A atual chanceler, Angela Merkel, foi uma das chefes de estado mais longevas da história da Alemanha, e decidiu não concorrer este ano. As eleições presidenciais do país colocam o espectro da política interna alemã mais à esquerda, com a vitória nas urnas do Partido Social-Democrata. No último fim de semana, foram realizadas eleições para formar o novo governo federal alemão. Após 16 anos como mandatária do país, Angela Merkel, da União Democrática Cristã, deixará o cargo, e o fará com alto índice de aprovação.
Após a divulgação dos resultados, abre-se o prazo para a formação da coalização que sustentará o novo governo. E o Humanista analisa as possibilidades de formação de um acordo, a trajetória de Angela Merkel à frente da Alemanha, o perfil do principal candidato a seu substituto e também as implicações desta eleição para o Brasil.
As eleições, as lições
No dia 26 de setembro, os eleitores alemães foram às urnas para formar um novo governo federal pela primeira vez desde 2005 sem a possibilidade de eleger Angela Merkel para o cargo mais alto do país. O seu partido, a conservadora União Democrata-Cristã (CDU), ficou em segundo na votação, perdendo por 25,7% a 24,1% para o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda. Apesar do alto índice de aprovação do longo mandato de Merkel, na faixa dos 70%, a população optou por uma leve alternância de poder ao votar mais no SPD do que na CDU, levando em conta também a maior popularidade de Olaf Sholz, líder dos social-democratas, em comparação a Armin Laschet, o candidato do partido de Merkel. O mais provável agora é que o SPD tente formar sua nova coalizão governamental sem a CDU, e junto aos Verdes e ao Partido Democrático Liberal, mesmo com as discordâncias entre esses grupos.
Armin Laschet, ministro-presidente do estado da Renânia do Norte-Vestfália e atual líder da CDU, era o principal favorito para vencer as eleições, justamente impulsionado pela alta popularidade de Merkel, que o apoiou. Contudo, seu desempenho na campanha foi bem abaixo do que o seu partido esperava, pela sua falta de carisma, pela alta de casos de Covid-19 no estado que administra, e também por ter sido flagrado dando risadas de uma piada enquanto Frank-Walter Steinmeier fazia um discurso solene em solidariedade às vítimas das enchentes que devastaram parte do país em julho. Seu fraco desempenho fez a CDU perder cerca de 10 pontos percentuais entre as pesquisas de intenção e os votos efetivamente computados na eleição, abrindo caminho para a vitória do SPD.
Outras lições também restaram da eleição alemã. A primeira é o aparente ressurgimento da social-democracia na Europa. Depois de um período em baixa no continente, o sistema político que governou boa parte dos países do bloco europeu durante muitos anos no Século XX – após a Segunda Guerra Mundial – agora se mostra novamente fortalecido, com vitórias recentes em Portugal, nos países escandinavos e agora na maior potência da União Europeia. Além disso, é preciso destacar a força crescente dos Verdes, partido que tem como plataforma principal a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Eles foram os terceiros mais votados, e devem compor a nova coalizão de governo. Por fim, o partido de extrema-direita AfD, com assumidas inclinações neonazistas, teve um resultado pior do que esperavam. Os discursos populistas e conspiratórios quanto à pandemia, que fortaleceram a extrema-direita em muitos países ao redor do mundo, não encontraram muito eco na Alemanha, em razão da competente gestão da crise sanitária no país por parte do governo federal. Assim, acabaram com apenas 11%, perderam alguns lugares no parlamento, e, como já avisaram SPD e CDU, estão fora de qualquer cogitação para formar a nova coalizão governamental.
Angela Merkel e Olaf Scholz
Angela Merkel, formada inicialmente em Química Quântica, governa a Alemanha desde 2005. Nesses 16 anos de liderança, em que se tornou a terceira mais longeva chefe de estado da história da Alemanha, ela colecionou mais elogios do que críticas, e se consolidou como uma das mulheres e líder mundial mais poderosas do mundo – por vezes a mais. Recentemente, além de ser a principal força política da União Europeia, também se firmou como um importante ponto de resistência à ascensão da extrema-direita, na Alemanha, no continente europeu e no resto do mundo.
Entre os principais eventos históricos que passou como mandatária suprema de seu país, liderou a Alemanha durante a crise econômica mundial de 2008, a crise da zona do euro em 2013, a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, a crise de refugiados desta década e agora a pandemia da Covid-19. À esquerda global, foi principalmente criticada por sua negociação implacável contra os países mais pobres do bloco europeu, especialmente a Grécia, durante a crise do euro. À direita, foi criticada por supostamente “abrir as portas” da União Europeia para milhões de refugiados em 2015 e 2016, mesmo que anteriormente seu histórico no tema também fosse duro, com deportações questionáveis de imigrantes por parte da Alemanha. No geral, é definida como ponderada, inteligente, gestora eficiente e com boa capacidade de resolução de conflitos complexos, além de representar o principal bastião de estabilidade da União Europeia.
Se uma coalização liderada por Olaf Scholz realmente se confirmar, manter o bloco europeu unido será imediatamente um de seus maiores desafios, ainda mais que a França, o segundo país mais forte da União Europeia neste momento, terá eleições presidenciais daqui a seis meses. Scholz já é um político experiente, e agora terá sua grande prova de fogo para mostrar se está à altura do desafio. Aos 63 anos, formado em Direito, ele entrou no parlamento alemão pela primeira vez em 1998. Em sua carreira política, também foi prefeito de Hamburgo, Ministro de Finanças e Vice-Chanceler da própria Angela Merkel, cargo que ocupa ainda na atualidade.
Scholz começou as pesquisas como terceiro candidato, mas cresceu na reta final e acabou vencendo. Mesmo sem a intenção inicial de formar uma coalizão governamental com a CDU, ele sempre elogiou o governo de Merkel e fez reiteradas promessas de continuidade e estabilidade, o que agradou o eleitorado alemão. As questões climáticas também ocuparam boa parte da plataforma de campanha de Scholz, o que reforça a relevância atual do tema e também a importância que os Verdes devem ter em um futuro governo, se confirmado. O desejo do SPD é que a nova coalizão governamental esteja formada e aprovada até o Natal.
Implicações para o Brasil
Essa aliança entre SPD e Verdes, se confirmada, deve ter implicações sensíveis ao Brasil. Enquanto Merkel sempre manteve uma postura extremamente pragmática em sua política externa, com Scholz esse cenário deve mudar, principalmente nas questões ambientais, o que atinge diretamente o Brasil, principalmente se os membros dos Verdes tiverem maior protagonismo nas tomadas de decisão do novo governo.
O partido já criticou publicamente a política ambiental do governo federal brasileiro, principalmente em razão dos altos índices de desmatamento da Amazônia. Essa incompatibilidade de entendimento quanto à crise climática e o desenvolvimento ambiental pode acarretar problemas para assinaturas de importantes acordos bilaterais entre os dois países no futuro, sendo a Alemanha um dos maiores parceiros comerciais brasileiros na Europa. O acordo entre União Europeia e Mercosul também poderá ficar mais ameaçado se essa nova posição do governo alemão se confirmar.
Fora as questões ambientais, o alinhamento ideológico entre Bolsonaro e os principais líderes do SPD também está bem distante. Os sociais-democratas estão mais à esquerda do que Angela Merkel, e ainda mais distantes da extrema-direita representada pelo AfD, partido que teve alguns de seus representantes recebidos recentemente por Jair Bolsonaro em Brasília. Martin Schultz, um dos principais líderes do SPD e candidato forte a assumir um cargo ministerial de importância num futuro governo de Scholz, foi até Curitiba em 2018 visitar o ex-presidente brasileiro Lula enquanto ele esteve preso, e já manifestou admiração pública ao líder político brasileiro diversas vezes. Se a coalizão liderada pelo SPD realmente se confirmar, o Brasil, pelo menos até as eleições presidenciais nacionais de 2022, deve ficar ainda mais isolado na arena internacional, agora também mais afastado da Alemanha.
*Mathias Boni é advogado, com especialização em Direito Internacional e Direitos Humanos e Mestrado em Migração Internacional e Direito dos Refugiados. É aluno do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS e mantém coluna sobre assuntos internacionais no portal Humanista. Contato: mathiasboni@hotmail.com.




