Laura Berrutti
Os ponteiros do relógio marcavam quase meio-dia quando as luzes da viatura da BM iluminavam a porta de entrada da delegacia. Uma jovem loira de cabelo cacheado chegou conduzida pela polícia após ter sido agredida pelo parceiro. O filho, a mãe, o pai e mais dois familiares a acompanhavam. O agressor havia sido levado para a DPPA (Delegacia Policial de Pronto Atendimento). E a família aguardava a avaliação do delegado de plantão na sala de espera da Delegacia da Mulher. Eles não quiseram falar com a reportagem.
Minutos mais tarde, uma mãe e uma filha chegam, também encaminhadas pela BM. A jovem havia se cansado de ser agredida verbalmente pelo irmão, que também tem histórico de violência física. Ela estava decidida a tomar uma providência e tentava convencer a mãe de que a medida protetiva poderia ser a melhor opção. “A gente nunca pensa que na família da gente vai acontecer isso”, dizia a matriarca (cuja identidade também é preservada para preservar sua segurança). Para ela, a agressão verbal incomoda mais do que a física. “O tapa passa, a palavra não.”
Neste momento, o delegado de plantão na DPPA informa à família da jovem loira, de cabelos cacheados, que chegara por volta do meio-dia, que o flagrante havia se configurado. A vítima, porém, decidiu não prestar queixa; queria apenas pedir a medida protetiva e “tomar um banho”, cansada. Ela solicitou que a BM a acompanhasse até a casa para que pudesse retirar os seus pertences antes que o agressor fosse liberado. As policiais alertaram que ela precisava retornar à tarde para fazer o exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal). A família preferiu não revelar à reportagem detalhes da ocorrência, mas uma conversa com a policial que a atendeu indica que foi grave.
As policiais permaneciam atentas à porta a cada ruído. Mulheres sentavam nas cadeiras e preenchiam formulários. Com o passar das horas, o cenário se repetia, o que mudava eram as personagens. Durante a primeira parte da tarde, vítimas com múltiplas queixas: algumas haviam sido ameaçadas ou agredidas pelos seus parceiros, outras queriam denunciar ex-companheiros que continuavam as perseguindo ou uma mãe que era violentada todas as semanas pelo seu filho com autismo, que recusava-se a tomar os remédios.

As cadeiras na sala de espera estavam cada vez mais ocupadas. Isso porque, além da grande demanda do turno, uma das policiais estava há duas horas atendendo uma das mulheres que havia chegado no final da manhã. Era nítida a sensibilidade com a qual as agentes do plantão atendiam as vítimas: elas sabiam exatamente identificar os pormenores das histórias e auxiliar essas mulheres por meio das ferramentas que estavam ao alcance. Às vezes, contudo, atender a todas as necessidades da vítima pode tornar-se uma tarefa árdua ante às limitações do Estado.
Uma das mulheres que procurou a delegacia na tarde de sábado estava há 15 dias em situação de rua. Ela explicava que o seu ex-companheiro não permitia mais que ela entrasse na casa do casal. Eles já haviam terminado uma relação que, de acordo com ela, era abusiva, há dois anos, mas ainda moravam juntos. A vítima pedia à polícia para ser encaminhada a uma casa abrigo, mas a agente explicava que a instituição mantida pelo município e destinada às vítimas de violência doméstica possuía poucas vagas – e já estavam todas preenchidas. Atualmente, a Casa de Apoio Viva Maria possui apenas 10 pessoas vagas. A única alternativa era um albergue. Ela foi a única das mulheres que não quis entrar com um pedido de medida protetiva já que, como a guarda das crianças é do pai, ela poderia não conseguir se aproximar. Certamente um dilema nada fácil para uma mãe.
O sol já havia caído quando a última vítima da tarde chegou na delegacia, abraçada aos pais. As plantonistas estavam, pela primeira vez desde às 10 horas da manhã, recuperando as energias na calçada em frente à delegacia. A família estava preocupada porque o namorado da adolescente, de 18 anos, ameaçava divulgar vídeos íntimos caso ela terminasse com ele. As gravações haviam sido feitas com o consentimento dela, ainda quando a garota era menor de idade. De acordo com eles, a mãe do jovem, quando fora alertada da situação, disse que era melhor não contrariarem o rapaz. Depois de uma longa conversa com a policial, decidiram que entrariam com um pedido de mandado de busca e apreensão do telefone celular e com uma medida protetiva. “Durante um tempo, me culpei, mas ele não pensou em mim quando fez o que fez. Então, por que tenho que me preocupar com ele?”, desabafa a adolescente.
Divulgar imagens íntimas gravadas com ou sem o consentimento da vítima é crime tipificado no Código Penal e pode resultar em até cinco anos de prisão. Ainda assim, muitas mulheres são vítimas desse tipo de exposição e têm suas vidas devastadas, como o Humanista reportou no início de 2019.
24 horas na Delegacia da Mulher
FOTOS: Laura Berrutti/Humanista




