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SEXTANTE | Cavalos movendo vidas

A rotina do Jockey Club na Zona Sul da Capital.

Wagner Meirelles

Terça-feira, 18 de setembro, 8h da manhã. Céu fechado, nuvens escuras. Os raros raios de sol acinzentam as primeiras horas do dia. O frio se deve à proximidade com o Rio Guaíba. Além disso, uma garoa fina cai sobre as cocheiras. Mesmo úmida, a terra fofa não chega a virar lama. O estacionamento é guardado por apenas um funcionário que ficará ali até o final da manhã. Ele também é responsável por abrir e fechar as duas cancelas manuais e metálicas da entrada. Os treinadores e jóqueis já aprontam os cavalos para os primeiros trabalhos. Encilhados, os animais troteiam calmamente até as pistas de corrida. Sem se assustarem com o constante vaivém dos funcionários no hipódromo, os cavalos agem em ritmo de rotina. Apesar do som dos passos de lá e das batidas das ferraduras contra o chão, ainda é possível ouvir o canto dos bem-te-vi e dos quero-quero.
Galeria de fotos: Cavalos

O veterinário Guilherme Gonçalves, 32 anos, atua no Jockey Club do Rio Grande do Sul desde 2010. Ele destaca que, para cada cavalo, em média oito profissionais estão envolvidos. Atualmente, o hipódromo atende cerca de 470 animais.

Guilherme expõe as dinâmicas do dia a dia no Jockey Club desde a chegada dos cavalos. Foto: Giovana Schenato

 

Origens do turfe

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“Corrida de cavalos existe desde que domesticaram os cavalos, desde a pré-história. Na cultura brasileira, a corrida de cavalos é um hábito que faz a transição de um Brasil colonial rural para um Brasil urbano, moderno e contemporâneo. O turfe é uma modernização de um jogo tradicional”, explica o professor mestre em Antropologia Social com ênfase em Esporte,  Édison Gastaldo.

Além da transição do mundo rural para o urbano, o professor Édison Gastaldo aponta que o turfe introduziu a nova lógica dos jogos modernos na cultura brasileira: “No século XIX, o turfe constrói um estádio chamado hipódromo, o lugar para os cavalos correrem com uma tribuna – gestão moderna do sistema de apostas e de pagamentos. O que existe, até então, é o jogo de azar, a briga de galo, o jogo de baralho – jogo é algo que se ganha dinheiro”. Nessa época, o Brasil passa a incorporar o conceito europeu do que é o esporte: uma nova ética, a lógica do desinteresse material. “É uma ética das elites europeias, dos positivistas do final do século XIX, que, por estarem com dinheiro resolvido, se orgulham pelo seu desinteresse pelo dinheiro. Isso tudo é novidade. O esporte é inseparável de dinheiro em um Brasil colonial tradicional”, esclarece. “O turfe é quem está nessa primeira mediação dos jogos de azar – onde é disputado muito dinheiro e as patas de um cavalo não se distinguem de um baralho – para um mundo moderno cosmopolita de associações esportivas”.

 

Visitantes e apostadores
Mural de apostas. Foto: Carolina Pastl.

“Muitas pessoas não sabem, mas não é necessário pagar ingresso para entrar no Jockey”, aponta Guilherme. “Se quiser vir passar o fim de semana com a família, é só chegar. O valor mínimo das apostas é dois reais e nem precisa apostar, só se quiser”, esclarece.

De acordo com a administração do hipódromo, geralmente, os apostadores somente comparecem ao estabelecimento durante as corridas equestres. Essas ocorrem toda sexta-feira das 15h às 18. Existem apostadores que também são proprietários dos cavalos, que costumam acompanhar os animais a partir do relato dos treinadores e veterinários. Quase sempre, os donos mantém uma relação indireta, confiando na rede de profissionais contratada. O Jockey de Porto Alegre depende de parcerias com outros clubes para se sustentar. Fora as colaborações, as apostas têm contribuído na manutenção do clube. Atualmente, sem o apoio de meios de comunicação, o principal canal de acesso às corridas tem sido o site oficial do hipódromo.

O clube conta com duas pistas ovais para o turfe. A menor é usada nos treinos diários dos animais. A maior serve apenas para as corridas nas sextas-feiras. A última também fica mais próxima das arquibancadas, da plateia de apostadores e visitantes. No espaço central do menor trajeto, se localiza a ambulância que atende os jóqueis. Em dia de corrida, ela fica próxima ao partidor. Dada a largada da prova, a viatura ambulatorial acompanha o ritmo dos cavalos. Segundo o enfermeiro Alexandre Rodrigues, 45 anos, a atividade segue a regra: quanto menor o tempo de espera, melhor o atendimento ao paciente. Quando começou a trabalhar no hipódromo, em 2003, o enfermeiro estranhou a rota da ambulância. “No início, eu não tinha noção nenhuma.  Davam a partida e a ambulância corria atrás”, confessa.

 

Apostador. Foto: Carolina Pastl

Na entrada do prédio que dá acesso às pistas, há duas bancas de apostas. À esquerda de quem chega, ficam as competições locais, as que acontecem no Jockey Club e as de outros Estados, como Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. E, à direita, os apostadores podem dar palpite nas competições internacionais, como do Canadá e Estados Unidos. Junto das bancas há televisores que transmitem as disputas nacionais e internacionais. Cada um dos Jockey Clubs regionais realiza a sua competição em dias diferentes. Enquanto a gaúcha acontece na sexta-feira à tarde, as outras provas equestres ocorrem de sábado a segunda-feira.

 

Enfermaria do clube

De acordo com o enfermeiro Alexandre Rodrigues, a principal função da enfermaria é o primeiro atendimento. O maior número dos casos em que o espaço de saúde é acionado é relacionado às quedas, tanto nos trabalhos matinais na raia quanto nos dias de corrida.

Além disso, o enfermeiro trabalha na orientação dos profissionais da instituição sobre drogas e alcoolismo e doenças, como DST’s e tuberculose. A maioria dos funcionários vêm do Interior do Estado. “As pessoas vêm de outro círculo, acostumadas com familiar morando no Interior. Um ambiente muito mais família. E chegam aqui e é uma outra realidade. Então, a gente trabalha aqui para integrar elas à situação [da Capital]. Estou aqui há quinze anos e, graças a Deus, temos conseguido tirar um pessoal do vício das drogas, do alcoolismo”, aponta o enfermeiro.

Alexandre explica que o trabalho com os animais ocorre num determinado horário e que existe muito tempo livre. “Como muitos não conhecem a cidade grande, eles ficam muito aqui e acabam caindo nesse círculo vicioso. Aí se opta: ou pelo álcool ou pela droga. Tanto para esquecer o lado emocional e a falta dos familiares como para ocupar o tempo. E a gente tenta conversar, orientar para que a pessoa tente sair desses vícios”, esclarece.

 

Alexandre pontua os desafios da orientação sobre as drogas. Foto: Giovana Schenato

 

 

História de superação

William Silva, 26 anos, morava na antiga Vila Areião, onde hoje fica a Av. Diário de Notícias, em Porto Alegre. Na época, os pais eram cozinheiros, sustentavam dez filhos. Em 2004, o pai faleceu. “Minha mãe sempre correu atrás para não nos deixar passar fome”, relata o rapaz. “Não tenho vergonha de falar: antes de entrar para o Jockey, muito pão pedi na padaria para não faltar comida em casa”.

Diante da situação familiar, aos 15 anos, William começou a trabalhar em uma madeireira. O guri tinha dois cavalos e uma carroça. “Trabalhando na madeireira, daqui para ali, fazendo o meu serviço, ia ao Jockey buscar restos para o meu cavalo. Ver quem tinha ração para dar. Levava uma vassoura para os caras das cocheiras”, conta. Em 2009, o clube propôs que ele trabalhasse como escovador. Em uma semana, o rapaz deixou a madeireira.

No início, a mãe se opôs ao filho se tornar jóquei: não assinou a matrícula na escola de hipismo. Somente após a maioridade, William pôde montar os cavalos. Com o tempo, o jovem conquistou a simpatia do clube: de escovador, se tornou variador e, por fim, jóquei. Segundo o professor Édison Gastaldo, o feito de William é uma conquista rara. O turfe ainda não possui uma ampla abertura para a participação de pessoas pobres: “É um mercado de trabalho fechadíssimo. Tem um circuito inteiro de veterinários e tratadores que treinam a condição física dos cavalos. Não acho que tenha possibilidade de abertura para participação popular, a não ser pelo intermédio de relações pessoais com gente que circula no meio”. Gastaldo também explica que esse é um traço de mercados hiper-especializados como  o futebol que, em vista disso, estão abertos para poucos. “Se você tem o biotipo de jóquei – em linhas gerais, de baixa estatura e pouco peso para não desequilibrar o conjunto com o cavalo -, alguém consegue alguma indicação e é assim que as coisas funcionam. Você tem uma reserva de mercado entre os próprios participantes desse campo”.

Em junho de 2011, William venceu a sua primeira corrida como jóquei. Em 2014, sofreu um acidente quatro dias antes de disputar o seu primeiro Prêmio Bento Gonçalves, o circuito mais importante do Jockey Club do Rio Grande do Sul. Durante os trabalhos na cocheira, um cavalo trombou contra o rapaz. Resultado: uma fratura no fêmur da perna direita o afastou das pistas de corrida. Em 2016, de volta ao turfe, ganhou o Bento Gonçalves. A partir de então, despontou no esporte. Hoje,  compete nos Jockey Clubs de São Paulo.

Terça-feira, 18h. Os portões do hipódromo se fecham. Cada um dos 470 cavalos já está na sua cocheira. Os trabalhadores tomam o caminho para suas casas. No outro dia, todos retomam a rotina. O que se escuta? O trotear dos cavalos. As passadas do vaivém dos funcionários. O canto dos quero-queros e bem-te-vis. Enfim, o anúncio de mais um dia no Hipódromo do Cristal.

FOTO DE CAPA: Giovana Schenato

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