As imagens que marcaram a semana não vieram de coletivas nem de relatórios oficiais. Vieram da praça da Penha, no Rio de Janeiro, onde famílias alinharam os corpos que o Estado deixou na mata. O fotógrafo Bruno Itan descreveu o “cheiro da morte” e corpos mutilados, uma cena incompatível com o discurso de “sucesso” proclamado pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).
A megaoperação que mobilizou 2.500 agentes deixou pelo menos 121 mortos, tornando-se a mais letal da história do país e superando o massacre do Carandiru. O objetivo declarado era capturar a cúpula do Comando Vermelho, mas nenhum líder foi preso. Doca, o “número dois” da facção, segue foragido. Foram apreendidos menos de cem fuzis diante dos cerca de dois mil estimados nas comunidades. A cidade parou. Escolas e postos de saúde fecharam, linhas de ônibus foram suspensas e moradores ficaram sitiados. Um retrato de uma operação mal planejada.
O episódio expõe a lógica falida da segurança pública brasileira, que confunde força com eficácia e transforma o confronto em rotina. Quando o Estado mata, destrói a própria capacidade de investigação. Mortos não falam. Ao eliminar os executores do tráfico — a base pobre e substituível da engrenagem —, o poder público apaga as informações que poderiam desarticular as redes que financiam e sustentam o crime. E, ao mesmo tempo, incentiva a escalada da violência. Se o criminoso sabe que será morto, não se entrega. O resultado é previsível: mais tiroteios, mais vítimas e nenhuma solução.
Três das cinco maiores chacinas policiais do Rio ocorreram sob o atual governo. Em baixa popularidade e de olho nas eleições de 2026, Cláudio Castro repete a velha estratégia de transformar sangue em capital político. O espetáculo da violência serve como demonstração de força para uma base conservadora que aplaude o “combate ao crime”, mesmo quando o combate é contra o próprio povo. O Estado, assim, abdica da justiça e se torna cúmplice da barbárie.
A história mostra o quanto essa política é autodestrutiva. Cada operação desse tipo oferece ao tráfico novos argumentos para se apresentar como resistência à brutalidade policial e recrutar mais jovens. A chamada “guerra às drogas”, sustentada há três décadas, nunca enfraqueceu as facções. Pelo contrário, tornou-as mais organizadas e mais ricas. O verdadeiro poder do crime não está nos morros, mas nos fluxos financeiros e nas conexões políticas que o Estado evita enfrentar.
Por trás dessa estratégia há também um componente estrutural: o racismo. As vítimas da violência policial no Brasil têm cor e endereço. São, em sua maioria, pessoas negras, pobres e periféricas. O que se chama de “guerra ao tráfico” é, na essência, uma guerra ao povo preto — um genocídio naturalizado e televisionado.
A ilegalidade é evidente. A operação desrespeitou a decisão do Supremo Tribunal Federal na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, que, quando observada, reduziu a letalidade policial em 34% e provocou também uma queda nos crimes contra a vida e o patrimônio. A lição foi ignorada e o Estado voltou a medir eficiência pelo número de corpos. Mas a população não se deixa enganar. Pesquisa Datafolha mostra que 77% dos moradores do Rio consideram a investigação mais importante do que matar criminosos, e 73% discordam da ideia de que quem morre em operação é sempre bandido.
Há alternativas. A Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, desarticulou a estrutura financeira do PCC sem disparar um tiro. Seguindo o dinheiro e bloqueando ativos, atingiu o coração do crime — o lucro. As facções funcionam como empresas, e combatê-las exige inteligência. O exemplo mostra que rastrear recursos e enfraquecer redes financeiras é muito mais eficaz do que invadir favelas com blindados. A segurança pública precisa de menos caveirões e mais investigação. De menos retórica e mais presença do Estado onde ele falta: nas escolas, nos postos de saúde, nas políticas de moradia e cultura.
O massacre no Rio não foi exceção. Foi o retrato de uma política de morte que fracassa desde sempre. O desafio é romper o ciclo e construir outra lógica, uma que não veja cidadãos como inimigos e não use o medo como ferramenta de poder. A democracia não resiste quando o Estado transforma a favela em alvo. E nenhum país sobrevive ao hábito de chamar a morte de seus cidadãos de “sucesso”.
O Humanista reafirma que segurança pública e democracia não são forças opostas. Uma só existe plenamente quando a outra é garantida. É dever do Estado proteger vidas, não contabilizá-las. O país precisa abandonar a política do sangue e reconstruir, com inteligência e humanidade, o sentido de segurança que ainda pode caber numa democracia. Seguimos vigilantes, na expectativa de contribuir com esse propósito ao produzir conhecimento sobre os acontecimentos públicos e suas repercussões.




