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SEXTANTE | Afeto que renova

Conheça a história do espaço cultural localizado no Sarandi que descentraliza a cidade e volta os olhares para a periferia porto-alegrense.

Patrícia Barbosa

Imagine uma praça, dessas que ficam no interior dos bairros. Um espaço, geralmente, com um número pequeno de brinquedos para as crianças, talvez uma quadra de futebol, algumas árvores e bancos espalhados. A Praça Oliveira Rolim, na Vila Elizabeth, bairro Sarandi, possui todas essas características. Contudo, existe um diferencial: a “casinha” da Conceito Arte.

Olhando de fora, se vê a pequena construção amarela, cheia de cores e pallets que ajudam a destacar a sua presença no meio do ambiente. Na sua volta, um jardim com diversas espécies de plantas dá vida e movimento ao lugar: com a passagem do vento, as folhas se mexem e levam adiante o seu sutil aroma. Ao entrar na Conceito, o que se apresenta de fato parece uma casa convencional, com sala de estar, cozinha, banheiro, despensa. O que chama a atenção, porém, é o seu colorido. São rosas, azuis, verdes e tantos outros tons que decoram as paredes, os sofás e os demais objetos que pertencem à casinha. São diversos desenhos, grafites e cartazes que contam um pouco da história do espaço e mostram ao visitante a sua energia.

A cada tempo, uma nova cara 

O esboço do que viria a ser a Conceito Arte começou a ser idealizado em 2013. Naquele ano, o grafiteiro Filipe Harp, 31 anos, levou seu filho à Praça Oliveira Rolim para passear quando notou a casa abandonada. A partir disso, passou a buscar pela sua chave, que chegou até ele por meio dos servidores da Prefeitura de Porto Alegre. Em março de 2014, o artista não sabia ao certo o que fazer com o espaço, mas, após algumas reuniões com seus grupos de amigos, a ocupação deu origem, também, ao coletivo Conceito Arte. “Existia o lugar, e depois, com o tempo, passaram a existir as atividades. Fomos nos reunindo, e nisso foram ficando uns, outros não puderam continuar, e foi mudando, até como está hoje”, conta Gabriel da Rosa, 31 anos, membro do coletivo.

Anteriormente, a casa, que oficialmente é um módulo da Prefeitura, passou por diferentes situações. Durante os anos 1990, era utilizada para guardar materiais esportivos. Na quadra ao lado da construção, estudantes de escolas do bairro faziam Educação Física, bem como grupos de adultos praticavam ginástica durante alguns dias da semana. Já nos anos 2000, a Praça Oliveira Rolim ganhou um aspecto de esquecimento. As atividades foram diminuindo, e o lugar passou a ser menos utilizado. Com o tempo, a casinha foi preenchida com entulhos e teve sua estrutura danificada e, além disso, grupos se reuniam para usar crack. O espaço virou sinônimo de insegurança e passou a ser evitado por boa parte de quem vive ali. A moradora do Sarandi e integrante da Conceito Priscila Macedo, 26 anos, relembra que frequentava o local quando era criança, mas que parou de visitá-lo após o seu abandono: “No momento que começou a ocupação da casinha, aí sim eu senti mais segurança para voltar para a praça, porque antes eu não sentia”.

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UMA CASA SEMPRE EM REFORMA

É difícil tentar definir a Conceito Arte, e talvez essa não seja uma tarefa possível de ser realizada. De forma geral, a ocupação e o coletivo são tratados como um espaço cultural que visa a descentralizar a cultura porto- -alegrense, por vezes restrita às regiões centrais da cidade. Além dessa breve descrição, a Conceito é feita de pessoas, que têm ideias, trajetórias e influências próprias e, sendo assim, conforme os membros mudam, a casa e o coletivo se transformam também. “Engraçado o nome ter sido Conceito Arte, porque a filosofia cria conceitos, e a casa foi muito isso, de criar muitos conceitos, de recriar, repensar, refletir sobre eles. Tudo foi acontecendo muito ao natural”, comenta a integrante Natashe Inhaquite, 28 anos. “É uma espécie de movimentação que não é fixa, mas que se dá como um levante, com grupos de afeto que refletem juntos, têm afinidades políticas, de amizade, e por meio disso conseguem construir juntos e fazer acontecer.”

Em pouco mais de quatro anos de existência, a casinha já sediou múltiplas atividades. Saraus, rodas de conversa, aulas de yoga, brechós e cine-debates, além de diversas oficinas, como de criação literária, grafite e fotografia, ajudaram a trazer ainda mais vida para o espaço. As mudanças provocadas pelo coletivo ajudaram, também, a transformar a praça. Com a reforma da construção, o cuidado com as plantas e a instalação de luzes no entorno da quadra de bocha “vizinha” da Conceito, a Praça Oliveira Rolim ganhou novos e convidativos ares. O afeto dos integrantes do coletivo é percebido em cada detalhe, seja nas placas espalhadas pelo local, que versam sobre temas como preservação da natureza e amor, seja pelas iniciativas que ali tomam forma. Dentro da casinha, existe a Biblioteca Comunitária Girassol, onde os moradores do Sarandi podem levar livros para casa sem custo algum. “Estava acontecendo uma roda de leitura e chegou Cristian, pé descalço, bicicletinha, sete anos, no meio da contação de história, e no final ele implorou para que não terminasse. Isso, para mim, é um dos melhores momentos daqui”, relembra a bibliotecária e integrante da Conceito Priscila Macedo.

A cultura de periferia, a descentralização da cidade e a autonomia de pensamento são pilares valorizados pelos membros da Conceito Arte. O que se quer construir é um ponto de encontro para os moradores da Zona Norte, especialmente do bairro Sarandi, e que não deixa de ser aberto à Capital como um todo. Uma opção que seja próxima da realidade de quem reside ali e que exalte as vivências dos seus moradores. “Isso não acontece só na Conceito. Isso é um processo muito maior, que se replica aqui porque é uma necessidade presente em todas as periferias. Não se tem investimento do Estado, e as pessoas querem cultura, querem construir, ter um espaço para se olhar”, comenta a integrante do coletivo Carol Ferraz, 25 anos.

 

DE PORTAS ABERTAS PARA TODOS

Você está dentro de algum ônibus da linha Sarandi, imerso em seus próprios pensamentos e, quando passa ao lado da Praça Oliveira Rolim, repara naquele lugar pouco convencional, com uma casa e um jardim. Fica olhando para o lado, junto de outras pessoas do transporte coletivo, até que ele segue para a próxima parada. Ou, então, você está andando pela Avenida Toledo Piza quando avista a pequena construção cheia de cores e plantas e, a partir disso, não anda mais olhando para a frente. Cenas como essas são comuns de acontecer para quem cruza seu caminho com a Conceito Arte. O local, no mínimo, provoca a curiosidade de quem está perto e por vezes consegue atrair mais pessoas para conhecê-lo por dentro.

Tem quem visite a Conceito com frequência, tem quem esteja entrando pela primeira vez na casinha. Foi o caso do pedagogo Hugo Maciel, 24 anos, que é de Fortaleza e veio para Porto Alegre por meio da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias: “Eu acho bacana essa ideia, reunindo várias pessoas diferentes. Quem passa aqui pode se sentir à vontade de chegar”. Hugo visitou o local junto da sua amiga, a bibliotecária Yasmin Wink, 21 anos, que mora no bairro Partenon e frequenta a ocupação desde 2017. “É um lugar de muito afeto, todo mundo se sente muito à vontade pra ser quem é, e o que mais me chama a atenção aqui é que toda vez que eu venho o espaço muda.”

Um dos problemas levantados pelos membros do coletivo é o receio que alguns moradores do Sarandi sentem de participar das atividades da Conceito Arte. “Isso é algo da idade, nós não vamos conseguir chegar em todos. Os mais velhos não se veem aqui, eles veem mais a gurizada, porque é a gurizada que vai lá e faz”, explica a integrante Nany Queiroz, 18 anos. Além disso, outro motivo que pode resultar em menos moradores na casinha é uma visão estereotipada, como conta a membro Carol Ferraz: “Eles não dão o valor que deveriam, porque aqui tá impregnado de uma imagem do que é periferia, e o que damos valor é o caro, é o shopping, parcelar no cartão de crédito”.

Apesar desses impasses, há quem viva no Sarandi e aproveite o que a casinha tem para oferecer, como o escritor de poemas Leco Bittencourt, 42 anos, que é ativo na Conceito desde a sua fundação. Sob o nome artístico “Viu S/A”, ele constrói seus textos, mesmo que de maneira tímida. Em um dos saraus da Conceito, os membros do coletivo leram uma de suas poesias para o público. “Fiquei meio abalado pro bem. Pensei, “Bah, o cara tá lendo o bagulho que eu escrevi”. Até então, eu não mostrava pra ninguém, e agora esses tempos eu consegui ler uma [poesia], baita evolução.” A cultura e o afeto transformadores da pequena casinha da Praça Oliveira Rolim estão abertos para quem quiser sentir e construir junto.

Da esquerda para direita: Gabriel da Rosa, Natashe Inhaquite, Leco Bittencourt, Nany Queiroz, Carol Ferraz e Priscila Macedo. Foto: Patrícia Barbosa

FOTO DE CAPA: Isabel Gomes e Heloíse Bordin

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