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Mais do que nunca desigualdades digitais impactam vida das pessoas, avalia membro de painel da ONU

Professor do Instituto de Informática da UFRGS, Edson Prestes integra o Painel de Alto Nível sobre Cooperação Digital da Organização das Nações Unidas.

Steffany Cuacoski / #EntrevistaHumanista

A Carta das Nações Unidas, marco mundial para os direitos humanos, completa 75 anos neste sábado, dia 24, e para lembrar da data, o Humanista pauta um direito fundamental em tempos de pandemia de covid-19: a inclusão digital. “Mais do que nunca, essas desigualdades digitais estão impactando a vida das pessoas, dos jovens e, principalmente, dos estudantes”, avalia o professor Edson Prestes, membro do Painel de Alto Nível sobre Cooperação Digital da ONU.

O dia 24 de outubro ficou marcado como Dia das Nações Unidas (UN DAY) ou dia da ONU (Organização das Nações Unidas). O marco registra a data em que, em 1945, entrou em vigor o documento que reafirma o respeito aos direitos e liberdades fundamentais de homens e mulheres, a dignidade e o valor do ser humano, a manutenção da paz e segurança mundial e a promoção do desenvolvimento social “das nações grandes e pequenas”.

O mesmo isolamento social em prevenção ao novo coronavírus que impediu as comemorações em 2020 chamou a atenção da ONU para a inclusão digital e o acesso à tecnologia. Aproximadamente metade da população mundial tem acesso limitado ou inexistente à internet, de acordo com relatório divulgado pelo Painel de Alto Nível sobre Cooperação Digital em 2019.

O painel, criado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, conta com 20 membros de vários países. Dentre eles, Edson Prestes, que também é professor do Instituto de Informática da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que aborda temas como tecnologia digital e direitos humanos e debates sobre como construir um futuro digital inclusivo. O Humanista conversou com Edson para saber mais sobre essa iniciativa e entender quais são os impactos da pandemia de covid-19 na inclusão digital. Confira a entrevista completa!


O que é o Painel de Alto Nível em Cooperação Digital da ONU, com que intuito ele foi criado e quais são os debates realizados ali?

Este painel tem uma série de características bem interessantes, primeiro porque está entre os vinte painéis de alto nível criados pelo desejo expresso de um secretário-geral da ONU. Além disso, ele é formado por personalidades bastante distintas e autoridades de diferentes partes do mundo. É bastante diverso, tanto em termos de globo, quanto de gênero. A minha contribuição gira muito em torno das questões de ética e direitos humanos no contexto das tecnologias, minha área de maior interesse. O relatório exibe uma série de recomendações, e, a partir daí, temos trabalhado para discutir como levar adiante cada uma delas. Entre essas recomendações, está a de atingir a conectividade universal até 2030, permitindo que todos tenham acesso livre, seguro e barato à internet. Para mim, é gratificante fazer parte de algo dessa magnitude, em prol de benefícios para a sociedade mundial, promovendo mais igualdade, melhorando a qualidade de serviço e atuando a favor das pessoas.

Por que é tão importante termos um brasileiro nos representando em um painel como esse?

Se a tecnologia não tiver uma visão que leve em consideração as diferentes vozes, ela será muito enviesada. Quando um país não está desenvolvendo tecnologia, ciência, e quando não está participando de debates assim, está apenas absorvendo decisões tomadas por outras pessoas, com base em outras realidades. Veja bem, se discutirmos a tecnologia levando em consideração a perspectiva da Europa e dos Estados Unidos, vamos observar que a tecnologia existente nesses lugares não pode ser equiparada ao Sul global. No Brasil e nos demais países emergentes, ainda estamos discutindo o acesso a internet; em outros, isso já deixou de ser pauta há alguns anos. Não há como encontrar soluções a nível mundial conhecendo uma parte muito limitada e privilegiada do globo.

Quais foram os impactos do novo Coronavírus na perspectiva digital, principalmente na área da educação, e como a pandemia asseverou as desigualdades digitais, na sua opinião?

As pessoas estão sendo obrigadas a trabalhar, a estudar e a se adaptar a uma nova rotina em casa, onde muitas vezes não há o mínimo de infraestrutura para isso. Mas, tão importante quanto a infraestrutura e o acesso à internet, a um dispositivo, é que estejamos preparados para lidar com o avanço das tecnologias e o impacto delas em nossas vidas. É fundamental termos conhecimento do potencial, bem como dos benefícios e pontos negativos que podemos encontrar com o avanço da tecnologia. Ela pode e deve ser usada como ferramenta de inclusão social, mas infelizmente nem sempre é o que acontece. O problema começa já no acesso básico à internet. De um lado, estão as pessoas aptas e cientes das vantagens proporcionadas pela tecnologia, que permite o aprendizado virtual e o trabalho remoto; de outro, aquelas que precisam se adaptar, improvisar para sobreviver a todas essas mudanças. Então, mais do que nunca, essas desigualdades digitais estão impactando a vida das pessoas, dos jovens e, principalmente, dos estudantes. É preciso reformar o sistema de educação, pois ele não é um sistema adequado, em vários aspectos, mas, principalmente, em relação à inclusão.

O relatório traz uma série de recomendações. Uma delas fala sobre o “futuro digital inclusivo”. Quais são as propostas e expectativas da ONU para conseguirmos alcançar esse ideal em países com tantos problemas sociais como o Brasil?

Nossas propostas discorrem sobre uma série de fatores. Uma delas é a de alcançar a conectividade universal, levando internet a todos, até o ano de 2030. Uma das principais recomendações é a de preparar a sociedade para esse futuro digital, mas não apenas do ponto de vista técnico, que, ao meu ver, não é suficiente. Se pararmos para analisar hoje o que vem acontecendo com nossa sociedade, é necessário um treinamento nas áreas de ética, relacionamento interpessoal, aspectos relacionados à noção de humanidade, se quisermos ter algum real avanço na área da tecnologia ou qualquer outra. Falo muito sobre a responsabilidade que temos de tornar a sociedade mais inclusiva; as pessoas precisam ter acesso à tecnologia. Nós temos que ter um olhar mais sensível a ela, do ponto de vista dos direitos humanos. Também abordamos a questão da ética no futuro digital, da inteligência artificial, a privacidade de usuários, e uma série de outras questões. A tecnologia é incrível e faz coisas incríveis, mas está tornando as relações humanas muito objetificadas. As pessoas estão tratando outras pessoas como objetos inanimados. É por isso que devemos abordar também o lado negativo, buscando solucionar questões tão complexas como essa, que surgiram com o advento da tecnologia. Cheguei a recomendar ao secretário-geral, António Guterres, que devíamos ter uma nova Declaração Universal dos Direitos Humanos, agora no contexto da tecnologia.

Quais são os papéis do governo, do setor privado e da sociedade civil para alcançarmos essa “igualdade digital” no Brasil?

Esse é um ponto bem interessante. Quando a gente fala sobre governança na área de tecnologia digital, a gente está falando de uma governança que tem que ser multilateral, entre países, para principalmente erradicar os efeitos negativos do mau uso da tecnologia. Ela tem que ser multidisciplinar e multisetorial, pois é necessário que a gente tenha uma cooperação entre diferentes setores da nossa sociedade. Eu sou uma pessoa técnica, tenho os conhecimentos e consigo identificar os problemas, porém não tenho o poder de decisão para implementação de uma política pública. Também não consigo observar todos os aspectos da tecnologia ou avaliar o impacto dela na sociedade. Por isso, precisamos de pessoas que desenvolvam a tecnologia, as que podem pensar sobre ela, as que monitoram seu uso (as organizações não governamentais, por exemplo) e as que implementam as recomendações com políticas públicas, ou seja, todos os atores da sociedade devem ter participação nesse processo.

Qual a importância do envolvimento da academia nesse tipo de discussão?

É fundamental. É na academia que a ciência avança. É na academia que esse tipo de discussão acontece e que é feita uma avaliação correta do âmbito digital. As universidades, porém, ainda sofrem com a escassez de trabalhos multidisciplinares, as áreas não se comunicam, o que é fundamental quando produzimos uma avaliação sobre as diferentes tecnologias. Como posso fazer uma avaliação sobre inteligência artificial, por exemplo, quando não tenho acesso a um debate sobre o que é inteligência? Essa discussão é importante. Nós, professores, alunos, comunidade acadêmica, precisamos ter participação ativa. Precisamos nos envolver, nos engajar nessas discussões.


FOTO DE CAPA: Banco de imagens ONU NEWS

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