transformismo brasileiro temos “Rogéria: uma mulher e mais um pouco” de Marcio Paschoal. Também temos “É o que tem para hoje!”, biografia de Silvetty Montilla, uma de nossas drag queens mais populares, com mais de trinta anos de carreira, escrita por Ricardo Gamba. Recentemente foi lançado o livro “Elke: Mulher Maravilha”, escrito por Chico Felitti, num processo que durou muitos anos de encontros com Elke enquanto ainda viva, com sua família, parceiros e amigos.
Foto: Bruno LemosFotos de Lorde Lazzarus com Silvetty Montilla e Rogéria Fonte: Arquivo Pessoal Lorde Lazzarus
Você sabia que Elke Maravilha é considerada a madrinha do grupo de teatro queer Dzi Croquettes? Para assistir, temos não só o documentário deste mesmo grupo dirigido por Tatiana Issa, mas também, “Divinas Divas” de Leandra Leal, que fala de nossas pioneiras e suas vivências dentro do transformismo e da arte cabareteira, passando inclusive pelo período da ditadura. Para ver de graça no Youtube, o canal Arquivo Transformista traz participações de nossas drag queens em shows de talentos no programa Silvio Santos, no programa de Hebe e em boates e casas noturnas. Nos vídeos do canal se destacam os talentos de Erick Barreto, considerado uma das maiores transformistas brasileiras, Marcinha do Corinto, Luiza Gasparelli, Nubia, Leo (Leonora) Áquilla, dentre tantas outras. Você ainda encontra vídeos de Laura de Vison, uma das figuras mais transgressoras da cena transformista do Brasil, e seus shows nada convencionais que aconteciam em boates underground no Rio de Janeiro.
E com relação aos drag kings? Temos registro dessa manifestação transformista também? Bem, a cena drag king acabou não tendo a expressividade que deveria e poderia ter, devido ao preconceito para com seus performers, que são, majoritariamente, mulheres cisgênero e transmasculinos (homens trans e pessoas transmasculinas). Mas existe um livro escrito por Simon Doonan intitulado Drag: The Complete Story, e que tem todo um capítulo destinado aos drag kings (butch drag). Lá veremos figuras que costumamos hoje acompanhar pelas redes sociais (como Adam All e Mo B. Dick) e também manifestações mais antigas, como as da cantora k.d. lang, considerada o primeiro drag king de sucesso internacional.
No Brasil, a cena drag king ainda segue se desenvolvendo e ganhando adeptos e adeptas, mas salvo o teatro, temos poucos registros em literatura e vídeo oficiais acerca dos drag kings. Existem coletivos e grupos de drag kings desenvolvendo trabalhos de performance e pesquisa, mas sua incursão no mundo digital é recente (e se deu essencialmente durante o período da pandemia de Covid-19). Cabe a nós mudarmos essa história procurando conhecer o transformismo drag king e incentivando os performers que já estão atuando na área. Landon Cider e Tenderoni, ambos dos Estados Unidos, venceram competições importantes como o do reality show Dragula e o Concurso de Drag Queens “Drag Queen of the Year”, promovido por Alaska, uma das vencedoras do programa RuPaul’s Drag Race. Isso colocou os drag kings em destaque nos últimos três anos, uma grande vitória para quem se monta e atua na área.
E quanto às questões de gênero colocadas em xeque pelo transformismo? Se você quiser ler mais a respeito, eis as minhas indicações de livros: “O corpo da roupa” de Letícia Lanz, mulher trans e psiquiatra brasileira; “Viagem solitária” e “Velhice Transviada”, ambos de João W. Nery, homem trans, psicólogo e ativista pelo direito das pessoas trans no Brasil, e, “Problema de gênero” de Judith Butler, filósofa e estudiosa de gênero e teoria queer.
Ser drag queen ou drag king vai muito além de aprender a fazer uma caracterização através da maquiagem, estilizar uma peruca ou criar um figurino, vai muito além de criar um número artístico ou uma performance. Ser drag queen ou drag king, ser TRANSFORMISTA (creio que precisamos novamente tomar posse deste nosso termo latino americano para designar esta arte, já que é muito mais abrangente,e agênero, que os demais) é colocar seu corpo como manifesto social e político, desafiando as normas de controle estabelecidas pelo patriarcado, pelo sistema capitalista e pelas religiões. É uma expressão artística dentro da cultura LGBT que significa muito para a comunidade, pois é um símbolo de luta contra a opressão e o apagamento de um leque imenso de identidades.
Marsha P, Johnson, que iniciou a revolta em Stonewall – que hoje é celebrada com as Paradas da Diversidade em todo o mundo – era uma drag queen. Para ser uma/a artista transformista consciente, você precisa se posicionar contra a opressão estabelecida pela hegemonia cis-hetero-normativa, e nada melhor do que ter o respaldo da história acompanhando seus passos, atos e palavras. Conhecimento pode e deve ser espalhado por aí, portanto, envie esse texto para o maior número de pessoas que puder, incluindo fãs da arte, que não necessariamente se montam.
Para que hoje o transformismo pudesse estar tão acessível e também poder ser experimentado por qualquer pessoa, houve muita luta, persistência e resistência dos nossos pares. Continuemos na luta para fazer parte dessa história e inspirar pessoas LGBT que virão depois de nós a seguir na arte da montação com cada vez menos medo e com muita força.
*Lorde Lazzarus é drag king. Iniciou sua carreira na montação em 2001. Divide o corpo da artista LGBT Viviane de Paoli com a drag queen Lady Lazzarus. Lorde Lazzarus criou o primeiro concurso (oficializado) de drag kings do Brasil, o King of Kings, que coroou seu primeiro representante do transformismo drag king brasileiro em 2021 (Rud Fiamino). Também realiza pesquisa sobre o transformismo latino americano e, em específico, sobre o transformismo drag king. Lady Lazzarus dirige e produz o espetáculo Drag Night Show, além de realizar festivais, shows de talentos, concursos e oficinas tendo a arte transformista como protagonista. É cantora, fotógrafa, pesquisadora e palestrante.