Capítulo 1. A força do leque de Crystal

Douglas Ostruca

Este é o primeiro capítulo da tese “Micropolítica das montações: um estudo das comunicações transversais em fabulações transformistas” (2024), desenvolvida como uma narrativa fabulatória no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A pesquisa acontece em meio aos trânsitos pelos territórios transformistas de Porto Alegre.

SINOPSE: Forçada a se mudar para a capital, professora Luná se enreda em meio à solidão e aos fantasmas que a habitam. Como saída, ela investe suas forças na pesquisa da cena transformista de Porto Alegre, sendo provocada a se transformar ao longo do processo a partir dos encontros com as artistas.

***

A praça dos Açorianos, no Centro Histórico de Porto Alegre, é ocupada por uma multidão de pessoas. Apesar do vento gelado próprio ao inverno cortante, o sol do início da tarde aquece os corpos já agitados. O povo faz a festa, uma grande festa a céu aberto. Bandeiras coloridas se espalham por toda parte, algumas com as cores do arco-íris, outras com as cores azul, rosa e branco. Crianças correm para lá e para cá, deixando escapar risos soltos e gritos desarticulados. São tantas as variações de famílias presentes que a tradicional monocromática é apenas mais uma configuração em meio à multidão. Transformistas, drag queens, drag kings, drag monstras, pessoas travestis, homens e mulheres trans, não-bináries, bissexuais, bixas, pansexuais, intersexuais, assexuais e mais tantas outras ainda por vir formam uma multidão queer fervendo nas ruas da capital (Preciado, 2011).

Uma figura esguia, com ar fantasmagórico, vaga entre as pessoas. Ela passa em silêncio, observando curiosa os mínimos detalhes como quem tem fome de alegria. Os olhos escuros são aumentados pelos óculos de aros grossos, dando a ver dois buracos negros que atraem para si o mundo. Embora seu desejo seja olhar sem ser olhada, sua estranheza peculiar inevitavelmente chama a atenção das pessoas. A saia preta de veludo e a camisa social compõem uma vestimenta elegante, contrastando com os gestos desengonçados que mostram um despertencimento difícil de camuflar. Luná veio para a capital fugida de seu passado, o qual, apesar de seu desejo, persiste no corpo, reforçando a rigidez. Para sentir-se à vontade consigo mesma em meio à multidão, ela compra um latão de cerveja da primeira vendedora ambulante que vê.

O caminhão de som se dirige lentamente em direção à orla do lago Guaíba. Luná acompanha o mundaréu de gente que se organiza atrás do veículo. A música Rajadão (2020) da Pabllo Vittar toca em toda a potência e o povo canta junto em voz alta. “A previsão do tempo diz que o céu fechou / O poder da vitória vai curar a dor / O temporal agora vai cair em mim / A chuva da vitória vai reinar no fim…”. O volume da música é reduzido gradualmente. Ao ver a transformista Gloria Crystal subir no carro de som, Luná não se contém, um sorriso se esboça flexibilizando os traços rijos de seu rosto. Em sua memória é viva a lembrança da dublagem que Gloria fez da música Fortissimo (Rita Pavone, 1966) há mais de 10 anos, em São Borja. A rememoração alegre lhe traz um frescor em meio ao gélido breu generalizado em seu corpo.

Gloria Crystal na Parada de Luta de Porto Alegre (17/07/2022). Foto: Luná Maldita.

Gloria Crystal assume o microfone: “Boa tarde, Porto Alegreeee”. O povo responde; não satisfeita, a artista insiste: “Eu quero mais forte! Boa tarde, Porto Alegreeeee!”. Em uníssono, as múltiplas vozes revoam, estremecendo o chão. A artista prossegue: “Me sinto honrada por apresentar mais uma edição da Parada de Luta de Porto Alegre. Ainda me lembro da primeira que aconteceu lá em 2007. É uma alegria imensa fazer parte disso. Esse é um momento importante pra gente botar a cara no sol e dizer a que viemos. Eu quero ver todo mundo vibrando comigo! Entendido?!”. A multidão responde “sim” aos berros, expressando excitação.

À medida que a cerveja entra, a tensão no corpo de Luná se dissipa. Ela se permite um momento de diversão, inspirada pela extroversão de Gloria, que brinca com as palavras usando o chiste como estratégia de discurso. De cima do caminhão, a artista dança alegre e interage com o público agitado. “O improviso é outro elemento perceptível na comunicação, é aí que as conexões de ideias mais estranhas acontecem”, depreende Luná. Interrompendo sua divagação, alguém grita seu nome. Assustada, ela olha na direção de onde vem a interpelação. “Mia!”, responde Luná colocando a mão sobre o peito. Mia usa um vestido curto até as coxas, a cintura é sobreposta pelo espartilho preto. Ela é acompanhada por Tiffany Plazza, que está de vestido vermelho com transparência e uma coroa em tecido da mesma cor. “Que susto, achei que fosse algum estudante da faculdade”, complementa Luná aliviada. “Ai amiga, você ainda está com essa mania? Não vai me dizer que é por isso que está com esse look de professora do século XIX”, responde Mia, debochada. Tiffany ri do comentário.

Desconcertada, Luná muda de assunto: “Estou fazendo a pesquisa de campo para aquele estudo que comentei contigo”. “A senhora está sempre trabalhando né gata, mesmo na diversão ela não para! Você precisa relaxar um pouco”, diz Mia. Tiffany atravessa a conversa: “Eu fui chamada pra performar na última noite do In.fame, quer ir com a gente?”, convida a drag. “Como assim última noite?!”, responde Luná, surpresa. “Você não soube? Eles vão se mudar de cidade, estão fechando”, explica Tiffany. “Poxa, gosto daquele espaço, é um dos mais acessíveis que conheci”, responde Luná, chateada. “É uma notícia triste mesmo, mas essa vai ser a primeira performance da Tiffany em um bar, então é motivo pra comemorar também!”, comenta Mia estalando os dedos no ar. Luná concorda em encontrar Mia e Tiffany no In.fame, elas se despedem. Luná compra outra cerveja e continua a caminhada, observando tudo com a mirada ferina.

Em meio à multidão, algumas pessoas batem leques no ritmo da música. “Que coisa lindaaaa!”, comenta Gloria conectada ao instante. “Parem a música um momento, quero ouvir o som desses leques batendo com força”, pede a artista. Aos poucos, o povo ergue seus braços múltiplos e, em uníssono, o som de mil leques ressoa pelas ruas de Porto Alegre. TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ… Sobre o carro de som, Crystal ergue seu próprio leque amarelo somando-se à multidão. Tamanha é a força desse ato que uma rajada de vento faz a coroa de cabelos vermelhos de Crystal esvoaçar, ela fecha os olhos por um instante e dá uma gargalhada dizendo: “Essa é a força do leque! Essa é a nossa força, meu povo!”. A multidão grita, aplaudindo a artista. O cortejo continua.

Já na Orla do Guaíba, Gloria desce do carro. Luná corre desengonçada para alcançar a artista, ela a cumprimenta ofegante: “Olá, Gloria”. “Eu mesma, a própria. Contigo correndo desse jeito, achei que era arrastão. Aloooka!”, responde Crystal gargalhando em alto astral. Luná deixa escapar um riso, desconcertada. “Meu nome é Luná, sou professora substituta na UFRGS, estou pesquisando o transformismo aqui em Porto Alegre. Entre outros artistas, conversei com João Carlos Castanha, Lauro Ramalho, Zé Adão Barbosa e Charles Machado. Adoraria conversar sobre o tema contigo também”. “Mas olha só, uma acadêmica entre nós”, diz Gloria zombeteira, e prossegue: “Legal seu interesse, mas agora eu não consigo, preciso ir pro palco, podemos conversar em outro momento? Farei um show no Mixx Bar no início do mês que vem, aparece lá que a gente toma uma cerveja”. “Maravilha! Estarei lá, muito obrigada, Gloria, é um prazer te conhecer”, responde Luná em tom formal. A artista se vai e no rosto da professora aflora um sorriso, algo raro dado o seu momento de vida.

Um turbilhão de ideias atropela Luná, seus pensamentos maquinam acelerados. A visão embaça, a atenção volta para si mesma e ela não enxerga o que se passa ao redor. Alguém abre um leque com força ali por perto, o som ecoa os mil leques que há pouco batiam em conjunto. O corpo de Luná é percorrido por um arrepio. “Quem diria, um inofensivo leque usado cotidianamente para abanar, torna-se uma tecnologia política nas mãos dessa multidão…”, diz ela em voz baixa. Com o celular em mãos, a professora manda uma mensagem para si mesma no Whastapp: “Quais são as diferentes montações com as quais o leque já se conectou? Que outras funções o leque assume ao variar a montação?”.

REFERÊNCIAS

PRECIADO, Paul Beatriz. Multidões queer: Notas para uma política dos “anormais”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, SC, v. 19, n. 1, p. 11–20, 2011.

Eu, Chromatica: a montação do espetáculo

Dara Deon

Quando penso no meu caminho até chegar em minha persona drag, vejo uma estrada repleta de memórias. Quando somos crianças, estamos rodeados de brincadeiras e de faz de conta. Pelo menos, para mim, tudo parecia muito mágico. Como eu era muito tímida, passava muito tempo sozinha, vestindo fantasias e desenhando. Eu amava desenhar roupas, acho que por influência da minha dinda Paula, que fazia faculdade de design de moda. Um dia, cheguei a fazer um catálogo de vestidos, com uma capa cheia de glitter. Esse catálogo acabou se perdendo com o tempo, mas lembro da sensação de imaginar meus vestidos coloridos e brilhosos sendo desfilados em uma passarela.

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma

Sempre fui incentivada pela minha mãe a fazer arte. Como ela trabalhava demais, eu precisava passar mais tempo na escola do que devia. Então, meu tempo extra era preenchido por ler quase todos os livros de investigação criminal da biblioteca e teatro. Eu tinha muito problema com a comunicação, falava o mínimo possível, mas, mesmo assim não deixava de ir as aulas de teatro. Eu também assistia muitos clipes de divas pop no YouTube e no canal da MTV. Eu só não sabia se queria ser igual a elas ou beijar elas. Acho que era as duas coisas. O meu hobby passou a ser improvisar visuais com algumas roupas e dublar músicas. Às vezes eu me produzia toda só para gravar vídeos fazendo isso. Na época, nem sabia que tinha toda uma cultura envolvida nisso e que existia um nome para as dublagens: lipsync. Mais tarde, a cultura LGBTQIA+ passou a fazer parte da minha vida e fui apresentada à arte drag.

Pimp My Drag

Mesmo fazendo várias coisas, ainda sentia que faltava algo em mim, que talvez fosse criar a minha persona drag, mas eu sempre tive dificuldade com começos, então eu precisaria de um empurrãozinho pra isso acontecer. Em abril de 2023, tive a oportunidade de fazer o curso Pimp My Drag, ministrado pela Drag Queen Cassandra Calabouço. Foram três meses de aula com uma turma muito querida, pudemos trocar conhecimentos e aprender bastante uns com os outros. Eu amava ir pras aulas, que eram duas vezes por semana, e sair com algo diferente em mim todas as vezes. Parecia que finalmente eu estava encontrando o que faltava em mim, mas eu ainda não tinha um nome. A saga pela busca do nome perfeito me tirou noites de sono e muitas pessoas me ouvindo falar sobre isso. Até que, um dia, depois da aula, eu e alguns colegas fomos para um bar conversar e um dos tópicos foi o meu nome. Eu tinha algumas opções, mas nenhuma me parecia certa o suficiente, até eu comentar que gostava muito da teoria das cores e do círculo cromático. Nesse momento, junto da minha irmã drag Luná Maldita, surgiu um estalo: Cromática! 

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.

É claro que depois disso, como uma ótima libriana, eu fiquei em dúvida e testei algumas variações e formas escritas. Acabei por deixar o nome em inglês, como o álbum da Lady Gaga: Chromatica. Eu tinha um nome e um sonho, agora faltava brilhar. Em um dos dias que teríamos aula, nos encontramos montadas no bar Workroom, no dia do lipsync aberto. Encarei como se fosse minha estreia, e até Instagram eu já tinha criado para Chromatica. Fui surpreendida pelos meus amigos na porta do bar, que não conseguiram entrar pois já estava lotado, mas foi especial demais ver eles ali, cantando parabéns para mim, como se fosse meu aniversário, ou melhor, renascimento. Eu ganhei uma família drag nesse processo, e agradeço muito a todos que fizeram parte. No dia 02 de julho de 2023 estreamos o Baile de Perucas, no Teatro Bruno Kiefer, como conclusão do curso. Esses meses foram muito importantes para a construção de Chromatica, minha persona drag que finalmente havia nascido. 

A montação do espetáculo

Sempre gostei de ouvir músicas e assistir filmes antigos, e quando eu digo antigos quero dizer música clássica, que eu passava horas tocando no teclado, e filmes musicais da era de ouro de Hollywood e das décadas que seguiram. Passei a me encantar com as músicas e estilos visuais de cada década desde os anos 50, ouvi-las era como viajar no tempo e viver minhas referências na pele. Filmes como O mágico de Oz, Cantando na chuva, Cabaret, Os embalos de sábado à noite e Grease eram os meus preferidos, tanto que na versão final do espetáculo Eu, Chromatica, temos uma cena especialmente dedicada a dançar trechos de músicas desses musicais. Chromatica vai do clássico ao contemporâneo, sempre se experimentando entre lapsos temporais e diferentes estéticas. 

Musicalmente, a peça acabou sendo dominada pelos anos 70 e 80 e pelo Glam Rock, estilo que me encantei. Artistas como Elthon John e David Bowie foram trilha sonora de algumas performances e momentos importantes da minha vida. Algumas semanas antes das apresentações da peça, cheguei a cortar e pintar meu cabelo inspirado no Bowie, para viver completamente aquela fantasia vintage também com meu visual, visto que Chromatica ainda não usa peruca, mas talvez ela passe a usar em algum momento. Avançando alguns anos, os musicais mais atuais também foram muito importantes para mim, como Moulin Rouge, Chicago, Burlesque, O rei do Show, e é claro, High School Musical, que marcou minha infância e teve seu momento na peça com direito a coreografia antes dos trechos clássicos. 

As divas pop me faziam querer ser elas, ao passar horas a fio assistindo seus clipes. Aqui dou destaque para a Lady Gaga, que também acaba sendo homenageada com o nome Chromatica, título de um álbum mais recente, apesar de não ter sido o motivo principal para a escolha do nome, gosto quando fazem menção a ela. Voltando aos filmes clássicos, O Mágico de Oz foi contemplado com um número inteiro da música Goodbye Yellow Brick Road, do Elthon John. A música faz menção à estrada de tijolos amarelos que a personagem Dorothy percorreu em Oz, mas com uma mensagem de despedida de um capítulo e início de outro. Na cena, a mensagem fica no subtexto, enquanto eu abro uma mala cheia de figurinos, alguns de performances já feitas por mim na vida real, e encontro a roupa colorida de Chromatica, finalmente deixando as cores invadirem meu visual e fazendo a persona drag surgir. 

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.

A cena “Como treinar sua Drag”, em formato de auditório e com interação com o público, trouxe referências do reality show RuPaul´s Drag Race, que acompanhei por muito tempo e acabei conhecendo muitas drags que me inspiro até hoje, como a Sasha Velour. E para finalizar, a última cena da peça teve como trilha sonora “Sucesso aqui vou eu”, da Rita Lee, música que também escolhi para dublar quando Chromatica esteve na noite de Lip Sync aberto no bar Workroom com a turma do Pimp My Drag, simbolizando o início de outra estrada, que teria os tijolos coloridos com todas as cores. Essas são algumas das referências que mais utilizo no meu trabalho atualmente, nem todas citadas estão presentes na versão final de “Eu, Chromatica”, mas foram consideradas e muito faladas no processo de criação do espetáculo.

A minha personagem teria uma evolução dentro da narrativa, começando com uma versão de mim mesma, mas mais teatral, e terminaria como Chromatica. Com o texto da primeira cena em mãos, improvisamos algumas vezes para ajustar as falas até ficarmos satisfeitas. A cena começaria comigo entrando nessa loja e organizando o espaço, ouvindo uma música e me divertindo enquanto arrumava tudo. Para ensaiar, usávamos uma arara com algumas roupas como cenário provisório e os dois bustos de manequim. Digo provisório porque a versão final da montagem dispõe de cinco araras e cerca de sessenta peças de roupa, tornando impossível ensaiar com tudo estando presente, mas falarei sobre a escolha de cenário mais para a frente. Quando eu estaria no fim da organização, a personagem de Alycia chegaria nessa loja com o objetivo de encontrar a roupa perfeita para ela, mas em outra cor que não fosse azul, que era a cor preferida e figurino da personagem Alyx Safira. 

Ainda nessa cena, acontece a performance de Goodbye Yellow Brick Road, de Elthon John. É quando minha personagem deixa os medos de lado e abre uma mala que contém vários figurinos e adereços, alguns inclusive que foram utilizados em performances minhas na vida real, me despindo da roupa bege e branca, revelando um body amarelo que é completado com uma calça, botas e luvas vermelhas. Também tiro da mala um espelho, um gel e um pente para dar vida ao cabelo de Chromatica. Ainda tiro um leque da mala, e a última coisa que sai é uma bandeira LGBTQIA+, representando esse momento de aceitar todas as cores que fazem parte de mim.

Eu fiz questão de também trazer uma parte mais séria sobre essa questão e não só glamourosa para a narrativa. Nesse texto, conto uma situação em que uma mulher me questionou sobre isso de uma forma bem inconveniente. Aproveitei também para colocar a questão da expressão de gênero e de sexualidade, que é muito importante para mim, como uma mulher cis, lésbica e de aparência andrógina. Esse trecho também serve para informar que a arte drag é uma expressão artística, e que drag é para todos. Escolhi falar o monólogo direto para o público, com a personagem da Alycia congelada no fundo, quebrando a quarta parede e expressando uma opinião política, tendo como inspiração o efeito de distanciamento, de Bertold Brecht e o teatro épico. 

Eu Chromatica Grafia Drag
Espetáculo Eu, Chromatica. Foto: Renê de Palma.

Somente no final, surgiram alguns gestos, para realizar a transição entre o texto e a última performance. Com a pose formada e ultima frase dita, que não ironicamente foi “Eu, Chromatica!” revelando o meu nome e o nome da peça, começa a música “Sucesso aqui vou eu”, da Rita Lee. Eu já sabia desde o início que gostaria de finalizar a peça com essa música, que também dublei na noite em que Chromatica saiu montada pela primeira vez com a turma do Pimp My Drag, quando fomos na noite de lipsync aberto no bar Workroom. Essa música foi a única em português, então seria entendida por todo o público presente, e representa muito da minha criança interior que ainda sonha dentro de mim.

Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag

Candy Boom

Olá, confetes de chocolate. Essa é a forma como chamo meus leitores, seguidores, ouvintes, espectadores e afins. Acho interessante chamar assim porque são coloridos, diversos, e por dentro temos muitas semelhanças, sabores e dissabores.

Sou a drag queen Candy Boom, feita, pensada, vivida, experienciada e (des)construída pela Michelle, uma mulher cisgênero (Até onde sei), gorda, professora de geografia, catarinense, de São José, cidade ao lado de Florianópolis, nascida em 23/12/1990 e que finalmente colocou pra fora a persona drag em setembro de 2018, na parada da diversidade de Florianópolis. 

Candy Boom desafios da arte drag
Candy Boom
Fonte: Arquivo pessoal

Acho importante colocar esses recortes para entenderem os lugares de onde minhas percepções sobre a cena drag partem. Fui encantada por personagens desde criança. Eu assistia as transformistas na TV, os Shows de Calouro, imitava a Britney Spears na escola. Minhas memórias me falam que eu era a única pessoa mais voltada a esse estilo de pop no fundamental II. Participava de teatrinhos na escola como personagem principal e depois no ensino médio, no terceirão, lembro da minha turma não querer performar no final de ano e eu me “enfiei” com a turma do segundo ano para poder participar de alguma forma. 

No primeiro ano do ensino médio também participei de teatrinho na escola. Eu estava sempre empolgada com danças e divas pop, mas por ser gorda o balé não foi um caminho que se abriu pra mim, tive que me contentar com o Kung Fu na escola, isso no fundamental II ainda. 

Foi somente quando entrei na faculdade que o mundo das baladas LGBTs se abriu pra mim, as festas alternativas do centro de Floripa não eram necessariamente exclusivas para gays. Foi lá, em 2009, que pela primeira vez acharam que eu era hostess da balada e adorei, mesmo sem receber um tostão. Tive grandes referências de mulheres cis a frente das baladas, Fernanda Almeida e Samantha Daus foram figuras emblemáticas que me faziam nem sequer cogitar que mulher não poderia estar onde estavam. Aqui na grande Florianópolis isso nunca foi uma questão pra mim. 

Mas durante a pandemia, recebi hater misógino por fazer drag, por ser drag. Claro que não posso afirmar que não tenha perdido oportunidades por ser mulher, mas isso nunca foi evidente. Diferentemente da gordofobia, que é extremamente escancarada. As pessoas duvidam do que eu posso fazer em palcos, do quanto aguento, do quanto consigo entregar em arte. 

Nesse sentido, há também toda a questão envolvida com a manutenção do padrão corporal, especialmente por ser uma cidade litorânea, o “corpo do verão” é muito cobrado por aqui. Quem não se encaixa no meio, ou corre pelas beiradas, ou acaba largando em busca das tais “profissões mais sérias”. O corpo gordo está muito em exposição para julgamentos e nas baladas e pubs que frequento são raros os corpos gordos. Esperam a comicidade como única fonte, traçam vilania como a gente pode perceber nas representações de vilões de filmes/desenhos infantis. Na própria Divine, inspiração pra Ursula, nós vemos a comicidade e vilania presentes. Claro que esse também é um caminho louvável, mas há outros. A arte drag é múltipla. 

Candy Boom desafios da arte drag
Candy Boom
Fonte: Arquivo Pessoal

Em quais lugares, em quais espaços, em quais corpos a arte drag pode estar? 

Em todos! Seja uma celebração de casamento, um aniversário, uma festa temática, um open bar, um show… Na maioria dos lugares que frequento eu levo minha drag, inclusive na própria sala de aula que já consegui levar em rodas de conversa e palestras. 

Reafirmo, a arte é pra geral! Qualquer pessoa pode ser artista, ou mesmo produzir algum tipo de arte. No mundo drag temos uma grande barreira midiática, há reforços do conceito de que quem começou a fazer arte drag foram homens gregos que precisavam atuar como mulheres já que as mulheres eram subjugadas e negavam o palco a elas. Contudo, temos outras vertentes dessa história, temos travestis e mulheres trans à frente da arte drag, temos histórias fora do eurocentrismo que mostram rituais de montação sendo feitos por mulheres. Temos muitas inspirações. No Brasil dos últimos tempos temos Elke Maravilha, por exemplo, que é uma explosão de referências e trejeitos drags. Temos em nível internacional a própria Lady Gaga, Stefani Germanotta, que criou e dá vida à persona Lady Gaga. 

Quando frequento baladas e me apresento para pessoas, algumas delas perguntam se sou mulher e falam que não sabiam que mulheres poderiam fazer drag. Então minha didática é colocada em cheque e explico sobre podermos estar em quaisquer espaços. Sabemos que o salto alto foi criado para um corpo masculino padrão do século XVII, porém há registros até mais antigos de saltos. As próprias convenções de cores que atualmente tanto reforçam que rosa é de menina, na verdade, sendo o rosa um vermelho enfraquecido, ele era utilizado pelos filhos homens da nobreza, cujos homens ostentavam vestes vermelhas. 

As questões de vestuário de gênero foram construídas, desconstruídas, misturadas, ressignificadas com o passar dos séculos, e hoje, novamente estamos nesse processo. Processo no qual é completamente habitual mulheres usarem calça, contudo, no ocidente, um homem de saia ainda causa estranheza ou até repúdio. Falar que mulher pode ou não ser ou fazer algo é complicado demais. Existem ainda pessoas que falam para mim que deve ser mais fácil eu enquanto mulher fazer drag. E não, não é mais ou menos fácil. Como mulher cis não preciso aquendar, mas quem disse que toda drag feita por homem cis ou mulher trans ou ainda não- binário precisa? Temos opções de vestuário em que não aparece volume de órgão geniral, como as saias, os tutu de bailarina, e mesmo quando aparece, qual é o problema?. 

Outra questão é a valorização financeira da arte drag, que é urgente! O público e os próprios clientes querem ver glamour, mas o glamour é caro e o cachê não acompanha essas expectativas . É muito difícil manter a arte drag viva no saldo positivo, no lucro. Perucas, penteados, roupas, pedrarias, sapatos, ornamentos personalizados, objetos cênicos para as performances… Além de uma maquiagem minimamente saudável que não precise retomar o carvão que muitas drags usavam. Eu como professora que moro com minha família ainda consigo me manter, conheço pessoas que entre um bico aqui outro ali entregam/vendem panfletos com seus desenhos ou/e suas poesias para assim sustentar um pouco das suas artes drag. 

A arte no Brasil é dispendiosa, muitas vezes elitista, quem tem dinheiro consegue mantê-la, quem não tem dificilmente alcança palco, são obstáculos a mais, e a barreira de morar em uma região provinciana, mais conservadora torna ainda mais complicado. Existem escalas de artistas, acredito que seja uma das profissões que isso mais acontece, essa divisão hierarquizada, mesmo com uma mesma função uns ganham mais outros menos de acordo com os investimentos, com os interesses dos investidores. Nós, professores, sabemos que recebemos pouco, mas há certo piso, certo controle nisso. Um artista é muito difícil ter esse controle. Os Jobs surgem aqui e ali, oferecem cachês que às vezes nem o transporte paga, quanto mais todos os apetrechos que mencionei anteriormente que um artista transformista precisa para se apresentar. 

É difícil manter a criatividade em cima quando muito do que pensamos para formar uma performance tem valores acima do cachê que será recebido após a performance. Aqui no Brasil não temos a cultura do público colocar dinheiro na roupa da drag. Quem sabe com um reforço assim conseguiríamos retroalimentar performances nesse sistema. Enquanto borbulham ideias para deixar a arte viva, vamos fazendo como o bom brasileiro “na gambiarra” mesmo, com várias adaptações, cortes, recortes, cola quente e muita, muita explosão doce e amorosa.

O que quero destacar nesse texto é que qualquer pessoa, independente de gênero, altura, comprimento, largura, peso, tamanho de pé, tamanho seja lá do que for, pode performar, pode ser drag. Nós já estamos falando de uma arte que rompe caixinhas da heteronormatividade, não vamos somente trocar de caixas né?! Além disso, não há facilidade ou dificuldade em termos biológicos para mulheres ou homens fazerem/serem drags. O que há é a dificuldade  financeira, certamente, e social. Os olhares julgadores para o corpo feminino são intensos, as restrições do que mulher pode ou não fazer são imensas.  O que podemos fazer para mudar esse contexto? Continuarmos lutando contra preconceitos e conquistarmos mais e mais mulheres para entrarem na arte drag, rompendo os próprios receios do que “pode e não pode” e outros empecilhos desse mundo.

Como citar este texto

BOOM, Candy. Quebrar os padrões, afirmar as diferenças: desafios da arte drag. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/desafios-da-arte-drag/. Acesso em: 16. Fev. 2023.