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Entenda o que é neurodiversidade e por que é uma luta também política

Compreenda o que significa os termos “neurodiversidade” e “neurodivergência” e a importância desse movimento na luta por equidade social

A neurodiversidade é a constatação de que o cérebro de cada pessoa tem um funcionamento neurológico diferente. Segundo a socióloga australiana Judy Singer, que cunhou o termo em 1998, todas as pessoas do mundo são neurodiversas, sejam elas típicas ou neurodivergentes. Tanto em sua composição biológica, quanto em seu funcionamento prático, com a formação de personalidade e de costumes próprios, cada cérebro funciona de uma maneira única. Nesse sentido, não há uma forma certa ou errada do funcionamento cerebral, apenas formas diferentes.

Nesta edição do #ExplicaçãoHumanista, apresentamos as principais informações a respeito da neurodiversidade e neurodivergência e seus desdobramentos como pauta política e social. 

Afinal, o que é a neurodiversidade?

O termo nomeia tanto a ideia de pluralidade neurológica, quanto o movimento social das minorias neurológicas em favor de seus direitos. Judy Singer começou a atuar como ativista da causa após sua filha ser diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Posteriormente, a pesquisadora descobriu que também possuía traços de autismo, assim como sua mãe.

Dentro dessa diversidade, existem pessoas consideradas neurotípicas e neurodivergentes. As neurotípicas são aquelas cujo funcionamento neurológico acontece dentro dos padrões esperados pela sociedade. Já a expressão “neurodivergência” foi cunhada pela a ativista com divergências múltiplas Kassiane Asasumasu em 2000, com o objetivo de designar pessoas com formação cerebral diferente do considerado típico como, por exemplo, pessoas autistas e pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Segundo o psicólogo especialista em avaliação psicológica de transtornos do neurodesenvolvimento César Marques, a ideia da neurodivergência surge com o objetivo de retirar o estigma patológico difundido sobre essas pessoas. Nesse paradigma, essas diferenças não podem ser vistas como doenças, mas como variações naturais da biologia humana, que não são passíveis de cura. “O termo fala sobre essas pessoas que têm condições que eram consideradas psicopatologias, mas que o movimento da neurodiversidade reivindica que na verdade são condições, não transtornos a serem tratados, mas uma especificidade humana que precisa ser respeitada mesmo sendo diferente”, afirma. 

Como não existem cérebros defeituosos, isso também significa que não há como definir um padrão de “normalidade” – mesmo existindo construções sociais que beneficiem alguns indivíduos em detrimento de outros. Sendo assim, o termo “neurotípico” não descreve um tipo de cérebro em nenhum sentido biológico, mas um modo de ser e de pensar que é culturalmente valorizado e socialmente favorecido em relação a outras disposições, consideradas neurodivergentes.

Embora, inicialmente, amovimento neurodivergência fosse mais associada às pessoas com TEA, TDAH e transtornos de neurodesenvolvimento em geral, à medida que o movimento cresceu e ganhou visibilidade, pessoas com outros tipos de diferenças neurológicas também aderiram a essa identidade.  Ao longo do tempo, o conceito se expandiu para abranger Transtornos Específicos de Aprendizagem, como Dislexia, Disgrafia e Discalculia, além de Síndrome de Tourette, Altas Habilidades e Superdotação (AHSD) e Transtornos do Desenvolvimento Intelectual, como Síndrome de Down e Síndrome de Rett, entre outros. Ativistas como Kassiane Asasumasu também incluem como neurodivergências transtornos mentais como Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), Esquizofrenia, transtornos de personalidade como Transtorno Borderline, além de doenças que afetam o sistema nervoso central, como Epilepsia, Parkinson e diferentes tipos de Esclerose.

A neurodiversidade é a biodiversidade aplicada ao campo neurológico: todas as espécies do planeta integram a biodiversidade, mas nenhuma é “mais” ou “menos” diversa do que a outra, pois o conceito só é formado na comparação de todas.

Ainda que as palavras “neurodiversidade” e “neurodivergência” sejam muito confundidas, elas não são sinônimos. A neurodiversidade diz respeito à variedade existente entre todas as pessoas, típicas ou não, enquanto a neurodivergência se aplica a indivíduos específicos.

O paradigma médico e social da neurodivergência

A neurodiversidade é uma luta política que busca a inclusão e acessibilidade, com a disponibilização de saúde e tratamentos adequados para as pessoas que necessitem. Além disso, é também a luta pela garantia de ambientes adaptados para receber essas pessoas, bem como por um sistema educacional que compreenda as diferenças de aprendizado entre os alunos e se adeque às suas necessidades. Outra finalidade é a da promoção de conscientização social sobre a temática e do respeito às neurodivergências. Porém, muito mais do que isso, a neurodiversidade diz respeito a uma mudança de perspectiva.

Para Judy Singer, a neurodiversidade deve ser respeitada e reconhecida, assim como outras categorias de minorias sociais, como etnia, raça, gênero, orientação sexual, classe econômica. O paradigma social da neurodiversidade explica que não existe um modo “certo” de se pensar, assim como não existem culturas, raças e gêneros “certos” ou “errados”.

“Por político, quero dizer o processo combativo através do qual grupos organizados nas sociedades tomam decisões sobre como alocar recursos, poder e estatuto. Os membros das minorias neurológicas, rotulados como diagnóstico ou não, têm sido geralmente discriminados […] o que afeta nosso padrão de vida, a menos que tenhamos a sorte de nascer em um família abastada. Isto deve mudar”, reflete.

De acordo com César Marques, a visibilidade do movimento nas últimas duas décadas resultou em uma série de conquistas para as pessoas neurodivergentes. Uma delas é a regulamentação do cordão de girassol, utilizado como símbolo para demarcar deficiências invisíveis ou ocultas. Além das neurodivergências, as deficiências ocultas incluem surdez, fibromialgia, lúpus, entre outras. Embora existam controvérsias sobre a utilização da palavra “deficiência” para classificar as neurodivergências, a utilização do cordão garante alguns direitos para pessoas atípicas, como a utilização da fila preferencial em estabelecimentos comerciais ou serviços públicos.

Transtorno do Espectro Autista

O Transtorno do Espectro Autista é um distúrbio de neurodesenvolvimento, caracterizado por déficits na comunicação e na interação social, além padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados, o que pode causar dificuldades em entender ironias, tons de voz e expressões faciais. Alguns autistas podem ter déficits de aprendizagem, enquanto outros possuem um grau de conhecimento e habilidades acima do comum em suas áreas de interesse específico – conhecidas como hiperfocos – as quais variam de acordo com o indivíduo. O atraso no desenvolvimento já pode ser percebido na infância e, assim que constatado pela família, é recomendado encaminhar a criança para a terapia.

A prevalência de diagnósticos de TEA é mais comum em pessoas designadas do sexo masculino ao nascer. Entretanto, muitas mulheres autistas acabam não sendo diagnosticadas ou são diagnosticadas tardiamente, pois, embora se sintam desconfortáveis em algumas situações sociais, conseguem esconder suas características divergentes ao “copiar” os comportamentos das pessoas neurotípicas a sua volta, uma prática conhecida como masking (do inglês “mascarar”).

Nas últimas duas décadas, a porcentagem de pessoas com diagnósticos de TEA mais do que dobrou ao redor do mundo. No ano 2000, apenas 6,7 a cada mil pessoas possuíam o diagnóstico nos Estados Unidos. Em 2020, porém, o número subiu para 27,6 a cada mil. Isso não quer dizer que exista uma proporção maior de autistas nas novas gerações. Embora não haja um consenso na comunidade científica sobre as razões do aumento de casos, é provável que um dos principais motivos é a visibilidade que o movimento ganhou na atualidade, que fez com que mais pessoas identificassem atipicidades e procurassem terapia. As mudanças nos critérios de diagnóstico, a criação de mais escolas adaptadas e a capacitação de profissionais para atuar na área facilitam o mapeamento do transtorno.

Pessoas com TEA podem ter comportamentos diferentes dependendo do nível de suporte que necessitam. Pessoas com autismo de nível um precisam de pouco suporte, e tem mais autonomia e habilidade para realizar tarefas diárias sem ajuda de terceiros. Pessoas com autismo de nível dois precisam de uma quantidade intermediária de suporte, enquanto autistas de nível três precisam de muito suporte, necessitando de ajuda para realizar tarefas como se alimentar ou se vestir, além de ter mais dificuldades de comunicação, sendo, muitas vezes, pessoas não-verbais.

Segundo César Marques, grande parte dos autistas que integram o movimento da neurodiversidade são de nível um ou dois, que têm independência para se posicionarem e exigir os seus direitos. Enquanto isso, autistas de nível três, por dependerem de auxílio, muitas vezes, acabam sendo representados pelas mães e outros parentes e amigos. Por conta dessas diferenças, algumas reivindicações do movimento são válidas para certos grupos de autistas, enquanto, para outros, podem não se encaixar.

Para Marques, o importante é fazer uma análise clínica de cada caso: “Um bom profissional da saúde que trabalha com pessoas com transtornos de desenvolvimento precisa atuar pensando no conceito de neurodiversidade, sabendo que têm comportamentos que nós não precisamos modificar, que são comportamentos típicos daquela pessoa. Porque uma coisa é eu querer que aquela pessoa seja socialmente aceitável para os outros, e outra coisa é eu dar ferramentas para ela conseguir fazer as coisas que ela quer fazer. Eu não preciso intervir sobre algo que a pessoa não quer que seja diferente na vida”.

3 comentários em “Entenda o que é neurodiversidade e por que é uma luta também política”

  1. Estudo bastante esclarecedor, muito importante para toda a sociedade, e ainda mais para quem trabalha na área educacional, onde a demanda de pessoas com essas necessidades é significativamente relevante, torna-se essencialmente indispensável esses conhecimentos.

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  2. O conhecimento é tudo!
    Evoluímos muito nos últimos tempos, entendendo que cada pessoa funciona diferente!
    E isso é muito importante para o nosso trabalho enquanto educadores.

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