América Latina vive efervescência política e social; entenda

Bolívia, Equador, Chile, Argentina e Uruguai viveram, em outubro, eleições presidenciais. A exigência por mudanças políticas nos países levaram milhares de manifestantes às ruas.

Laura Hülsemann, com colaboração de Caroline Silveira

As recentes eleições presidenciais ocorridas em países latinoamericanos, abriram os olhos do mundo para a insatisfação de bolivianos, equatorianos, chilenos, argentinos e uruguaios para com os seus atuais governos. De fraudes políticas à péssima administração, o povo latino acusa seus líderes de diferentes erros, e exige mudanças imediatas.

Devido às grandes proporções dos protestos – em especial no Chile -, convidamos a intercambista alemã Laura Hülsemann, para analisar de um ponto de vista das relações internacionais a situação que a América Latina vive.

Bolívia

Em 20 de outubro foi realizada a eleição presidencial da Bolívia, e os resultados abalaram o país. Evo Morales foi reeleito em primeiro turno, com 47% dos votos (10,56 a mais que o segundo colocado, Carlos Mesa), mas o processo eleitoral boliviano não foi transparente e existem acusações de manipulação. No resultado preliminar, Morales não emergiu como um vencedor. Contudo, 24 horas depois, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) apresentou uma inexplicável mudança nos dados, o que modificou drasticamente o destino das eleições, gerando uma perda de confiança no processo eleitoral. 

No dia 25 de outubro, o engenheiro informacional Edgar Villegas – que comparou e analisou os protocolos eleitorais publicados pelo TSE – declarou que havia muitos indícios de fraude eleitoral. Sua análise afirmou que cerca de mil desses protocolos foram manipulados em favor do MAS (Movimiento al Socialismo – “movimento para o socialismo” em tradução livre), partido que já estava no poder. No mesmo dia, a organização anunciou Morales como vencedor. Como reação às acusações de fraude, a OEA (Organização dos Estados Americanos) anunciou seu plano de auditar os resultados para decidir se as pesquisas deveriam entrar no segundo turno. Não obstante, os líderes da oposição dizem que “desconfiam de uma auditoria eleitoral realizada pela Organização dos Estados Americanos e desejam uma nova eleição”. Outras organizações internacionais, como a União Europan, sugeriram realizar um segundo turno para aumentar a transparência.

As acusações de fraude levaram a protestos violentos entre apoiadores e oponentes de Morales. Essas acusações de fraude ​​causaram profunda preocupação e surpresa, levando a protestos na maioria das grandes cidades da Bolívia. As manifestações foram violentas e a tensão entre apoiadores e oponentes do candidato eleito foi intensa, acabando com duas mortes. Uma greve foi colocada em questão no país, além  da exigência pelo cancelamento dos resultados ou uma disputa direta entre Morales e Mesa.

As razões mais fortes para se opor a Morales são as acusações de corrupção. O boliviano também foi criticado por suas políticas ambientais, que permitiram que agricultores limpassem quatro vezes mais terras para fins agrícolas, levando à destruição de quatro milhões de hectares de florestas e pastos no leste do país. O apoio do presidente vem principalmente das áreas rurais e de bolivianos da classe trabalhadora, pois suas políticas sociais melhoraram as infra-estruturas locais, a educação e as estradas.

Em fevereiro de 2016, os bolivianos votaram contra as mudanças constitucionais que visavam expandir a presidência para mais de 2 mandatos. Embora Morales tenha prometido respeitar o referendo ele ignorou o resultado, contestando a decisão no tribunal de primeira instância, o que lhe permitiu concorrer pela quarta vez consecutiva. Seu oponente mais forte, Carlos Mesa, explica que “13 anos, quase 14, é demais. É injustiçado, corrupto e autoritativas demais, o que está nos levando a um relacionamento ativo”. Nas primeiras eleições desde 2006, Morales enfrentou sérias oposições e não ficou claro se ele emergiria como vencedor.

Enquanto isso, o cientista político Ivan Arias explica que os bolivianos estão começando a apoiar Mesa para protestar contra Morales. “Ele não tem um partido político, não fez um acordo. Se ele tivesse mostrado mais caráter, não teria 8 pontos a menos, ele pesaria pescoço a pescoço e talvez até vencesse Morales”, afirma.

Protestos no Equador e no Chile

Em outubro, centenas de milhares de equatorianos protestaram contra o fim dos subsídios aos combustíveis, o que levou a um aumento dos preços do petróleo e dos bens de consumo, além da escassez do produto. O presidente do Equador, Lenín Moreno, explicou que os subsídios ao combustível – com o valor de 1,3 bilhão de dólares – não eram mais acessíveis.

Os cortes nos subsídios aos combustíveis foram uma tentativa de ajudar a economia. Além disso, o FMI (Fundo Monetário Internacional) exigiu o cancelamento dos subsídios em troca de um empréstimo de 4 bilhões de dólares. No entanto, o preço do produto subiu mais de 100%, e atingiu de maneira desproporcional as partes mais pobres da população – pequenos agricultores e indígenas. O aumento de preços levou a bloqueios de estradas e rodovias, captura de policiais e greves gerais.

Moreno declarou emergência nacional de dois meses para lidar com a situação. Como resposta, a Conaie (Confederação das Nações Indígenas do Equador) declarou um estado de exceção em áreas indígenas, onde soldados e policiais foram detidos para enfrentar “justiça indígena”. Lenín teve que cancelar seu plano de cortar os subsídios devido às agitações em todo o país.

O Chile também foi dominado por fortes manifestações nas últimas duas semanas. Começando com a demonstração de insatisfação por parte dos estudantes, após um aumento de 3,75% na tarifa de metrô. Os protestos se transformaram há muito tempo em um ato crítico contra as políticas neoliberais de privatização da água, da educação e do aumento de outras mercadorias de consumo. Enquanto os protestos na Argentina, Equador e Bolívia desafiam principalmente as políticas do governo, os manifestantes chilenos vão além, e exigem uma mudança de sistema para enfrentar problemas sociais, políticos e econômicos. Como tal, o aumento da tarifa do transporte público foi chamado de “o topo do iceberg” dos problemas do país.

Embora o Chile já tenha sido considerado exemplo por sua política neoliberal, ele não conseguiu erradicar a pobreza com medidas de privatização, e é o país da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com a distribuição mais desigual de riqueza e renda.

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, declarou estado de emergência. Durante as manifestações,  18 pessoas foram mortas, enquanto 7 mil foram presas. Os manifestantes estão estabelecendo vínculos entre as políticas atuais e as ditaduras passadas, exigindo especialmente uma mudança de constituição, porque o Chile é “o único país da América Latina que tem a mesma constituição que temia durante a ditadura“. Violações de direitos humanos, brutalidade policial e desigualdade permanecem desafiando a democracia chilena. Os protestos foram encerrados, estações de transporte público foram queimadas, supermercados, bibliotecas e outros edifícios públicos foram invadidos e esvaziados.

A relação tóxica da Argentina com a inflação

A Argentina, semelhante à Bolívia, possui um sistema de votação em que o candidato vence as eleições caso termine 10 pontos à frente do segundo lugar, se ganhar 40% ou mais dos votos. Se essas codificações não forem cumpridas, é realizado um segundo turno entre os dois candidatos mais votados.

No dia 11 de agosto, foram realizadas as eleições primárias abertas e o então presidente, Mauricio Macri, ficou em segundo lugar com 31,80%. O peronista Alberto Fernández foi eleito, conquistando 47,8% dos votos. Como resultado, o peso argentino subiu de 45 para 60 pesos – equivalente a um dólar, – agravando ainda mais a atual crise inflacionária na Argentina.

Macri, apoiado por homens ricos e agricultores de classe alta, foi eleito em 2015 com a esperança de que resolvesse a crise econômica no país. No início de seu mandato, os economistas tinham grandes expectativas. Os investidores internacionais deram boas-vindas às suas políticas neoliberais, como os movimentos para flutuar o peso e eliminar os conflitos de capital de exportação.

Na época, ficou claro para todos que o peso argentino estava supervalorizado, mas foi um choque para o país a velocidade em que o peso mudou em relação ao dólar. A depreciação do peso tornou a dívida da Argentina mais cara para o governo, e os investidores ficaram preocupados com os meios capazes de controlar a inflação. Como conseqüência, a Argentina teve que aceitar um contrato de financiamento do FMI de 57 bilhões de dólares, que foi aprovado no ano passado e que constitui o maior empréstimo já concedido pelo fundo. No entanto, o empréstimo incluiu cortes de gastos impopulares em benefícios de pensão e subsídios públicos, que atingiram famílias e empresas que sofrem com recessão e alta inflação.

Macri também reduziu a impressão de dinheiro para financiar o déficit orçamentário, fazendo com que os preços ao consumidor subissem. O custo das importações aumentou, os empregos estão em risco, e a taxa de desemprego é de 10,6%. A pobreza aumentou. É claro que essas tendências não ajudaram Macri e levaram à diminuição de sua popularidade.

Alberto Fernandez, juntamente com a vice-presidente de sua chapa, Cristina Fernandez de Kirchner – que foi presidente de 2007 a 2015 -, desafiou Macri na eleição. Kirchner, além de ser uma das personalidades políticas mais importantes do país, está agora em julgamento devido às acusações de corrupção – são 11 casos, além de acusações de lavagem de dinheiro. Como senadora, ela é protegida por imunidade parlamentar – o que impede sua prisão, mas não o processo. A ex-presidente argentina rejeita as acusações e afirma que é inocente, sendo vítima de uma campanha de ódio criada por Macri.

Era esperado que concorresse à presidência, então foi uma surpresa para os argentinos o anúncio de que seria vice-presidente de Fernández. A oposição o acusa de ser apenas um fantoche para Cristina.

Embora os políticos saibam que a solução da inflação é reduzir os gastos públicos, equilibrar o orçamento e deixar de depender tanto do banco central, eles não o implementaram na Argentina. A causa do desastre é que “todos os governos se dedicaram a estimular a descontração, recorrendo a questões de endividamento tanto interno quanto externo e emitindo dinheiro”. A inflação tem sido considerada uma doença crônica da Argentina, já que desde 1950 o país só conseguiu passar 10 anos com a inflação em um nível moderado de 4%. O país se encontra no terceiro ano de recessão e atividade econômica em declínio – 170 mil empregos foram cortados e 23 mil negócios foram fechados.

A sociedade, as notícias e as políticas da Argentina estão profundamente polarizadas, o que se deve ao problema de que “ninguém entende que o outro lado pode ter uma boa idéia. Então, eles revertem tudo o que a administração antes deles fazia”, ​​como explica Javier Arguedas.

Nas eleições de 27 de outubro de 2019, Mauricio Macri se tornou o primeiro presidente da história da Argentina a ser derrotado em sua reeleição. Fernández herdou uma situação econômica difícil e é imprevisível como ele será capaz de lidar com isso. Ele disse que procura evitar as políticas de austeridade exigidas pelo FMI, e também expressou seu desejo de reestruturar a dívida do país, prolongando os pagamentos. Além disso, prometeu enfraquecer a dependência argentina aos Estados Unidos. Portanto, China e Russia se tornaram fontes cada vez mais atraentes de investimento e parceiros comerciais ativos.

Uruguai

Eleições também foram realizadas em 27 de outubro no Uruguai, mas sem nenhum candidato eleito. O segundo turno será realizado em 24 de novembro, com Daniel Martinez enfrentando o conservador Luis Lacalle Pou.

Após 14 anos da Frente Ampla no governo, Lacalle Pou promete trazer mudanças para o país. Os problemas que o território está enfrentando dominam os debates pré-eleitorais. Além de dificuldades econômicas, um aumento na taxa de homicídios de 46% levou a pedidos de investimos na segurança e no policiamento.

Os relatórios da plataforma Open Democracy e Economia Feminista revelam que Argentina e Uruguai enfrentam um aumento de candidatos religiosos, que se opõem aos direitos sexuais e reprodutivos. Tópicos adicionais – como o papel da igreja católica, direitos ao aborto e feminismo – entraram no debate político nos últimos anos e dividiram a sociedade de acordo com a idade e as linhas religiosas.


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*Laura Hülsemann é alemã e estudante de graduação em Relações Internacionais na Leiden University (Holanda). Atualmente, realiza intercâmbio junto ao IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UFRGS e mantém uma coluna sobre assuntos internacionais no Humanista durante o segundo semestre de 2019. Contato: laurahuelsemann@gmail.com


FOTO DE CAPA: Carlos Figueroa/Wiki Commons

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