Porto Alegre vive uma polêmica ambiental nos últimos dias envolvendo a concessão do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, conhecido como Parque Harmonia. A administração da área, à beira do lago Guaíba, foi passada à iniciativa privada há dois anos, mas imagens mostrando a devastação da vegetação local inflamaram as redes sociais e, principalmente, grupos de ambientalistas.
O Harmonia, que anualmente recebe milhares de pessoas durante as festividades farroupilhas, está entre os maiores parques da capital gaúcha. E não é apenas um ponto de encontro, mas sinônimo de vida para diversas espécies de aves e árvores nativas e exóticas. Desde 2021, no entanto, a área está cedido à Gam3 Parks, que vai transformá-la em um grande parque de diversões e centro de eventos.
Para entender o que está em jogo, o Humanista conversou com Paulo Brack (foto abaixo), professor do Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e diretor do Inga (Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais).

A remodelação do parque envolve a derrubada de árvores, mas o cenário atual de canteiro de obras contrasta com o verde que dominava o espaço, motivando uma série de protestos que reivindicam a parada dos trabalhos e revisão dos planos.
A concessão
O caso do Harmonia é mais uma das várias concessões que a Prefeitura de Porto Alegre tem executado nos últimos dois anos. A assinatura da parceria com a Gam3 — realizada junto da concessão do Trecho 01 da Orla do Guaíba — permite que a empresa gerencie e opere o parque pelos próximos 35 anos.
Dentre os destaques da reforma geral do parque está a instalação de um roda gigante com 66 metros, revitalização do tradicional centro de eventos Casa do Gaúcho e a construção de um parque temático com dinossauros. O investimento deve chegar à casa dos R$ 250 milhões até 2027, quando a Gam3 deverá entregar a fase final das obras.
“O turismo local é o que mais vai crescer no pós-pandemia, então nossa cidade tem que estar preparada para isso”, argumentou o prefeito Sebastião Melo (MDB), à época da assinatura do contrato.

“Muita informalidade”
Em meio à onda de protestos e questionamentos sobre o sumiço das árvores, a Gam3 Parks alegou que a prefeitura de Porto Alegre autorizou a derrubada de 435 árvores das cerca de 1300 existentes no Harmonia. O professor Paulo Brack afirma que o abate das árvores não é ilegal, mas destaca a informalidade da situação. “A empresa diz que solicitou o corte de um terço do parque; está dizendo que só cortou 103 e vai cortar menos [que o autorizado], mas não tem nada no papel. Tem muita informalidade no assunto”, denuncia.
“Nós detectamos muitas feridas nas árvores, o pessoal tá passando com tratores por todos os lados, uma loucura. A quantidade de máquinas andando pra lá e pra cá é frenética”. //
Paulo Brack
Além da retirada da vegetação, Brack diz que durante as visitas ao canteiro de obras no Harmonia, também percebeu várias árvores “machucadas” pela movimentação das máquinas, que trabalham a todo vapor para entregar a reforma no mais breve possível. A ideia é que o Harmonia esteja pronto para receber os piquetes que ocupam o espaço durante a Semana Farroupilha deste ano, em setembro.
Avifauna afetada
Segundo o professor Paulo Brack, um estudo de 2005 aponta que o parque é o que mais abriga diferentes espécies de aves na Capital, com 85 tipos variados, incluindo cinco exclusivas. “Mais que a Redenção, Moinhos, Marinha do Brasil, a riqueza de aves é grande. Temos Maçarico, Biguás, Talhamar, Colhereiro, João-Grande. Cinco aves encontradas no Harmonia não foram encontradas em nenhum outro parque urbano de Porto Alegre naquela época”, detalha o professor.
Dessa forma, não só a derrubada das árvores é um perigo, mas também a terraplanagem executada no parque, que retirou a grama que abrigava insetos que servem de alimento para esses animais, afetando diretamente a rica e única avifauna da região. Brack estima que tenha sobrado apenas 20% da área aberta do parque, o resto foi completamente destruído pelas máquinas.

Além da ameaça às aves, o botânico também nota a perda de um local de contemplação da natureza, uma vez que com a concessão, a enorme área vegetal será ocupada por uma roda gigante, parque temático e inúmeras lojas e demais estabelecimentos comerciais.
“A gente está perdendo um espaço para contemplar a natureza, e isso é muito grave. Isso vai ser substituído por consumo, com dezenas de lojas, vários restaurantes, mega-shows, para gerar dinheiro. Um estacionamento gigante, sem nenhuma árvore”, afirma o professor.
Outro fator mencionado por Brack é a alteração do projeto original, que previa uma manutenção melhor de área verde. Ele diz que os arquitetos originais, hoje afastados do projeto, denunciaram as supostas alterações, tanto por questões autorais como pela própria devastação, que de acordo com o professor, originalmente não seria “tão ruim como a está sendo implantada agora.”
Concessionária nega irregularidades
No último domingo (16), dezenas de manifestantes caminharam ao redor do parque para protestar contra as obras da GAM3 Parks. A empresa, por sua vez, emitiu nota afirmando que respeita os portestos, mas acredita que os trabalhos “estão sendo conduzidas dentro dos mais rigorosos padrões legais e ambientais.”
Confira a nota na íntegra:
Entendemos e respeitamos a opinião dos manifestantes. No entanto, temos a convicção de que todas as obras realizadas no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho estão sendo conduzidas dentro dos mais rigorosos padrões legais e ambientais. Antes de iniciar o projeto, realizamos um estudo de impacto ambiental detalhado e buscamos todas as aprovações necessárias dos órgãos competentes. Trabalhamos em estreita colaboração com especialistas para minimizar qualquer impacto. Além disso, temos a fiscalização constante dos órgãos competentes. Temos orgulho de nosso histórico em projetos que respeitam o meio ambiente. Trabalhamos com afinco e estamos sempre atentos para reduzir os impactos. Em breve, após as obras, o parque continuará sendo um espaço valioso e preservado para o usufruto de todos os cidadãos. Temos orgulho de nosso histórico em projetos que respeitam o meio ambiente. Trabalhamos com afinco e estamos sempre atentos para reduzir os impactos. Em breve, após as obras, o parque continuará sendo um espaço valioso e preservado para o usufruto de todos os cidadãos."





1 comentário em “Derrubada de árvores no Harmonia gera protestos e ameaça avifauna”